Eugénio Lisboa e a (re)apresentação de uma vida

CAPA Acta Est Fabula III Eu olhava para aquele mundo a esfarelar-se, física e moralmente, e sentia-me, cada vez mais, a pertencer, cada vez menos, àquilo tudo.

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula – III

/Vamberto Freitas

 Antes de mais, permitam-me que coloque as minhas cartas na mesa, quanto a literatura e a outros textos criativos em geral: ler a prosa de Eugénio Lisboa tornou-se-me nestes últimos anos – ou nestes “tempos desprezíveis”, expressão que ele próprio me endereçou noutro contexto – um dos meus poucos e belos prazeres. Não será só, longe disso, o facto de ele ser para mim um dos maiores críticos e ensaístas literários na nossa língua, mas ainda mais a suas linguagens claras e despidas de qualquer preocupação pretensamente teórica, enriquecidas pelo seu passado multicultural (no melhor sentido da palavra, e nunca ideologicamente falando) entre as três tradições que ele desde sempre absorveu e manipulou, por assim dizer, para fazer da sua própria escrita um riquíssimo mosaico humano e artístico – as literaturas das línguas francesa e depois inglesa, mantendo-se escrupulosamente atento aos nossos, principalmente desde Camões até às gerações de meados do século passado. Parte da estética da sua obra crítica é esta: torna-se arte tal como os textos de outros que ele aborda ou desconstrói – polissemia, ironia, chamamentos aos clássicos contextualizantes da literatura moderna ocidental, menção de um qualquer escritora/a menos conhecido/a mas em quem ele reconhece a grandeza por outros ignorada, a citação constante numa  prosa, a sua, de que não tem medo de ostentar saber e muito menos pretender que ideias ou formas são só suas, e não também dos seus antepassados ou contemporâneos literários. Outra questão, que é muitíssimo cara aos que viveram a fatalidade de um “portuguesismo” à distância, nas ex-colónias ultramarinas ou na diáspora verdadeiramente universal que foi e é a nossa – ele olha e vê não de dentro para fora, mas sim de fora para dentro, o que sempre confundiu certas vozes da nossa por vezes monolítica cultura literária, não poucas vezes levando-os ou ao silêncio de tudo o que se produzia além do pequeno retângulo ibérico, ou a uma condescendência ainda mais intolerável. Só que eventualmente o tempo consertaria muita ignorância entre nós. Como não poderia o tempo colocar estes autores no seu lugar? É preciso ainda repetir os nomes de Eugénio Lisboa, Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis, Onésimo Teotónio Almeida, João Camilo, J. Rentes de Carvalho, Fernando Venâncio, Rui Knopfli, Adolfo Casais Monteiro, Alberto de Lacerda, num rol que inclui alguns outros de igual originalidade e consequência literária?

Tudo isto aqui como introdução ao incomparável e acabado de sair Acta Est Fabula: Memórias -III- Lourenço Marques Revisited (1955-1976), de Eugénio Lisboa. O autor saltou do primeiro para este terceiro volume devido, confessa ele, à sua própria idade e ao projecto que contará com mais alguns outros, querendo ele ter a certeza que certos ajustes de contas (a expressão é minha, não do autor) com alguns dos seus contemporâneos e acontecimentos históricos que abalaram a sua e a vida dos seus não passariam em branco, estando pois em destaque os últimos anos em Moçambique antes e imediatamente após a muito conturbada independência, assim como a vida cultural e literária em Lourenço Marques e na “metrópole”, que Eugénio Lisboa visitava com certa frequência a caminho de outros prazeres artísticos no restante continente, especialmente na França e na Inglaterra, país este onde acabaria por viver dezassete anos quando foi nomeado Conselheiro Cultural da Embaixada Portuguesa em Londres. O problema aqui é-me tremendo: como fazer justiça num espaço tão limitado e de caracteres contados a mais de quinhentas páginas de prosa aliciante, esclarecedora de tanta vida pessoal e colectiva no contexto da descolonização e de um mundo em total ebulição enquanto o autor desenvolvia a sua vida familiar, profissional e intelectual? Fica para outro contexto, falo agora só do que, para mim, é essencial a um melhor entendimento do que significou a sua vida literária, do que significou o abalo militar e político na sua terra de nascença, um exemplo perfeito de quando ou como o mapa não é o território – a sua lealdade ao grande país, e especialmente à sua grande cidade no Índico, esteve sempre enformada pela sua condição de cidadão português “no país dos outros” (como escreveria num poema o seu grande amigo e conterrâneo moçambicano Rui Knopfli) enquanto permanecia fiel à grande Tradição intelectual de todo o Ocidente, as suas inúmeras outras “pátrias” espalhadas por vários continentes e línguas. Como o Minotauro, a questão não era procurar saída alguma, mas sim negociar a felicidade e uma vida com sentido múltiplo adentro do medonho labirinto. É certo também que os respectivos “factos” históricos são, mais ou menos, conhecidos por nós, tudo o que levaria a Frelimo ao poder. O que não conhecemos de todo são os dramas dilacerantes (termo de quando em quando empregado pelo autor) dos indivíduos, famílias e grupos apanhados pelo vendaval da descolonização. Saber como um grande intelectual e escritor como Eugénio Lisboa foi reagindo dia a dia aos acontecimentos que determinariam todo o seu futuro e apagariam de modo indecente todo um passado, o de quem toda a sua vida tinha defendido sem algazarra ideológica de tantos oportunistas o direito à dignidade de todos os moçambicanos, de qualquer cor ou etnia, vale só por si este grande volume de Acta Est Fabula. Tal como no seu acto crítico ante a literatura que o move e comove, para si a ética e a estética são indissociáveis – e nada menos ante o rumo da História, ante a mudança radical que fez estremecer dois povos, o português e o moçambicano. Quando os novos poderes em Maputo, que já exibiam muitos outros tiques totalitários, ordenaram mesmo aos que lá tinham nascido que teriam de optar por uma só nacionalidade, moçambicana ou portuguesa, Eugénio Lisboa e a sua família levantaram âncora e fizeram-se a um tenebroso mar de incertezas. “Quem decide a minha nacionalidade autêntica – escreve Eugénio Lisboa a dada altura nestas suas memórias – sou eu e mais ninguém”.

No centro de Acta Est Fabula III estão os anos de actividade literária fulgurante a partir do momento em 1955 quando o autor regressa de Lisboa a Lourenço Marques após completar o seu curso em engenharia, e muito particularmente a partir da fundação do jornal A Voz de Moçambique nos primeiros dias de 1960. Independente de grupos políticos ou bancários, foi o meio de comunicação que mais divulgou a literatura universal, sem nunca descurar as questões da arte em todas as suas formas que estavam a ser criadas por moçambicanos, brancos e de cor, dando lugar a polémicas sobre a natureza estética e, digamos, sobre quem era quem nesses meios, fazendo reflectir ainda mais um leitor açoriano como eu, devido a discussões entre nós em anos passados acerca de temáticas semelhantes na nossa literatura. Nomes que perdudariam até hoje, como o de Rui Knopfli e Craveirinha, por exemplo, a outros que o tempo se encarregaria de dissimular em paisagens literárias do nada, vamos acompanhando a nascença de uma vivíssima esfera cultural e intelectual que ainda hoje é objecto de debate entre alguns. Estas memórias são como que um curso completo, como eu já havia dito noutro texto acerca destas memórias, em literaturas portuguesa, francesa, inglesa e norte-americana. Creio que poucos entre nós, dentro e fora das universidades, têm este alargamento de vistas, este conhecimento tão profundo de várias literaturas, como Eugénio Lisboa. Aliás, qualquer dos seus textos, para além da crítica interpretativa e contextualizante que comportam sempre linha a linha, são fontes demonstrativas de como uma obra se interliga com outra, de como um autor entende ou não sua própria arte, se uma criação de interiorismo puro, se uma representação de um tempo e de uma sociedade em que se insere, e com a qual se identifica, é arte ou mera retórica pindérica. Para Eugénio Lisboa, está acima de tudo a estética, e nunca as questões de “representatividade” social ou política. Ou uma prosa, um poema, uma peça de teatro se auto-sustenta na sua própria beleza, ou então de pouco vale. Ler Eugénio Lisboa é, como alguém escreveu um dia em relação às entrevistas da revista The Paris Review, fazer uma chamada (roll call) aos melhores da literatura internacional.

Eis aqui uma limitadíssima abordagem a este volume de Acta Est Fabula III. Para quem ainda não conhece, sugiro também a leitura do recente Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo, um outro grosso volume de estudos da sua obra e de homenagem ao autor.

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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula Memórias – III – Lourenço Marques Revisited (1955-1976), Guimarães, Opera Omnia, 2013

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