Memória do tempo: Álamo Oliveira e a literatura açoriana sem amarras

Álamo e EuA dolorosa díade amor-ódio mais uma vez se instala, e de maneira fundamental.

Luiz António de Assis Brasil sobre um dos romances de Álamo Oliveira, Pátio de Alfândega/Meia Noite

/Vamberto Freitas

 Álamo Oliveira vem amanhã a Ponta Delgada apresentar o seu novo romance, Murmúrios Com Vinho de Missa. Não tenho qualquer dúvida que será o nosso romance do ano, pela sua beleza formal, pela audácia da sua temática, o sexo como moeda de troca na sociedade dos nossos tempos. Um crítico não deveria usar estas palavras, mas não resisto: é belo, é lindo, é um mergulho perfeito na nossa história e actualidade. Entretanto, publico aqui alguns passos de uma entrevista que ele me concedeu no fim dos anos 80 sobre o seu romance de guerra Até Hoje (Memórias de Cão), e no qual a temática da homossexualidade já tinha sido abordada, sem rodeios nem ansiedades algumas.

Natural da ilha Terceira, onde ainda hoje vive (facto a notar, pois a saída e fixação com outras partes tem sido a sorte da maioria dos escritores açorianos), antes do sucesso  deste seu outro romance, era já reconhecido no arquipélago como uma das mais vivas e criativas vozes da literatura açoriana, sobretudo na sua poesia e teatro. Desde sempre hiperconsciente da sua realidade de homem ilhéu, a sua temática centra-se na procura do amor e entendimento num mundo já sem fronteiras e em constante turbulência e transformação. Mobilizado para a Guiné-Bissau em 1967, passariam uns bons anos antes que essa experiência fosse por ele transfigurada em Até Hoje (Memórias de Cão), considerado por muitos um dos melhores romances portugueses “de guerra”.

***

Até Hoje mereceu considerável atenção na Imprensa Nacional – Jornal de Letras e Diário de Notícias, entre outros periódicos. Quer isto dizer que, finalmente, o escritor residente no arquipélago está a quebrar barreiras que em outros tempos o mantinham na obscuridade?

AO – Involuntariamente e à falta de melhor expressão, tenho de ir buscar a “vaga de fundo”. É ela que vem aí, cautelosa, prudente, persistente, teimosa. Os Açores existem. Lisboa começa a ter conhecimento disso, que é como quem diz, alguma sobranceria cede perante uma realidade que não é possível continuar a ignorar, Sabemos que nos órgãos de comunicação é possível forjar a informação; que é possível empolar acontecimentos que a opinião pública normalmente ignoraria mas que acaba por assimilar à força de a impingirem; que é possível suprimir acontecimentos que, por razões obscuras, importa safar. Ciclicamente, fez-se isso com os Açores. Só que, hoje, já não é admissível essa atitude. É tempo de se assumir o conteúdo total de uma frase do Torga, proferida há quase vinte anos: “Portugal, sem Açores, não o entendo.” E há a “vaga”. Com muitos outros, faço parte dela.

– O protagonista de Até Hoje acaba por emigrar: a sociedade a que pertence não tem lugar para outsiders, ou é ele que rejeita por completo o comodismo e a beatice social da sua comunidade?

AO – O João Machado emigrou, quanto a mim, por razões de conflito com o passado, que não prescinde da vivência com os outros, claro. Por isso, também não o fez por se considerar outsider, mas offside. Só que João Machado, ao optar por emigar, não foi original. Antes, repetiu a fórmula antiga do povo do seu país e, sobretudo, das gentes das suas ilhas

– A procura de amor e carinho, creio, é um dos temas fundamentais do seu romance. É, em Até Hoje, o contraponto radical à ideologia militar e à situação de raiva e solidão inerentes a um conflito armado? Foi essa uma condição generalizada entre todos, mesmo os que nos parecem indiferentes e demasiado desumanizados pela guerra?

AO – Na guerra, pior do que a morte, é a solidão. Por isso, a procura de companhia – como geradora de amor e de carinho – era luta fundamental. À distância, é possível saber o quanto foi importante investir afectivamente nisto e naquilo. Agora, esse investimento não se afigura como ortodoxo. Só que, nessa altura, foi o mais adequado. E foi muito importante. Sem ele, muitos outros teriam sucumbido. Nada pior do que ter um coração do tamanho do mundo e ter que frequentar a catequese do ódio. Provavelmente, hoje, nenhum desses guerreiros fará dessa forma de amar a sua bandeira. Porém, se não houver uma desumanização total (a tropa dava uma “educação” absolutamente desumanizada), isso ficou a dever-se a uma reserva de amor que, contra todas as regras, se activou desesperadamente.

– O seu protagonista encara, umas vezes mais desinibidamente do que outras, numa outra faceta fundamental da sua condição de outsider, ou de quem está offside, como você já disse, na sociedade portuguesa – o seu homossexualismo. Implica isso estar em estado de guerra pessoal a dois tempos, o do real campo de batalha em África e contra a sua própria sociedade? Fica ele condenado sempre à solidão social? É uma realidade que até Até Hoje, creio que deliberadamente, nunca encontra resolução…

AO – Não se encontra resolução porque não se precisa dela. É verdade que o homossexualismo caracteriza algumas das personagens de Até Hoje. Porém, é um aspecto bastante secundário. A guerra (o seu cenário real) não foi nem mais nem menos dramático por isso. Na guerra, é difícil conhecer-se a fronteira que separa o normal do anormal. E isso sem que caíssem drogas ou as figueiras secassem. Por exemplo, consumiu-se tanta droga, naturalmente. E nunca os responsáveis pela guerra se preocuparam com o facto de devolverem à sociedade levas e levas de drogados. Só os hospitais psiquiátricos poderão revelar a razão porque abarrotavam de doentes. Em Até Hoje, a homossexualidade aparece por duas razões: porque a ficção sobre a guerra colonial publicada até ao momento não tocara no assunto; porque traria a Até Hoje uma diferença de abordagem do tema, mesmo em termos literários. Aí, poderia residir, em parte, a sua originalidade.

– Enquanto o amor tem sido, para si, um dos temas constantes, particularmente na sua poesia, a realidade e insinuação de violência que caracteriza o mundo moderno, só em Até Hoje foi abordada. Acha que a vida insular protege o escritor dos processos históricos vividos nos grandes meios continentais? Quais são os temas açorianos que a literatura ainda não tratou devidamente?

AO- A violência, sob as suas múltiplas caretas, esteve, está, estará presente mesmo na minha poesia. Se o amor também me é um tema constante, devo-o ao facto de querer, à minha maneira, denunciar a violência. Em Até Hoje, essa denúncia foi mais directa, mas não foi mais acintosa. O viver numa ilha já foi uma opção lírica. Actualmente, não passa de um local onde se vive, se sobrevive. Escuso explicar porquês. Os Açores perderam o encanto original. Desde que plantamos bombas no quintal (a Base das Lages é um quintal mortífero), deixamos de colher apenas couves e alfaces. A ideia placentária de ilha, nos Açores, já não tem significado. Nem mesmo a nível de sossego turístico. Hoje, tudo pode acontecer em qualquer parte dos Açores – para o bem e para o mal. Quanto aos temas açorianos que, porventura, possam não ter sido ainda tratados devidamente, responderia com outra pergunta: será que Nemésio deixou escapar algum? Só que não é proibido bater no molhado. Alguém há-de acrescentar um ponto.

– A poesia e o teatro têm sido os dois géneros mais cultivados por si, e creio que é como poeta que o público o reconhece. O sucesso crítico e editorial de Até Hoje foi um anúncio de mais ficção na sua actividade literária de futuro?

AO – Poesia, sempre. Teatro, idem. E também mais ficção narrativa. Mas isso sem promessas e, muito menos, calendários. Sei lá se o fim está ao virar da esquina. No entanto, essa dúvida não me impedirá de a virar. E tudo isto farei mesmo sem sucesso crítico e editorial. Não que tal sucesso me seja indiferente. Mas não é vital. Nem fatídico.

____

Álamo Oliveira, Até Hoje (Memórias de Cão), Lisboa, Edições Ulmeiro, 1988. O romance teria várias edições nos anos seguintes.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s