fim da cultura nas sociedades do espetáculo

…Não estranho que numa época que tem entre as suas proezas ter acabado com o erotismo se esfume também esse hedonismo refinado que enriquecia o prazer espiritual da leitura com o físico de tocar e acariciar.

Mário Vargas Llosa, A Civilização do Espetáculo

 /Vamberto Freitas

 CAPA Civiliza+º+úo do Espet+ículoLi-o este verão, e já na 2ª edição lançada no ano corrente. A Civilização do Espetáculo, do romancista peruano Mário Vargas Llosa (Prémio Nobel, 2010) não surpreende pela sua muito conhecida inteligência aguda e enquadrada numa vastíssima cultura literária e artística do Ocidente, mas sim pela audácia libertadora com que olha para as nossas sociedades precisamente num momento em que começaram a ser quase totalmente dominadas pelas forças mais retrógradas e reaccionárias imagináveis, os chamados “mercados financeiros”, que já conseguiram subjugar toda a política e respectivos governos “democráticos” aos seus desígnios primordiais, que é ganhar a maior quantia de dinheiro possível sem olhar ao sofrimento que traz à maior parte da humanidade em todos os continentes. Mário Vargas Llosa, ex-candidato da Direita à presidência do seu país em 1990 (perdeu as eleições para Alberto Fugimori, que se viria a revelar um dos maiores criminosos políticos do país), é também conhecido pelo seu conservadorismo político no que diz respeito ao rumo económico das nossas sociedades, sem que por uma só vez deixe essas suas opções ideológicas interferir com o que mais lhe interessa, nos interessa a todos: a liberdade, dignidade e cidadania que só as artes podem trazer ao quotidiano das nossas vidas. Estes ensaios não contestam os valores conservadores políticos numa só linha: contestam toda uma civilização que voluntariamente se deixou afundar na mais profunda ignorância fazendo da tecnologia vazia de qualquer conteúdo dominar tudo o que outrora valorizávamos como “cultura”, como “civilização” – desde o amor entre dois seres humanos à literatura e artes em geral. A epígrafe que utilizo aqui vem do ensaio intitulado “Reflexão final” sobre o que ele entende ser o estado das coisas entre nós todos, um mundo em que o pontapé numa bola ou meia dúzia de idiotas encerrados numa casa fictícia deixam transparecer tudo o que não sabem, tudo o que não entendem nem praticam – o erotismo, por exemplo, adentro do amor e não da animalidade debaixo de edredões flutuantes e vistos por milhões de telespectadores que, supõe-se, partilham a mesma ausência de ideias e sensibilidade. Não é ele que refere estes dois espectáculos do nosso tempo, mas sim eu para melhor enquadrar o que ele diz do erotismo, um dos temas caros a Vargas Llosa em quase toda a sua ficção, muito especialmente em Tia Júlia e o Escrevinhador, e ao qual (ao erotismo) ele dedica um extenso ensaio no presente volume.

O fio condutor de A Civilização do Espetáculo, e que dá unidade a todos os ensaios que aqui abordam variadíssimas áreas da cultura em geral e temas e políticas circundantes é tão simples como sofisticado: as nossas sociedades deixaram de se moldar e caracterizar pelo domínio do que considerávamos ser cultura erudita (literatura de qualidade, eis mais um exemplo, e não a que tenta ou passa actualmente por isso na maioria das livrarias), incluindo enfaticamente as outras artes, como música e pintura, e o pensamento filosófico desenvolvido e reafirmado durante séculos de pensamento e debates de toda a natureza. Por entre as suas análises destas questões, o autor não se furta a enquadrar tudo o que ele denomina num dos capítulos do livro por “Cultura, política e poder”, não poupando qualquer sector dominante nas nossas sociedades, muito menos o aproveitamento desta nova Idade da Escuridão para benefício próprio ou para distrair sorrateiramente as populações do que as deveria verdadeiramente preocupar – vidas sem rumo nem beleza alguma, os mais baixos instintos individuais ou de tribos sobrepondo-se a tudo o que, afinal, havia sido o sustentáculo maior de uma civilização aberta, cordial e fundamentada no melhor do pensamento humano e nas suas criações artísticas ou espirituais. Por certo que este é um entre muitos outros livros que nos últimos anos têm abordado a mesma temática, mas A Civilização do Espetáculo não é livro de sociólogos ou de outros académicos com as linguagens herméticas e quase sempre preocupadas em avançar teorias obscuras sobre os dias de hoje; é, sim, um livro de um grande escritor que sabe esconder tudo isso para comunicar com o seu leitor em linguagens abertas, de múltiplos significantes, e nas quais a fealdade das realidades sob escrutínio nunca tiram a beleza do que passa também a ser pura literatura ensaística. Foi-me gratificante que, a certa altura, Vargas Llosa deixa cair, quando se dirige à suposta crítica literária actual, dois nomes norte-americanos que marcaram a sua época dirigindo-se ao grande público nos seus escritos e conseguindo impor, por assim dizer, o melhor da literatura internacional. Lionel Trilling (The Liberal Imagination) e Edmund Wilson (Rumo à Estação da Finlândia), essa crítica em que sociedade e literatura eram indissociáveis, a grandeza de uma obra como objecto de prazer e ensinamento, arte e cidadania sempre de mãos dadas. Antes mesmo de Trilling e Wilson falecerem já a sua tradição literária tinha sido subvertida pelos charlatães de muita academia, pela sobreposição de supostas “teorias da literatura” pós-modernas às próprias obras criativas. A vaidade – e complexo de inferioridade, sem dúvida – do receptor universitário tomava o lugar do criador, do artista. Vargas Llosa menciona só um caso paradigmático de um tempo e ambiência intelectual: Paul de Man, o colaborador nazi belga, que depois da II Guerra Mundial cavaria para si uma posição cimeira nalgumas universidades norte-americanas, o autor da chamada “desconstrução” literária que acabaria por tentar “explicar”, e logo desculpar, entenda-se, o Holocausto responsável pela morte de mais de seis milhões de judeus europeus. Depois de argumentar que a noção de cultura no Ocidente esteve sempre ligada à “da religião e do conhecimento teológico”, mais ainda depois à filosofia grega e ao direito romano, Vargas Llosa como que dispara ao seu alvo, ou seja, à noção de que todos agora são cultos ou merecem o nosso respeito fingido pelo que não sabem ou pensam saber.

“No nosso tempo – escreve o autor no ensaio “Breve discurso sobre a cultura” – tudo isso mudou. A noção de cultura alargou-se tanto que, ainda que ninguém se atreva a reconhecê-lo de maneira explícita, se esfumou. Tornou-se um fantasma inapreensível, multitudinário e simbólico. Porque já ninguém é culto se todos julgarem sê-lo ou se o conteúdo do que chamamos cultura for de tal forma adulterado que todos possam justificadamente julgar que o são”.

Mário Vargas Llosa não nega que a “cultura” esteve sempre ligada à divisão entre classes sociais, mas reafirma claramente que mesmo os que não desfrutavam do saber e sensibilidades-outras ocupavam o seu lugar ante o respeito de todos, a escala de valores societais não permitindo a “trivialização” do ser humano. Claro que o autor esquece, ou faz por esquecer aqui, as lutas pela educação inclusiva de todas as classes sociais, as lutas contra os mais opressivos poderes que se valiam precisamente da cultura para impedir a ascensão de todos os outros, o que ainda hoje está por concretizar totalmente, e certas vozes regressam crescentemente para defender sistemas vergonhosamente discriminatórios, como a sobrevalorização do ensino privado e caro, e a consequente desvalorização do ensino público, democrático, e que deverá ser acessível a todos. A mediocridade das nossas instituições não pode justificar a sua extinção, pura e simples, ou a formação de guetos educativos para os menos poderosos. Seja como for, creio que entendo Mário Vargas Llosa: antes a verdade do que a mentira do que passa entre nós por “cultura e “arte”.

Mário Vargas Llosa não necessita aqui de qualquer apresentação, pois a sua obra total até ao presente é avassaladora, e na qual, livro a livro, a dignidade de cada ser humano é sempre parte fulcral da sua visão e crenças. Tem vivido boa parte da sua vida aqui na Europa, a maior parte do tempo na França e em Espanha (onde se doutorou em Filosofia, e adquiriu a cidadania), assim como tem leccionado nas mais prestigiadas universidades norte-americanas. Entre tão vasta obra, dois dos seus romances merecem destaque aqui: Conversa na Catedral e A Guerra do Fim do Mundo, este também uma volumosa obra de ficção que parte de Os Sertões do brasileiro Euclides da Cunha, tendo como fundo a Guerra de Canudos, no interior da Bahia, no fim do século IX.

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Mário Vargas Llosa, A Civilização do Espetáculo (2ª edição), Lisboa, Quetzal Editores, 2013.

 

 

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