Eugénio Lisboa e a (re)apresentação de uma vida

CAPA Acta Est Fabula III Eu olhava para aquele mundo a esfarelar-se, física e moralmente, e sentia-me, cada vez mais, a pertencer, cada vez menos, àquilo tudo.

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula – III

/Vamberto Freitas

 Antes de mais, permitam-me que coloque as minhas cartas na mesa, quanto a literatura e a outros textos criativos em geral: ler a prosa de Eugénio Lisboa tornou-se-me nestes últimos anos – ou nestes “tempos desprezíveis”, expressão que ele próprio me endereçou noutro contexto – um dos meus poucos e belos prazeres. Não será só, longe disso, o facto de ele ser para mim um dos maiores críticos e ensaístas literários na nossa língua, mas ainda mais a suas linguagens claras e despidas de qualquer preocupação pretensamente teórica, enriquecidas pelo seu passado multicultural (no melhor sentido da palavra, e nunca ideologicamente falando) entre as três tradições que ele desde sempre absorveu e manipulou, por assim dizer, para fazer da sua própria escrita um riquíssimo mosaico humano e artístico – as literaturas das línguas francesa e depois inglesa, mantendo-se escrupulosamente atento aos nossos, principalmente desde Camões até às gerações de meados do século passado. Parte da estética da sua obra crítica é esta: torna-se arte tal como os textos de outros que ele aborda ou desconstrói – polissemia, ironia, chamamentos aos clássicos contextualizantes da literatura moderna ocidental, menção de um qualquer escritora/a menos conhecido/a mas em quem ele reconhece a grandeza por outros ignorada, a citação constante numa  prosa, a sua, de que não tem medo de ostentar saber e muito menos pretender que ideias ou formas são só suas, e não também dos seus antepassados ou contemporâneos literários. Outra questão, que é muitíssimo cara aos que viveram a fatalidade de um “portuguesismo” à distância, nas ex-colónias ultramarinas ou na diáspora verdadeiramente universal que foi e é a nossa – ele olha e vê não de dentro para fora, mas sim de fora para dentro, o que sempre confundiu certas vozes da nossa por vezes monolítica cultura literária, não poucas vezes levando-os ou ao silêncio de tudo o que se produzia além do pequeno retângulo ibérico, ou a uma condescendência ainda mais intolerável. Só que eventualmente o tempo consertaria muita ignorância entre nós. Como não poderia o tempo colocar estes autores no seu lugar? É preciso ainda repetir os nomes de Eugénio Lisboa, Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis, Onésimo Teotónio Almeida, João Camilo, J. Rentes de Carvalho, Fernando Venâncio, Rui Knopfli, Adolfo Casais Monteiro, Alberto de Lacerda, num rol que inclui alguns outros de igual originalidade e consequência literária?

Tudo isto aqui como introdução ao incomparável e acabado de sair Acta Est Fabula: Memórias -III- Lourenço Marques Revisited (1955-1976), de Eugénio Lisboa. O autor saltou do primeiro para este terceiro volume devido, confessa ele, à sua própria idade e ao projecto que contará com mais alguns outros, querendo ele ter a certeza que certos ajustes de contas (a expressão é minha, não do autor) com alguns dos seus contemporâneos e acontecimentos históricos que abalaram a sua e a vida dos seus não passariam em branco, estando pois em destaque os últimos anos em Moçambique antes e imediatamente após a muito conturbada independência, assim como a vida cultural e literária em Lourenço Marques e na “metrópole”, que Eugénio Lisboa visitava com certa frequência a caminho de outros prazeres artísticos no restante continente, especialmente na França e na Inglaterra, país este onde acabaria por viver dezassete anos quando foi nomeado Conselheiro Cultural da Embaixada Portuguesa em Londres. O problema aqui é-me tremendo: como fazer justiça num espaço tão limitado e de caracteres contados a mais de quinhentas páginas de prosa aliciante, esclarecedora de tanta vida pessoal e colectiva no contexto da descolonização e de um mundo em total ebulição enquanto o autor desenvolvia a sua vida familiar, profissional e intelectual? Fica para outro contexto, falo agora só do que, para mim, é essencial a um melhor entendimento do que significou a sua vida literária, do que significou o abalo militar e político na sua terra de nascença, um exemplo perfeito de quando ou como o mapa não é o território – a sua lealdade ao grande país, e especialmente à sua grande cidade no Índico, esteve sempre enformada pela sua condição de cidadão português “no país dos outros” (como escreveria num poema o seu grande amigo e conterrâneo moçambicano Rui Knopfli) enquanto permanecia fiel à grande Tradição intelectual de todo o Ocidente, as suas inúmeras outras “pátrias” espalhadas por vários continentes e línguas. Como o Minotauro, a questão não era procurar saída alguma, mas sim negociar a felicidade e uma vida com sentido múltiplo adentro do medonho labirinto. É certo também que os respectivos “factos” históricos são, mais ou menos, conhecidos por nós, tudo o que levaria a Frelimo ao poder. O que não conhecemos de todo são os dramas dilacerantes (termo de quando em quando empregado pelo autor) dos indivíduos, famílias e grupos apanhados pelo vendaval da descolonização. Saber como um grande intelectual e escritor como Eugénio Lisboa foi reagindo dia a dia aos acontecimentos que determinariam todo o seu futuro e apagariam de modo indecente todo um passado, o de quem toda a sua vida tinha defendido sem algazarra ideológica de tantos oportunistas o direito à dignidade de todos os moçambicanos, de qualquer cor ou etnia, vale só por si este grande volume de Acta Est Fabula. Tal como no seu acto crítico ante a literatura que o move e comove, para si a ética e a estética são indissociáveis – e nada menos ante o rumo da História, ante a mudança radical que fez estremecer dois povos, o português e o moçambicano. Quando os novos poderes em Maputo, que já exibiam muitos outros tiques totalitários, ordenaram mesmo aos que lá tinham nascido que teriam de optar por uma só nacionalidade, moçambicana ou portuguesa, Eugénio Lisboa e a sua família levantaram âncora e fizeram-se a um tenebroso mar de incertezas. “Quem decide a minha nacionalidade autêntica – escreve Eugénio Lisboa a dada altura nestas suas memórias – sou eu e mais ninguém”.

No centro de Acta Est Fabula III estão os anos de actividade literária fulgurante a partir do momento em 1955 quando o autor regressa de Lisboa a Lourenço Marques após completar o seu curso em engenharia, e muito particularmente a partir da fundação do jornal A Voz de Moçambique nos primeiros dias de 1960. Independente de grupos políticos ou bancários, foi o meio de comunicação que mais divulgou a literatura universal, sem nunca descurar as questões da arte em todas as suas formas que estavam a ser criadas por moçambicanos, brancos e de cor, dando lugar a polémicas sobre a natureza estética e, digamos, sobre quem era quem nesses meios, fazendo reflectir ainda mais um leitor açoriano como eu, devido a discussões entre nós em anos passados acerca de temáticas semelhantes na nossa literatura. Nomes que perdudariam até hoje, como o de Rui Knopfli e Craveirinha, por exemplo, a outros que o tempo se encarregaria de dissimular em paisagens literárias do nada, vamos acompanhando a nascença de uma vivíssima esfera cultural e intelectual que ainda hoje é objecto de debate entre alguns. Estas memórias são como que um curso completo, como eu já havia dito noutro texto acerca destas memórias, em literaturas portuguesa, francesa, inglesa e norte-americana. Creio que poucos entre nós, dentro e fora das universidades, têm este alargamento de vistas, este conhecimento tão profundo de várias literaturas, como Eugénio Lisboa. Aliás, qualquer dos seus textos, para além da crítica interpretativa e contextualizante que comportam sempre linha a linha, são fontes demonstrativas de como uma obra se interliga com outra, de como um autor entende ou não sua própria arte, se uma criação de interiorismo puro, se uma representação de um tempo e de uma sociedade em que se insere, e com a qual se identifica, é arte ou mera retórica pindérica. Para Eugénio Lisboa, está acima de tudo a estética, e nunca as questões de “representatividade” social ou política. Ou uma prosa, um poema, uma peça de teatro se auto-sustenta na sua própria beleza, ou então de pouco vale. Ler Eugénio Lisboa é, como alguém escreveu um dia em relação às entrevistas da revista The Paris Review, fazer uma chamada (roll call) aos melhores da literatura internacional.

Eis aqui uma limitadíssima abordagem a este volume de Acta Est Fabula III. Para quem ainda não conhece, sugiro também a leitura do recente Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo, um outro grosso volume de estudos da sua obra e de homenagem ao autor.

_________

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula Memórias – III – Lourenço Marques Revisited (1955-1976), Guimarães, Opera Omnia, 2013

Anúncios

As ilhas e a sua mítica

Capa As Ilhas dos SegredosAs ilhas são espaços ainda desconhecidos. Durante séculos imaginou-se-as como territórios longínquos e enigmáticos onde se podia ir para desfrutas das melhores fantasias.
Juan Carlos de Sancho, As Ilhas dos Segredos

 /Vamberto Freitas

 Se os Açores foram as “ilhas dos amores” onde correram atrás de ninfas os marinheiros de Vasco da Gama no seu triunfal regresso da Índia e assim cantados por Camões, pouco interessa à verdade das coisas. Será a mítica dessa possibilidade imaginária que mais conta na nossa visão do passado e do nosso lugar na História, que tanto é feita de “factos” como de “interpretação” e, sim, imaginação e fantasia pura. A origem dos arquipélagos está mais ou menos entendida cientificamente até à sua idade e circunstâncias cósmicas na sua formação, o que não deixará alguns de, uma vez mais e sempre, imaginar a sua primitiva e grandiosa civilização-mãe, que no nosso caso origina com Platão e dá pelo nome misterioso de Atlântida, com inúmeros livros especulativos a serem publicados de quando em quando. Cada povo tem a sua “história” lendária na reinvenção das suas próprias origens, debaixo de fogo ou de um ceptro de fadas — a narrativa lendária da sua grandeza ou tragédia nunca deixa de assombrar as explicações racionais, estudadas e mais ou menos documentadas, essas tornando-se a narrativa oficializada do estado e das classes dominantes. Nada disto, ou raramente isto, quer dizer, as narrativas sem mistério ou poesia, move ou comove os escritores das ilhas do Atlântico Norte em quatro arquipélagos desde sempre irmãos: Açores, Madeira, Cabo Verde e Canárias, a Macaronésia, cujo significado Onésimo Teotónio Almeida e Juan Carlos de Sancho nos relembram no volume aqui em foco – “ilhas alegres e afortunadas”, vindo da origem do termo grego makárôn nêsoi.  Não vale a pena vivermos em êxtase de povos auto-convencidos, só que todas as narrativas de um povo ou povos são constituídas também pela imaginação destravada e expansiva, pelo desejo de redenção ante a outra face da história, geralmente de sofrimento, fome, insegurança e injustiça. A nossa melhor literatura moderna bem tem dado conta desse outro lado da nossa vivência e destino em rochedos isolados a meio mar entre dois grandes continentes que se só lembram de nós quando os seus próprios interesses estão em jogo, pelo menos até a um passado bem recente. Eis, pois, as ilhas vistas aqui de dentro para dentro, de fora para dentro, de ilha para ilha, numa viagem à descoberta das suas literaturas, e ainda abordagens históricas, sociológicas e doutras áreas académicas, as ilhas vistas também por artistas plásticos, arquitectos e cineastas. As ilhas sempre foram como que microcosmos do restante mundo em volta, as suas sociedades simultaneamente metonímicas de algo mais vasto e longe enquanto preservam e desenvolvem sempre a sua especificidade em todos os campos de acção humana,  tornam-se realidades originais pela sua hibridez humana e cultural, a mestiçagem perfeita, como aliás nos reafirma esta singular colectânea de textos, de colonos vindos das mais díspares geografias e tradições, da mistura de povos oriundos de todas as partes do mesmo país, por mais pequeno que seja, tal como no caso lusitano.

Las Islas de los Secretos/As Ilhas dos Segredos é uma colectânea bilingue (Espanhol e Português) de ensaios organizada pelo artista e intelectual Juan Carlos de Sancho e publicada nas Canárias, alguns dos escritos que foram lidos ao longo dos anos, precisamente de 1997 a 2004, nos simpósios do Funchal que eram organizados pela escritora Maria Aurora Carvalho Homem, professora e então Directora do Departamento de Cultura da Câmara Municipal do Funchal, que patrocinou exclusivamente e na totalidade esses alargados encontros na sua ilha, convidando outros ilhéus da Macaronésia, de outras ilhas do mundo, e quem em universidades continentais ou quem fora delas na sua vida literária e artística se debruçava sobre estas temáticas, quer em Portugal quer no estrangeiro. Outras visões da vida em ilha ou de identidades nelas originadas foram dadas através das literaturas imigrantes ou étnicas em vários continentes, incluindo as das gerações já nascidas lá fora, mas cujo passado ancestral é-lhes um chamamento constante. Alguns dos lemas indicam de imediato as temáticas desvendadas numa altura em que a cultura era ainda um valor auto-justificado e essencial à cidadania de sociedades conscientes de si próprias, do seu lugar num mundo em mudança constante e turbulenta: “As Ilhas e a Mitologia”, “Cultura de Periferias, Insularidade”,  “Permanência e Errância” “Caminhos do Mar”, “Escritas do Rio Atlântico” “Escritores e Cidades”, “Leituras do Olhar” “Arquipélagos do Desejo” e “Arquitecturas do Afecto e da Memória”. Maria Aurora, oriunda do continente mas durante anos residente na Madeira foi quem, antes de todos, topou a inevitabilidade de juntar os que entre umas ilhas e outras tinham tudo em comum na história, mas nunca uma convivência a este nível intelectual e artístico. Teria de ser ela, que não carregava em si os mais absurdos complexos de inferioridade de muitos ilhéus, a levar à cena estas abordagens académicas e criativas em volta, uma vez mais, da história e mítica das ilhas atlânticas. Quando faleceu, faleceu com ela o projecto madeirense, tal como entre nós haveriam de acabar com os Encontros de Escritores Açorianos dos anos 80-90.

Estes ensaios em As Ilhas dos Segredos, escolhidos pela diversidade de temas abordados ou discutidos, comemoram toda uma época em que algo mais do que o PIB interessava à caminhada destes povos arquipelágicos, dentro e fora da União Europeia, irmanados com muitos outros mais a sul ou no outro lado do mar. Em todas as suas literaturas está o que o grande intelectual da ilha caribenha de Martinique, Édouard Glissant, chamou de Poética da Relação, ou ainda o “pensamento arquipélago”: a capacidade dos povos ilhéus de absorver e desfrutar de todas as outras culturas nos seus contactos através da história, a sua rica hibridez no saber e na vivência, a sua capacidade de desterritorializar o mapa no mais claro gesto do que outros chamam, sem muita razão ou credenciais para além da sua própria retórica, de universalismo. Glissant, totalmente inserido numa tradição de língua francesa, doutorado em Paris, quedar-se-ia perplexo se ouvisse ou lesse alguns açorianos quando da sua literatura falavam ou escreviam, quando num tempo não muito longínquo até a expressão literatura açoriana era quase proibida ou provocava uma espécie de apoplexia intelectual entre alguns que nunca teriam vivido fora de uma freguesia ou cidade do mesmo tamanho por mais de uma semana ou meses. A legitimação das culturas arquipelágicas não tem nada a ver com a separação de, ou rejeição de outros dentro e fora do mesmo país. Pelo contrário, é na definição de posturas abertas e flexíveis que os ilhéus sobrevivem e contribuem para a riqueza cultural e artística do mundo. A nova geração de escritores luso-descendentes na América do Norte, por exemplo, outra coisa não demonstra senão essa disponibilidade para o diálogo descomplexado, para a coexistência pacífica de identidades em perpétua revisão. Creio que vem aí uma nova geração de ilhéus que nunca mais vai aceitar qualquer forma ou tentativa cultural hegemónica seja de quem for. O diálogo azedado nestes últimos anos entre ilhas e “metrópoles”, estou em crer, é já um claro sintoma da nossas libertação.

“Seguindo – escreve Juan Carlos de Sancho no prólogo a As Ilhas dos Segredos, e apelando à leitura partilhada deste livro  – o sonho multicultural de Glissant, convidamos-vos a desbravar e a decifrar o mundo macaronésico enquanto multi-relação, desfrutando dos lugares comuns que nos oferecem as diferentes culturas que habitam as ilhas. O mundo inteiro entrou num processo de crioulização, na emergência de identidades abertas, flexíveis, apaziguadas com o murmúrio de todas as línguas do mundo”.

Tive o prazer, juntamente com alguns outros açorianos, de participar neste projecto madeirense. Foi em anos ainda muito recentes, sabemos, mas o espírito desse tempo e desse lugar, tal como aqui nos Açores, mudou radicalmente. Até que Godot chegue novamente, quem sabe, menos silencioso, mais actuante, mais consciente de que a dignificação de uma terra e de um povo está em nós, só de nós depende.

  _______________

Las Islas de los Secretos/As Ilhas dos Segredos (Juan Carlos de Sancho, ed.), Las Palmas, Gran Canária, Colección Textos Universitarios n.33, 2011.

Natália Correia: som e fúria

CAPA Botequim da LiberdadeEra frequente, quando regressava, ficar sentada no carro a prolongar, a adiar a saída – para a solidão de si mesma… das sombras que a perseguiam.

Fernando Dacosta,O Botequim da Liberdade

/Vamberto Freitas

Estes têm sido os dias de Natália Correia, pelo menos aqui em São Miguel, a sua ilha natal, e um pouco na Ilha Terceira. Actividades criativas de vária natureza em sua memória, dentro e fora da sua casa de nascença na Fajã de Baixo, que hoje é uma espécie de museu e centro de investigação e estudos, os 20 anos da sua ausência foram lembrados ainda (a morte não se comemora, é um escândalo, como diria um outro) com a publicação de dois livros –Natália Correia: Antologia Poética, organizada por Fernando Pinto do Amaral, e o Botequim da Liberdade, de Fernando Dacosta, memórias do seu grande amigo e companheiro de estrada durante décadas, ele próprio um escritor reconhecido e premiado, antigo jornalista de O Jornal e da  Visão. Não queria aqui dizer que a Natália assume finalmente o seu merecido lugar “canónico” na história da literatura portuguesa moderna. Nos dias que correm, ninguém ascende a altares que estão a ser lentamente destruídos num mundo em que a literatura e as artes em geral perderam a sua centralidade na definição e moldura de uma sociedade bem formada, educada, onde cultura e cidadania andariam inseparáveis, indissociáveis numa civilização que agora é avaliada quase exclusivamente pelo PIB e obediência a invisíveis credores, os novos donos de um mundo mais materialista e anti-espírito, que até parece marxismo virado ao contrário, e no outro extremo. Natália Correia não estava longe, suponho, destes pensamentos, e percebeu ou pressentiu inteiramente o fim da liberdade e da dignidade dos cidadãos no alvor do nosso século, sabia que tínhamos entrado numa nova – ou regressiva – fase histórica. Boa parte do livro aqui em foco,O Botequim da Liberdade(o seu mítico bar e poiso nas suas noites de Lisboa), é precisamente sobre a fúria com que ela via quase profeticamente a chegada dos bárbaros às portas das nossas cidades, quase parecendo, essas sua palavras, a poetização melancólica do Fim da História e do Último Homem de Francis Fukuyama. Para além disso, temos aqui um outro retrato singular da escritora oriunda dos Açores que mais marcou, creio que indelevelmente, a literatura do nosso país, que mais contribuiu para a a libertação de mentes, digamos, aprisionadas numa cultura isolada e inquisitorial, mesmo após a chegada da democracia em 1974. Eis aí parte do seu estatuto literário ambíguo entre nós, ainda hoje: será a sua obra ou a sua pessoa que mais deve interessar à nossa cultura em geral ou à literatura em particular?

Advertência: estive em vários eventos literários na presença de Natália Correia, mas com ela nunca troquei uma única palavra. Não sei bem porquê, mas foi assim. Algumas das suas atitudes ante os seus conterrâneos ilhéus nessas ocasiões deixavam-me frio, mas não escandalizado. Reconhecia eu que a meia viagem da vida, a poeta sentia-se, como agora afinal nos confirma Fernando Dacosta, desvalorizada, ignorada e trivializada pelo sistema literário português, e a sua influência política foi passageira, e mais (inteligentemente) cómica do que marcante, ficando algumas das suas tiradas na Assembleia da República imortalizadas, como quando se dirigiu num poema a um colega deputado satirizando as suas posições a respeito do sexo só “legitimo” como acto de procriação. A sua defesa do relacionamento entre Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis também não será esquecida num país de beatos tímidos e, naturalmente, hipócritas. Outras situações serão vistas por lentes diferentes. A sua “solidariedade” ante outros no seu mundo é por vezes muito questionável, como quando ela, numa das suas tiradas acerca de um incidente festivo em sua casa e quando a sua cadela morde a perna da criada e esta acaba no hospital, declarando de seguida Natália ao médico da urgência que quem a preocupa é a cadela – que já  lhe havia inspirado um poema – e não a perna da senhora sua serva. É claro que somos todos um saco de contradições interiores, e poucos são os que nos deixam um legado literário tão rico e consequente como o de Natália Correia. Só que para certos leitores é quase impossível dissociar a autora dos livros, e um retrato mais equilibrado é absolutamente essencial. Sei que esta última afirmação vai contra todas as teorias da literatura, que a obra é que conta exclusivamente, mas quando um autor(a) é também proeminentemente uma figura pública de tal estatura, tudo que conhecermos em termos biográficos servirá para aprofundar a leitura de um poema, de uma ficção ou mesmo de um ensaio. De resto, a sua colaboração com os açorianos após o 25 de Abril (é a autora do Hinos dos Açores, como todos sabem), o seu companheirismo na luta pela liberdade e pela dignidade do povo açoriano juntamente com Vitorino Nemésio num momento de grande turbulência e incertezas político-sociais ficarão para sempre no melhor dos nossos anais, como aliás têm testemunhado em certas ocasiões Carlos Melo Bento, José de Almeida e Mota Amaral, três nomes destacados em O Botequim da Liberdade. Diz ainda Fernando Dacosta que o seu amor aos Açores incluía certas pessoas, como Ângela Almeida, que a poeta dizia desejar que esta fosse a “herdeira espiritual minha”. Ângela Almeida viria a doutorar-se mais tarde numa universidade lisboeta com uma tese sobre a obra de Natália Correia orientada por Urbano Tavares Rodrigues.

“Cenas deliciosas – escreve Fernando Dacosta sobre as discussões intelectuais e políticas nas noites longas de Lisboa – nimbam o Botequim: duas viscondessas açorianas, riquíssimas, reaccionaríssimas, engalfinharam-se com Otelo (Saraiva de Carvalho) em discussões de política, de patriotismo, valentes e coerentes até o embatucarem, ante uma Natália seraficamente esfíngica.

Mil vezes mais aprazível do que o Parlamento, o Botequim faz-se ilha central no arquipélago que a poeta delimitara para si e para os seus, em águas de sedução únicas no País”.

O Botequim da Liberdade é muito mais do que isto, constitui-se como uma outra espécie de biografia caracterizada por pequenas entradas cronológicas, como que em forma de um diário. A generosa prosa de Fernando Dacosta mantém o estilo que já lhe conhecemos, tanto no jornalismo como na sua obra criativa – escorreita, colocando-nos entre os factos vividos ou por ele interpretados, numa mistura entre a “realidade” e a poetização de quem esteve sempre muitíssimo próximo da autora. A epígrafe que coloquei aqui refere-se a uma das milhentas vezes que Dacosta sai no seu carro com a poeta para participarem em eventos literários, colóquios, lançamentos de livros, visitas a escolas. Sobressai de toda esta linguagem um sentimento de solidão e por vezes a desorientação da autora de AMadona, ou do poema que lembra a sua saída de São Miguel na companhia da mãe, “Manhã Cinzenta”. Para além da acutilância de toda a escrita de Natália – poesia, novela, livros de viagem, ensaios sobre a nossa identidade – pressentimos a meio do livro as incertezas e inseguranças que a assaltam quase diariamente, a sua dependência em poucos amigos, inclusive a companhia colada do seu marido, Dórdio Guimarães. As noites no Botequim vão-se revelando cada vez mais sem sentindo quando vamos chegando ao fim da prosa de Dacosta. Até o leitor mais crítico da pessoa e da obra da autora começa a sentir a saudade de um outro tempo e de uma outra literatura, que não o dos dias que vivemos, que não a ambiência literária sem grupos ou tertúlias que provocavam a saída e depois a discussão de obras que hoje estão no centro do nosso pensamento e apreciação estética. A centralidade perdida da cultura foi, uma vez mais, pressentida por Natália Correia muito antes de outros. Tem corrido abundantemente nas redes sociais citações de Natália acerca da nossa entrada na Comunidade e depois na União Europeia. São palavras arrepiantes, proféticas, certeiras em tudo que viríamos a viver – era o fim de uma era e a entrada no mais escuro dos túneis da nossa História.

Natália Correia fez uma viagem à América, e depois escreveu as suas impressões emDescobri Que Era Europeia. A América foi retratada, mais ou menos, pela sua escuridão, pela sua estranheza rude. Que (re)escreveria hoje ela nesse mesmo livro, sabendo o que já sabia desta nova Europa, vivendo connosco subjugada a tudo que não é nosso, nem nunca será?

____________

Fernando Dacosta,O Botequim da Liberdade, Alfragide, A Casa das Letras, 2013.

 

fim da cultura nas sociedades do espetáculo

…Não estranho que numa época que tem entre as suas proezas ter acabado com o erotismo se esfume também esse hedonismo refinado que enriquecia o prazer espiritual da leitura com o físico de tocar e acariciar.

Mário Vargas Llosa, A Civilização do Espetáculo

 /Vamberto Freitas

 CAPA Civiliza+º+úo do Espet+ículoLi-o este verão, e já na 2ª edição lançada no ano corrente. A Civilização do Espetáculo, do romancista peruano Mário Vargas Llosa (Prémio Nobel, 2010) não surpreende pela sua muito conhecida inteligência aguda e enquadrada numa vastíssima cultura literária e artística do Ocidente, mas sim pela audácia libertadora com que olha para as nossas sociedades precisamente num momento em que começaram a ser quase totalmente dominadas pelas forças mais retrógradas e reaccionárias imagináveis, os chamados “mercados financeiros”, que já conseguiram subjugar toda a política e respectivos governos “democráticos” aos seus desígnios primordiais, que é ganhar a maior quantia de dinheiro possível sem olhar ao sofrimento que traz à maior parte da humanidade em todos os continentes. Mário Vargas Llosa, ex-candidato da Direita à presidência do seu país em 1990 (perdeu as eleições para Alberto Fugimori, que se viria a revelar um dos maiores criminosos políticos do país), é também conhecido pelo seu conservadorismo político no que diz respeito ao rumo económico das nossas sociedades, sem que por uma só vez deixe essas suas opções ideológicas interferir com o que mais lhe interessa, nos interessa a todos: a liberdade, dignidade e cidadania que só as artes podem trazer ao quotidiano das nossas vidas. Estes ensaios não contestam os valores conservadores políticos numa só linha: contestam toda uma civilização que voluntariamente se deixou afundar na mais profunda ignorância fazendo da tecnologia vazia de qualquer conteúdo dominar tudo o que outrora valorizávamos como “cultura”, como “civilização” – desde o amor entre dois seres humanos à literatura e artes em geral. A epígrafe que utilizo aqui vem do ensaio intitulado “Reflexão final” sobre o que ele entende ser o estado das coisas entre nós todos, um mundo em que o pontapé numa bola ou meia dúzia de idiotas encerrados numa casa fictícia deixam transparecer tudo o que não sabem, tudo o que não entendem nem praticam – o erotismo, por exemplo, adentro do amor e não da animalidade debaixo de edredões flutuantes e vistos por milhões de telespectadores que, supõe-se, partilham a mesma ausência de ideias e sensibilidade. Não é ele que refere estes dois espectáculos do nosso tempo, mas sim eu para melhor enquadrar o que ele diz do erotismo, um dos temas caros a Vargas Llosa em quase toda a sua ficção, muito especialmente em Tia Júlia e o Escrevinhador, e ao qual (ao erotismo) ele dedica um extenso ensaio no presente volume.

O fio condutor de A Civilização do Espetáculo, e que dá unidade a todos os ensaios que aqui abordam variadíssimas áreas da cultura em geral e temas e políticas circundantes é tão simples como sofisticado: as nossas sociedades deixaram de se moldar e caracterizar pelo domínio do que considerávamos ser cultura erudita (literatura de qualidade, eis mais um exemplo, e não a que tenta ou passa actualmente por isso na maioria das livrarias), incluindo enfaticamente as outras artes, como música e pintura, e o pensamento filosófico desenvolvido e reafirmado durante séculos de pensamento e debates de toda a natureza. Por entre as suas análises destas questões, o autor não se furta a enquadrar tudo o que ele denomina num dos capítulos do livro por “Cultura, política e poder”, não poupando qualquer sector dominante nas nossas sociedades, muito menos o aproveitamento desta nova Idade da Escuridão para benefício próprio ou para distrair sorrateiramente as populações do que as deveria verdadeiramente preocupar – vidas sem rumo nem beleza alguma, os mais baixos instintos individuais ou de tribos sobrepondo-se a tudo o que, afinal, havia sido o sustentáculo maior de uma civilização aberta, cordial e fundamentada no melhor do pensamento humano e nas suas criações artísticas ou espirituais. Por certo que este é um entre muitos outros livros que nos últimos anos têm abordado a mesma temática, mas A Civilização do Espetáculo não é livro de sociólogos ou de outros académicos com as linguagens herméticas e quase sempre preocupadas em avançar teorias obscuras sobre os dias de hoje; é, sim, um livro de um grande escritor que sabe esconder tudo isso para comunicar com o seu leitor em linguagens abertas, de múltiplos significantes, e nas quais a fealdade das realidades sob escrutínio nunca tiram a beleza do que passa também a ser pura literatura ensaística. Foi-me gratificante que, a certa altura, Vargas Llosa deixa cair, quando se dirige à suposta crítica literária actual, dois nomes norte-americanos que marcaram a sua época dirigindo-se ao grande público nos seus escritos e conseguindo impor, por assim dizer, o melhor da literatura internacional. Lionel Trilling (The Liberal Imagination) e Edmund Wilson (Rumo à Estação da Finlândia), essa crítica em que sociedade e literatura eram indissociáveis, a grandeza de uma obra como objecto de prazer e ensinamento, arte e cidadania sempre de mãos dadas. Antes mesmo de Trilling e Wilson falecerem já a sua tradição literária tinha sido subvertida pelos charlatães de muita academia, pela sobreposição de supostas “teorias da literatura” pós-modernas às próprias obras criativas. A vaidade – e complexo de inferioridade, sem dúvida – do receptor universitário tomava o lugar do criador, do artista. Vargas Llosa menciona só um caso paradigmático de um tempo e ambiência intelectual: Paul de Man, o colaborador nazi belga, que depois da II Guerra Mundial cavaria para si uma posição cimeira nalgumas universidades norte-americanas, o autor da chamada “desconstrução” literária que acabaria por tentar “explicar”, e logo desculpar, entenda-se, o Holocausto responsável pela morte de mais de seis milhões de judeus europeus. Depois de argumentar que a noção de cultura no Ocidente esteve sempre ligada à “da religião e do conhecimento teológico”, mais ainda depois à filosofia grega e ao direito romano, Vargas Llosa como que dispara ao seu alvo, ou seja, à noção de que todos agora são cultos ou merecem o nosso respeito fingido pelo que não sabem ou pensam saber.

“No nosso tempo – escreve o autor no ensaio “Breve discurso sobre a cultura” – tudo isso mudou. A noção de cultura alargou-se tanto que, ainda que ninguém se atreva a reconhecê-lo de maneira explícita, se esfumou. Tornou-se um fantasma inapreensível, multitudinário e simbólico. Porque já ninguém é culto se todos julgarem sê-lo ou se o conteúdo do que chamamos cultura for de tal forma adulterado que todos possam justificadamente julgar que o são”.

Mário Vargas Llosa não nega que a “cultura” esteve sempre ligada à divisão entre classes sociais, mas reafirma claramente que mesmo os que não desfrutavam do saber e sensibilidades-outras ocupavam o seu lugar ante o respeito de todos, a escala de valores societais não permitindo a “trivialização” do ser humano. Claro que o autor esquece, ou faz por esquecer aqui, as lutas pela educação inclusiva de todas as classes sociais, as lutas contra os mais opressivos poderes que se valiam precisamente da cultura para impedir a ascensão de todos os outros, o que ainda hoje está por concretizar totalmente, e certas vozes regressam crescentemente para defender sistemas vergonhosamente discriminatórios, como a sobrevalorização do ensino privado e caro, e a consequente desvalorização do ensino público, democrático, e que deverá ser acessível a todos. A mediocridade das nossas instituições não pode justificar a sua extinção, pura e simples, ou a formação de guetos educativos para os menos poderosos. Seja como for, creio que entendo Mário Vargas Llosa: antes a verdade do que a mentira do que passa entre nós por “cultura e “arte”.

Mário Vargas Llosa não necessita aqui de qualquer apresentação, pois a sua obra total até ao presente é avassaladora, e na qual, livro a livro, a dignidade de cada ser humano é sempre parte fulcral da sua visão e crenças. Tem vivido boa parte da sua vida aqui na Europa, a maior parte do tempo na França e em Espanha (onde se doutorou em Filosofia, e adquiriu a cidadania), assim como tem leccionado nas mais prestigiadas universidades norte-americanas. Entre tão vasta obra, dois dos seus romances merecem destaque aqui: Conversa na Catedral e A Guerra do Fim do Mundo, este também uma volumosa obra de ficção que parte de Os Sertões do brasileiro Euclides da Cunha, tendo como fundo a Guerra de Canudos, no interior da Bahia, no fim do século IX.

_________

Mário Vargas Llosa, A Civilização do Espetáculo (2ª edição), Lisboa, Quetzal Editores, 2013.