Açorianidade, ou crónica da saudade

/Vamberto Freitas

CAPA Azorean Spirit

Quando me pedem para escrever sobre os Açores, sobre açorianidade, mil mundos entram de imediato nos meus pensamentos. Já vivi continentes como se ilhas fossem, tal como sempre vivi ilhas  como se continentes imensos fossem. Nenhum homem é uma ilha? Ou, pelo contrário, todos nós somos ilhas? Nós somos a geografia sem mapa. Ser açoriano foi sempre estar presente e ausente de nós próprios e dos nossos. Vitorino Nemésio, que cunhou o termo, disse que esse sentimento muito seu se tinha exacerbado quando da Terceira partiu jovem para ir estudar em Coimbra, era a saudade da ilha-concha, dos que tinham ficado. Na ilha, o sentimento é a saudade não das terras distantes, mas dos nossos que as ocupam um pouco por toda a parte. Daqui, seremos sempre de lá também. A açorianidade nada tem a ver com fronteiras ou passaportes – tem a ver com os que connosco partilham o destino de uma vida em perpétua busca do pão e de realização, o sonho em viagem sem fim. Levamos as ilhas dentro de nós, e cá para dentro trazemos o mundo inteiro. Tempo houve em que eu, como jovem universitário algures no sul da Califórnia, olhava para o meu antigo BI e já não me reconhecia como aquela pessoa daquele lugar a meio mar. O meu mundo era já doutro reino. Só que somos quem somos, muito para além de um pequeno livrete que supostamente nos legitima como pessoa ou cidadão. Um dos sentimentos mais fortes por essa altura era uma indefinida incompletude – tinha muito mas faltava o resto de mim, a  alma a pedir o regresso à essência do meu ser. Ninguém define o que quer ser ou quem é  – o cordão ancestral tem a força das nossas raízes, não nos deixa secar mesmo em terra alheia, mesmo que por um tempo sejamos estranhos em terra estranha, como se diz na literatura. Quando menos esperava, tinha de me meter no meu carro e durante três horas e meia e a alta velocidade, de noite, de madrugada ou de dia, serpentear a mítica 99 em direção aos meus no Vale de São Joaquim. Chegava a casa, a ilha de novo em mim – a mesa posta, a fala dos meus pais e parentes, o cheiro aos Açores, a certeza de que me encontrava entre os que me amavam e me amam. Nemésio tocava a sua viola na Praia ou montava um cavalo no Porto Martins. Eu, na América profunda rodeada de serras e campos, procurava os salões onde velhos e novos patrícios batiam a mão na mesa num jogo de sueca, engoliam um vinho, puxavam dum cigarro, e, quando finalmente me topavam ao lado, diziam simplesmente “Olha o Vamberto”. O conforto desse reconhecimento íntimo era o meu alimento para mais uns meses sem a minha gente, sem a sua fala, sem o cheiro das ilhas na cozinha da minha mãe, era a reconfirmação de que eu pertencia a uma comunidade de longa memória, era a reconfirmação do meu próprio ser. Poderia depois voltar aos outros mundos e pensar-me cosmopolita, seja lá isso o que for. Hoje, em casa nas ilhas, permanece a saudade e a incompletude. A geografia, sim, somos nós, e na sua infinita extensão residem todos os que nos pertencem e a quem pertencemos. Ou, como dizia Jorge de Sena, que disto sabia muito, eu sou a minha própria pátria – e dentro dela tenho todo o mundo açoriano.

___________
Publicado na revista da SATA  Azorean Spirit. Edição de Junho-Agosto de 2013.

Anúncios