Memória de um tempo: de João de Melo e de nós

Jo├гo e melo e a lit a├зorianaAinda hei-de pensar que tudo isto não passou afinal de um riso que chora ou de um pranto que ri – e de literatura!

João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas


/Vamberto Freitas

Com João de Melo, temos percorrido séculos da nossa existência nacional. O romance Gente Feliz Com Lágrimas, que se seguiu ao Meu Mundo Não É Deste Reino (que viria a ser anos mais tarde traduzido para o inglês por Gregory Rabassa), transporta-nos para a actualidade, crendo ele que “atravessa geografias, círculos familiares, tempos, sociedades, errâncias… tomara eu que nele se mirassem as famílias portuguesas que vieram da aldeia para a cidade, os que emigraram para a Europa e para a América, até como para o Brasil, ou que em tudo isso houvesse a noção de um país errante, mutável em busca da sua identidade.” Seguem-se aqui fragmentos de uma longa entrevista sob o título de “O Imaginário Açoriano de João de Melo” que no fim dos anos 80 travei com o autor. Fala de si, da sua obra, da terra açoriana, fala de nós e da nossa arte e dos temas que então ocupavam as suas páginas de ficção, assim como, mesmo que isso não esteja explicitado ou directamente abordado, as obras de toda uma geração de escritores açorianos – nas ilhas, no continente e na diáspora. A circularidade do tempo português não nos tem sido feliz. As palavras de João Melo continuam a ser de uma grande pertinência para os tempos que agora vivemos. Outra vez.

***

– Thomas Wolfe dizia que pouco lhe incomodava magoar indivíduos, da sua família ou não, que porventura se reconhecessem, ou pensavam que se reconheciam, negativamente, nos seus romances declaradamente autobiográficos. A criação artística tudo justificava. Demais a mais, as pessoas um dia desaparecem, mas os romances ficam. Sentiu-se alguma vez, ao escrever Gente Feliz com Lágrimas, com dúvidas acerca da transfiguração de muitas das suas personagens e a possibilidade de alguém se reconhecer abertamente em alguma delas?

João de Melo – É suposto que Rui Zinho nunca tenha existido, como sabe. Mas a geografia e a memória de Gente Feliz Com Lágrimas passam-lhe pelo sangue e pelos nervos, antes de se converterem em escrita de ficção. Daí a minha ideia de que o romance não possa nem deva ser rotulado equivocamente – nem autobiográfico nem açoriano. Essa geografia interior, atravessando o espírito e o senso crítico de Zinho, é como um grifo ou um baixo-relevo e pretende envolver e projectar para o exterior da personagem um tempo e um espaço que coincidam com um país e com a sua história recente. Estão lá a Ditadura, a guerra, a infância, a morte desse país de sombras que atravessou a fronteira da noite e se encontra hoje na claridade diurna da sua liberdade política e cultural. Rui Zinho não existe sequer no “Livro Primeiro” de Gente Feliz, enquanto “ouve” Nuno, Amélia e Luís nessa confissão da infância comum. Não existe também a outro nível, quando Marta desfolha o discurso do cinismo acerca dum casamento que veio da paixão e da aprendizagem do amor até ao divórcio. De resto, Marta é uma mulher múltipla. Cumpre, neste livro, a função da mulher primordial, ao mesmo tempo única e numerosa. Tem o seu quê de quotidiano e divino em coexistência na mesma pessoa, na linha das sublimações femininas que compareceram já em anteriores ficções minhas.

– Se bem que se trate de dois romances que não necessitam um do outro e cada um dos seus mundos está completo perante qualquer leitor, foi-me difícil ler uma só página de Gente Feliz Sem Lágrimas sem pensar em O Meu Mundo Não É Deste Reino. Foi como que ouvir uma história de gente diferente, mas colocada no mesmo palco, numa paisagem de imediato reconhecida, por outro lado, logo nas primeiras páginas deste seu último romance. Dz-se que Nuno, uma das suas vozes principais e à volta de quem o narrador une toda a história, anda desde há muito num ajuste de contas com tudo e com todos, Trata-se aqui da descarga catártica determinante e final?

JM – Em certa medida, é um livro que estava prometido a mim mesmo, para a minha libertação interior. Claro que a sua força motriz é a da catarse, mas a ideia da sua escrita nunca perdeu de vista a necessidade de fazer dele um objecto de criação e de literatura. Toda a minha ficção se inscreve no movimento de um pêndulo. Esse pêndulo oscila entre a mentira e a verdade da minha pessoa civil. Nada é realidade transcrita, e nada aparece escrito depois como ficção pura. Mas você talvez não devesse insistir muito nesse paralelismo apenas hipotético, entre O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas. Leu Entre Pássaro e Anjo? Aí, há uma novela que fecha um ciclo de O Meu Mundo. Chama-se a Divina Miséria e é dos textos de que mais gosto. E leu Autópsia De Um Mar de Ruínas? Nesse romance de guerra, quem circula é um tal furriel enfermeiro, quase um inominado, que é bem um alter-ego meu, daquilo que eu próprio vivi em Angola. Aí tem uma obra de catarse, por um lado, e de testemunho e aprendizagem ideológica, por outro. Está escrita. Por esse motivo, a experiência da guerra é imputada a outrem, em Gente Feliz, e não foi minha intenção voltar a incorrer no tema. E, no entanto, foi-me indispensável dizer que a geração dessa “gente feliz com lágrimas” conheceu também o destino da guerra colonial, para só depois mudar o seu próprio e o destino do seu país.

– As duas mortes principais em Gente Feliz com Lágrimas resultam de um cancro. Mas creio também que percebi que a sua visão da vida “nova” que levam os irmãos de Nuno no Canadá é, para ele, outra espécie de corrosão interior, outra forma de morte. Como vê as consequências dessa emigração?

JM – Os “meus” emigrantes começam por ser sobreviventes dum Portugal infinitamente pequeno. Têm pela frente o problema da sua integração nas sociedades estranhas. Oscilam entre a “ilha eterna” que levam dentro de si e o estigma de se interrogarem por dentro quanto a essa identidade portuguesa que vem atormentando alguma da actual literatura portuguesa. A minha sondagem da emigração foi dupla: saber como suportavam eles o impacto do destino e como se confrontavam com o desafio de educar os filhos. E as crianças desses emigrantes começam a fazer uma opção entre os pais (ou o modelo social e pedagógico deles) e a sua própria diferença educacional. Não é um problema menor. É porventura mesmo o elemento da ruptura interior, que vai ter como protagonistas os filhos e os emigrantes da segunda geração. Ouço dizer que Jorge de Sena sentiu isso com alguma amargura, não sei. Vi desenhar-se esse cenário na vida dos meus irmãos emigrados. Os filhos resistem à Língua Portuguesa, à mentalidade dos pais e ao seu próprio modo de vida, isto é, acabam por confundir tudo na mesma ideia. Penso, por conseguinte, que a opção dos emigrantes terá de ser definitiva: serem canadianos no Canadá e americanos nos Estado Unidos. Aliás, o futuro e o destino deles já não estão nos Açores nem no Continente, e sim nesse reenraizamento progressivo e irreversível. De outra forma, não se acabarão tão cedo os seus dramas de integração. Mas compete ao poder político português não se deixar resignar a isso, como se tratasse duma fatalidade. Chocou-me imenso ser o abandonado a que foram votados esses nossos compatriotas, a provar que nunca existiu entre nós uma política cultural de emigração.

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João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas (16ª edição), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000. Existem outras edições da mesma editora, inclusive em livro de bolso.

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