Memória do tempo: à conversa com José Martins Garcia

FOTO Jos+® Martins GarciaSe eu morrer antes de ti, como presumo, que não se aproxime de mim nenhum abutre… Manda-me cremar e, como derradeiro culto a uma língua morta, coloca uma moeda entre os meus lábios… Nada mais.

José Martins Garcia, Contrabando Original

 /Vamberto Freitas

José Martins Garcia nasceu na ilha do Pico, em 1941, muito andou pelo mundo, mas reafirma aqui que, quanto a dados biográficos, poucas afinidades terá tido com a “gente” da sua criação. Diz-nos que desde sempre existiu “o divórcio entre a minha vida quotidiana e os mundos que inventei”. Em 1966 foi mobilizado para a Guiné-Bissau, e após essa fase da sua vida viveu e exerceu o professorado em universidades de Portugal Continental, França e Estados Unidos. Regressou  poucos anos depois ao arquipélago natal e viveu em Ponta Delgada, onde também foi professor de Teoria da Literatura e Literatura Açoriana, na Universidade dos Açores. A sua obra inclui ainda alguns volumes de contos, poesia, teatro e trabalhos de cariz académico, como entre outros, Linguagem e Criação e Vitorino Nemésio: A Obra e o Homem.

Contrabando Original serviu-nos aqui como ponto de partida para uma mais alargada abordagem da sua temática e da sua distinta voz e visão ficcionadas do mundo português continental e açoriano. Os seus outros romances publicados incluem Lugar de Massacre e a trilogia constituída por A Fome, O Medo e a Imitação da Morte, assim como Memória da Terra.

Seguem-se aqui fragmentos de uma longa conversa que mantive com ele no fim dos anos 80, e então integralmente publicada no suplemento Cultura do Diário de Notícias. A sua morte precoce há alguns anos foi uma dura perda para a nossa literatura.

***.

Contrabando Original veio, para quem ainda não tivesse dado por isso, estabelecer Martins Garcia (não se ofenda com a palavra, pois utilizo-a até com certa simpatia e respeito) como o mais cínico romancista português actual. Desgosta-o esta minha observação?

José Martins Garcia – Para ser franco, digo-lhe que me desgosta. Melhor dizendo: não me parece corresponder, dum modo global, ao que deixei dito nos cinco romances que até hoje publiquei. Se me tivesse classificado como romancista satírico, ou predominantemente satírico, aí sim, eu estaria inteiramente de acordo. Bem sei que a palavra cinismo já significou uma atitude filosófica de desprezo por todos ou quase todos os valores estabelecidos… Mas, hoje em dia, cinismo associa-se (estou em crer) a algo pior que o desprezo: a uma espécie de gozo pela humilhação, ao pisar e ao repisar da vítima. É certo, por outro lado, que não há sátira sem vítima. O autor de textos satíricos escolhe um alvo. Esse alvo é tratado com antipatia, com agressividade. Esse alvo é uma vítima. Mas a atitude criadora do autor satírico não é uma atitude necessariamente cínica. Deixe-me lembrar-lhe que muitos autores de sátiras, especialmente os de sátiras sociais, até são por vezes lidos como moralistas. Não gosto, é certo, de moralistas. Cultivo, no entanto, a minha própria ética. Se acredita nesta minha última frase, bem vê que não posso encarar-me a mim como cínico… e isto na medida em que cinismo e ética são incompatíveis. Deixe-me recordar um aspecto de Lugar de Massacre: aquelas personagens loucas ou a caminho da loucura, que se movem num hospital de Bissau, não são simples “palhaços” caídos nas malhas de uma guerra sem finalidade; são seres despedaçados na própria identidade; representam uma geração sacrificada ao nada. E  a função do narrador, neste caso, não é suscitar o riso, muito menos mascarar-se de cínico A função desse narrador é essencialmente de denúncia da paranóia que foi aquela guerra colonial. Uma denúncia que se processa em vários planos, parecendo-me o plano satírico um dos mais relevantes do livro. Mas note: quem é a vitima dessa sátira? Os tais “palhaços” meio loucos?… Não; os chefes megalómanos, ou chefes (ou supostos chefes) com as cabeças cheias de fumaça imperialista.

Mas gostaria também de fazer algumas observações sobre Contrabando Original. E começo por fazer uma pergunta embaraçosa: Quem é o narrador desse romance? Por outras palavras: eu, que sou apenas o “autor empírico” do livro, a quantos narradores dei voz? Quantas vozes se acumulam nesse romance? Ser eu próprio a responder a tais perguntas significaria um poder de objectividade pretensioso, ridículo mesmo. Se admitimos a unidade do narrador, não me parece que esse narrador se revele cínico. Não será ele um professor de Latim que declara, no fim do livro, que inventou uma família por ter ficado órfão de tenra idade?… Não será ele um diplomata enfastiado com a fachada que é obrigado a cultivar? Ou será ele um actor tornado efectivo contrabandista? Ou este contrabando é todo em sentido figurado?… Porque será o narrador um refractário à guerra colonial?…Cínico?…Talvez sim, em certas circunstâncias. Talvez não, se repararmos na sua situação de clandestino. Enfim, creio que, seja lá quem for o narrador de Contrabando Original, sátira e amargura se sobrepõem ao cinismo. Sátira e angústia… o riso perante a própria extinção.

– Você esteve sempre muito próximo da obra de Vitorino Nemésio, e sobre ele tem escrito extensivamente. Como enquadrar o Mau Tempo no Canal na ficção portuguesa deste século em termos de qualidade e ante o velho debate Literatura Portuguesa/Literatura Açoriana?

JMG – É verdade que já escrevi muitas páginas sobre a obra de Vitorino Nemésio, boa parte delas dedicadas a Mau Tempo no Canal. Deve compreender como me é difícil sintetizar uma apreciação a um romance que, de dia para dia, me parece fornecer cada vez mais matéria para análise, reflexão e crítica. Trata-se de um romance a todos os títulos excepcional. Possui o dom de ir crescendo. Não acho, neste momento, melhores palavras para referir a sua espantosa qualidade literária. É um “monumento” da Literatura Portuguesa. É um admirável “universo” extraído da condição açoriana, da Açorianidade, se preferir. É uma obra-prima da Literatura Açoriana – o que significa uma obra-prima da Literatura Portuguesa.

– A sua experiência “americana” – cinco anos na Nova Inglaterra como professor na Universidade de Brown – viria ser transfigurada em Imitação da Morte e em alguns poemas de Temporal. Quer falar mais um pouco desses seus anos nos Estados Unidos? Que mais recorda com alegria e tristeza?

JMG – Os cinco anos que passei em Providence, leccionando Literatura Portuguesa na Universidade de Brown, constituíram uma experiência tão importante que às vezes tenho a impressão de que apenas sonhei tudo isso… A primeira aula na Brown… O Centro de Estudos Luso-Brasileiros… Os rostos, os gestos…A primeira vez que vi nevar em Providence… O meu primeiro Natal em Providence… A Biblioteca da Brown, onde me sentia em casa… Os livros, as ideias, o tempo de pensar Fernando Pessoa. Depois, em Janeiro de 1984, o meu pai morreu na ilha do Pico. Vim ao Pico. Voltei por mais uns meses a Providence. Tudo tinha mudado. Para a tristeza.

– Você queixa-se, com frequência, da tendência do meio literário lisboeta de ignorar quase por completo os escritores que lá não vivem. Mas não será verdade que nos últimos anos essa situação mudou consideravelmente?

JMG – Algo terá mudado; não direi o contrário. Mas o espírito do “grupo iluminado” continua a vigorar – estou em crer. O grupo planeia, domina a casa editora, organiza a propaganda, tem os seus devotos nos órgãos de informação… Toda a gente sabe que assim é. Mais palavras para quê?

– Finalmente, é pouco usual o açoriano regressar ao arquipélago para ficar. Após tantas andanças por vários continentes, o seu regresso é definitivo, já encontrou o seu espaço vivencial?

JMG – Não encaro nenhuma situação como definitiva. Para ser mais rigoroso; não penso nisso. Não sei o que é “espaço vivencial”. Estou aqui, mas não me encontro aqui. Passeio por Lisboa, mas aquela cidade já não é Lisboa. Da última vez que passei pelo Quartier Latin reparei que faltava uma perna à estátua de Montaigne… e essa ausência altera irremediavelmente o rosto de Paris. Tenho medo de voltar a ver Providence. Só o Álvaro de Campos resiste ao desgaste: “E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha”.

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José Martins Garcia, Contrabando Original, Lisboa, Vega, 1988.

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