Memória do tempo: à conversa com Vasco Pereira da Costa

sem nome Mar e lava mal fria/sou do que me faço.
Vasco Pereira da Costa, Ilhíada: antes e depois

/Vamberto Freitas

 Autor já de um bom número de obras de ficção e poesia (Ilhíada, Nas Escadas do Império e Memória Breve, entre outras), Vasco Pereira da Costa ocupa um lugar respeitável no círculo daqueles que produzem e/ou lêem literatura açoriana.

Natural de Angra do Heroísmo, onde viveu até à sua adolescência, Coimbra viria a ser a sua outra cidade permanente, tendo lá lançado novas raízes, como pai, esposo e Professor da escola Superior da Educação, da Universidade de Coimbra.

Toda a sua escrita, ficção e poesia, no entanto, é um outro regresso às origens açorianas, uma reconstituição dessa realidade vivida e nunca mais esquecida através de pedaços memorialistas, de lugares e gentes transfiguradas que reaparecem nas suas páginas como pungentes fatias de vida. Li o Vasco ainda antes de o conhecer pessoalmente, e não havia acompanhado a sua escrita desde o início. Mas quando me puseram nas mãos o seu livro de contos Plantador de Palavras, Vendedor de Lérias (1984) a minha reacção foi algo mais do que a habitual admiração ante a boa escrita – reconheci de imediato que também este outro escritor, com essa sua escrita ao mesmo tempo extremamente original, pessoalizada e “objectivada”, me oferecia parte do meu próprio passado. Sobre esse aconchego, escrevi em outra parte que: “Não conheço pessoalmente Vasco P. da Costa. Mas, no fundo, conheço-o, conhecemo-nos todos os que neste arquipélago atlântico nasceram há uns 500 anos, percorremos as mesmas pedras primordiais, agonizamos no mesmo torpor, imaginamos parecidos mistérios para lá do horizonte azul, e, hoje, verifico eu muito atentamente através desta leitura que continuamos a recordar e a fantasiar a mesma pequena pátria ilhoa. É indelicado falar de idade, mas confesso que também já era velho de séculos quando dos Açores saí na minha juventude, tal o poder psíquico que exerce aquele lugar e aquela gente sobre cada um de nós.”

Uma vez mais, seguem-se aqui fragmentos de uma longa entrevista, publicada no fim dos anos 80, sobre as questões literárias e temáticas que então mais marcavam a nossa literatura, as obras de toda uma geração açoriana residente dentro e fora das ilhas. Vasco Pereira da Costa viria anos depois a ser Director Regional da Cultura (Açores) durante dois mandatos, o que mudaria decididamente alguns dos seus pontos de vista sobre o arquipélago expressos nesta nossa conversa. Ainda este ano, publicaria a antologia que contém praticamente toda a sua obra poética, Ilhíada: antes e depois (poesia 1972-2012).

***

– De todos os seus livros de ficção, eu prefiro o seu Plantador de Palavras. E você?

Vasco P. da Costa – Eu? Francamente, não sei, até porque nunca mais li os livros que publiquei. Acho que Nas Escadas do Império, de 1978, e Amanhece a Cidade, de 1979, estão arquitectados em uma forma que, hoje, não adoptaria. O que é compreensível: vamos mudando… Porém, confrontado com opiniões de leitores recentes, descubro que lêem esses livros e neles reconhecem algumas virtualidades. Todavia, não me passaria pela cabeça reelaborá-los. Eles que caminhem pelos seus próprios pés em busca do reconhecimento dos seus méritos ou dos seus defeitos. O Plantador de Palavras, Vendedor de Lérias também: e, por ser um livro que recebeu o Prémio Miguel Torga, é, de certo modo, um aval aos anteriores, espécie de meta num percurso.

– É preciso primeiro sair-se do arquipélago para o sentir em toda a sua profundidade cultural, cósmica e espiritual?

VPC – Não sei. E saí… e o que sinto e procuro fazer sentir ao falar do arquipélago é a oscilação constante do Homem em toda a sua dimensão – cultural, cósmica, espiritual – viva ele em Los Angeles, nas Fontinhas, em Coimbra ou em Bagdade. É, afinal, o almejo de qualquer escritor: escrever sem prescrições de tempo nem muralhas de espaço.

– Em Plantador sobressai um grande sentido de perda, um passado que ora é visto com saudade, ora com amargura. Tal é o que se detecta na seguinte passagem: “Decididamente que me movem as saudades. As saudades e a nostalgia da ilha perdida sem remédio”. É-nos ou não possível regressar a casa, ou será a escrita a única maneira de reconstruir e, por esse meio, redimir todo um passado?

VPC – A escrita é, sempre, uma reinvenção do real, e tenta instaurar um outro real, porventura mais verdadeiro. O regresso a casa pela escrita pode redimir. Poderá redimir. Mas não busca a redenção – de nenhum cariz: porque o texto literário intenta viver pelos seus próprios meios, bem longe do seu organizador. Donde se, por um lado, pode conduzir a uma purga da saudade, pode, por outro lado, e com a mesma legitimidade propor a opostasia (terrunha, neste caso). É lugar comum classificar o texto literário de plurissignificativo. Ora, as leituras é que serão diferentes, e os reconhecedores (indispensáveis) do escrito a que lhe atribuirão significações diversificadas.

Na nossa civilização, Ulisses é um paradigma, e a nostalgia dos ventres – materno e geográfico – está, desde o sacrossanto Freud, mitificada. O que não quererá propriamente significar, contudo, que sejam estas as únicas vias de exploração ideológica por banda daquele que escreve e por banda daquele que lê. Os cortes voluntários e voluntariosos dos cordões placentários são também actos sublimes de agónicos, reveladores de capacidades de rebeldia. Ousar ser – independentemente das heranças genéticas e das fatalidades geográficas – é a suprema ambição – fundamentante – das criaturas.

Ilhíada, o teu livro de poemas, para voltar às questões iniciais desta nossa conversa, reforça a ideia de que o retorno só é possível à distância. “De longe a tenho mais fiel/a ilha/Assim retorno.” Como a sentes nesse retorno?

VPC – Isso disse o Anti-Ulisses. É a ele (a ti…) que deves pedir explicações. Penso que nada mais ele poderia adiantar, porque o que tinha a dizer ficou escrito nesse poema.

– Também regressas aos Açores com frequência. Como vês a caminhada actual do arquipélago, em termos culturais e sociais? (Digo sociais, porque em quase toda a tua escrita existe uma forte condenação das estruturas sobre que assentava a sociedade de um passado recente).

VPC – quando volto aos Açores, é sempre fugazmente, e não tenho opiniões fundamentadas sobre a realidade social do arquipélago. As conversas que lá tenho e as notícias que de lá chegam ainda não desmentiram, porém, a diversidade das ilhas. Afirmou alguém, no século passado, com muita perspicácia, que os Açores são nove estados. Não houve, até agora, quaisquer desmentidos. Nem oficiosos nem oficiais.

– Quem, de entre os teus conterrâneos, mais lês?

VPC – Preferia citar autores que leio com gosto: Camões, Dante, Homero, Manuel Alegre, João de Melo, Cardoso Pires, Emanuel Félix, Nemésio, Boccacio, Eça, António Nobre, Collodi, Marguerite Yourcenar, Carson McCullers, Tolstoi, Torga, Garcia Marquez, Camilo José Cela, Bernanos…

Todos eles meus contemporâneos e meus conterrâneos. Poderá parecer-te presunçosa a resposta, mas corresponde ao meu entendimento da literatura.

– Martins Garcia afirmou um dia que a sociedade açoriana lê pouco e parece não estar muito predisposta para se ver ficcionada. Neste caso para quem escreves?

VPC – Não sei o que se passa nos Açores no que respeita a índices de leitura. Sei, contudo, pelos registos de vendas, que sou mais lido em Coimbra do que em Ponta Delgada, por exemplo. O que não admira: Coimbra tem mais gente… Agora, para quem escrevo…? Sei lá para quem escrevo…

– Criticas com frequência, o establishment literário lisboeta. Achas que vale a pena a vossa contínua tentativa de se explicarem e serem reconhecidos no continente?

VPC – Meu caro Vamberto, o país ainda é Lisboa. E não será por mera teimosia política que estão a entravar a efectivação da regionalização. Em Lisboa, está tudo: desde São Bento até às Amoreiras. Não vejo, pois, que, no domínio da literatura, pudesse haver um outro entendimento, o da descentralização.

O que está por demonstrar é se Lisboa é, realmente, o país ou se tratará de um cenário dos Universal Studios, preparado, – só com fachadas – para uma superprodução nacional.

Aqui há meses, Sophia de Mello Breyner estabelecia três fases da nossa literatura: a dos autores, a dos leitores e, na actualidade, a dos editores. Com efeito, impor um livro é, hoje, uma questão de marketing.

__________

Vasco Pereira da Costa, Ilhíada: antes e depois (poesia 1972-2012), Vila Nova de Gaia, Calensário das Letras, 2012.

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