Uma Cidade na Colina: literatura e memória

Nas margens do rio Quequechan, empreendedores autónomos fizeram nascer o que poderia vir a ser a mais destrutiva e violenta fronteira do capitalismo industrial.

Joseph A. Conforti, Another City Upon A Hill

/Vamberto Freitas

Capa Another City Upon a HillO rio com o nome nativo-americano mencionado na epígrafe aqui, Quequechan, traduz como “queda d’água”, que para nós açorianos, particularmente os da ilha de São Miguel, deveria ser, por certo, uma palavra dos nossos maiores afectos geográficos transfronteiriços. Foi a partir desta palavra que se deu o nome a uma das cidades norte-americanas mais intimamente associadas à nossa própria história: Fall River, no estado de Massachusetts, para onde desde meados do século XIX emigraram milhares de ilhéus, estabelecendo assim uma das nossas mais populosas comunidades no além-fronteiras norte-americano, e onde a nossa experiência “industrial” foi a que levaria revolucionários daquela época noutras partes a contestar e a combater o capitalismo industrial então nascente – injusto e violento nas suas primeiras fases, eclipsado e mais ou menos humanizado nas décadas seguintes. Nenhuma outra comunidade açoriana teria exactamente a mesma experiência citadina, nenhuma outra comunidade açoriana naquele continente enfrentaria do mesmo modo a existência em verdadeiros ghettos com a sua dignidade muito própria, mas acima de tudo sofrendo a discriminação e difamação dos grupos dominantes que se apoderaram, por razões históricas e linguísticas que aqui não cabe explicar, do poder local cívico, económico e intelectual, por assim dizer – irlandeses, francófonos canadianos, italianos, portugueses e polacos, nesta ordem decrescente de domínio e influência. Tudo isto foi e é verdade, mas também hoje Fall River já ostenta numa das suas praças uma réplica das Portas da Cidade de Ponta Delgada, e a influência cívica açor-americana deu gigantescos passos em frente (com presidentes da câmara e vereadores eleitos), inclusive vozes intelectuais como a do autor do livro aqui em causa, e ainda a do jovem poeta Carlo Matos e a do historiador do cinema hollywoodesco Stephen Rebello, Ernest Moniz, Professor de Física Nuclear na MIT e hoje Ministro da Energia no Governo Obama, entre outros, como o Cardeal Humberto Medeiros, todos eles agora ou durante a sua vida assumindo a sua ancestralidade, inteira ou parcial, açoriana. Numa “cidade sobre a colina”, e ainda por cima inserida numa tradição e crença da sua própria “luminosidade” e “bondade” bíblica, ninguém fica no sopé para sempre, Sísifo insistindo eternamente na subida ao topo carregando o peso do mundo e do destino.

Vem tudo isto a propósito da recente autobiografia-memórias do historiador Joseph A. Conforti, Another City Upon A Hill: A New England Memoir, que nos traz dos anos 50 até ao presente, todo ele referenciado em sucessivas etapas históricas da fundação de Fall River, e da sua conhecida indústria téxtil nos primórdios do capitalismo americano, etnicidade e estatuto hierárquico cívico de cada grupo pormenorizadamente referido numa contextualização o mais abrangente possível. Joseph A. Conforti é descendente de avós paternos italianos oriundos da Calábria e de avós micaelenses da Povoação (os Bento), tendo estes emigrado numa escala social que era pouco habitual nessa época, detentores de casa e terras na sua ilha e com alguma pretensão patrícia, digamos assim, o que se viria a reflectir na educação e auto-imagem do autor aqui em foco. Doutorado pela prestigiada Brown University e depois Professor Catedrático (actualmente aposentado) na University of Southern Maine, a sua é a clássica história americana, neste caso não necessariamente de  “from rags to riches”, mas sim de um rapaz de duas etnias (marginalizadas, e mesmo assim antagónicas naquela geografia e cultura muito próprias) na sua ascensão e libertação de um passado familiar da classe média minimamente remediada ao seu lugar cimeiro na academia norte-americana. Especialista em História e Estudos da Nova Inglaterra, antes do presente volume já tinha publicado outros livros, incluindo Saints and Strangers: New England in British North America eImagining New England: Explorations of Regional Identity From the Pilgrims to the Mid-Twenthy Century, sendo este um dos seus livros mais “aclamados” pelos entendidos nesta mesma área. O autor foi ainda por algum tempo no início da sua carreira professor de uma escola Católica da sua cidade natal, e cujos alunos eram maioritariamente imigrantes ou luso-descendentes. Poucos, pois, estarão tão bem colocados para nos contar, como o faz agora  Conforti, a existência e caminhada étnica dos nossos descendentes naquele continente, e por uma perspectiva de etnicidade dupla, como já referi, e num lugar e num tempo em queetnicidade era tudo, como aliás adverte o autor ao longo do seu livro. Ter sido “Wop” e “Portugee” numa América antes da multiculturalidade a partir dos anos 60 não terá sido fácil na criação de uma auto-imagem, em conflito com a “imagem” que os outros quereriam impor, e impuseram, durante mais de um século.

Uma das facetas mais aliciantes da narrativa de Conforti é, para mim, precisamente, o seu lugar entre um pai (Ollie/Orlando) de descendência italiana e uma mãe (Agnes) de descendência açoriana, ambos a primeira geração nascida nos EUA. Por mais chegadas que fossem as duas culturas sul-europeias e latinas, a verdade é que Conforti viveu grande tensão entre um pai e uma mãe que raramente se valorizavam mutuamente, e isso enfaticamente no que diz respeito a atitudes de um ante o “grupo” do outro, numa persistente desconfiança de parte a parte, numa concorrência silenciosa portas adentro e portas afora, os dois Católicos mas indo a missas em igrejas fundadas e “pertencentes” ao seu grupo nacional. Filho de um pai que no meio da Grande Depressão dos anos 30 se estabelece humildemente como barbeiro, a profissão de uma vida inteira, o trabalho rudimentar e um quotidiano frágil defrontava-se numa vivência com uma mãe e uma tia (Titia) domésticas, os pequenos prazeres de uma outra espécie de proletariado comunitário a única alegria vivida numa rua ou num bairro à parte de todos os outros. As histórias do nosso sucesso comercial ou a outra escala estavam ainda a décadas de distância, mas a terceira geração cumpria a sua missão – demarcava-se, através da educação e do sonho e esforços individuais, do lugar e da crença que se havia nascido com um destino pre-determinado. Toda a história americana é feita destas batalhas, que são a subida à cidade prometida. Nas fotografias que Conforti seleccionou para ilustar esta sua narrativa vemos duas famílias remediadas, de expressão orgulhosa e seguras do seu lugar e passado. Nas suas existências ghettorizadas, passe a expressão, nunca houve, ao contrário das percepções comuns e sem quaisquer fundamentos científicos, a tentativa de segurar os filhos numa posição social marginalizada e agarrada ao trabalho opressivo de fábrica. A mínima indicação de qualquer filho dos Conforti que queria quebrar com o passado, recebia o apoio incondicional da família. É assim que o autor deste livro sobe lentamente, sem quaisquer apoios vindos de gente influente, até ao topo da sua carreira universitária, outros irmãos distinguindo-se noutras áreas técnicas que requerem igualmente estudo, treino e astúcia profissional. Alguns dos momentos mais irritantes em Another City Upon A Hill é a repetição da palavra “Portugee” em contraste com a terminologia que também denegria os italianos trabalhadores e honestos. Mas é o último parágrafo do livro que repõe ao autor a verdade da sua dualidade étnica, agora a saudade dos seus dois lados culturais e existenciais. No regresso de uma visita a Fall River depois de anos a norte, em Maine, o autor e a sua esposa Dorothy, ex-freira e também de descendência italiana, igualmente professora universitária, param numa padaria portuguesa para comprar massa sovada – era o que mais queriam os dois saborear, o que fizeram de imediato no seu carro, levando o resto para casa no frio do norte.

Fall River tornara-se irremediavelmente o seu torrão natal, o lugar dos seus afectos e das suas memórias, a geografia dos seus pais e de todo um passado que não deverá e nunca poderá ser reprimido. Another City Upon A Hill: A New England Memoir ergue-se como mais um riquíssimo contributo para a nossa história açor-americana. Se formos ver calmamente a produção literária actual desta nossa terceira geração, poucas outras etnias se poderão gabar de mais ou melhor. Afinal, do bairro humilde para o mundo está só um passo – que entre a nossa gente tem sido decisivo, firme.

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Joseph A. Conforti, Another City Upon A Hill: A New England Memoir, New England, Tagus Press at UMass Dartmouth, 2013.

Açorianidade, ou crónica da saudade

Estrangeiro aqui como em toda a parte… Fantasma a errar em salas de recordações.
Álavaro de Campos, “Lisbon Revisited”

/Vamberto Freitas

Imagem NYT Quando me pedem para escrever sobre os Açores, sobre açorianidade, mil mundos entram de imediato nos meus pensamentos. Já vivi continentes como se ilhas fossem, tal como sempre vivi ilhas como se continentes imensos fossem. Nenhum homem é uma ilha? Ou, pelo contrário, todos nós somos ilhas? Nós somos a geografia sem mapa. Ser açoriano foi sempre estar presente e ausente de nós próprios e dos nossos. Vitorino Nemésio, que cunhou o termo, disse que esse sentimento muito seu se tinha exacerbado quando da Terceira partiu jovem para ir estudar em Coimbra, era a saudade da ilha-concha, dos que tinham ficado. Na ilha, o sentimento é a saudade não das terras distantes, mas dos nossos que as ocupam um pouco por toda a parte. Daqui, seremos sempre de lá também. A açorianidade nada tem a ver com fronteiras ou passaportes – tem a ver com os que connosco partilham o destino de uma vida em perpétua busca do pão e de realização, o sonho em viagem sem fim. Levamos as ilhas dentro de nós, e cá para dentro trazemos o mundo inteiro. Tempo houve em que eu, como jovem universitário algures no sul da Califórnia, olhava para o meu antigo BI e já não me reconhecia como aquela pessoa daquele lugar a meio mar. O meu mundo era já doutro reino. Só que somos quem somos, muito para além de um pequeno livrete que supostamente nos legitima como pessoa ou cidadão. Um dos sentimentos mais fortes por essa altura era uma indefinida incompletude – tinha muito mas faltava o resto de mim, a alma a pedir o regresso à essência do meu ser. Ninguém define o que quer ser ou quem é – o cordão ancestral tem a força das nossas raízes, não nos deixa secar mesmo em terra alheia, mesmo que por um tempo sejamos estranhos em terra estranha, como se diz na literatura. Quando menos esperava, tinha de me meter no meu carro e durante três horas e meia e a alta velocidade, de noite, de madrugada ou de dia, serpentear a mítica 99 em direção aos meus no Vale de São Joaquim. Chegava a casa, a ilha de novo em mim – a mesa posta, a fala dos meus pais e parentes, o cheiro aos Açores, a certeza de que me encontrava entre os que me amavam e me amam. Nemésio tocava a sua viola na Praia ou montava um cavalo no Porto Martins. Eu, na América profunda rodeada de serras e campos, procurava os salões onde velhos e novos patrícios batiam a mão na mesa num jogo de sueca, engoliam um vinho, puxavam dum cigarro, e, quando finalmente me topavam ao lado, diziam simplesmente “Olha o Vamberto”. O conforto desse reconhecimento íntimo era o meu alimento para mais uns meses sem a minha gente, sem a sua fala, sem o cheiro das ilhas na cozinha da minha mãe, era a reconfirmação de que eu pertencia a uma comunidade de longa memória, era a reconfirmação do meu próprio ser. Poderia depois voltar aos outros mundos e pensar-me cosmopolita, seja lá isso o que for. Hoje, em casa nas ilhas, permanece a saudade e a incompletude. A geografia, sim, somos nós, e na sua infinita extensão residem todos os que nos pertencem e a quem pertencemos. Ou, como dizia Jorge de Sena, que disto sabia muito, eu sou eu mesmo a minha pátria – e dentro dela tenho todo o mundo açoriano.

II

Não fora agora a minha idade e as minhas circunstâncias de vida muito particulares, e mesmo já sem o cheiro da cozinha da minha mãe na Califórnia, eu navegaria outra vez. Regressei ao meu país porque estava convencido de que séculos desastrados de governança e injustiças de toda a natureza, perpetradas sempre por uma elite sem vergonha nem a mínima consciência cívica, tinham sido enterradas no fim do século XX pelos heróis que numa noite de Abril largaram de Santarém rumo a Lisboa. Nunca pensei que o contrato social entre cidadãos e o seu Estado poderia novamente ser subvertido conforme as vontades e a ideologia de uma nova geração formada e educada não se sabe bem aonde ou para quem. Não, não me considero um cidadão inteiramente livre em Portugal: sou, juntamente com milhões de conterrâneos meus, um mero sujeito a quem de um minuto para o outro se desfaz ou se destrói, se necessário for, para que se pague uma dívida feita por alguns dos maiores ladrões que democraticamente usurparam o Poder para proveito próprio, e depois ordenando o resto da nação a pagar a “credores” que, eufemisticamente, também são chamados de “parceiros” num super bloco imperial que se considera uma “união” “europeia”. Sim, eu sou açoriano – e por isso mesmo desde sempre subjugado a forças alheias que historicamente determinaram a sorte e o rumo da nossa Região atlântica, e que para juntar o insulto à injúria insinuam ante o resto do país que somos uma espécie de sorvedouro étnico, mas a viver em luxos desproporcionais. Serei sempre português, mas preferia novamente sê-lo ao longe. Só aí Portugal é vivido em toda a sua dignidade, em todo o seu esplendor já muito histórico, a memória seleccionando o melhor e esquecendo o pior.

No entanto, ver os nossos jovens a partir novamente em números que dizem ser superiores aos da época da Ditadura é também de uma indignidade quase sem par na nossa história. Esqueçamos os “números”. Cada época, cada tempo, cria o seu “espírito”, cria as suas regras, renova os seus sonhos. A revolução operada em Portugal em 1974 foi o reinício da nossa esperança, foi o valor de todo um povo recuperado, teria sido ainda um ajuste de contas com a triste história nacional de sempre. Só que não foi, ou foi-o por pouco tempo. Parece genético entre nós – depressa a III passou a ser quase pior do que a I República, pois o factor “esperança” foi agora eliminado do nosso futuro. Provavelmente não acabaremos numa ditadura à moda antiga, mas estamos noutra, quiçá bem pior, estamos ao serviço dos que não tenho qualquer hesitação em chamar de Fascismo Financeiro Internacional. O conceito de “estado-nação” terminou – estamos ao serviço dos vendedores de coisas e dos troca moedas à grande escala, são eles, e não os “nossos” governos, que determinam a nossa sorte, o nosso lugar entre todos os outros. Quem ouviu a retórica que durante estes últimos dois anos saiu da boca das autoridades “europeias” só se podia arrepiar, sentir-se insultado, denegrido. Não, nunca vivi nada de igual na América do Norte, nem sequer nos tempos das suas grandes crises de vária ordem a meados do século passado. Nunca vivi na América do Norte um governo aberta e descaradamente vingativo contra o seu próprio povo.

De modo que uma crónica da saudade terá sempre para mim múltiplas geografias físicas e humanas, a memória indelével dos meus, e de tudo que os fez navegar desde que as ilhas foram povoadas. Até há pouco tempo pensei que em mais duas ou três gerações restaria só a literatura dos que ainda lá fora escrevem em português. Tudo indica que não – a saída involuntária, e todas as grandes emigrações são involuntárias, ao contrário do que afirmam certos românticos e ofuscadores da História, vai continuar entre nós, já está em plena retoma. São sempre os mesmos – os afoitos e os rebeldes corajosos. Ficaremos na retaguarda aguentando tudo o que for preciso, até que chegue uma nova madrugada redentora. Que nos dêem eles, os que se foram e se vão todos os dias, conta da sua nova experiência através dos seus livros, da poetização da sua desgraça e, depois, do seu triunfo. As Américas, afinal, serão ainda as nossas verdadeiras “zonas de conforto”, de libertação, de regeneração. Escreveremos também os nossos livros cá dentro – seremos o testemunho continuado do que aconteceu na ausência dos outros. São eles, afinal, os únicos portugueses verdadeiramente universalistas. “Em Creta com o Minotauro” de Jorge de Sena, talvez o melhor poema de sempre sobre a nossa experiência imigrante em toda a parte: Nascido em Portugal, de pais portugueses,/e pai de brasileiros no Brasil,/serei talvez norte-americano quando lá estiver./Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,/se usam e se deitam fora, com todo o respeito/necessário à roupa que se veste e que prestou serviço./Eu sou eu mesmo a minha pátria.

Será a literatura, ainda e sempre, o repositório fiável e duradouro de toda a nossa memória colectiva, o outro lado invisível da nossa História, as páginas intemporais do que vivemos e de como sobrevivemos. A fala oficializada dos que nos governam, ou a dos que são as suas vozes noutras instituições, de pouco vale – para além dos seus “números”, fica só a interpretação do próprio Poder — e essa deve ser sempre suspeita.

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A primeira parte deste texto foi publicado na revista da SATA Azorean Spirit, na edição de Junho-Agosto de 2013.