De mim e dos outros: a propósito do Imaginário

3D ImaginarioA literatura açoriana define e restitui-nos a voz que a história e a política, durante séculos, nos tentou negar.
O Imaginário dos Escritores Açorianos

/Vamberto Freitas

Lancei recentemente, aqui em Ponta Delgada, a 2ª edição do meu O Imaginário dos Escritores Açorianos. Foi apresentado pelo Prof. Doutor  Paulo   Meneses, meu colega e antigo Director do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, a quem agradeço comovidamente a análise longa e certeira deste livro. Publico aqui o Prefácio para esclarecimento aos eventuais leitores desta coluna sobre as razões que me levaram a reeditá-lo.

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Publicado originalmente em 1992 pelas Edições Salamandra (Lisboa) sob a direcção do Dr. Bruno da Ponte, O Imaginário dos Escritores Açorianos faria um percurso que ainda hoje me surpreende. A grande maioria dos ensaios e entrevistas foram escritos ou realizadas a partir de meados dos anos 80, enquanto eu ainda residia e pensava residir para sempre no sul da Califórnia, e depois de começar a corresponder com o Diário de Notícias no fim da década de 70 a par com a minha colaboração regular em jornais da imigração, como o Portuguese Tribune e o Portuguese Times. Quando passei também ao então suplemento Cultura do diário lisboeta, foi-me proposto iniciar uma série de artigos explicando aos seus leitores o que “era” a literatura açoriana, que eu vinha lendo sistematicamente e de quando em quando comentando noutras publicações. Depressa delineei o meu próprio projecto, para além do pedido do jornal: daria conta, numa escolha pessoal e naturalmente subjectiva, das obras e escritores que marcaram toda uma época na literatura açoriana, limitando-me à prosa de ficção e, em certos casos, ensaística. De fora ficava a poesia, ou as obras poéticas dalguns escritores aqui presentes. Não tencionei escrever uma proposta de “cânone” literário açoriano, mas sim dar conta do melhor que, na minha perspectiva, se publicava entre nós aqui no arquipélago, no restante país, e até na nossa Diáspora. Como se sabe, foi uma época de grande criatividade entre nós, e desde Vitorino Nemésio que obras com um referencial açoriano raramente eram lidas ou comentadas na imprensa de grande projecção, o que agora começava a acontecer com nomes como Onésimo Teotónio Almeida, João de Melo, Dias de Melo e Cristóvão de Aguiar. Depressa o debate, pouco frutífero, em volta “da questão da literatura açoriana” tomava primazia nas próprias ilhas, e enviesava o que deveria ter sido o principal ponto de discussão e apreciação entre nós: as próprias obras que intensificavam e nos devolviam uma identidade que nos colocava e coloca adentro do país português, mas redefinida obrigatoriamente pelas questões sociopolíticas e sobretudo pela consciência liberta e descomplexada que reconhecia que quinhentos anos de história no isolamento e separação pelo mar da mãe-pátria abrigava consequências sérias que nada tinham ou têm a ver com qualquer separatismo político ou cultural, mesmo que outros, com o todo o direito e legitimidade de um povo livre, pensassem, e por certo ainda pensam, o contrário. Foi este, pois, o contexto global em que escrevi o presente volume.

Tem-me sido gratificante ao longo dos anos saber que O Imaginário dos Escritores Açorianos está presente, ora citado directamente ora em notas de rodapé e bibliografias, em praticamente todas as teses de mestrado e doutoramento em estudos literários e culturais açorianos que foram defendidas durante estas últimas décadas um pouco por toda a parte, desde o nosso país e outros na Europa às Américas, com especial relevo no Brasil, onde a força da nossa ancestralidade continua bem viva, particularmente em estados como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e até mesmo em universidades federais como a de Brasília. Por isso, decidi não lhe tocar, não lhe retirar ou aumentar uma única página. Poderá ser que hoje eu mudasse uma ou outra expressão neste ou naquele passo, revisse esta ou aquela posição implicitamente teórica nalgumas destas páginas – mas nem isso mudaria em nada o que então pensava e penso. Ou seja, o que aqui está contido continua a ser uma expressão íntegra de como ainda vejo e entendo o acto literário, o texto sempre ligado ao seu contexto, a literatura indissociável da sociedade de onde brota, ou a que lhe serve de referencial. Como então dizia na introdução à primeira edição, estava consciente das ausências nestas páginas, mas também afirmava o que penso ter cumprido nos anos posteriores, e até aos nossos dias – dar conta de outros escritores e outras obras da literatura açoriana, ou, se preferem, da literatura portuguesa escrita por autores açorianos, e que têm a nossa geografia e história como primeiros referenciais.
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Vamberto Freitas, O Imaginário dos Escritores Açorianos (2ª edição), Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2013.

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