Quando os bobos uivam, ou o surrealismo vivido

On+¬simo T. AlmeidaA arte, muitas vezes, não vai além de uma pálida imagem do que a vida é capaz de inventar.
Onésimo Teotónio Almeida, Quando os bobos uivam

/Vamberto Freitas

Perguntaram um dia a Philip Roth, um dos grandes senhores da literatura norte-americana, e que situa a maior parte da sua obra ficcional na sua cidade de nascença e infância, Newark, New Jersey, ali ao lado de Nova Iorque, como é que um escritor conseguia inventar “realidades” inesperadas nos nossos dias depois de ler as primeiras páginas dos jornais diários. A resposta foi que já era impossível. Tenho para mim que isso foi uma das mais precoces constatações de Roth, e que o faria virar-se constantemente para a experiência imigrante dos seus antepassados judeus, assim como para as vidas reinventadas dos seus descendentes na tentativa de encontrar uma vida qualquer na mesma sociedade, o interiorismo abalado de cada personagem em contraponto à não menos abalada e estranha vida quotidiana, ou cada um deles a braços com desejos inconfessáveis e transgressores numa sociedade indefinida ou em ebulição perpétua. Quando acabei de ler as duas primeiras narrativas de Quando os bobos uivam: Fogo, espionagem e outros mistério q. b., Onésimo Teotónio Almeida não só estava ou continuava no seu melhor num outro género de escrita muito seu, a crónica entre a realidade e a ficção, como se aproximava cada vez mais intimamente dos seus leitores. A linguagem directa e escorreita não é novidade alguma na sua escrita, mas é-o o seu diálogo em formas tão directas e dialogantes com os seus leitores, assim como com as suas próprias personagens, em certos casos ele próprio pessoanamente, por assim dizer, desdobrado em narrador e sujeito da mesma narrativa.

O presente livro está escrito em forma de diário, mas é muito, muito mais do que isso, as quatro grandes narrativas de Quando os bobos uivam mais parecem um romance surrealista escrito em linguagem de aparência realista espartilhada ou fragmentada da nossa modernidade, em que as aventuras do seu protagonista vão desde a América à China, naturalmente passando por Portugal, especialmente pelos Açores, a voz do narrador, os seus encontros e as suas reacções a tudo e todos, dando a unidade essencial às estórias, as fatias-de-vida tão caracterizantes dos seus melhores contos, levando, sempre, o leitor às mais diversas e distantes geografias. Deve ler-se Quando os bobos uivam em sequência, como, uma vez mais, se de um romance se tratasse, uma narrativa preparando a outra que se segue, a credibilidade do narrador aumentando no percurso destas estranhas viagens entre  os mais estranhos personagens.  A primeira secção do livro intitula-se “O Ja…To (Ou There She Blows)” e está alicerçada no grande Moby Dick de Herman Melville, também como que a dizer: há lutas ou obsessões mais do que irracionais, pois ninguém pode fugir à estranheza da sua existência, a eventos que, depois de imaginados por Melville, só um Kafka retomaria a meados do século passado; a última parte trata de uma viagem à China nos idos de 80, “Forjão-Mentes-Me-Sinto”. O leitor não tem nada de saber se estas estórias aconteceram ou não de verdade – reproduzem em pleno o efeito da melhor ficção, exigem dos leitores mais sofisticados o que em inglês se chama “the suspension of belief”, ou seja, a suspensão da credulidade para se chegar à verdade profunda da ficção ou da arte em geral. Na primeira narrativa o protagonista conta as peripécias da Presidência Aberta de Mário Soares nos Açores, com nomes próprios e tudo, do autor e de algumas personagens bem conhecidas do nosso mundo político e literário, mas a grande surpresa fica guardada para as últimas páginas deste episódio hilariante: a suspeita de que o narrador tem algo a ver com o incêndio da Reitoria da Universidade dos Açores, e sua interrogação pela Polícia Judiciária. Não sabemos do que mais rir ou ter medo: se da suspeita em si própria, se das circunstâncias que levam a essa suspeita, se do agente policial que, mais do que fazer perguntas, enceta uma conversa amigável e de admiração com o seu interlocutor cuja vivência flutua entre uma grande universidade americana e Portugal, principalmente, uma vez mais, os Açores. A última narrativa leva-nos, como já aqui foi dito, à China no começo da sua abertura ao mundo através do capitalismo singular que hoje conhecemos, ou pensamos que conhecemos. De novo, o leitor vai ser surpreendido com a sorte do narrador: circulam boatos de que a sua ascensão na universidade onde lecciona e viria ascender a Professor Catedrático deve-se à sua “espionagem” ao serviço do seu país de adopção. Para um autor com a estatura de Onésimo Teotónio Almeida a plausibilidade de tudo isto não interessa – não é ele que provoca estas situações e suspeições, é, sim, o mundo surrealista em que vivemos e em que já nada é o que deveria ser, mas sim o que parece. Como numa página de Kafka, repita-se, podem bater à nossa porta a qualquer instante e pedir explicações sobre o inexplicável. Com uma grande diferença nestas páginas: o riso redentor domina o leitor, o riso redentor só por si traz credibilidade a quem tenta escapar-se destas teias urdidas à revelia do nosso real quotidiano e afazeres. Como num bom romance policial, o narrador vai dialogando em directo e como que pedindo ao leitor certa paciência até que se chegue a uma conclusão, quase sempre ainda mais surpreendente do que supúnhamos. Eis aí a arte tornando-se “uma pálida imagem do que a vida é capaz de inventar”, eis aí a razão de Philip Roth remetendo-nos para as primeiras páginas dos jornais se queremos ver como a realidade supera de longe qualquer ficção modernista.

“Há um incêndio na universidade – diz o narrador ao ser intimado a aparecer na polícia mais temida do nosso país – e a Judiciária não encontra pistas nenhumas… vasculha os cantos escuros, cerrados, opacos da ilha e nada encontra. A comunicação social aperta, exige um nome, um grupo, uma cabeça a rolar, para que isto não redunde em nada. Então a Judiciária lembra-se: E porque não agarrar este gajo?!”

“Este gajo” viria a ser o autor deste livro – como a Judiciária chega a ele é uma comédia de suposições sem igual entre nós, vale por si só todo o Quando os bobos uivam. Devo adicionar que este é um livro de outras surpresas da realidade sobrepondo-se à invenção literária pura. Uma das suas grandes originalidades está no questionamento sistemático, nas quatro narrativas, sobre a teoria da arte literária, especialmente no capítulo intitulado “Jean Charles, Amor de Calções”, uma troca de emails entre um narrador de nome Alberto, que sabemos muito bem quem é, e um orientando holandês de doutoramento a estudar em Londres e a trabalhar numa tese sobre o conto moderno português. A sua estrutura, a troca de correpondência elctrónica entre os dois, aparenta simplicidade, mas por dentro da prosa estão as próprias respostas ao conteúdo surrealista de Quando os bobos uivam. A saber: O orientador vai avisando o seu orientando da necessidade de concluir a tese, aconselhando-o que se deixe de exageros ou obsessões de cariz teórico e entre decididamente no que interessa, ou deve interessar numa narrativa, mesmo académica: o conteúdo que enforma qualquer pedaço de prosa criativa e as suas múltiplas significações. Como exemplo da essencialidade da unidade num conto, das suas características formais e criação de tramas e personagens com vida interior, vai relatando os dizeres e comportamentos de um filho em sua casa, vai reproduzindo as suas conversas e respostas marcantes aos adultos, demonstrando assim que não pode ser de palavras soltas, por mais inteligentes que sejam numa determinada situaçãos, ou de episódios desconexos, que se faz uma obra de ficção. Causa e efeito têm de estar presentes, surpresa e comportamentos inesperados fazem parte da lógica  de uma estória, tornam a mais inimaginável das “realidades” ficcionais pelo menos plausíveis adentro da experiência humana. A viragem irónica destas páginas é que enquanto o narrador adverte o seu orientando tantas vezes distraído do trabalho entre mãos, o que nos parece de facto uma mescla de dizeres e actuações por parte do miúdo que nos ficheiros tem o nome de Jean Charles são precisamente o conteúdo de uma estória com princípio, meio e fim.

Pelo que me leva, finalizando aqui, à minha própria conclusão após a leitura deste Quando os bobos uivam: quando Onésimo Teotónio Almeida me voltar a dizer que não é crítico literário, vou simplesmente sorrir, e dizer-lhe: sure, Professor, e acha que eu sou um dos seus bobos?

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Onésimo Teotónio Almeida, Quando os bobos uivam: Fogo, espionagem e outros mistérios q. b., Lisboa, Clube do Autor, SA, 2013.

Memória do tempo: conversa com Onésimo T. Almeida sobre açorianidade e literatura

FOTO On+¬simo T. AlmeidaNesses anos, a estética havia cedido em abosluto o passo à política, que açambarcara, por seu turno, a totalidade da vida.
Onésimo Teotónio Almeida, A Questão da Literatura Açoriana.

 /Vamberto Freitas

 Revisita-se, aqui, uma vez mais, esta questão da “açorianidade” e o seu reflexo nas obras literárias criadas por ilhéus, dentro e fora do arquipélago. São repassados, também, determinados argumentos, assim como se responde a alguns dos outros intervenientes actuais nesse aceso debate.

Estes fragmentos foram tirados da  longa entrevista que fiz a Onésimo T. Almeida, e vem na sequência das que tenho (re)apresentado nesta pagina, todas elas feitas a meados dos anos 80, quando estas questões despertaram um vivo e constante debate entre alguns dos mais conhecidos escritores açorianos da nossa geração. O livro mais recente do autor intitula-se Quando os Bobos Uivam: Fogo, espionagem e outros mistérios q. b., que será apresentado aqui em Ponta Delgada no dia 25 de Julho.

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– A sua colectânea A Questão da Literatura Açoriana junta as principais intervenções das pessoas que tentaram responder à pergunta se existe ou não uma “literatura açoriana”. A que primeira(s) conclusão(ões) poderá chegar um leitor após a leitura de uns e outros?

Onésimo Almeida – A primeira conclusão é de La Palice: que o assunto é, no mínimo, susceptível de discussão. O que significa que não é possível uma resposta peremptória pela negativa. Há demasiado fumo para que se negue, de mão leve, haver algum fogo.

Mas creio que, para além disso, é possível a um leitor atento, mas também informado sobre a história da cultura açoriana (e da sua literatura em particular), começarem a surgir-lhe ideias claras sobretudo com as achegas de alguns intervenientes mais analíticos e menos dogmáticos.

Mas o volume não se fica por aí. Eu próprio procuro revisitar a questão tentando pôr em ordem argumentos pró e contra e avaliar-lhes o peso. Naturalmente que é um pouco presunçoso da minha parte vir falar nestes termos, mas o facto é nessa, como em tantas outras questões da história da cultura portuguesa, defendem-se e atacam-se pontos de vista com tiradas violentas, mais ou menos retóricas, mas raramente se agarra a questão a sangue frio, se analisa pormenorizadamente o que está em causa e se desenvolvem os argumentos. Tentei fazer isso. E ainda hoje estou à espera de alguém que venha responder aos argumentos que expus para defender a legitimidade do uso da expressão “literatura açoriana” no sentido em que expliquei poder e dever usar-se.

– João Gaspar Simões afirma num dos seus textos inseridos nesse livro que Vitorino Nemésio abriu caminho à “açorianidade”, em termos literários, com o Paço do Milhafre e o aprofundou em Mau Tempo no Canal. Mas Nemésio nunca poderá deixar de ser um grande escritor português. Cristóvão de Aguiar, um dos mais lidos e respeitados continuadores da tradição literária nemesiana, diz que apenas haverá uma escrita portuguesa de “expressão açoriana”, mas nunca uma literatura autónoma da mãe-pátria. Pedro da Silveira, por sua vez, declara no seu prefácio à Antologia de Poesia Açoriana (1977) que toda a escrita significativa das ilhas constitui uma espécie de declaração de independência literária. Onde ficamos? Que motiva, no fundo, todo este debate durante os primeiros anos?

AO – Aí estão três pontos de vista bem representativos. Infelizmente, Pedro da Silveira e Cristóvão de Aguiar fazem apenas afirmações e, sobretudo o segundo, não desenvolvem argumentos. Na sua introdução à referida Antologia, Pedro da Silveira não apresenta nunca os critérios que subjazem às suas conclusões, embora se possam depreender alguns deles da grande quantidade de informação que ele fornece ao leitor.

O caso de J. Gaspar Simões é diferente. Ele aduz algumas razões, mas elas nem sempre são boas. Por outro lado, ele desconhece a tradição literária açoriana e conhece apenas o que chega ao continente e, como ele próprio confessa muitas vezes, o que enviam. Não vou repetir aqui os argumentos que elaborei no livro. Direi apenas que o facto de se falar de “literatura açoriana” não significa que estejamos em presença de uma literatura autónoma, ou muito menos independente. A literatura açoriana não é independente da portuguesa, uma vez que ela se desenvolve dentro das linhas fundamentais desta. Nem é autónoma porque os elementos próprios que ela contém não são suficientes para se falar de autonomia. Mas são suficientes para se falar de uma literatura simplesmente, com a sua história e tradição dentro da portuguesa. É possível, numa perspectiva global, incorporá-la na literatura portuguesa. Mas é também possível, de uma perspectiva particular, fazer um zoom sobre esse mundo específico dos Açores e detectar aí as coordenadas de uma expressão literária muito rica, caso único na história literária no Continente, Açores e Madeira. Quer um exemplo da astronomia? A lua é um satélite que gira à volta da terra, mas tem o seu movimento próprio. Com a diferença que na literatura açoriana haver muito mais vida do que na superfície da lua. E não só anticiclones. É assim que Nemésio ou Roberto de Mesquita tanto podem ser encarados como escritores portugueses, inseridos na tradição portuguesa, como podem ser vistos como pertencentes à tradição literária açoriana. Essas ópticas não se excluem. Completam-se. O próprio Nemésio viu-se assim. Naturalmente que na literatura açoriana há muitas obras que, no contexto nacional, têm pouco ou pouquíssimo relevo, mas que no contexto açoriano possuem uma dimensão maior (…)

– Visto que a maior parte dos académicos e intelectuais açorianos que periodicamente reacendem esta fogueira literária estão ausentes da região não haverá entre eles um certo estado de espírito que os leva a apaixonarem-se por uma questão que por outros poderia ser considerada trivial?

AO – Só actualmente é que uma grande parte de intervenientes vive fora do arquipélago. Até ao principio dos anos 70 praticamente só Nemésio estava fora. Pedro da Silveira também, mas ele entrou na liça a sério quando ainda estava nos Açores.

De facto muita gente considerará trivial esta questão. Mas a história da cultura portuguesa está cheia de questões tão ou mais trivial que esta.

Devo dizer, porém, que a culpa é de quem nega a existência dessa literatura. Fá-lo sobretudo pela ignorância do elenco. Não sabe do que se trata. Conhece pouco ou nada.

Mas isso é só uma questão de tempo e hábito. O sentido das palavras vem com o uso (e não fui eu quem descobriu esta grande verdade!). Aos poucos, as pessoas habituar-se-ão a ouvir falar de “literatura açoriana” sem os cabelos se lhes porem em pé. Saberão que se trata de uma tradição literária interessantíssima e valiosa dentro da história da literatura portuguesa.

Nos Estados Unidos, além da Brown University, que tem essa cadeira no “Course Announcement”, obras da literatura açoriana são ou foram já estudadas como tal em cadeiras da Universidade de Rhode Island, na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (curso de verão) e na San José Stade University (Califórnia), isto é, em universidades onde há estudantes de ascendência açoriana. A tradição americana é muito menos centralista do que a portuguesa e aceita perfeitamente que grupos culturais se debrucem sobre o seu passado específico como fonte de enriquecimento pessoal. Mas até mesmo a própria Universidade dos Açores hoje já se libertou do receio de Lisboa olhar com sobranceria e desdém o ensinar-se uma cadeira de Literatura Açoriana naquela universidade. J. Martins Garcia, ele próprio romancista, poeta e ensaísta – tanto da literatura açoriana como da portuguesa – lecciona essa cadeira. Mas Eduíno de Jesus ou João de Melo poderiam igualmente ir lá ensiná-la. Como podem fazê-lo em qualquer lugar do Continente que queira reconhecer a descentralização cultural e estudar mais e melhor as suas regiões. Uma última palavra sobre esta entrevista: que ela sirva para levar as pessoas interessadas a debruçarem-se um pouco mais sobre o assunto. Os argumentos aqui foram apresentados muito superficialmente. E referi apenas alguns. Mas mais importante do que tudo seria interessar-se os leitores na produção literária açoriana. (A propósito e a concluir: onde é que há por esse país uma revista de letras e artes regional (diferente de “regionalista”) como a Atlântida (nova série)? Vejam e depois venham dizer-me que se não deve falar de “literatura açoriana” porque isso implicaria o direito de se falar de “literatura minhota” e “literatura algarvia”!

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Onésimo Teotónio Almeida, A Questão da Literatura Açoriana, Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Coleccção Gaivota, 1983.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Memória do tempo: à conversa com Vasco Pereira da Costa

sem nome Mar e lava mal fria/sou do que me faço.
Vasco Pereira da Costa, Ilhíada: antes e depois

/Vamberto Freitas

 Autor já de um bom número de obras de ficção e poesia (Ilhíada, Nas Escadas do Império e Memória Breve, entre outras), Vasco Pereira da Costa ocupa um lugar respeitável no círculo daqueles que produzem e/ou lêem literatura açoriana.

Natural de Angra do Heroísmo, onde viveu até à sua adolescência, Coimbra viria a ser a sua outra cidade permanente, tendo lá lançado novas raízes, como pai, esposo e Professor da escola Superior da Educação, da Universidade de Coimbra.

Toda a sua escrita, ficção e poesia, no entanto, é um outro regresso às origens açorianas, uma reconstituição dessa realidade vivida e nunca mais esquecida através de pedaços memorialistas, de lugares e gentes transfiguradas que reaparecem nas suas páginas como pungentes fatias de vida. Li o Vasco ainda antes de o conhecer pessoalmente, e não havia acompanhado a sua escrita desde o início. Mas quando me puseram nas mãos o seu livro de contos Plantador de Palavras, Vendedor de Lérias (1984) a minha reacção foi algo mais do que a habitual admiração ante a boa escrita – reconheci de imediato que também este outro escritor, com essa sua escrita ao mesmo tempo extremamente original, pessoalizada e “objectivada”, me oferecia parte do meu próprio passado. Sobre esse aconchego, escrevi em outra parte que: “Não conheço pessoalmente Vasco P. da Costa. Mas, no fundo, conheço-o, conhecemo-nos todos os que neste arquipélago atlântico nasceram há uns 500 anos, percorremos as mesmas pedras primordiais, agonizamos no mesmo torpor, imaginamos parecidos mistérios para lá do horizonte azul, e, hoje, verifico eu muito atentamente através desta leitura que continuamos a recordar e a fantasiar a mesma pequena pátria ilhoa. É indelicado falar de idade, mas confesso que também já era velho de séculos quando dos Açores saí na minha juventude, tal o poder psíquico que exerce aquele lugar e aquela gente sobre cada um de nós.”

Uma vez mais, seguem-se aqui fragmentos de uma longa entrevista, publicada no fim dos anos 80, sobre as questões literárias e temáticas que então mais marcavam a nossa literatura, as obras de toda uma geração açoriana residente dentro e fora das ilhas. Vasco Pereira da Costa viria anos depois a ser Director Regional da Cultura (Açores) durante dois mandatos, o que mudaria decididamente alguns dos seus pontos de vista sobre o arquipélago expressos nesta nossa conversa. Ainda este ano, publicaria a antologia que contém praticamente toda a sua obra poética, Ilhíada: antes e depois (poesia 1972-2012).

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– De todos os seus livros de ficção, eu prefiro o seu Plantador de Palavras. E você?

Vasco P. da Costa – Eu? Francamente, não sei, até porque nunca mais li os livros que publiquei. Acho que Nas Escadas do Império, de 1978, e Amanhece a Cidade, de 1979, estão arquitectados em uma forma que, hoje, não adoptaria. O que é compreensível: vamos mudando… Porém, confrontado com opiniões de leitores recentes, descubro que lêem esses livros e neles reconhecem algumas virtualidades. Todavia, não me passaria pela cabeça reelaborá-los. Eles que caminhem pelos seus próprios pés em busca do reconhecimento dos seus méritos ou dos seus defeitos. O Plantador de Palavras, Vendedor de Lérias também: e, por ser um livro que recebeu o Prémio Miguel Torga, é, de certo modo, um aval aos anteriores, espécie de meta num percurso.

– É preciso primeiro sair-se do arquipélago para o sentir em toda a sua profundidade cultural, cósmica e espiritual?

VPC – Não sei. E saí… e o que sinto e procuro fazer sentir ao falar do arquipélago é a oscilação constante do Homem em toda a sua dimensão – cultural, cósmica, espiritual – viva ele em Los Angeles, nas Fontinhas, em Coimbra ou em Bagdade. É, afinal, o almejo de qualquer escritor: escrever sem prescrições de tempo nem muralhas de espaço.

– Em Plantador sobressai um grande sentido de perda, um passado que ora é visto com saudade, ora com amargura. Tal é o que se detecta na seguinte passagem: “Decididamente que me movem as saudades. As saudades e a nostalgia da ilha perdida sem remédio”. É-nos ou não possível regressar a casa, ou será a escrita a única maneira de reconstruir e, por esse meio, redimir todo um passado?

VPC – A escrita é, sempre, uma reinvenção do real, e tenta instaurar um outro real, porventura mais verdadeiro. O regresso a casa pela escrita pode redimir. Poderá redimir. Mas não busca a redenção – de nenhum cariz: porque o texto literário intenta viver pelos seus próprios meios, bem longe do seu organizador. Donde se, por um lado, pode conduzir a uma purga da saudade, pode, por outro lado, e com a mesma legitimidade propor a opostasia (terrunha, neste caso). É lugar comum classificar o texto literário de plurissignificativo. Ora, as leituras é que serão diferentes, e os reconhecedores (indispensáveis) do escrito a que lhe atribuirão significações diversificadas.

Na nossa civilização, Ulisses é um paradigma, e a nostalgia dos ventres – materno e geográfico – está, desde o sacrossanto Freud, mitificada. O que não quererá propriamente significar, contudo, que sejam estas as únicas vias de exploração ideológica por banda daquele que escreve e por banda daquele que lê. Os cortes voluntários e voluntariosos dos cordões placentários são também actos sublimes de agónicos, reveladores de capacidades de rebeldia. Ousar ser – independentemente das heranças genéticas e das fatalidades geográficas – é a suprema ambição – fundamentante – das criaturas.

Ilhíada, o teu livro de poemas, para voltar às questões iniciais desta nossa conversa, reforça a ideia de que o retorno só é possível à distância. “De longe a tenho mais fiel/a ilha/Assim retorno.” Como a sentes nesse retorno?

VPC – Isso disse o Anti-Ulisses. É a ele (a ti…) que deves pedir explicações. Penso que nada mais ele poderia adiantar, porque o que tinha a dizer ficou escrito nesse poema.

– Também regressas aos Açores com frequência. Como vês a caminhada actual do arquipélago, em termos culturais e sociais? (Digo sociais, porque em quase toda a tua escrita existe uma forte condenação das estruturas sobre que assentava a sociedade de um passado recente).

VPC – quando volto aos Açores, é sempre fugazmente, e não tenho opiniões fundamentadas sobre a realidade social do arquipélago. As conversas que lá tenho e as notícias que de lá chegam ainda não desmentiram, porém, a diversidade das ilhas. Afirmou alguém, no século passado, com muita perspicácia, que os Açores são nove estados. Não houve, até agora, quaisquer desmentidos. Nem oficiosos nem oficiais.

– Quem, de entre os teus conterrâneos, mais lês?

VPC – Preferia citar autores que leio com gosto: Camões, Dante, Homero, Manuel Alegre, João de Melo, Cardoso Pires, Emanuel Félix, Nemésio, Boccacio, Eça, António Nobre, Collodi, Marguerite Yourcenar, Carson McCullers, Tolstoi, Torga, Garcia Marquez, Camilo José Cela, Bernanos…

Todos eles meus contemporâneos e meus conterrâneos. Poderá parecer-te presunçosa a resposta, mas corresponde ao meu entendimento da literatura.

– Martins Garcia afirmou um dia que a sociedade açoriana lê pouco e parece não estar muito predisposta para se ver ficcionada. Neste caso para quem escreves?

VPC – Não sei o que se passa nos Açores no que respeita a índices de leitura. Sei, contudo, pelos registos de vendas, que sou mais lido em Coimbra do que em Ponta Delgada, por exemplo. O que não admira: Coimbra tem mais gente… Agora, para quem escrevo…? Sei lá para quem escrevo…

– Criticas com frequência, o establishment literário lisboeta. Achas que vale a pena a vossa contínua tentativa de se explicarem e serem reconhecidos no continente?

VPC – Meu caro Vamberto, o país ainda é Lisboa. E não será por mera teimosia política que estão a entravar a efectivação da regionalização. Em Lisboa, está tudo: desde São Bento até às Amoreiras. Não vejo, pois, que, no domínio da literatura, pudesse haver um outro entendimento, o da descentralização.

O que está por demonstrar é se Lisboa é, realmente, o país ou se tratará de um cenário dos Universal Studios, preparado, – só com fachadas – para uma superprodução nacional.

Aqui há meses, Sophia de Mello Breyner estabelecia três fases da nossa literatura: a dos autores, a dos leitores e, na actualidade, a dos editores. Com efeito, impor um livro é, hoje, uma questão de marketing.

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Vasco Pereira da Costa, Ilhíada: antes e depois (poesia 1972-2012), Vila Nova de Gaia, Calensário das Letras, 2012.