Memória do tempo: em conversa com Fernando Aires Ainda

Fernando Aires, Eu e On+®simo na CalouraSinto a mão quente da Linda na minha mão enquanto ouço Dvorak na sua música triste. Concentro-me. Penso que já não será longa a vida e assim tenho de ouvir aquela música enquanto posso.

Fernando Aires, Era Uma Vez O Tempo/ diário V

/Vamberto Freitas

 Era Uma Vez O Tempo, o volume do diário que motivou, em parte, esta nossa breve conversa. Breve conversa. É relativamente tarde na vida que ele começa a sua escrita criativa (este seu último livro foi precedido por Histórias do Entardecer e pelo primeiro volume do diário) e é na brevidade da palavra que o autor nos deixa entrar num desusado (na literatura açoriana) intimismo e na história intelectual de um lugar e de um tempo – Açores na Europa.

“Há horas cinzentas” – afirma logo no início desta entrevista – “na vida… A gente olha à volta, procura uma fenda na muralha.” Se essa busca da “fenda” é precisamente o que o leva a encetar uma obra que acabaria por ser um projecto de vida, sobressai no seu diário outra característica marcante e praticamente ausente no diarismo português: Fernando Aires dirige-se constante e deliberadamente a um Outro, e o leitor anónimo vai seguindo uma conversa civilizada e astuta, vai empaticamente aproximando-se de um (afinal) vasto mundo de espírito e de movimentação geográfica, que se estende desde os Açores e Continente português à restante Europa e, por uns instantes, ao Canadá.

Europeísta convicto (era um homem extremamente bem informado e formado na história, literatura e filosofia do velho continente), é dos poucos escritores açorianos para quem a América do Norte não constituíu qualquer imaginário ou sequer ponto de ligação humana pessoal para além de dois ou três amigos. Foi dos poucos ilhéus poupados pela emigração transatlântica. Não sei se esta minha observação tem mais a ver com ele (como escritor assumidamente açoriano) ou comigo, que para sempre interiorizei a vida americana. Seja como for, não deixa também de ser original nas suas páginas a viragem quase totalmente a leste.

“Quando penso Europa, – diz-nos ele numa outra passagem – penso uma Mãe que me criou e me deu o mais importante que possuo, o que não é preciso dizer o que foi… Um espaço natural que percorri…”

Era Uma Vez O Tempo também vai percorrendo o seu espaço natural, inevitavelmente. Se a distribuição do livro no nosso arquipélago foi sempre vergonhosa porque não consegue acompanhar uma produção literária açoriana de grande peso e qualidade, o certo é que Fernando Aires (como alguns dos seus colegas nestas ilhas nascidos ou por elas inspirados) continua a ser lido um pouco por toda a parte.

Esta entrevista foi feita e publicada a princípio dos anos 90. Seguem aqui alguns fragmentos desss conversa, que depois se prolongaria pelos anos dentro e nas mais variadas circunstâncias pessoais e formais. Nessa altura Fernando Auires ainda não visitado os Estados Unidos, o que viria a acontecer uns anos mais tarde.

***

– A sua consciência, digamos assim, europeia patenteia-se em cada linha que escreve. Mas a esmagadora maioria dos açorianos pensa é na América. Trata-se aqui de um combate seu muito saudável?

FA – Eu nunca estive na América e, portanto, não posso dizer que a conheço. Ou por outra, conheço-a como é possível hoje conhecer o que está longe – isto é, através da notícia escrita, da imagem, do relato das pessoas.

Tanto quanto apreendi de América (e concedo que tenha um relato incompleto, mesmo muito deturpado) ela simboliza, mais do que outro lado do mundo ocidental, o essencial daquilo que eu lastimo: o excesso de tecnocracia e do dinheiro com as consequências que se conhecem.

Dirá que isso mesmo acontece na nossa Europa, e eu não digo que não chego ao ponto de compreender que os EUA são um mundo infinitamente diversificado, espécie de resumo do planeta, pois a América é todo o mundo que para lá foi. E penso que possui gente de cultura de primeiríssima qualidade.

Mas, apesar disso, alguma coisa em mim repele a simples hipótese de uma “colonização” por parte de americanos. Vejo-os a exportar o que têm de pior – desde os seus calções psicadélicos a um certo cheiro que antigamente traziam os sacos de roupa usada que os emigrantes mandavam aos parentes pobres das ilhas.

É certo que pela Europa há já tudo isso de pedra e cal. E até, por vezes, a Europa requinta na estupidez e no delírio. Mas sabe como a Razão desempenha um papel muito modesto nos nossos comportamentos. Que quer? Quando penso Europa, penso uma Mãe que me criou e me deu o mais importante que possuo e que não é preciso dizer o que foi. Um espaço natural que percorri, e ao percorrê-lo me identifiquei, sentindo esse espaço como uma pátria. Questão de formação, de informação e de sentimentos.

Acredito que não estarei completamente sozinho neste meu “diferendo americano”. Mas parece-me que tem razão quando diz que a maioria dos açorianos pensa é na América. Têm todo o direito de pensar. A grande maioria deles tem parentes na América. Até por isso o coração deles está lá. Eu não tenho parentes na América.

– Há uma nítida circularidade existencial em Era Uma Vez O Tempo. Como vê a sua existência quotidiana numa ilha? Já alguma vez foi tentado a emigrar?

FA – Se quer saber, essa “circularidade existencial” que me atribui é consequência do que fica dito: esse eu no centro, à volta e à luz do qual tudo se descreve e se define. Um eu carente e flutuante, bastante dependente do anti-ciclone e do grau de humidade. E veja lá, por inesperado que pareça, nunca foi tentado a emigrar. Até porque levaria a Ilha comigo e ficaria depois a lamber as feridas durante muito tempo. Quem disse que um ilhéu é uma lapa agarrada a estes rochedos, disse a verdade. Já estive longe daqui por períodos longos (de uma vez, dois anos seguidos) e acho que faço ideia como é. Todavia, a existência quotidiana na Ilha fica a meio caminho entre o refúgio e o degredo (apesar de sentir os homens cada vez mais vizinhos dos homens e o mundo cada vez mais apagado de fronteiras.

– O seu diário – como aliás eu já comentei numa recensão crítica – parece-me ser um projecto de vida. Vai de facto continuar a tomar o pulso a este seu tempo e lugar em volumes sucessivos?

FA- Sim. Creio que não poderei deixar de tomar o pulso ao meu tempo e ao meu lugar, sob pena de não poder falar de mim. Escamotear tempo e lugar e já não poder contar a minha história.

– Como percebe a açorianidade – vivida e na nossa arte literária?

FA – Isto da açorianidade vivida tem sido tantas vezes abordada que receio seja tida como um falar de circunstâncias a que já não se presta a atenção que merecem. Cada um sabe de si.

Quanto a mim, sei o que sinto. Não tenho a Ilha como um desterro, mas reconheço-a como um mundo limitado e, no entanto, infinito, possuído por antigos fantasmas que são os nossos medos, os nossos mitos, a ânsia bem humana de ir mais além. O apelo do desconhecido e da liberdade face à claustrofobia do já visto e do circunscrito. Como se a verdade estivesse perpetuamente noutro lugar.

Neste assunto das diferenças dos açorianos, o Onésimo disse coisas fundamentais com as quais estou, geralmente, de acordo. Eu próprio registei aqui e ali reflexões sobre esta maneira de ver o português das ilhas. Assim, quase ao calha, abro o diário e leio que somos como somos porque “à nossa volta está sempre a acontecer o inesperado. A gente sabe que, de repente, pode erguer-se a natureza em uivos, abrir-se a terra, perturbarem-se as constelações. A contingência torna-nos inseguros e ensimesmados, o olhar com suspeita a sombra que fazemos no chão” (Era Uma Vez O Tempo, volume dois).

É assim que a gente, com o tempo, se torna diferente, e quando vai para escrever, tem de meter lá tudo isso, e mais o imponderável das presenças e das distâncias, e ainda as metas do destino possível.

De tudo isso é feita a nossa literatura de açorianos.

As bases da nossa cultura são religiosas. Nos intelectuais, essa herança está transfigurada na presença da Natureza, por vezes ritualizada quase em termos panteístas – via de acesso dos escritores açorianos ao invisível, ou se prefere, ao “interior”. Este gosto pelo interior, tão nosso, tão caracteristicamente nosso (vela-se a poesia que escrevemos) leva-me a estranhar a ausência de diaristas nestas ilhas. O meio demasiado estreito e censurado pode explicar isso. O refúgio na poesia intimista também pode ser explicação.

________

Fernando Aires, Era Uma Vez O Tempo/ diário V, Lisboa, Edições Salamandra, 1999.

 

 

 

 

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