Memória do tempo: conversa com Onésimo T. Almeida sobre açorianidade e literatura

FOTO On+¬simo T. AlmeidaNesses anos, a estética havia cedido em abosluto o passo à política, que açambarcara, por seu turno, a totalidade da vida.
Onésimo Teotónio Almeida, A Questão da Literatura Açoriana.

 /Vamberto Freitas

 Revisita-se, aqui, uma vez mais, esta questão da “açorianidade” e o seu reflexo nas obras literárias criadas por ilhéus, dentro e fora do arquipélago. São repassados, também, determinados argumentos, assim como se responde a alguns dos outros intervenientes actuais nesse aceso debate.

Estes fragmentos foram tirados da  longa entrevista que fiz a Onésimo T. Almeida, e vem na sequência das que tenho (re)apresentado nesta pagina, todas elas feitas a meados dos anos 80, quando estas questões despertaram um vivo e constante debate entre alguns dos mais conhecidos escritores açorianos da nossa geração. O livro mais recente do autor intitula-se Quando os Bobos Uivam: Fogo, espionagem e outros mistérios q. b., que será apresentado aqui em Ponta Delgada no dia 25 de Julho.

***

– A sua colectânea A Questão da Literatura Açoriana junta as principais intervenções das pessoas que tentaram responder à pergunta se existe ou não uma “literatura açoriana”. A que primeira(s) conclusão(ões) poderá chegar um leitor após a leitura de uns e outros?

Onésimo Almeida – A primeira conclusão é de La Palice: que o assunto é, no mínimo, susceptível de discussão. O que significa que não é possível uma resposta peremptória pela negativa. Há demasiado fumo para que se negue, de mão leve, haver algum fogo.

Mas creio que, para além disso, é possível a um leitor atento, mas também informado sobre a história da cultura açoriana (e da sua literatura em particular), começarem a surgir-lhe ideias claras sobretudo com as achegas de alguns intervenientes mais analíticos e menos dogmáticos.

Mas o volume não se fica por aí. Eu próprio procuro revisitar a questão tentando pôr em ordem argumentos pró e contra e avaliar-lhes o peso. Naturalmente que é um pouco presunçoso da minha parte vir falar nestes termos, mas o facto é nessa, como em tantas outras questões da história da cultura portuguesa, defendem-se e atacam-se pontos de vista com tiradas violentas, mais ou menos retóricas, mas raramente se agarra a questão a sangue frio, se analisa pormenorizadamente o que está em causa e se desenvolvem os argumentos. Tentei fazer isso. E ainda hoje estou à espera de alguém que venha responder aos argumentos que expus para defender a legitimidade do uso da expressão “literatura açoriana” no sentido em que expliquei poder e dever usar-se.

– João Gaspar Simões afirma num dos seus textos inseridos nesse livro que Vitorino Nemésio abriu caminho à “açorianidade”, em termos literários, com o Paço do Milhafre e o aprofundou em Mau Tempo no Canal. Mas Nemésio nunca poderá deixar de ser um grande escritor português. Cristóvão de Aguiar, um dos mais lidos e respeitados continuadores da tradição literária nemesiana, diz que apenas haverá uma escrita portuguesa de “expressão açoriana”, mas nunca uma literatura autónoma da mãe-pátria. Pedro da Silveira, por sua vez, declara no seu prefácio à Antologia de Poesia Açoriana (1977) que toda a escrita significativa das ilhas constitui uma espécie de declaração de independência literária. Onde ficamos? Que motiva, no fundo, todo este debate durante os primeiros anos?

AO – Aí estão três pontos de vista bem representativos. Infelizmente, Pedro da Silveira e Cristóvão de Aguiar fazem apenas afirmações e, sobretudo o segundo, não desenvolvem argumentos. Na sua introdução à referida Antologia, Pedro da Silveira não apresenta nunca os critérios que subjazem às suas conclusões, embora se possam depreender alguns deles da grande quantidade de informação que ele fornece ao leitor.

O caso de J. Gaspar Simões é diferente. Ele aduz algumas razões, mas elas nem sempre são boas. Por outro lado, ele desconhece a tradição literária açoriana e conhece apenas o que chega ao continente e, como ele próprio confessa muitas vezes, o que enviam. Não vou repetir aqui os argumentos que elaborei no livro. Direi apenas que o facto de se falar de “literatura açoriana” não significa que estejamos em presença de uma literatura autónoma, ou muito menos independente. A literatura açoriana não é independente da portuguesa, uma vez que ela se desenvolve dentro das linhas fundamentais desta. Nem é autónoma porque os elementos próprios que ela contém não são suficientes para se falar de autonomia. Mas são suficientes para se falar de uma literatura simplesmente, com a sua história e tradição dentro da portuguesa. É possível, numa perspectiva global, incorporá-la na literatura portuguesa. Mas é também possível, de uma perspectiva particular, fazer um zoom sobre esse mundo específico dos Açores e detectar aí as coordenadas de uma expressão literária muito rica, caso único na história literária no Continente, Açores e Madeira. Quer um exemplo da astronomia? A lua é um satélite que gira à volta da terra, mas tem o seu movimento próprio. Com a diferença que na literatura açoriana haver muito mais vida do que na superfície da lua. E não só anticiclones. É assim que Nemésio ou Roberto de Mesquita tanto podem ser encarados como escritores portugueses, inseridos na tradição portuguesa, como podem ser vistos como pertencentes à tradição literária açoriana. Essas ópticas não se excluem. Completam-se. O próprio Nemésio viu-se assim. Naturalmente que na literatura açoriana há muitas obras que, no contexto nacional, têm pouco ou pouquíssimo relevo, mas que no contexto açoriano possuem uma dimensão maior (…)

– Visto que a maior parte dos académicos e intelectuais açorianos que periodicamente reacendem esta fogueira literária estão ausentes da região não haverá entre eles um certo estado de espírito que os leva a apaixonarem-se por uma questão que por outros poderia ser considerada trivial?

AO – Só actualmente é que uma grande parte de intervenientes vive fora do arquipélago. Até ao principio dos anos 70 praticamente só Nemésio estava fora. Pedro da Silveira também, mas ele entrou na liça a sério quando ainda estava nos Açores.

De facto muita gente considerará trivial esta questão. Mas a história da cultura portuguesa está cheia de questões tão ou mais trivial que esta.

Devo dizer, porém, que a culpa é de quem nega a existência dessa literatura. Fá-lo sobretudo pela ignorância do elenco. Não sabe do que se trata. Conhece pouco ou nada.

Mas isso é só uma questão de tempo e hábito. O sentido das palavras vem com o uso (e não fui eu quem descobriu esta grande verdade!). Aos poucos, as pessoas habituar-se-ão a ouvir falar de “literatura açoriana” sem os cabelos se lhes porem em pé. Saberão que se trata de uma tradição literária interessantíssima e valiosa dentro da história da literatura portuguesa.

Nos Estados Unidos, além da Brown University, que tem essa cadeira no “Course Announcement”, obras da literatura açoriana são ou foram já estudadas como tal em cadeiras da Universidade de Rhode Island, na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (curso de verão) e na San José Stade University (Califórnia), isto é, em universidades onde há estudantes de ascendência açoriana. A tradição americana é muito menos centralista do que a portuguesa e aceita perfeitamente que grupos culturais se debrucem sobre o seu passado específico como fonte de enriquecimento pessoal. Mas até mesmo a própria Universidade dos Açores hoje já se libertou do receio de Lisboa olhar com sobranceria e desdém o ensinar-se uma cadeira de Literatura Açoriana naquela universidade. J. Martins Garcia, ele próprio romancista, poeta e ensaísta – tanto da literatura açoriana como da portuguesa – lecciona essa cadeira. Mas Eduíno de Jesus ou João de Melo poderiam igualmente ir lá ensiná-la. Como podem fazê-lo em qualquer lugar do Continente que queira reconhecer a descentralização cultural e estudar mais e melhor as suas regiões. Uma última palavra sobre esta entrevista: que ela sirva para levar as pessoas interessadas a debruçarem-se um pouco mais sobre o assunto. Os argumentos aqui foram apresentados muito superficialmente. E referi apenas alguns. Mas mais importante do que tudo seria interessar-se os leitores na produção literária açoriana. (A propósito e a concluir: onde é que há por esse país uma revista de letras e artes regional (diferente de “regionalista”) como a Atlântida (nova série)? Vejam e depois venham dizer-me que se não deve falar de “literatura açoriana” porque isso implicaria o direito de se falar de “literatura minhota” e “literatura algarvia”!

__________

Onésimo Teotónio Almeida, A Questão da Literatura Açoriana, Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Coleccção Gaivota, 1983.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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