Quando os bobos uivam, ou o surrealismo vivido

On+¬simo T. AlmeidaA arte, muitas vezes, não vai além de uma pálida imagem do que a vida é capaz de inventar.
Onésimo Teotónio Almeida, Quando os bobos uivam

/Vamberto Freitas

Perguntaram um dia a Philip Roth, um dos grandes senhores da literatura norte-americana, e que situa a maior parte da sua obra ficcional na sua cidade de nascença e infância, Newark, New Jersey, ali ao lado de Nova Iorque, como é que um escritor conseguia inventar “realidades” inesperadas nos nossos dias depois de ler as primeiras páginas dos jornais diários. A resposta foi que já era impossível. Tenho para mim que isso foi uma das mais precoces constatações de Roth, e que o faria virar-se constantemente para a experiência imigrante dos seus antepassados judeus, assim como para as vidas reinventadas dos seus descendentes na tentativa de encontrar uma vida qualquer na mesma sociedade, o interiorismo abalado de cada personagem em contraponto à não menos abalada e estranha vida quotidiana, ou cada um deles a braços com desejos inconfessáveis e transgressores numa sociedade indefinida ou em ebulição perpétua. Quando acabei de ler as duas primeiras narrativas de Quando os bobos uivam: Fogo, espionagem e outros mistério q. b., Onésimo Teotónio Almeida não só estava ou continuava no seu melhor num outro género de escrita muito seu, a crónica entre a realidade e a ficção, como se aproximava cada vez mais intimamente dos seus leitores. A linguagem directa e escorreita não é novidade alguma na sua escrita, mas é-o o seu diálogo em formas tão directas e dialogantes com os seus leitores, assim como com as suas próprias personagens, em certos casos ele próprio pessoanamente, por assim dizer, desdobrado em narrador e sujeito da mesma narrativa.

O presente livro está escrito em forma de diário, mas é muito, muito mais do que isso, as quatro grandes narrativas de Quando os bobos uivam mais parecem um romance surrealista escrito em linguagem de aparência realista espartilhada ou fragmentada da nossa modernidade, em que as aventuras do seu protagonista vão desde a América à China, naturalmente passando por Portugal, especialmente pelos Açores, a voz do narrador, os seus encontros e as suas reacções a tudo e todos, dando a unidade essencial às estórias, as fatias-de-vida tão caracterizantes dos seus melhores contos, levando, sempre, o leitor às mais diversas e distantes geografias. Deve ler-se Quando os bobos uivam em sequência, como, uma vez mais, se de um romance se tratasse, uma narrativa preparando a outra que se segue, a credibilidade do narrador aumentando no percurso destas estranhas viagens entre  os mais estranhos personagens.  A primeira secção do livro intitula-se “O Ja…To (Ou There She Blows)” e está alicerçada no grande Moby Dick de Herman Melville, também como que a dizer: há lutas ou obsessões mais do que irracionais, pois ninguém pode fugir à estranheza da sua existência, a eventos que, depois de imaginados por Melville, só um Kafka retomaria a meados do século passado; a última parte trata de uma viagem à China nos idos de 80, “Forjão-Mentes-Me-Sinto”. O leitor não tem nada de saber se estas estórias aconteceram ou não de verdade – reproduzem em pleno o efeito da melhor ficção, exigem dos leitores mais sofisticados o que em inglês se chama “the suspension of belief”, ou seja, a suspensão da credulidade para se chegar à verdade profunda da ficção ou da arte em geral. Na primeira narrativa o protagonista conta as peripécias da Presidência Aberta de Mário Soares nos Açores, com nomes próprios e tudo, do autor e de algumas personagens bem conhecidas do nosso mundo político e literário, mas a grande surpresa fica guardada para as últimas páginas deste episódio hilariante: a suspeita de que o narrador tem algo a ver com o incêndio da Reitoria da Universidade dos Açores, e sua interrogação pela Polícia Judiciária. Não sabemos do que mais rir ou ter medo: se da suspeita em si própria, se das circunstâncias que levam a essa suspeita, se do agente policial que, mais do que fazer perguntas, enceta uma conversa amigável e de admiração com o seu interlocutor cuja vivência flutua entre uma grande universidade americana e Portugal, principalmente, uma vez mais, os Açores. A última narrativa leva-nos, como já aqui foi dito, à China no começo da sua abertura ao mundo através do capitalismo singular que hoje conhecemos, ou pensamos que conhecemos. De novo, o leitor vai ser surpreendido com a sorte do narrador: circulam boatos de que a sua ascensão na universidade onde lecciona e viria ascender a Professor Catedrático deve-se à sua “espionagem” ao serviço do seu país de adopção. Para um autor com a estatura de Onésimo Teotónio Almeida a plausibilidade de tudo isto não interessa – não é ele que provoca estas situações e suspeições, é, sim, o mundo surrealista em que vivemos e em que já nada é o que deveria ser, mas sim o que parece. Como numa página de Kafka, repita-se, podem bater à nossa porta a qualquer instante e pedir explicações sobre o inexplicável. Com uma grande diferença nestas páginas: o riso redentor domina o leitor, o riso redentor só por si traz credibilidade a quem tenta escapar-se destas teias urdidas à revelia do nosso real quotidiano e afazeres. Como num bom romance policial, o narrador vai dialogando em directo e como que pedindo ao leitor certa paciência até que se chegue a uma conclusão, quase sempre ainda mais surpreendente do que supúnhamos. Eis aí a arte tornando-se “uma pálida imagem do que a vida é capaz de inventar”, eis aí a razão de Philip Roth remetendo-nos para as primeiras páginas dos jornais se queremos ver como a realidade supera de longe qualquer ficção modernista.

“Há um incêndio na universidade – diz o narrador ao ser intimado a aparecer na polícia mais temida do nosso país – e a Judiciária não encontra pistas nenhumas… vasculha os cantos escuros, cerrados, opacos da ilha e nada encontra. A comunicação social aperta, exige um nome, um grupo, uma cabeça a rolar, para que isto não redunde em nada. Então a Judiciária lembra-se: E porque não agarrar este gajo?!”

“Este gajo” viria a ser o autor deste livro – como a Judiciária chega a ele é uma comédia de suposições sem igual entre nós, vale por si só todo o Quando os bobos uivam. Devo adicionar que este é um livro de outras surpresas da realidade sobrepondo-se à invenção literária pura. Uma das suas grandes originalidades está no questionamento sistemático, nas quatro narrativas, sobre a teoria da arte literária, especialmente no capítulo intitulado “Jean Charles, Amor de Calções”, uma troca de emails entre um narrador de nome Alberto, que sabemos muito bem quem é, e um orientando holandês de doutoramento a estudar em Londres e a trabalhar numa tese sobre o conto moderno português. A sua estrutura, a troca de correpondência elctrónica entre os dois, aparenta simplicidade, mas por dentro da prosa estão as próprias respostas ao conteúdo surrealista de Quando os bobos uivam. A saber: O orientador vai avisando o seu orientando da necessidade de concluir a tese, aconselhando-o que se deixe de exageros ou obsessões de cariz teórico e entre decididamente no que interessa, ou deve interessar numa narrativa, mesmo académica: o conteúdo que enforma qualquer pedaço de prosa criativa e as suas múltiplas significações. Como exemplo da essencialidade da unidade num conto, das suas características formais e criação de tramas e personagens com vida interior, vai relatando os dizeres e comportamentos de um filho em sua casa, vai reproduzindo as suas conversas e respostas marcantes aos adultos, demonstrando assim que não pode ser de palavras soltas, por mais inteligentes que sejam numa determinada situaçãos, ou de episódios desconexos, que se faz uma obra de ficção. Causa e efeito têm de estar presentes, surpresa e comportamentos inesperados fazem parte da lógica  de uma estória, tornam a mais inimaginável das “realidades” ficcionais pelo menos plausíveis adentro da experiência humana. A viragem irónica destas páginas é que enquanto o narrador adverte o seu orientando tantas vezes distraído do trabalho entre mãos, o que nos parece de facto uma mescla de dizeres e actuações por parte do miúdo que nos ficheiros tem o nome de Jean Charles são precisamente o conteúdo de uma estória com princípio, meio e fim.

Pelo que me leva, finalizando aqui, à minha própria conclusão após a leitura deste Quando os bobos uivam: quando Onésimo Teotónio Almeida me voltar a dizer que não é crítico literário, vou simplesmente sorrir, e dizer-lhe: sure, Professor, e acha que eu sou um dos seus bobos?

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Onésimo Teotónio Almeida, Quando os bobos uivam: Fogo, espionagem e outros mistérios q. b., Lisboa, Clube do Autor, SA, 2013.

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