Açorianidade, ou crónica da saudade

Estrangeiro aqui como em toda a parte… Fantasma a errar em salas de recordações.
Álavaro de Campos, “Lisbon Revisited”

/Vamberto Freitas

Imagem NYT Quando me pedem para escrever sobre os Açores, sobre açorianidade, mil mundos entram de imediato nos meus pensamentos. Já vivi continentes como se ilhas fossem, tal como sempre vivi ilhas como se continentes imensos fossem. Nenhum homem é uma ilha? Ou, pelo contrário, todos nós somos ilhas? Nós somos a geografia sem mapa. Ser açoriano foi sempre estar presente e ausente de nós próprios e dos nossos. Vitorino Nemésio, que cunhou o termo, disse que esse sentimento muito seu se tinha exacerbado quando da Terceira partiu jovem para ir estudar em Coimbra, era a saudade da ilha-concha, dos que tinham ficado. Na ilha, o sentimento é a saudade não das terras distantes, mas dos nossos que as ocupam um pouco por toda a parte. Daqui, seremos sempre de lá também. A açorianidade nada tem a ver com fronteiras ou passaportes – tem a ver com os que connosco partilham o destino de uma vida em perpétua busca do pão e de realização, o sonho em viagem sem fim. Levamos as ilhas dentro de nós, e cá para dentro trazemos o mundo inteiro. Tempo houve em que eu, como jovem universitário algures no sul da Califórnia, olhava para o meu antigo BI e já não me reconhecia como aquela pessoa daquele lugar a meio mar. O meu mundo era já doutro reino. Só que somos quem somos, muito para além de um pequeno livrete que supostamente nos legitima como pessoa ou cidadão. Um dos sentimentos mais fortes por essa altura era uma indefinida incompletude – tinha muito mas faltava o resto de mim, a alma a pedir o regresso à essência do meu ser. Ninguém define o que quer ser ou quem é – o cordão ancestral tem a força das nossas raízes, não nos deixa secar mesmo em terra alheia, mesmo que por um tempo sejamos estranhos em terra estranha, como se diz na literatura. Quando menos esperava, tinha de me meter no meu carro e durante três horas e meia e a alta velocidade, de noite, de madrugada ou de dia, serpentear a mítica 99 em direção aos meus no Vale de São Joaquim. Chegava a casa, a ilha de novo em mim – a mesa posta, a fala dos meus pais e parentes, o cheiro aos Açores, a certeza de que me encontrava entre os que me amavam e me amam. Nemésio tocava a sua viola na Praia ou montava um cavalo no Porto Martins. Eu, na América profunda rodeada de serras e campos, procurava os salões onde velhos e novos patrícios batiam a mão na mesa num jogo de sueca, engoliam um vinho, puxavam dum cigarro, e, quando finalmente me topavam ao lado, diziam simplesmente “Olha o Vamberto”. O conforto desse reconhecimento íntimo era o meu alimento para mais uns meses sem a minha gente, sem a sua fala, sem o cheiro das ilhas na cozinha da minha mãe, era a reconfirmação de que eu pertencia a uma comunidade de longa memória, era a reconfirmação do meu próprio ser. Poderia depois voltar aos outros mundos e pensar-me cosmopolita, seja lá isso o que for. Hoje, em casa nas ilhas, permanece a saudade e a incompletude. A geografia, sim, somos nós, e na sua infinita extensão residem todos os que nos pertencem e a quem pertencemos. Ou, como dizia Jorge de Sena, que disto sabia muito, eu sou eu mesmo a minha pátria – e dentro dela tenho todo o mundo açoriano.

II

Não fora agora a minha idade e as minhas circunstâncias de vida muito particulares, e mesmo já sem o cheiro da cozinha da minha mãe na Califórnia, eu navegaria outra vez. Regressei ao meu país porque estava convencido de que séculos desastrados de governança e injustiças de toda a natureza, perpetradas sempre por uma elite sem vergonha nem a mínima consciência cívica, tinham sido enterradas no fim do século XX pelos heróis que numa noite de Abril largaram de Santarém rumo a Lisboa. Nunca pensei que o contrato social entre cidadãos e o seu Estado poderia novamente ser subvertido conforme as vontades e a ideologia de uma nova geração formada e educada não se sabe bem aonde ou para quem. Não, não me considero um cidadão inteiramente livre em Portugal: sou, juntamente com milhões de conterrâneos meus, um mero sujeito a quem de um minuto para o outro se desfaz ou se destrói, se necessário for, para que se pague uma dívida feita por alguns dos maiores ladrões que democraticamente usurparam o Poder para proveito próprio, e depois ordenando o resto da nação a pagar a “credores” que, eufemisticamente, também são chamados de “parceiros” num super bloco imperial que se considera uma “união” “europeia”. Sim, eu sou açoriano – e por isso mesmo desde sempre subjugado a forças alheias que historicamente determinaram a sorte e o rumo da nossa Região atlântica, e que para juntar o insulto à injúria insinuam ante o resto do país que somos uma espécie de sorvedouro étnico, mas a viver em luxos desproporcionais. Serei sempre português, mas preferia novamente sê-lo ao longe. Só aí Portugal é vivido em toda a sua dignidade, em todo o seu esplendor já muito histórico, a memória seleccionando o melhor e esquecendo o pior.

No entanto, ver os nossos jovens a partir novamente em números que dizem ser superiores aos da época da Ditadura é também de uma indignidade quase sem par na nossa história. Esqueçamos os “números”. Cada época, cada tempo, cria o seu “espírito”, cria as suas regras, renova os seus sonhos. A revolução operada em Portugal em 1974 foi o reinício da nossa esperança, foi o valor de todo um povo recuperado, teria sido ainda um ajuste de contas com a triste história nacional de sempre. Só que não foi, ou foi-o por pouco tempo. Parece genético entre nós – depressa a III passou a ser quase pior do que a I República, pois o factor “esperança” foi agora eliminado do nosso futuro. Provavelmente não acabaremos numa ditadura à moda antiga, mas estamos noutra, quiçá bem pior, estamos ao serviço dos que não tenho qualquer hesitação em chamar de Fascismo Financeiro Internacional. O conceito de “estado-nação” terminou – estamos ao serviço dos vendedores de coisas e dos troca moedas à grande escala, são eles, e não os “nossos” governos, que determinam a nossa sorte, o nosso lugar entre todos os outros. Quem ouviu a retórica que durante estes últimos dois anos saiu da boca das autoridades “europeias” só se podia arrepiar, sentir-se insultado, denegrido. Não, nunca vivi nada de igual na América do Norte, nem sequer nos tempos das suas grandes crises de vária ordem a meados do século passado. Nunca vivi na América do Norte um governo aberta e descaradamente vingativo contra o seu próprio povo.

De modo que uma crónica da saudade terá sempre para mim múltiplas geografias físicas e humanas, a memória indelével dos meus, e de tudo que os fez navegar desde que as ilhas foram povoadas. Até há pouco tempo pensei que em mais duas ou três gerações restaria só a literatura dos que ainda lá fora escrevem em português. Tudo indica que não – a saída involuntária, e todas as grandes emigrações são involuntárias, ao contrário do que afirmam certos românticos e ofuscadores da História, vai continuar entre nós, já está em plena retoma. São sempre os mesmos – os afoitos e os rebeldes corajosos. Ficaremos na retaguarda aguentando tudo o que for preciso, até que chegue uma nova madrugada redentora. Que nos dêem eles, os que se foram e se vão todos os dias, conta da sua nova experiência através dos seus livros, da poetização da sua desgraça e, depois, do seu triunfo. As Américas, afinal, serão ainda as nossas verdadeiras “zonas de conforto”, de libertação, de regeneração. Escreveremos também os nossos livros cá dentro – seremos o testemunho continuado do que aconteceu na ausência dos outros. São eles, afinal, os únicos portugueses verdadeiramente universalistas. “Em Creta com o Minotauro” de Jorge de Sena, talvez o melhor poema de sempre sobre a nossa experiência imigrante em toda a parte: Nascido em Portugal, de pais portugueses,/e pai de brasileiros no Brasil,/serei talvez norte-americano quando lá estiver./Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,/se usam e se deitam fora, com todo o respeito/necessário à roupa que se veste e que prestou serviço./Eu sou eu mesmo a minha pátria.

Será a literatura, ainda e sempre, o repositório fiável e duradouro de toda a nossa memória colectiva, o outro lado invisível da nossa História, as páginas intemporais do que vivemos e de como sobrevivemos. A fala oficializada dos que nos governam, ou a dos que são as suas vozes noutras instituições, de pouco vale – para além dos seus “números”, fica só a interpretação do próprio Poder — e essa deve ser sempre suspeita.

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A primeira parte deste texto foi publicado na revista da SATA Azorean Spirit, na edição de Junho-Agosto de 2013.

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