Memória do tempo: conversa com Daniel de Sá

Foto Eu e Daniel2Para quem dobram os sinos, para quem?… Bem o disse Hemingway que é para nós, como são para nós as flores que levamos aos mortos em dias de estar mais tristes.

Daniel de Sá, O Espólio

/Vamberto Freitas

Daniel de Sá, antes de mais, foi um dos vivos exemplos do homem moderno, de cidadania completa da chamada aldeia global. Vivendo e escrevendo um pequeno meio como é a freguesia da Maia, São Miguel, a sua obra tanto poderia ter fundo espanhol (A Génese), como ter por protagonista um jornalista luso-americano à cata do Pulitzer Prize (O Espólio), ou recontar histórias passadas com gente da sua própria freguesia (Sobre a Verdade das Coisas). As suas preocupações intelectuais ou literárias nunca tiveram nem espaço geográfico predeterminado nem se confinaram à terra açoriana. Bem informado sempre do que se escrevia além-fronteiras, falava, por exemplo, de Hemingway ou Faulkner com o mesmo à vontade com que abordava questões relacionadas com a literatura da sua região.

De linguagem poupadíssima, em que sobressai o seu distanciamento ante as suas personagens, a ironia subtil, e sobretudo uma aguda e fina sensibilidade ante as agonias do homem moderno, Daniel de Sá, que me perdoe ele o rótulo, é, quanto a mim, um dos bons mininalistas portugueses. Só que essa sua linguagem cortada, escorreita, simples, ao contrário dos seus colegas americanos, nunca é utilizada para uma temática que, nos nossos dias se fica quase sempre pelo mundo e vazio patético de meninos bonitos e suas andanças amorosas. Na sua cosmovisão, o Homem continua a ser merecedor de todo o respeito, sendo as suas tribulações ainda e sempre o que mais deve preocupar o artista sério. Como quase só se fala do seu clássico Ilha Grande Fechada, optei por escolher aqui estes fragmentos de uma longa conversa que mantivemos no fim dos anos 80 sob a sua novela O Espólio, e em que abordamos outras questões relacionadas com a literatura feita nos Açores.

Desde o início, foi ele também um dos principais dinamizadores e organizadores do Encontro de Escritores Açorianos, em São Miguel.

***

– Você é um dos escritores açorianos mais geograficamente isolados, visto não viver num centro urbano ilhéu. É uma situação que se pode ver de vários modos. Pessoalmente acredito que seria a posição ideal – a ausência de tantas e tantas inúteis distracções – para qualquer escritor seriamente interessado na criação artística. Haverá, no entanto, alguns problemas que provêm do “isolamento” físico?

Daniel de Sá – Por razões evidentes, o isolamento físico já não corresponde a isolamento cultural e intelectual. Além disso, Ponta Delgada não é assim tão longe nem tão importante que se torne indispensável viver nela para estar em dia com o mundo culto. Creio que não seria melhor escritor se estivesse menos isolado, o que não quer dizer, tão-pouco, que o isolamento me favoreça. Mas gosto dele.

– Escrever num pequeno meio e por vezes transfigurando “figuras” mais ou menos conhecidas traz problemas específicos. Você tem leitores locais? E as suas reacções?

DS – Quem poderia sentir-se incomodado com o livro não o terá lido talvez. Houve ligeiras ofensas, mas, regra geral, quem leu gostou a seu modo, preferindo os capítulos que mais tocaram a sua sensibilidade ou capacidade de compreensão. Para os mais novos, Sobre a Verdade das Coisas foi mesmo uma revelação de um passado que julgavam impossível, porque, de facto, nas décadas que se seguiram ao último momento nele contido a vida mudou na ilha toda. Uma das minhas intenções foi mesmo essa de marcar o fim de um ciclo.

– Em O Espólio o seu protagonista é um jornalista luso-americano, com pretenções ao Pulitzer Prize, especializado na cobertura de guerras “locais” terceiro-mundistas. Na realidade, como bem sabe, ele é uma “espécie” profissional na América, e tem sido tratado na ficção americana dos nossos dias. A sua novela parece ser, no seu todo, uma outra paródia aos tantas vezes desusados poderes nos media nas sociedades modernas. Como veio a interessar-se por este tipo de profissional e por este fenómeno?

DS – O Charles Lawson de O Espólio, bem como o trama que o envolve, resultam precisamente dessa necessidade acabada de referir. O cenário físico e humano da história que eu tinha para contar requeria, quanto a mi, um espaço de grandes ambições pessoais onde a sociedade absorve o indivíduo de tal modo que este acaba por julgar os seus problemas próprios mais importantes do que o próprio mundo. É um ciclo vicioso: o meio exige tudo do indivíduo, o qual, por sua vez, tenta tirar o maior proveito possível desse mesmo meio. Talvez que a novela pudesse ter sido feita a partir de um escritor português que pretendesse ganhar o Grande Prémio de APE, mas, de qualquer modo, do que eu queria falar (para além de outros problemas existenciais de que o livro está cheio) era da fragilidade dos Açores num mundo desumanamente hostil.

– Na mesma novela, o protagonista pensa que uma ilha açoriana – ele nunca havia estado num arquipélago – fora destruída por uma bomba nuclear. Por que é que escolheu um luso-americano que das ilhas nada conhecia? A novela depressa centra a atenção dos leitores não na ilha que supostamente havia ido pelos ares, mas sim na atitude do protagonista. A crise e a banalização dos valores humanos nos grandes meios fazem com que nos preocupemos mais com nós próprios do  que com um acto de destruição em si próprio?

DS – O facto de Charles Lawson ser de ascendência açoriana creio que torna a sua sensibilidade-insensibilidade mais chocante. No momento em que o homem se deixa destruir moralmente, nenhum valor permanece significativo para ele. Nós não valemos nada quando os outros não querem que tenhamos qualquer valor. Toda a novela se desenvolve na atitude do protagonista porque o que se havia passado, ou não, na ilha, tinha apenas o valor que ele lhe atribuísse. O valor para ele, que eu pretendi que simbolizasse o modo de o próprio Mundo pensar em nós como pouco mais que as coisas ou números. Eu tenho a consciência de que represento para mim mesmo metade da humanidade, e a sua metade mais importante… A outra metade interessa-me para permitir que a minha sobreviva, mas julgo que devemos permanecer com dignidade.. Daí que se concluirá que, para mim, a pior destruição é a do individuo em si mesmo como ser moral, por isso abre o caminho a todas as outras destruições.

– O desenraizamento e o indivíduo colocado ante situações de grande gravidade, como Charles Lawson de O Espólio, são para si uma grande preocupação…

DS – Essa é uma conclusão elementar. É difícil  que a destruição de um homem possa acontecer como um cataclismo repentino, mas, descendo degrau a degrau, ou passo a passo, talvez não haja ninguém que não corra o risco de acabar num grande abismo. As nossas reacções são psicológicas mais do que racionais, pelo que qualquer um de nós poderia ser o Charles Lawson do principio ao fim da novela, ou o Charles Lawson todo. A hecatombe do anti-semitismo nazi provocou desde os actos mais abjectos aos mais sublimes.

– Toda, ou quase toda, a sua escrita é como que uma afirmação que nem a ilha confina necessariamente o indivíduo, nem o indivíduo deve querer confinar-se à ilha. Com essa sua temática em mente, irrita-lhe a classificação de escritor açoriano?

DS – Se poderei ser considerado escritor por ter escrito cinco obras que, todas juntas, não fazem mais que o volume de um romance, embora razoavelmente grande, serei escritor portanto. Como nasci nos Açores, sou açoriano, coisa que talvez não escolhesse ser se o pudesse ter feito, mas é condição que assumo com grande apego a esta terra e a esta gente.

Para ser mais directo: o Hemingway de Por Quem os Sinos Dobram é um escritor americano? Ou Faulkner é mais americano do que ele, ou deixou de ser sulista quando se alistou na Força Aérea do Canadá? Lorde Byron, em Sintra, não era um poeta inglês?

O que eu quero dizer é simples: a literatura não tem um espaço físico, a invenção literária não paga imposto. Escritor açoriano é todo aquele que aqui nasceu, por mais que renove o bilhete de identidade. “Escrita açoriana” é que será talvez um conceito mais discutível. Tem-se uma escrita açoriana sempre que se fala dos Açores ou só quando se define uma certa mentalidade de sabor açoriano?

– Se não vivesse nos Açores, para onde preferia ir?

DS – Para terra onde se falasse português, talvez o Alentejo. Para um país estrangeiro, um lugarzinho isolado entre as Rochosas e os Apalaches. De qualquer modo, algo onde houvesse paisagens de muita terra e ar sem grandes pressões nem humidade a rondar os cem por cento. Aqui, nesta ilha de que gosto, apesar de tudo, tenho sempre a sensação de uma asfixiante claustrofobia física e mental.

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Daniel de Sá, O Espólio, Ponta Delgada, Brumarte, 1987.

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