Memória do tempo: à conversa com José Martins Garcia

FOTO Jos+® Martins GarciaSe eu morrer antes de ti, como presumo, que não se aproxime de mim nenhum abutre… Manda-me cremar e, como derradeiro culto a uma língua morta, coloca uma moeda entre os meus lábios… Nada mais.

José Martins Garcia, Contrabando Original

 /Vamberto Freitas

José Martins Garcia nasceu na ilha do Pico, em 1941, muito andou pelo mundo, mas reafirma aqui que, quanto a dados biográficos, poucas afinidades terá tido com a “gente” da sua criação. Diz-nos que desde sempre existiu “o divórcio entre a minha vida quotidiana e os mundos que inventei”. Em 1966 foi mobilizado para a Guiné-Bissau, e após essa fase da sua vida viveu e exerceu o professorado em universidades de Portugal Continental, França e Estados Unidos. Regressou  poucos anos depois ao arquipélago natal e viveu em Ponta Delgada, onde também foi professor de Teoria da Literatura e Literatura Açoriana, na Universidade dos Açores. A sua obra inclui ainda alguns volumes de contos, poesia, teatro e trabalhos de cariz académico, como entre outros, Linguagem e Criação e Vitorino Nemésio: A Obra e o Homem.

Contrabando Original serviu-nos aqui como ponto de partida para uma mais alargada abordagem da sua temática e da sua distinta voz e visão ficcionadas do mundo português continental e açoriano. Os seus outros romances publicados incluem Lugar de Massacre e a trilogia constituída por A Fome, O Medo e a Imitação da Morte, assim como Memória da Terra.

Seguem-se aqui fragmentos de uma longa conversa que mantive com ele no fim dos anos 80, e então integralmente publicada no suplemento Cultura do Diário de Notícias. A sua morte precoce há alguns anos foi uma dura perda para a nossa literatura.

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Contrabando Original veio, para quem ainda não tivesse dado por isso, estabelecer Martins Garcia (não se ofenda com a palavra, pois utilizo-a até com certa simpatia e respeito) como o mais cínico romancista português actual. Desgosta-o esta minha observação?

José Martins Garcia – Para ser franco, digo-lhe que me desgosta. Melhor dizendo: não me parece corresponder, dum modo global, ao que deixei dito nos cinco romances que até hoje publiquei. Se me tivesse classificado como romancista satírico, ou predominantemente satírico, aí sim, eu estaria inteiramente de acordo. Bem sei que a palavra cinismo já significou uma atitude filosófica de desprezo por todos ou quase todos os valores estabelecidos… Mas, hoje em dia, cinismo associa-se (estou em crer) a algo pior que o desprezo: a uma espécie de gozo pela humilhação, ao pisar e ao repisar da vítima. É certo, por outro lado, que não há sátira sem vítima. O autor de textos satíricos escolhe um alvo. Esse alvo é tratado com antipatia, com agressividade. Esse alvo é uma vítima. Mas a atitude criadora do autor satírico não é uma atitude necessariamente cínica. Deixe-me lembrar-lhe que muitos autores de sátiras, especialmente os de sátiras sociais, até são por vezes lidos como moralistas. Não gosto, é certo, de moralistas. Cultivo, no entanto, a minha própria ética. Se acredita nesta minha última frase, bem vê que não posso encarar-me a mim como cínico… e isto na medida em que cinismo e ética são incompatíveis. Deixe-me recordar um aspecto de Lugar de Massacre: aquelas personagens loucas ou a caminho da loucura, que se movem num hospital de Bissau, não são simples “palhaços” caídos nas malhas de uma guerra sem finalidade; são seres despedaçados na própria identidade; representam uma geração sacrificada ao nada. E  a função do narrador, neste caso, não é suscitar o riso, muito menos mascarar-se de cínico A função desse narrador é essencialmente de denúncia da paranóia que foi aquela guerra colonial. Uma denúncia que se processa em vários planos, parecendo-me o plano satírico um dos mais relevantes do livro. Mas note: quem é a vitima dessa sátira? Os tais “palhaços” meio loucos?… Não; os chefes megalómanos, ou chefes (ou supostos chefes) com as cabeças cheias de fumaça imperialista.

Mas gostaria também de fazer algumas observações sobre Contrabando Original. E começo por fazer uma pergunta embaraçosa: Quem é o narrador desse romance? Por outras palavras: eu, que sou apenas o “autor empírico” do livro, a quantos narradores dei voz? Quantas vozes se acumulam nesse romance? Ser eu próprio a responder a tais perguntas significaria um poder de objectividade pretensioso, ridículo mesmo. Se admitimos a unidade do narrador, não me parece que esse narrador se revele cínico. Não será ele um professor de Latim que declara, no fim do livro, que inventou uma família por ter ficado órfão de tenra idade?… Não será ele um diplomata enfastiado com a fachada que é obrigado a cultivar? Ou será ele um actor tornado efectivo contrabandista? Ou este contrabando é todo em sentido figurado?… Porque será o narrador um refractário à guerra colonial?…Cínico?…Talvez sim, em certas circunstâncias. Talvez não, se repararmos na sua situação de clandestino. Enfim, creio que, seja lá quem for o narrador de Contrabando Original, sátira e amargura se sobrepõem ao cinismo. Sátira e angústia… o riso perante a própria extinção.

– Você esteve sempre muito próximo da obra de Vitorino Nemésio, e sobre ele tem escrito extensivamente. Como enquadrar o Mau Tempo no Canal na ficção portuguesa deste século em termos de qualidade e ante o velho debate Literatura Portuguesa/Literatura Açoriana?

JMG – É verdade que já escrevi muitas páginas sobre a obra de Vitorino Nemésio, boa parte delas dedicadas a Mau Tempo no Canal. Deve compreender como me é difícil sintetizar uma apreciação a um romance que, de dia para dia, me parece fornecer cada vez mais matéria para análise, reflexão e crítica. Trata-se de um romance a todos os títulos excepcional. Possui o dom de ir crescendo. Não acho, neste momento, melhores palavras para referir a sua espantosa qualidade literária. É um “monumento” da Literatura Portuguesa. É um admirável “universo” extraído da condição açoriana, da Açorianidade, se preferir. É uma obra-prima da Literatura Açoriana – o que significa uma obra-prima da Literatura Portuguesa.

– A sua experiência “americana” – cinco anos na Nova Inglaterra como professor na Universidade de Brown – viria ser transfigurada em Imitação da Morte e em alguns poemas de Temporal. Quer falar mais um pouco desses seus anos nos Estados Unidos? Que mais recorda com alegria e tristeza?

JMG – Os cinco anos que passei em Providence, leccionando Literatura Portuguesa na Universidade de Brown, constituíram uma experiência tão importante que às vezes tenho a impressão de que apenas sonhei tudo isso… A primeira aula na Brown… O Centro de Estudos Luso-Brasileiros… Os rostos, os gestos…A primeira vez que vi nevar em Providence… O meu primeiro Natal em Providence… A Biblioteca da Brown, onde me sentia em casa… Os livros, as ideias, o tempo de pensar Fernando Pessoa. Depois, em Janeiro de 1984, o meu pai morreu na ilha do Pico. Vim ao Pico. Voltei por mais uns meses a Providence. Tudo tinha mudado. Para a tristeza.

– Você queixa-se, com frequência, da tendência do meio literário lisboeta de ignorar quase por completo os escritores que lá não vivem. Mas não será verdade que nos últimos anos essa situação mudou consideravelmente?

JMG – Algo terá mudado; não direi o contrário. Mas o espírito do “grupo iluminado” continua a vigorar – estou em crer. O grupo planeia, domina a casa editora, organiza a propaganda, tem os seus devotos nos órgãos de informação… Toda a gente sabe que assim é. Mais palavras para quê?

– Finalmente, é pouco usual o açoriano regressar ao arquipélago para ficar. Após tantas andanças por vários continentes, o seu regresso é definitivo, já encontrou o seu espaço vivencial?

JMG – Não encaro nenhuma situação como definitiva. Para ser mais rigoroso; não penso nisso. Não sei o que é “espaço vivencial”. Estou aqui, mas não me encontro aqui. Passeio por Lisboa, mas aquela cidade já não é Lisboa. Da última vez que passei pelo Quartier Latin reparei que faltava uma perna à estátua de Montaigne… e essa ausência altera irremediavelmente o rosto de Paris. Tenho medo de voltar a ver Providence. Só o Álvaro de Campos resiste ao desgaste: “E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha”.

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José Martins Garcia, Contrabando Original, Lisboa, Vega, 1988.

Memória do tempo: em conversa com Fernando Aires Ainda

Fernando Aires, Eu e On+®simo na CalouraSinto a mão quente da Linda na minha mão enquanto ouço Dvorak na sua música triste. Concentro-me. Penso que já não será longa a vida e assim tenho de ouvir aquela música enquanto posso.

Fernando Aires, Era Uma Vez O Tempo/ diário V

/Vamberto Freitas

 Era Uma Vez O Tempo, o volume do diário que motivou, em parte, esta nossa breve conversa. Breve conversa. É relativamente tarde na vida que ele começa a sua escrita criativa (este seu último livro foi precedido por Histórias do Entardecer e pelo primeiro volume do diário) e é na brevidade da palavra que o autor nos deixa entrar num desusado (na literatura açoriana) intimismo e na história intelectual de um lugar e de um tempo – Açores na Europa.

“Há horas cinzentas” – afirma logo no início desta entrevista – “na vida… A gente olha à volta, procura uma fenda na muralha.” Se essa busca da “fenda” é precisamente o que o leva a encetar uma obra que acabaria por ser um projecto de vida, sobressai no seu diário outra característica marcante e praticamente ausente no diarismo português: Fernando Aires dirige-se constante e deliberadamente a um Outro, e o leitor anónimo vai seguindo uma conversa civilizada e astuta, vai empaticamente aproximando-se de um (afinal) vasto mundo de espírito e de movimentação geográfica, que se estende desde os Açores e Continente português à restante Europa e, por uns instantes, ao Canadá.

Europeísta convicto (era um homem extremamente bem informado e formado na história, literatura e filosofia do velho continente), é dos poucos escritores açorianos para quem a América do Norte não constituíu qualquer imaginário ou sequer ponto de ligação humana pessoal para além de dois ou três amigos. Foi dos poucos ilhéus poupados pela emigração transatlântica. Não sei se esta minha observação tem mais a ver com ele (como escritor assumidamente açoriano) ou comigo, que para sempre interiorizei a vida americana. Seja como for, não deixa também de ser original nas suas páginas a viragem quase totalmente a leste.

“Quando penso Europa, – diz-nos ele numa outra passagem – penso uma Mãe que me criou e me deu o mais importante que possuo, o que não é preciso dizer o que foi… Um espaço natural que percorri…”

Era Uma Vez O Tempo também vai percorrendo o seu espaço natural, inevitavelmente. Se a distribuição do livro no nosso arquipélago foi sempre vergonhosa porque não consegue acompanhar uma produção literária açoriana de grande peso e qualidade, o certo é que Fernando Aires (como alguns dos seus colegas nestas ilhas nascidos ou por elas inspirados) continua a ser lido um pouco por toda a parte.

Esta entrevista foi feita e publicada a princípio dos anos 90. Seguem aqui alguns fragmentos desss conversa, que depois se prolongaria pelos anos dentro e nas mais variadas circunstâncias pessoais e formais. Nessa altura Fernando Auires ainda não visitado os Estados Unidos, o que viria a acontecer uns anos mais tarde.

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– A sua consciência, digamos assim, europeia patenteia-se em cada linha que escreve. Mas a esmagadora maioria dos açorianos pensa é na América. Trata-se aqui de um combate seu muito saudável?

FA – Eu nunca estive na América e, portanto, não posso dizer que a conheço. Ou por outra, conheço-a como é possível hoje conhecer o que está longe – isto é, através da notícia escrita, da imagem, do relato das pessoas.

Tanto quanto apreendi de América (e concedo que tenha um relato incompleto, mesmo muito deturpado) ela simboliza, mais do que outro lado do mundo ocidental, o essencial daquilo que eu lastimo: o excesso de tecnocracia e do dinheiro com as consequências que se conhecem.

Dirá que isso mesmo acontece na nossa Europa, e eu não digo que não chego ao ponto de compreender que os EUA são um mundo infinitamente diversificado, espécie de resumo do planeta, pois a América é todo o mundo que para lá foi. E penso que possui gente de cultura de primeiríssima qualidade.

Mas, apesar disso, alguma coisa em mim repele a simples hipótese de uma “colonização” por parte de americanos. Vejo-os a exportar o que têm de pior – desde os seus calções psicadélicos a um certo cheiro que antigamente traziam os sacos de roupa usada que os emigrantes mandavam aos parentes pobres das ilhas.

É certo que pela Europa há já tudo isso de pedra e cal. E até, por vezes, a Europa requinta na estupidez e no delírio. Mas sabe como a Razão desempenha um papel muito modesto nos nossos comportamentos. Que quer? Quando penso Europa, penso uma Mãe que me criou e me deu o mais importante que possuo e que não é preciso dizer o que foi. Um espaço natural que percorri, e ao percorrê-lo me identifiquei, sentindo esse espaço como uma pátria. Questão de formação, de informação e de sentimentos.

Acredito que não estarei completamente sozinho neste meu “diferendo americano”. Mas parece-me que tem razão quando diz que a maioria dos açorianos pensa é na América. Têm todo o direito de pensar. A grande maioria deles tem parentes na América. Até por isso o coração deles está lá. Eu não tenho parentes na América.

– Há uma nítida circularidade existencial em Era Uma Vez O Tempo. Como vê a sua existência quotidiana numa ilha? Já alguma vez foi tentado a emigrar?

FA – Se quer saber, essa “circularidade existencial” que me atribui é consequência do que fica dito: esse eu no centro, à volta e à luz do qual tudo se descreve e se define. Um eu carente e flutuante, bastante dependente do anti-ciclone e do grau de humidade. E veja lá, por inesperado que pareça, nunca foi tentado a emigrar. Até porque levaria a Ilha comigo e ficaria depois a lamber as feridas durante muito tempo. Quem disse que um ilhéu é uma lapa agarrada a estes rochedos, disse a verdade. Já estive longe daqui por períodos longos (de uma vez, dois anos seguidos) e acho que faço ideia como é. Todavia, a existência quotidiana na Ilha fica a meio caminho entre o refúgio e o degredo (apesar de sentir os homens cada vez mais vizinhos dos homens e o mundo cada vez mais apagado de fronteiras.

– O seu diário – como aliás eu já comentei numa recensão crítica – parece-me ser um projecto de vida. Vai de facto continuar a tomar o pulso a este seu tempo e lugar em volumes sucessivos?

FA- Sim. Creio que não poderei deixar de tomar o pulso ao meu tempo e ao meu lugar, sob pena de não poder falar de mim. Escamotear tempo e lugar e já não poder contar a minha história.

– Como percebe a açorianidade – vivida e na nossa arte literária?

FA – Isto da açorianidade vivida tem sido tantas vezes abordada que receio seja tida como um falar de circunstâncias a que já não se presta a atenção que merecem. Cada um sabe de si.

Quanto a mim, sei o que sinto. Não tenho a Ilha como um desterro, mas reconheço-a como um mundo limitado e, no entanto, infinito, possuído por antigos fantasmas que são os nossos medos, os nossos mitos, a ânsia bem humana de ir mais além. O apelo do desconhecido e da liberdade face à claustrofobia do já visto e do circunscrito. Como se a verdade estivesse perpetuamente noutro lugar.

Neste assunto das diferenças dos açorianos, o Onésimo disse coisas fundamentais com as quais estou, geralmente, de acordo. Eu próprio registei aqui e ali reflexões sobre esta maneira de ver o português das ilhas. Assim, quase ao calha, abro o diário e leio que somos como somos porque “à nossa volta está sempre a acontecer o inesperado. A gente sabe que, de repente, pode erguer-se a natureza em uivos, abrir-se a terra, perturbarem-se as constelações. A contingência torna-nos inseguros e ensimesmados, o olhar com suspeita a sombra que fazemos no chão” (Era Uma Vez O Tempo, volume dois).

É assim que a gente, com o tempo, se torna diferente, e quando vai para escrever, tem de meter lá tudo isso, e mais o imponderável das presenças e das distâncias, e ainda as metas do destino possível.

De tudo isso é feita a nossa literatura de açorianos.

As bases da nossa cultura são religiosas. Nos intelectuais, essa herança está transfigurada na presença da Natureza, por vezes ritualizada quase em termos panteístas – via de acesso dos escritores açorianos ao invisível, ou se prefere, ao “interior”. Este gosto pelo interior, tão nosso, tão caracteristicamente nosso (vela-se a poesia que escrevemos) leva-me a estranhar a ausência de diaristas nestas ilhas. O meio demasiado estreito e censurado pode explicar isso. O refúgio na poesia intimista também pode ser explicação.

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Fernando Aires, Era Uma Vez O Tempo/ diário V, Lisboa, Edições Salamandra, 1999.

 

 

 

 

Memória do tempo: conversa com Daniel de Sá

Foto Eu e Daniel2Para quem dobram os sinos, para quem?… Bem o disse Hemingway que é para nós, como são para nós as flores que levamos aos mortos em dias de estar mais tristes.

Daniel de Sá, O Espólio

/Vamberto Freitas

Daniel de Sá, antes de mais, foi um dos vivos exemplos do homem moderno, de cidadania completa da chamada aldeia global. Vivendo e escrevendo um pequeno meio como é a freguesia da Maia, São Miguel, a sua obra tanto poderia ter fundo espanhol (A Génese), como ter por protagonista um jornalista luso-americano à cata do Pulitzer Prize (O Espólio), ou recontar histórias passadas com gente da sua própria freguesia (Sobre a Verdade das Coisas). As suas preocupações intelectuais ou literárias nunca tiveram nem espaço geográfico predeterminado nem se confinaram à terra açoriana. Bem informado sempre do que se escrevia além-fronteiras, falava, por exemplo, de Hemingway ou Faulkner com o mesmo à vontade com que abordava questões relacionadas com a literatura da sua região.

De linguagem poupadíssima, em que sobressai o seu distanciamento ante as suas personagens, a ironia subtil, e sobretudo uma aguda e fina sensibilidade ante as agonias do homem moderno, Daniel de Sá, que me perdoe ele o rótulo, é, quanto a mim, um dos bons mininalistas portugueses. Só que essa sua linguagem cortada, escorreita, simples, ao contrário dos seus colegas americanos, nunca é utilizada para uma temática que, nos nossos dias se fica quase sempre pelo mundo e vazio patético de meninos bonitos e suas andanças amorosas. Na sua cosmovisão, o Homem continua a ser merecedor de todo o respeito, sendo as suas tribulações ainda e sempre o que mais deve preocupar o artista sério. Como quase só se fala do seu clássico Ilha Grande Fechada, optei por escolher aqui estes fragmentos de uma longa conversa que mantivemos no fim dos anos 80 sob a sua novela O Espólio, e em que abordamos outras questões relacionadas com a literatura feita nos Açores.

Desde o início, foi ele também um dos principais dinamizadores e organizadores do Encontro de Escritores Açorianos, em São Miguel.

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– Você é um dos escritores açorianos mais geograficamente isolados, visto não viver num centro urbano ilhéu. É uma situação que se pode ver de vários modos. Pessoalmente acredito que seria a posição ideal – a ausência de tantas e tantas inúteis distracções – para qualquer escritor seriamente interessado na criação artística. Haverá, no entanto, alguns problemas que provêm do “isolamento” físico?

Daniel de Sá – Por razões evidentes, o isolamento físico já não corresponde a isolamento cultural e intelectual. Além disso, Ponta Delgada não é assim tão longe nem tão importante que se torne indispensável viver nela para estar em dia com o mundo culto. Creio que não seria melhor escritor se estivesse menos isolado, o que não quer dizer, tão-pouco, que o isolamento me favoreça. Mas gosto dele.

– Escrever num pequeno meio e por vezes transfigurando “figuras” mais ou menos conhecidas traz problemas específicos. Você tem leitores locais? E as suas reacções?

DS – Quem poderia sentir-se incomodado com o livro não o terá lido talvez. Houve ligeiras ofensas, mas, regra geral, quem leu gostou a seu modo, preferindo os capítulos que mais tocaram a sua sensibilidade ou capacidade de compreensão. Para os mais novos, Sobre a Verdade das Coisas foi mesmo uma revelação de um passado que julgavam impossível, porque, de facto, nas décadas que se seguiram ao último momento nele contido a vida mudou na ilha toda. Uma das minhas intenções foi mesmo essa de marcar o fim de um ciclo.

– Em O Espólio o seu protagonista é um jornalista luso-americano, com pretenções ao Pulitzer Prize, especializado na cobertura de guerras “locais” terceiro-mundistas. Na realidade, como bem sabe, ele é uma “espécie” profissional na América, e tem sido tratado na ficção americana dos nossos dias. A sua novela parece ser, no seu todo, uma outra paródia aos tantas vezes desusados poderes nos media nas sociedades modernas. Como veio a interessar-se por este tipo de profissional e por este fenómeno?

DS – O Charles Lawson de O Espólio, bem como o trama que o envolve, resultam precisamente dessa necessidade acabada de referir. O cenário físico e humano da história que eu tinha para contar requeria, quanto a mi, um espaço de grandes ambições pessoais onde a sociedade absorve o indivíduo de tal modo que este acaba por julgar os seus problemas próprios mais importantes do que o próprio mundo. É um ciclo vicioso: o meio exige tudo do indivíduo, o qual, por sua vez, tenta tirar o maior proveito possível desse mesmo meio. Talvez que a novela pudesse ter sido feita a partir de um escritor português que pretendesse ganhar o Grande Prémio de APE, mas, de qualquer modo, do que eu queria falar (para além de outros problemas existenciais de que o livro está cheio) era da fragilidade dos Açores num mundo desumanamente hostil.

– Na mesma novela, o protagonista pensa que uma ilha açoriana – ele nunca havia estado num arquipélago – fora destruída por uma bomba nuclear. Por que é que escolheu um luso-americano que das ilhas nada conhecia? A novela depressa centra a atenção dos leitores não na ilha que supostamente havia ido pelos ares, mas sim na atitude do protagonista. A crise e a banalização dos valores humanos nos grandes meios fazem com que nos preocupemos mais com nós próprios do  que com um acto de destruição em si próprio?

DS – O facto de Charles Lawson ser de ascendência açoriana creio que torna a sua sensibilidade-insensibilidade mais chocante. No momento em que o homem se deixa destruir moralmente, nenhum valor permanece significativo para ele. Nós não valemos nada quando os outros não querem que tenhamos qualquer valor. Toda a novela se desenvolve na atitude do protagonista porque o que se havia passado, ou não, na ilha, tinha apenas o valor que ele lhe atribuísse. O valor para ele, que eu pretendi que simbolizasse o modo de o próprio Mundo pensar em nós como pouco mais que as coisas ou números. Eu tenho a consciência de que represento para mim mesmo metade da humanidade, e a sua metade mais importante… A outra metade interessa-me para permitir que a minha sobreviva, mas julgo que devemos permanecer com dignidade.. Daí que se concluirá que, para mim, a pior destruição é a do individuo em si mesmo como ser moral, por isso abre o caminho a todas as outras destruições.

– O desenraizamento e o indivíduo colocado ante situações de grande gravidade, como Charles Lawson de O Espólio, são para si uma grande preocupação…

DS – Essa é uma conclusão elementar. É difícil  que a destruição de um homem possa acontecer como um cataclismo repentino, mas, descendo degrau a degrau, ou passo a passo, talvez não haja ninguém que não corra o risco de acabar num grande abismo. As nossas reacções são psicológicas mais do que racionais, pelo que qualquer um de nós poderia ser o Charles Lawson do principio ao fim da novela, ou o Charles Lawson todo. A hecatombe do anti-semitismo nazi provocou desde os actos mais abjectos aos mais sublimes.

– Toda, ou quase toda, a sua escrita é como que uma afirmação que nem a ilha confina necessariamente o indivíduo, nem o indivíduo deve querer confinar-se à ilha. Com essa sua temática em mente, irrita-lhe a classificação de escritor açoriano?

DS – Se poderei ser considerado escritor por ter escrito cinco obras que, todas juntas, não fazem mais que o volume de um romance, embora razoavelmente grande, serei escritor portanto. Como nasci nos Açores, sou açoriano, coisa que talvez não escolhesse ser se o pudesse ter feito, mas é condição que assumo com grande apego a esta terra e a esta gente.

Para ser mais directo: o Hemingway de Por Quem os Sinos Dobram é um escritor americano? Ou Faulkner é mais americano do que ele, ou deixou de ser sulista quando se alistou na Força Aérea do Canadá? Lorde Byron, em Sintra, não era um poeta inglês?

O que eu quero dizer é simples: a literatura não tem um espaço físico, a invenção literária não paga imposto. Escritor açoriano é todo aquele que aqui nasceu, por mais que renove o bilhete de identidade. “Escrita açoriana” é que será talvez um conceito mais discutível. Tem-se uma escrita açoriana sempre que se fala dos Açores ou só quando se define uma certa mentalidade de sabor açoriano?

– Se não vivesse nos Açores, para onde preferia ir?

DS – Para terra onde se falasse português, talvez o Alentejo. Para um país estrangeiro, um lugarzinho isolado entre as Rochosas e os Apalaches. De qualquer modo, algo onde houvesse paisagens de muita terra e ar sem grandes pressões nem humidade a rondar os cem por cento. Aqui, nesta ilha de que gosto, apesar de tudo, tenho sempre a sensação de uma asfixiante claustrofobia física e mental.

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Daniel de Sá, O Espólio, Ponta Delgada, Brumarte, 1987.

(Des)amor, cultura e história

Capa Murm+¦rios Com VinhoComo prisão antropofágica, a ilha sorve, pelo mesmo cano de esgoto, as águas do bem e do mal, sem se preocupar em apurar se alguém escapou à mácula do pecado.

Álamo Oliveira, Murmúrios Com Vinho de Missa

/Vamberto Freitas

 Vamos de imediato ao essencial aqui: Murmúrios Com Vinho de Missa é tudo aquilo que pensam ou deduzem do seu claríssimo título, um grande romance que tem como tema principal a maior de todas as hipocrisias da nossa sociedade, a sua atitude ante o que define como sendo sexo ou relacionamento ilícito, seja lá isso o que for, mesmo quando só adultos se envolvem corpo a corpo entre quatro paredes ou entre milheirais, dentro ou fora da Igreja, na ilha, sim, mas depois em qualquer parte como, por exemplo, na cidade norte-americana de New Orleans, de onde nos conta estas estórias uma professora universitária açoriana, a narradora intelectual Lucília. Passada esta questão tão brilhantemente ficcionada nestas páginas, este novo romance do terceirense Álamo Oliveira é muito, muito mais do que isso, tanto no seu restante conteúdo como na sua forma, ou estrutura narrativa. Simultaneamente integrado em praticamente toda a obra em prosa do autor, especialmente desde Pátio de Alfândega, Meia Noite a Até Hoje (Memórias de Cão), este livro quase funciona como uma súmula dos seus interesses e obsessões temáticas desde o início da sua carreira como poeta, dramaturgo e ficcionista: o nosso lugar de ilhéus no mundo, como vivemos e sobrevivemos num arquipélago e nas comunidades norte-americanas, que são a sua íntima extensão, como se ergue e perpetua uma cultura e um modo de vida na escuridão dos séculos, como amamos e como odiamos (fazendo lembrar os seus Contos Com Desconto), com a primeira e recente visão histórica e política da saída ou da aceitação mais ou menos conformada do nosso labirinto social, e muito especialmente do nosso labirinto interior. De página a página estão passos lapidares e fulminantes sobre a vida em ilha, quer para os que nunca dela saíram definitivamente, quer para os que do lado de fora revêem e repensam o seu destino, os que poderão estar libertos das amarras circunstanciais das origens, mas sem nunca conseguirem fugir ao seu passado determinante, enublando para sempre o resto das suas vidas em qualquer outra parte. Disto e de algo mais ainda é feito este romance, quebrando tabus e reimaginando outros percursos de vida entre o amor e o nada.

Murmúrios Com Vinho de Missa está estruturado em duas partes que parecem distintas (fazendo lembrar As Palmeiras Bravas de William Faulkner, na tradução de Jorge de Sena), cada uma correndo na sua direcção rumo a um desfecho que se adivinha fatal para vidas distintas e que estariam distantes no tempo e no espaço, não fora sempre o destino à procura de vítimas, ou então rumo a consequências que deixarão feridas de alma. A narradora, uma Professora Lucília, com mais de cinquenta anos de idade e originária da ilha de São Jorge que cedo deixou rumo a Lisboa onde ingressou no ensino, encontra-se desde há alguns anos como Leitora do Instituto Camões na Universidade de Tulane, em New Orleans, a cidade carnavalesca sulista e mississippiana, historicamente de costas voltadas para o pudor e puritanismo do norte, a braços com uma tese de doutoramento e com a sua solidão e carência. Deste lado de cá, e com mais ou menos a mesma idade, encontra-se o Padre Raul Soares, também jorgense mas colocado numa paróquia da Ilha Terceira, tendo já caído literalmente nas garras de um rapaz homossexual pós-tropa, que usa o sexo como moeda de troca e chantagem materialista como satisfação maior. Num acaso bastante plausível, Raul e Lucília encontram-se um dia num café na cidade do sul, quando ele ia a caminho da Califórnia em visita à família, aparentemente toda ela emigrada, toda ela, que nunca vemos ou ouvimos, paradigma da historicidade açoriana. Padre Raul, desde sempre também homossexual que permanecera descomprometido de relações estáveis, está a viver os seus dias de medo pelo que o rapaz lhe pode fazer publicamente, e pede à sua conterrânea e velha amiga para que escreva a sua história, como que num acto de redenção possível. A narradora, por sua vez, enquanto escreve o que ela considera um mero “rascunho” do romance, vai contando a natureza e a cor dos seus dias, a sua própria relação íntima com um estudante brasileiro, que da cama faz mais uso do que dela usufrui, ou do que lhe dá – nem amor, nem carinho, nem respeito. Suga-a, tal como faz o amante do padre açoriano, até às últimas. A “pedofilia” aqui, como se diz a dado momento, é entre adultos, com sexo consensual, mas com a sociedade em geral servindo de ameaça hipócrita, pois se no caso da Igreja o fruto proibido deve assim permanecer, na Escola de ensino superior não houve juramentos ajoelhados, mas a negação da atracão entre adultos é do mesmo modo interdita e condenada, quase sem apelo. Entre a sacristia e o quarto do padre Raul e a cama da Professora Lucília, ficamos todos nós, a própria sociedade, depreende-se sempre da fala da narradora, com os nossos próprios segredos, as nossas transgressões, desta ou doutra natureza.

Álamo Oliveira, tanto na sua poesia como na ficção, conseguiu sempre fugir de um existencialismo arrogante – o indivíduo, diga-se assim, fechado na sua redoma e inventando valores próprios para autojustificação do seu rumo na vida – colocando os seus protagonistas e demais personagens bem no centro da vida comunitária, todos nós apanhados irremediavelmente pelas teias da História, pelas vontades colectivas das sociedades a que pertencemos, tecendo cada um deles, ora aberta ora escondidamente, a felicidade possível, a liberdade maior adentro das prisões que são especialmente as ilhas, por definição cercadas por todos os lados. Murmúrios Com Vinho de Missa é um romance de profundas ironias, raramente de sarcasmo, a dupla narrativa de uma professora na sua maturidade pessoal e intelectual é mais feita de questionamentos do que respostas ou vinganças dos incompreendidos. Movendo-se entre uma das cidades americanas sexualmente mais abertas ou liberais (a pouco mais, para além da sua história radicalmente esclavagista, injustamente, se associa New Orleans na mente de quase todos) e a pequenez e cerco de uma ou outra ilha açoriana fechada, são os personagens que mais nos marcam, não a estória ela própria, mas sim o modo como cada um ou uma resolve ou não os seus dilemas, os seus desejos irreprimíveis e “demasiado humanos”, sobrevivendo, apesar de tudo, livre adentro da prisão sem grades, mas tormento que toma variadas formas para cada ser humano nela encarcerado. É aqui que o romance também nos oferece uma prosa fulgurante entre a poesia pura e a narratividade de coisas e gente, que só um escritor com a idade, o talento inato e a experiência de Álamo Oliveira nos poderia oferecer. Geografia (que Nemésio dizia ser de importância suprema para nós, lembremos), história, emigração, ditadura civil e religiosa, anos de chumbo e de catástrofes naturais – eis aqui uma das mais profundas visões da humanidade a meio Atlântico, perseverante, oscilando por vezes entre a raiva e o ódio, eis aqui uma outra dramatização da nossa vida quotidiana, na rudeza dos campos e na criatividade artística, na solidão brumosa e de todo isolada, assim como, sempre, na vastidão de outros continentes e cidades.

“Ordeno – diz a narradora do seu exílio americano a meio do romance – prioridades: a tese, as aulas, o romance, a ilha. A ilha? A que propósito ela ocupa um honroso quarto lugar, se não penso reconciliar-me com ela, nem sequer por procuração? Não dobrar a finados dentro do peito. Ilha é um pedaço de sentimento rodeado de apreensões por todos os lados. Por isso, nem por fastio mental me falem de ilhas envoltas em nevoeiros misteriosos, condenadas aos malefícios das alquimias medíocres E não me falem também em ilhas virgens com o mesmo sotaque do animal em cio. É que não há ilhas inocentes. Não há”.

Para além de tudo isto, Murmúrios Com Vinho de Missa creio ser a primeira grande narrativa açoriana que se aproxima do chamado “romance académico”, não fora a sua narradora uma professora universitária a doutorar-se, dando-nos algumas olhadas ao interior de uma instituição do ensino superior, ou simplesmente deixar-nos entrar na vida privada de um professor ou professora. Do mesmo modo, também não creio existir outras páginas que nos levam ao fundo da vida interna, fechada, de um seminário nosso e dos seus adolescentes e adultos em preparação para a sua vida religiosa, e sobretudo celibatária. Este não é um romance “pacífico” – nenhum bom ou grande romance o poderá ser. Mexe, e muito com os seus leitores.

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Álamo Oliveira, Murmúrios Com Vinho de Missa, Ponta Delgada, Letras lavadas Edições, 2013.