Entre Portugal e a América

 ...Agora aos 61 anos de idade, descobri que uma das coisas que mais me satisfaz é o sentido de continuidade na minha vida.

Edmund Wilson,  A Piece Of My Mind: Reflections at Sixty

 /Vamberto Freitas

 Pedro da Silveira (2)É certo que já tenho mais um ano de idade do que tinha Edmund Wilson, o grande senhor do ensaísmo literário americano durante boa parte do século passado, quando escreveu o que aqui vai em epígrafe. Mais certo ainda tem sido o outro lado, a “descontinuidade”, pessoal e colectiva, na minha vida e nas vidas dos meus patrícios, até ao presente. Nascer numa pequena freguesia rural na Ilha Terceira logo no início dos anos 50, os nossos anos negros, e quando a noção de “futuro” era ainda mais negra do que é hoje, implicava desde logo uma outra saída: a emigração para os Estados Unidos, no meu caso para a Califórnia, onde já residia em conforto e certeza boa parate da minha família. O mítico Vale de São Joaquim, no interior do estado, foi desde sempre uma outra “pátria” nossa: não falávamos a sua língua mas partilhavamos o seu sonho, que era essencialmente viver em liberdade e prosperidade, olhando sempre em frente como se o limite das fronteiras mais ocidentais da nossa civilização fosse apenas metafórico. Cheguei lá com 13 anos de idade, e um completo de liceu em Angra do Heroísmo, já suficientemente “socializado” e imbuído de portuguesismo para que nunca mais deixasse de pensar nas minhas origens, para que nunca mais deixasse de sentir a força e saudade das minhas raízes atlânticas, a então inocência ideológica não permitindo as raivas de muitos compatriotas meus que passaram também a pertencer ao meu mundo à beira do Pacífico, ou entre este e a Serra de Nevada, e mais tarde entre as montanhas de Los Angeles e o deserto de Mojave. Não havia ilhas como as nossas, mas era em “ilhas” que continuávamos a viver – as comunidades lusas eram quase auto-sustentáveis, eram as nossas fortalezas contra os mundos que víamos no outro lado mas não conhecíamos, eram a nossa “continuidade” possível na “descontinuidade” nesse outro lado do mar e de um continente imenso. O “cheiro da América” que outrora nos chegava às ilhas em sacas de roupa e nos despertava ainda mais a vontade da partida era agora toda uma geografia que habitávamos, era agora o pão e o sonho revelados por entre o trabalho insano dos nossos pais, que poderia chegar a catorze horas diárias numa qualquer vacaria industrial pertencente a alguns outros que nos haviam precedido na sua peregrinação umas décadas antes. O dia que eu disse a meu pai que iria também seguir os seus passos no trabalho e na vida, tudo mudou para mim. Olhou-me fixamente, correu os dedos labirinticamente por cima da mesa, e simplesmente me disse – não foi para isto que eu emigrei, não foi para isto que deixámos a nossa terra para sempre, não foi para isto que sacrifiquei toda a minha vida na nossa terra. Em pouco tempo retomaria eu o rumo inciado em Angra do Heroísmo, e inscrevia-me numa faculdade da região. Mais do que outra motivação pessoal inicial, era o meu modo de o homenagear, de não contribuir ainda mais para as suas dúvidas e infelicidades “americanas”.

Era o tempo, a meados dos anos 60, quando The Doors poetizavam e cantavam  paradigmaticamente “People are strange” e “Break on through to the other side”. Um açoriano numa faculdade californiana era mais raro do que, parafraseando um colega meu da diáspora, ver um eskimó a comprar um frigorífico nas terras do norte. A “continuidade” da minha vida esteve sempre a meu favor –  mal chagado à California State University, Fullerton, conheci de imediato aquela que viria a ser a minha grande professora e depois a minha grande amiga, Nancy T. Baden, americana de gema que tinha vivido com os seus pais alguns anos no Brasil, e se especializara na obra de Jorge Amado, no Departamento de Línguas Estrangeiras. Escolhi logo os Estudos Latino-Americanos, com ênfase curricular em literatura e cultura brasileiras, o portugûes a meu favor mesmo na distância da Grande Los Angles e de Orange County.

Por essa altura eu já olhava para o meu BI português como quem olha para um ser estranho mas vagamente familiar, longe de e indiferente às minhas origens, agora politizado à esquerda e preferindo nem me lembrar de um Portugal em guerra colonialista, de um Portugal miserável em tudo menos no seu passado e cultura. O dia 25 de Abril mudaria para sempre a minha vida. Quando olhei na manhã seguinte a primeira página do Los Angeles Times, sentado numa cadeira de um autocarro a caminho da minha universidade, e vi um militar de monóculo, que me parecia saído de um filme de Hollywood, sob o título de “Coup d’état in Portugal”, permaneci em silêncio absoluto durante todo o percurso, lendo parágrafos salteados, o texto tão surrealista como alguns dos escritores europeus que eu então já lia. Nada seria o mesmo, nunca mais. Sem eu me dar conta do meu próprio abalo interior com acontecimentos tão inesperados e a grande distância de mim no tempo e na mente, o meu país devolvia-me a mim próprio. Dali a pouco eu adiava – para sempre – um doutoramento na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e dedicava-me a tudo que tivesse a ver com a nossa existência comunitária nos Estados Unidos, queria, juntamente com poucos outros, devolver à nossa gente a dignidade nacional que lhe havia sido negada durante muitas décadas. Fazíamos programas de rádio, escrevíamos nos jornais da nossa imigração, reencetávamos contactos em toda a parte, especialmente com os que tinham aguentado tudo cá dentro, com tantos sacríficios, a pátria agora  a caminho da sua liberdade, e, sim, da sua prosperidade, a diáspora passando a ser a sua extensão literalmente universalista, o Portugal sem fronteiras. Em 1979, Mário Mesquita lançava-me outro desafio, que era ser um dos correspondentes do Diário de Notícias nos EUA, o que aceitei durante mais de uma década. Depressa abririam-me também o então suplemento Cultura, e passei a escrever sistematicamente sobre literatura norte-americana, e mais tarde sobre a literatura açoriana, à volta da qual se tinha iniciado, com Onésimo T. Almeida e outros escritores residentes dentro e fora do arquipélago, um vivo debate sobre a sua estética, e sobre as implicações políticas da sua “autonomização” ante a literatura portuguesa contemporânea no seu todo. Viria a tirar desses ensaios e entrevistas, em 1992, o meu O Imaginário dos Escritores Açorianos, cuja segunda edição lancei recentemente. O meu regresso iniciara-se, uma vida totalmente inesperada foi-me oferecida pelos grandes acontecimentos que raramente um cidadão pensa mexerem com ele, muito menos com o seu destino.

Em 1991 regressaria definitivamente, por razões mais pessoais do que profissionais, ao nosso país, que afinal sempre havia sido generoso para comigo. A ilha de São Miguel passou a ser um outro lugar das minhas memórias e dos meus afectos. A América, onde vivi durante 27 anos, já fazia e fará naturalmente sempre parte de mim, deu-me a formação e a tal crença no futuro que me permitiria ingressar como docente na Universidade dos Açores. Continuei e continuo a escrever e a publicar sobre os temas que sempre me “comoveram”, essencialmente a literatura contemporânea que transfigura, que memorializa a nossa experiência como portugueses andarilhos, como construtores de outros e mais vastos mundos, a um tempo nossos e dos  outros, especialmente desde a América do Norte ao Brasil, tanto em língua portuguesa como na língua inglesa. Toda uma geração de escritores luso-descendentes começa já a ser conhecida por muitos leitores no nosso país. São eles que nos vão permitir a “continuidade” das nossas vidas no além-fronteiras, o melhor da nossa História, muito além das presentes atribulações, ou como eles próprios diriam, “troubles”.

Um regime poderá cair, mas um povo – nunca. Foram estas as certezas colectivas que me permitiram viver e refazer a minha vida. O olhar triste de um pai, também. O dia que eu lhe disse que ia regressar aos Açores definitivamente e em condições seguras, deu-me o seu maior sorriso de sempre, transmitiu-me sem palavras a sua alegria, a alegria da minha vida. Um ciclo de vida completava-se, iniciava agora outro.

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Publicado originalmente e em forma ligeiramente diferente no JL, de Lisboa, na edição de 24 de Julho-6 de Agosto de 2013, como texto autobiográfico.

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