Natália Correia: som e fúria

CAPA Botequim da LiberdadeEra frequente, quando regressava, ficar sentada no carro a prolongar, a adiar a saída – para a solidão de si mesma… das sombras que a perseguiam.

Fernando Dacosta,O Botequim da Liberdade

/Vamberto Freitas

Estes têm sido os dias de Natália Correia, pelo menos aqui em São Miguel, a sua ilha natal, e um pouco na Ilha Terceira. Actividades criativas de vária natureza em sua memória, dentro e fora da sua casa de nascença na Fajã de Baixo, que hoje é uma espécie de museu e centro de investigação e estudos, os 20 anos da sua ausência foram lembrados ainda (a morte não se comemora, é um escândalo, como diria um outro) com a publicação de dois livros –Natália Correia: Antologia Poética, organizada por Fernando Pinto do Amaral, e o Botequim da Liberdade, de Fernando Dacosta, memórias do seu grande amigo e companheiro de estrada durante décadas, ele próprio um escritor reconhecido e premiado, antigo jornalista de O Jornal e da  Visão. Não queria aqui dizer que a Natália assume finalmente o seu merecido lugar “canónico” na história da literatura portuguesa moderna. Nos dias que correm, ninguém ascende a altares que estão a ser lentamente destruídos num mundo em que a literatura e as artes em geral perderam a sua centralidade na definição e moldura de uma sociedade bem formada, educada, onde cultura e cidadania andariam inseparáveis, indissociáveis numa civilização que agora é avaliada quase exclusivamente pelo PIB e obediência a invisíveis credores, os novos donos de um mundo mais materialista e anti-espírito, que até parece marxismo virado ao contrário, e no outro extremo. Natália Correia não estava longe, suponho, destes pensamentos, e percebeu ou pressentiu inteiramente o fim da liberdade e da dignidade dos cidadãos no alvor do nosso século, sabia que tínhamos entrado numa nova – ou regressiva – fase histórica. Boa parte do livro aqui em foco,O Botequim da Liberdade(o seu mítico bar e poiso nas suas noites de Lisboa), é precisamente sobre a fúria com que ela via quase profeticamente a chegada dos bárbaros às portas das nossas cidades, quase parecendo, essas sua palavras, a poetização melancólica do Fim da História e do Último Homem de Francis Fukuyama. Para além disso, temos aqui um outro retrato singular da escritora oriunda dos Açores que mais marcou, creio que indelevelmente, a literatura do nosso país, que mais contribuiu para a a libertação de mentes, digamos, aprisionadas numa cultura isolada e inquisitorial, mesmo após a chegada da democracia em 1974. Eis aí parte do seu estatuto literário ambíguo entre nós, ainda hoje: será a sua obra ou a sua pessoa que mais deve interessar à nossa cultura em geral ou à literatura em particular?

Advertência: estive em vários eventos literários na presença de Natália Correia, mas com ela nunca troquei uma única palavra. Não sei bem porquê, mas foi assim. Algumas das suas atitudes ante os seus conterrâneos ilhéus nessas ocasiões deixavam-me frio, mas não escandalizado. Reconhecia eu que a meia viagem da vida, a poeta sentia-se, como agora afinal nos confirma Fernando Dacosta, desvalorizada, ignorada e trivializada pelo sistema literário português, e a sua influência política foi passageira, e mais (inteligentemente) cómica do que marcante, ficando algumas das suas tiradas na Assembleia da República imortalizadas, como quando se dirigiu num poema a um colega deputado satirizando as suas posições a respeito do sexo só “legitimo” como acto de procriação. A sua defesa do relacionamento entre Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis também não será esquecida num país de beatos tímidos e, naturalmente, hipócritas. Outras situações serão vistas por lentes diferentes. A sua “solidariedade” ante outros no seu mundo é por vezes muito questionável, como quando ela, numa das suas tiradas acerca de um incidente festivo em sua casa e quando a sua cadela morde a perna da criada e esta acaba no hospital, declarando de seguida Natália ao médico da urgência que quem a preocupa é a cadela – que já  lhe havia inspirado um poema – e não a perna da senhora sua serva. É claro que somos todos um saco de contradições interiores, e poucos são os que nos deixam um legado literário tão rico e consequente como o de Natália Correia. Só que para certos leitores é quase impossível dissociar a autora dos livros, e um retrato mais equilibrado é absolutamente essencial. Sei que esta última afirmação vai contra todas as teorias da literatura, que a obra é que conta exclusivamente, mas quando um autor(a) é também proeminentemente uma figura pública de tal estatura, tudo que conhecermos em termos biográficos servirá para aprofundar a leitura de um poema, de uma ficção ou mesmo de um ensaio. De resto, a sua colaboração com os açorianos após o 25 de Abril (é a autora do Hinos dos Açores, como todos sabem), o seu companheirismo na luta pela liberdade e pela dignidade do povo açoriano juntamente com Vitorino Nemésio num momento de grande turbulência e incertezas político-sociais ficarão para sempre no melhor dos nossos anais, como aliás têm testemunhado em certas ocasiões Carlos Melo Bento, José de Almeida e Mota Amaral, três nomes destacados em O Botequim da Liberdade. Diz ainda Fernando Dacosta que o seu amor aos Açores incluía certas pessoas, como Ângela Almeida, que a poeta dizia desejar que esta fosse a “herdeira espiritual minha”. Ângela Almeida viria a doutorar-se mais tarde numa universidade lisboeta com uma tese sobre a obra de Natália Correia orientada por Urbano Tavares Rodrigues.

“Cenas deliciosas – escreve Fernando Dacosta sobre as discussões intelectuais e políticas nas noites longas de Lisboa – nimbam o Botequim: duas viscondessas açorianas, riquíssimas, reaccionaríssimas, engalfinharam-se com Otelo (Saraiva de Carvalho) em discussões de política, de patriotismo, valentes e coerentes até o embatucarem, ante uma Natália seraficamente esfíngica.

Mil vezes mais aprazível do que o Parlamento, o Botequim faz-se ilha central no arquipélago que a poeta delimitara para si e para os seus, em águas de sedução únicas no País”.

O Botequim da Liberdade é muito mais do que isto, constitui-se como uma outra espécie de biografia caracterizada por pequenas entradas cronológicas, como que em forma de um diário. A generosa prosa de Fernando Dacosta mantém o estilo que já lhe conhecemos, tanto no jornalismo como na sua obra criativa – escorreita, colocando-nos entre os factos vividos ou por ele interpretados, numa mistura entre a “realidade” e a poetização de quem esteve sempre muitíssimo próximo da autora. A epígrafe que coloquei aqui refere-se a uma das milhentas vezes que Dacosta sai no seu carro com a poeta para participarem em eventos literários, colóquios, lançamentos de livros, visitas a escolas. Sobressai de toda esta linguagem um sentimento de solidão e por vezes a desorientação da autora de AMadona, ou do poema que lembra a sua saída de São Miguel na companhia da mãe, “Manhã Cinzenta”. Para além da acutilância de toda a escrita de Natália – poesia, novela, livros de viagem, ensaios sobre a nossa identidade – pressentimos a meio do livro as incertezas e inseguranças que a assaltam quase diariamente, a sua dependência em poucos amigos, inclusive a companhia colada do seu marido, Dórdio Guimarães. As noites no Botequim vão-se revelando cada vez mais sem sentindo quando vamos chegando ao fim da prosa de Dacosta. Até o leitor mais crítico da pessoa e da obra da autora começa a sentir a saudade de um outro tempo e de uma outra literatura, que não o dos dias que vivemos, que não a ambiência literária sem grupos ou tertúlias que provocavam a saída e depois a discussão de obras que hoje estão no centro do nosso pensamento e apreciação estética. A centralidade perdida da cultura foi, uma vez mais, pressentida por Natália Correia muito antes de outros. Tem corrido abundantemente nas redes sociais citações de Natália acerca da nossa entrada na Comunidade e depois na União Europeia. São palavras arrepiantes, proféticas, certeiras em tudo que viríamos a viver – era o fim de uma era e a entrada no mais escuro dos túneis da nossa História.

Natália Correia fez uma viagem à América, e depois escreveu as suas impressões emDescobri Que Era Europeia. A América foi retratada, mais ou menos, pela sua escuridão, pela sua estranheza rude. Que (re)escreveria hoje ela nesse mesmo livro, sabendo o que já sabia desta nova Europa, vivendo connosco subjugada a tudo que não é nosso, nem nunca será?

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Fernando Dacosta,O Botequim da Liberdade, Alfragide, A Casa das Letras, 2013.

 

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