Quando alguns escritores falam de si

Capa A Fala dos Escritores São eles que, dando-se a conhecer nas suas respostas, nos oferecem pistas de reflexão para podermos lê-los melhor.

Carlos Vaz Marques, Os Escritores (Também) Têm Coisas A Dizer

/Vamberto Freitas

 Carlos Vaz Marques, profissional da rádio e da televisão, colaborador dalgumas das mais importantes revistas literárias e culturais no nosso país, demonstra como poucos da sua geração as possibilidades da difusão e consequentes discussões sobre a melhor literatura nacional e estrangeira. Foi na revista LER que comecei a acompanhar as suas extensas entrevistas com escritores portugueses ou de língua portuguesa (Mia Couto e António Tabucchi são dois dos escritores cujas “cidadanias” literárias já se “confundiam” desde há muito entre Moçambique num caso e no outro a Itália e Portugal), algumas das quais ele acaba de publicar em forma de livro, Os Escritores (Também) Têm Coisas A Dizer. Leitor omnívoro, Carlos Vaz Marques chega às suas entrevistas com uma preparação admirável em volta das obras que vai questionar nos seus encontros com os respectivos autores.

Antes de mais, queria contextualizar aqui um pouco a sequência de trabalhos deste género de que ele vem sendo autor no nosso país, oferecendo-nos a todos não só prazer de publicações até há bem pouco singulares entre nós, tanto no seu formato gráfico como constituindo ainda mais um foco de visão sobre o melhor que se vai publicando lá fora, muito particularmente entre várias gerações no mundo anglo-saxónico. Tradutor competente, essa faceta na sua actividade de jornalismo literário no seu melhor na nossa língua vem-se tornando num grande contributo ora para o nosso encontro com escritores que de outro modo por poucos seriam lidos no nosso país ora como uma referência que outros poderão absorver e desenvolver nos seus próprios escritos. Nada em literatura, sabemos todos, é estritamente original desde os gregos e a Bíblia, mas a reinvenção artística através das palavras só se poderá dar com o conhecimento do que no nosso próprio tempo vão escrevendo outros em várias línguas ou geografias. Carlos Vaz Marques é responsável pelo recente lançamento da revista britânica Granta na sua versão lusa, mantendo o formato de little magazine original e juntando nas suas páginas escritores de língua inglesa e do nosso país, com portfólios de artes plásticas e fotográficas. Por detrás dos seus projectos, está o seu conhecimento de uma revista norte-americana que desde os anos 50 tem sido a mais firme e consequente referência neste tipo de periódico literário – a The Paris Review, nascida na cidade do mesmo nome por iniciativa de escritores norte-americanos lá temporariamente residentes na altura, hoje quase todos eles figuras “canónicas” na cultura do seu país, mas depressa transferida para Nova Iorque, onde ainda é publicada com o mesmo fulgor e criatividade. De todas a suas secções, a que mais a distingue são as entrevistas com prosadores, poetas, dramaturgos e ensaístas – duas em cada número – numa fase da sua carreira já legitimada pela crítica pública e pelas abordagens académicas. São conversas directas e únicas entre os entrevistadores e os autores em foco: desde os hábitos diários ou corriqueiros no acto da criação literária de cada um deles ao esclarecimento sobre um personagem, incidente ou contexto histórico de uma dessas obras ou de um conjunto de obras, de tudo se fala para que o leitor venha a ter uma ideia muito mais aprofundada daquilo que o escritor fez, ou pensa que fez, para além das interpretações de cada crítico ou leitor. Quem gosta de e valoriza a literatura não poderá deixar de gostar destes encontros prolongados, primeiros gravados e depois “editados” ou revistos, no caso norte-americano, pelo próprio autor. A finalidade é deixar um documento que perdure no tempo, que venha a ser um elaborado retrato de como viveu e escreveu esse autor ou autora. Desde o início que a The Paris Review depois reúne essas entrevistas em forma de livros intitulados precisamente The Paris Review Interviews: Writers at Work. Foi daí que Carlos Vaz Marques retiraria não só o seu modelo de trabalho entre nós, como seleccionou uma série dessas mesmas entrevistas, traduzi-as e publicou o volume intitulado Entrevistas da Paris Review (2009), que recenseei então nestas e noutras páginas.

É, pois, vindo de todo este referencial literário anglo-americano que agora temos este precioso volume de Os Escritores (Também) Têm Coisas A Dizer. Carlos Vaz Marques pede desculpa por ter deixado de fora alguns dos autores por si entrevistados (que venha brevemente com outro volume, porque não?), mas uma colectânea deste género é isso mesmo – a selecção subjectiva de quem a organiza e assina. Para os leitores, creio, o que interessa é a obra que tem nas mãos para ler, e neste caso até reler, um dos mais distintos grupos de ficcionistas lusos (e num dos casos aqui, do grande ensaísta Eduardo Lourenço) de várias gerações e de estéticas literárias variadas tal como as suas temáticas recorrentes. Ir ao seu encontro nestas páginas é estar quase na sua presença física e a ouvir as suas vozes em conversa amena com o seu interlocutor, abordando com a maior inteligência não só as suas próprias obras como a literatura do nosso tempo e na sua historicidade durante várias décadas. Acreditem que das voz  de José Saramago ou de Agustina Bessa-Luís a Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe ficam retratados, ora na experiência pessoal de cada autor ou autora, vários mundos e mundividências adentro do nosso espaço nacional e tempo, estéticas e temáticas literárias das mais diferenciadas mas que depois vemos como necessariamente convergem todos nas suas transfigurações das “realidades” comuns por eles ficcionadas e nas frequentes alusões aos seus antepassados literários significantes – a decantada ansiedade da influência de Harold Bloom nunca separando, mas, pelo contrário, criando uma linha que por mais curvada que seja acaba necessariamente por dar continuidade a toda uma Tradição distinta numa língua ou “cultura” como a nossa. Por certo que a pós-modernidade num mundo sem fronteiras está também a desterritorializar as artes em geral, e as literaturas “nacionais” são cada vez mais difíceis de “identificar” ou “separar” umas de outras. A pergunta uma vez mais: um escritor luso-descendente, mesmo a escrever noutra língua, será ou não igualmente um escritor “português”,  cujas imagens, metáforas e chamamentos históricos ou ancestrais são os da nação a que pertenceram as suas gerações antepassadas? Aliás, alguns dos escritores neste volume levantam implicitamente essa questão, mesmo que disso não se deem conta, ou se interessem por estas hierarquizações, agora já quase só académicas.

Umas das grandes virtudes de um livro como este são os momentos de descoberta que qualquer leitor, por mais bem lido que seja, fará de autores que desconhecia em parte ou na totalidade. Foi o meu caso com a escritora Dulce Maria Cardoso, autora de contos e alguns romances, entre eles O Retorno (que aparentemente motiva esta entrevista com Carlos Vaz Marques) quando  ele afirma na respectiva introdução que a obra da autora tem “tido mais fortuna fora de Portugal do que nas livrarias portuguesas, tanto em edições estrangeiras como na atribuição de um prémio europeu de literatura”. Retornada a Portugal como consequência do 25 de Abril, este seu quarto romance tem como tema principal a chegada ao nosso país de mais de 600 mil portugueses vindos das ex-colónias. Pelo que aqui fica neste diálogo entre ela e o seu entrevistador, não tenho dúvidas de que se trata de uma obra absolutamente original e regressa a um dos mais dramáticos momentos da nossa contemporaneidade política e social. Narrado por um jovem adolescente, o tema de “perdas” e de “identidades” desfeitas, caídas e depois reerguidas adentro de um outro labirinto da existência humana só pode vir confirmar o que acima deixei dito quanto à nova literatura sem mapa nem território definidos.

“Acho que sim, – responde Dulce Maria Cardoso a Carlos Vaz Marques quando este lhe pergunta se Já sabe de que terra é – mas não estou bem certa. Talvez só no ano passado [2010] tenha feito as pazes com a metrópole, com Portugal, depois de ter estado um ano na Alemanha. Até aí, não tinha terra. Também não era uma coisa dramática, de andar todos os dias angustiada. Mas não sentia uma pertença”.

Para além das ideias ou da informação puramente literária em Os Escritores (Também) Têm Coisas A Dizer, o “prazer do texto” acontece de linha a linha, de entrevista em entrevista. São estes os textos que despertam em qualquer leitor sério a vontade de depois ficar só num recanto com uma obra ante a sombra quase viva de um destes  autores ou autoras.

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Carlos Vaz Marques, Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer, Lisboa, Tinta-Da-China, 2013.

O Natal Em Cada Um De Nós

/Vamberto Freitas

Escola Ladeira da PenaQuando aqui há dias disse a uns amigos/as que ia escrever sobre o Natal para este suplemento especial do Açoriano Oriental disse-lhes também que desde há muitos anos não abordava o tema na minha escrita. Dizer o quê? Que acredito na fraternidade e bondade da quadra nestes dias? Que acredito que a noção do Sagrado continua a ser essencial à convivência pacífica e civilizada entre todos nós, e entre as próprias nações do mundo? Que ir ou não ir à igreja não tem nada a ver com as nossas crenças ou não num Deus misericordioso? Que o Natal é dos inocentes, mas quem determina a sua felicidade são os adultos à sua volta, nem sempre os mais aconselháveis? Depois temos, agora, toda a sociedade – sociedades – em convulsões cruéis para a maior parte dos nossos concidadãos. Se as próprias instituições do Estado que deveriam zelar pelo nosso bem estar acreditam que é absolutamente necessário sacrificar a felicidade de milhões dos seus súbditos (é o que somos, e só, neste momento) em nome dos mais obscuros interesses financeiros nacionais e internacionais, vamos falar ainda do Natal? Que me disseram os meus amigos e as minhas amigas? Que sim, que devemos falar e viver sempre o Natal. Estou mais ou menos de acordo, quando repenso a questão, e sobretudo quando repenso os nossos deveres. Como sou um existencialista, não posso nem devo ignorar que a ética e os nossos valores começam irremediavelmente em nós próprios, que os indivíduos não se devem refugiar na desculpa de que mais ninguém exerce os seus bons ofícios entre nós, que devemos fazer o que faz o médico protagonista do romance A Peste, de Albert Camus, quando decide ficar e ajudar os condenados na cidade argelina assolada por ratos infetados e mortíferos, enfrentando ele próprio o mesmo risco de vida. Não, será cada um de nós a resistir ao chamado “espírito do tempo”, ou a tentar moldá-lo conforme a sua noção do Bem e do Mal. Não direi aqui, nunca o direi, que acredito que uns são virtuosos e os outros todos maldosos, injustos, egoístas. Digo simplesmente que em vez de os criticar tentarei – deveríamos todos e cada um de nós tentar, acredito – ser o melhor vizinho, amigo, colega e concidadão possível, muito especialmente por entre e durante a catástrofe económica e social que estamos de novo a viver no nosso país.

Os da minha geração açoriana, nascidos mais ou menos no pós-Segunda Grande Guerra, tiveram este privilégio – viver vários tempos, se não séculos, durante algumas seis ou sete décadas de vida aqui nas ilhas. Não guardo nem cultivo a nostalgia dos anos 50 nas Fontinhas (Ilha Terceira). Guardo, isso sim, o ter visto a caminhada que nos levou de canadas lamacentas, de águas tiradas do poço ou contidas em tanques pouco higiénicos, dos serões à luz do petromax, ou do candeeiro a petróleo, da ausência de meios de comunicação que nos mostrassem o resto do mundo, e guardo ainda mais o menino vivo e inocente em mim. Cada evolução no nosso quotidiano trazia uma alegria acrescida, o fascínio dos novos confortos que nos iam proporcionando certas forças longínquas e por nós desconhecidas (esqueçamos aqui por uns momentos as ideologias que orientavam e governavam as nossas vidas de então). Dos pés descalços de outrora à música que os primeiros rádios nos traziam (e que as nossas mães cobriam ou ornamentavam com um bordado ou coisa parecida, um novo luxo em casa assim acarinhado) chegava sempre uma prenda que tornava a vida solitária numa freguesia rural açoriana num Natal sem data precisa. Todos sabemos como a época do Natal verdadeiro, por sua vez, tornava as nossas casas mais cheirosas com as folhas verdes da Natureza húmida e exuberante, e um pouco mais abundantes nalgumas delícias que no resto do ano nos faltava. Havia mais sempre a chegar nos anos da nossa escuridão e humildade colectiva, tudo mexia à nossa volta, era a modernidade tardia que aparecia aos poucos vinda de nós próprios, e vinda de outros que haviam passado a partilhar as geografias dos nossos “afectos e memórias”. Crente ou não crente, tudo isso ficaria indelevelmente associado aos rituais sagrados da época, faz parte do nosso mais íntimo ser, é o contraponto absoluto a todas as desgraças ou infelicidades vividas ontem tal como na nossa actualidade.

Quando leio hoje, quase diariamente, sobre a Base da Lajes, que fica a dois passos da minha casa de nascença e adolescência, não consigo absorver a informação dos jornais ou das conversas de um modo distante, e muito menos a pensar em “estratégias militares”, “acordos”, “economia”, ou lá o que motiva o debate em curso em volta da presença, ou não, diminuída ou acrescida, de americanos entre nós. Nem sequer consigo pensar na “Base das Lajes” como posto militar, confesso, que sei muito bem que é, como e por que nasceu e se mantém no Ramo Grande, para o conforto de uns, e o escândalo de outros. Para mim, aquela pequena sociedade – e era uma mesmo uma pequena sociedade auto-sustentável, e que de nós não precisava de nada – foi sempre a minha fonte dos belos cheiros americanos, dos gelados e de outras doçuras que o meu pai trazia embrulhadas caminhando de noite pelos cerrados que atravessava para chegar casa vindo daquela mini-América, e antes de ter o seu primeiro carro, foi o sustento desde sempre da minha família imediata. Essa outra América, a que ficava geograficamente à “distância”, manisfestava-se ainda de outras maneiras com as visitas dos nossos familiares, os que nos confirmavam que outros e bem melhores mundos existiam, e que estávamos bem perto deles tanto em casa como na nossa imaginação. O Natal da minha infância nas Fontinhas incluía sobretudo o dia mais alegre do ano, tirando o início das festas da nossa padroeira. Nas conversas que já referi aqui, foi a minha prima Ivete Pamplona, residente na nossa freguesia onde segura a casa ancestral dos nossos avós, que fez lembrar esse dia do nosso outro contentamento. Ofereceu-me em directo as palavras com que eu poderia ter iniciado esta crónica natalícia.

“Naquele dia, – escreveu a Ivete por mim — a chuva teimou em ficar, mas o meu coração, alvoraçado, batia tanto que não me incomodavam aqueles pingos frios no meu rosto sardento, afogueado. Corria pela ladeira acima, com ligeireza. O cheiro de Natal começava mais cedo nas Fontinhas, quando o carro dos militares americanos parava em frente da nossa escola… e eu não queria perder esse momento… Querido primo, não pretendo concorrer com uma frase, apenas recordar-te a magia que sentíamos ao receber aquelas preciosas caixinhas com cheiro à América…”

Caixinhas com cheiro à América? Era isso mesmo. O que o Estado Novo não nos dava, como agora volta a Terceira República a não dar a ninguém, davam-nos os americanos, nossos vizinhos, a besta negra de tantos outros esquerdistas da minha terra. Eis “as caixinhas”. Se quiserem imaginar o seu tamanho, será fácil: pensem nas caixinhas das sanduíches com que a SATA Internacional nos brinda a caminho de Lisboa ou do Porto, e terão uma ideia muito aproximada. Ficávamos sentados nas nossas carteiras, a olhar para uma Cruz e para o Salazar, a professora tentando manter a ordem, os nossos ouvidos em atenção ao barulho da chegada dos militares americanos. Não podem imaginar a emoção quando finalmente sabíamos que eles já estavam no lado de fora prestes a entrar na nossa escola primária da Ladeira da Pena. Depois era receber, cada um de nós, a prenda mais esperada de todo o ano. Que tinha lá dentro? Esferográficas, lápis, borrachas, berlindes, réguas, tudo colorido e acompanhado do inesquecível, irreprimível, “cheiro à América”. Como veem, era tudo o que não tínhamos durante o resto do ano. O dia era passado depois ora em trocas, ora em jogos, ora em gritaria porque um de nós se recusava a negociar este ou aquela prenda das ditas caixinhas.

Era o Natal de quem pouco tinha, era o Natal que mais sentido fazia, a bondade, uma vez mais, e a surpresa não na quantidade ou qualidade das coisas, mas sim na apreciação do que outros sabiam ser essencial na formação de cidadãos, na educação de crianças, na alegria do encontro com o inesperado e oferecido por quem connosco raramente saberia comunicar de outro modo. O que viria a pensar deles mais tarde, já seria como cidadão da América, já seria como observador, nem sempre simpatizante, do seu papel no mundo, da sua presença no meu torrão natal. Pois, havia de se ir o menino e a inocência.

Nunca se irá a sua gratidão. Nunca se irá a memória do seu afecto, da mão estendida. Se mera “propaganda” era, se era a famosa conquista de “corações e mentes”, era muito mais e melhor do que recebíamos dos ricos e poderosos no outro lado da rua – ou do outro lado do mar, a leste.

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Richard Rodriguez: da memória como literatura

A tarefa de sempre do escritor na Califórnia tem sido escrever sobre o que significa manter a nossa humanidade num lugar propagandeado como sendo o Paraíso.
Richard Rodriguez,
Darling: A Spiritual Autobiography

/Vamberto Freitas

CAPA DarlingComecei a ler o grande ensaísta e intelectual público norte-americano Richard Rodriguez logo no início da sua carreira, quando publicou o seu primeiro livro intitulado Hunger of Memory: The Education of Richard Rodriguez (1982) seguido de alguns outros, para mim especialmente Days Of Obligation: An Argument With My Mexican Father (1992). Creio que hoje os ensaios publicados nalgumas das mais prestigiadas revistas do seu país e depois reunidos sequencialmente em livros já não provocam o que então provocou o primeiro livro aqui mencionado – ataques ferozes vindos da esquerda étnica, principalmente do seu próprio grupo mexicano-americano. Estávamos então no auge do debate sobre bilinguismo e multiculturalismo na sociedade americana, e muito especialmente quando essa mesma esquerda reclamava a essencialidade da chamada política de identidade, ou seja, a lealdade incondicional ao grupo e à respectiva cultura herdada dos antepassados, as minorias que haviam desde sempre permanecido nas margens da mesma sociedade, quase sempre discriminadas quando não vilipendiadas aberta ou subtilmente nas instituições dominantes do país. Pela minha parte, desde a universidade à minha carreira como professor no ensino secundário oficial californiano, aderia mas nunca concordei com as fronteiras psíquicas e intelectuais que nos deveriam limitar nos nossos interesses literários, ou mesmo adesões sócio-políticas, dentro ou fora do convencionalismo societal. O autor foi ferozmente acusado de se querer aproveitar das simpatias que a sua escrita passou de imediato a receber de outros que não da sua comunidade latina. Só que assumia por inteiro a sua etnicidade, mas a sua educação clássica na academia norte-americana e depois na Inglaterra tinham-no levado para um universalismo literário e artístico que interligava sem complexos o seu ser total e íntegro, a sua escrita definindo a beleza ou a tragédia dos seus outros mundos, e não só a luta pelo reconhecimento que travava naquele momento a sua própria comunidade de origem. Eu sou daqui, quereria dizer, como sou de toda a parte. Aliás todos os títulos dos seus livros posteriores seriam de imediato reconhecidos pelos próprios títulos, de uma poesia brilhante, bela, significante, deliberadamente ambígua, aberta. A fome da/de memória, um argumento com o meu pai mexicano, quem ele adorava e respeitava na totalidade, não deveriam, seria de pensar, ter deixado espaço a ninguém para questionar “lealdades” restritas ou provincianas, muito pelo contrário. Richard Rodriguez simplesmente chamava a si o seu passado, para de lá partir para o mundo, para outros povos e as suas outras literaturas, principalmente as que lhe tinham fornecido uma língua e linguagens através das quais ele agora contava sempre, transfigurava, a experiência dos que nunca haviam ter tido voz na mesma sociedade. Quantos desses seus críticos originais teriam de facto lido o seu grande livro? Bem sabemos como isso acontece no nosso próprio país.

Nascido em 1944 de pais imigrantes mexicanos em Sacramento, a capital da Califórnia, não poderia nunca negar a o seu próprio ser, mas poderia e fê-lo chegar a outros que historicamente o ignoravam e mantinham os restantes na relativa invisibilidade de uma minoria sem poder nem voz, vítima dos mais irracionais estereótipos e chauvinismos de toda a ordem. Vi-o nesses anos em programas televisivos a defender-se da mesma irracionalidade, especialmente quando vinda amarguradamente dos seus conterrâneos mexicano-americanos – contrapunha as suas palavras com a mesma serenidade e beleza com que compõe a sua prosa desde o início até aos nossos dias. Da sua “verdade” sempre soube fazer arte, da sua arte sempre soube aproximar uns e outros numa pós-modernidade simultaneamente atribulada e libertadora. Desse modo, haverá bem poucos escritores contemporâneos norte-americanos tão pertinentes e em consonância com a nascente intelectualidade luso-americana das segundas e terceiras gerações – vede como se parte das margens para outros mundos, vede como se reconcilia a força das nossas raízes com a vastidão e diversidade do que fica para além de nós próprios. Os escritores luso-americanos chegaram um pouco mais tarde, mas também chegaram, sem dever nada a ninguém, a não ser às suas duas grandes tradições literárias, a norte-americana e a portuguesa.

Acaba de sair o novo livro de Richard Rodriguez, Darling: A Spiritual Autobiography. Como sempre na sua obra, trata-se de um conjunto de ensaios, alguns dos quais previamente publicados em grande revistas ou jornais, mas agora no conjunto constituindo uma narrativa interligada por acontecimentos da nossa actualidade, reflexões literárias e filosóficas, história e, de novo, a memória dos seus e de si. Darling, expressão tão do nosso conhecimento nos filmes americanos e outros média, traduzido aqui vagamente, e com toda a ironia do próprio autor quando a emprega, por querido ou querida, refere-se inevitavelmente à sua assumida homossexualidade anunciada logo nos seus primeiros escritos. Richard Rodriguez vive em São Francisco desde sempre, um meio não hostil à sua orientação sexual, mas imagine-se uma condição como a dele: descendente de mexicanos, de cor, diz ele sempre, “castanha”, homossexual vindo de umas das mais “machistas” culturas e tradições nacionais, escritor de grande alcance dentro e sobretudo para além de um grupo historicamente denegrido nos EUA, e depois ter de se “impor”, de dialogar com a grande sociedade transfronteiriça, com todo o saber e arte do Ocidente, entalado entre o seu passado e memória e a contemporaneidade, que ele tão bem tem sabido interpretar e transmitir. Numa escrita absolutamente original, ao mesmo tempo clara, directa, pluri-significante enquanto alicerçada no melhor da literatura e pensamento ocidentais, vamos de página em página fascinados pela sua inteligência e angústia de pertença ao todo na sua e noutras comunidades. Desde a condição humana na Califórnia até ao mistério da Terra Santa ou do Catolicismo, a que ele adere sem apologias nem pedido de desculpas à hierarquia da Igreja (vai à missa todos os domingos), acompanhamos o intelectual sereno e sabedor na sua insistência na bondade da Humanidade. Acontece o 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, acontece mais tarde a morte de uma amigo com SIDA em Las Vegas – recusa-se, sempre, a culpar seja quem for, parte para a tentativa de descoberta do que move e comove os que fazem a História, desde o amor de Cristo aos islâmicos em ira radical, quer saber destes que fizeram ou fazem a História, e quer saber dos que a sofreram e a sofrem nos nossos dias. Eis a diferença do grande intelectual – na linha de um Edward Said, por exemplo – e os que não conseguem libertar-se da sua condição de membros da elite nos seus países. A partir do violento ataque a Nova Iorque declara-se judeu-cristão-islâmico. Quer saber sobretudo de onde vem tanto ódio por parte daqueles que partilham a crença de um só Deus, o Deus “do deserto” médio oriental, o Deus dos três grande profetas – Moisés, Cristo, Maomé. Confesso, como seu leitor, que o prefiro menos virado para o Mistério, e mais ligado ao seus e nossos mundos quotidianos, históricos, artísticos.

Foi o ensaio intitulado “Disappointment” que mais provocou o meu constante sublinhar e marginália vária. É uma viagem pela literatura californiana desde o século XIX a meados do século passado – o escritor enfrentando a mítica de uma Califórnia paradisíaca, a mesma que levaria John Steinbeck a desmistificar em sucessivos romances a partir da Grande Depressão até à sua morte nos anos 60. Rodriguez relembra ainda que no seu tempo de escola e faculdade era ainda quase proibido falar nessa literatura, tal o embate com a propaganda-outra da vida à beira do Pacífico, a última fronteira continental do Ocidente, a terra de todas as possibilidades. Como mexicano-americano, o autor sabia muito bem da mentira sobre a realidade e da verdade da arte que a espelhava de outro modo. “Esta era a Califórnia – escreve Richard Rodriguez – como sendo a América da América”.

Pena é que nenhum dos seus livros esteja traduzido entre nós aqui em Portugal. Poder-se-ia começar por este Darling: A Spiritual Autobiography. Tem muito a ver connosco – cá dentro e sobretudo com a nossa histórica caminhada imigrante na América do Norte.

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Richard Rodriguez, Darling: A Spiritual Autobiography, New York, NY, Viking Penguin, 2013. As traduções aqui são minha responsabilidade.

Subindo aos céus, sem rede

Capa Anthony de S+íFoi o verão em que ninguém dormiu. Durante a última semana pegajosa de Julho, o ar abandonou-nos, sem brisa corrente nas nossas ruas e nos nossos becos tortos.
Anthony De Sa, Kicking the Sky

/Vamberto Freitas

 O primeiro romance do luso-canadiano Anthony De Sa intitula-se Barnacle Love, que no nosso país levou na capa Terra Nova (Dom Quixote, 2009). Tinha tudo a ver com a nossa imigração açoriana no país do autor, a sua transfiguração de como pais micaelenses (Lomba da Maia) haviam deixado a ilha a meados do século passado para reconstruirem as suas vidas, juntamente com milhares de conterrâneos seus de todas as ilhas, na que viria a ser uma das grandes comunidades da Diáspora lusa na América do Norte. O narrador era precisamente um desses seus filhos, a segunda geração a braços com a sobrevivência entre duas línguas e duas culturas, quase sempre antagónicas apesar da pregação de um suposto universalismo lusitano, capaz de tudo e de todos absorver num novo ser ou cidadão. Amor de lapa, a terra ancestral continuamente em chamamento e a condicionar um quotidiano que com as ilhas, agora, só teria a ver com a memória e a saudade, aliviadas com um copo de vinho de cheiro ou caseiro (a uva trincada secretamente numa garagem onde também se pendurava um porco às escondidas), um chouriço, as festas religiosas muito açorianas, e o cheiro das cozinhas nas caves das casas mais ou menos humildes dos que estavam e estão condenados a viver dos seus braços e das contingências de toda a ordem que marcam, agora sim, universalmente a experiência de todos os “exilados”. Esta geração de escritores luso-descendentes não tem paralelo nem nossa história nem nossa cultura literária, aqui ou no além-fronteiras, dando conta de si através da arte, redefinindo em língua inglesa, no Canadá e ainda mais nos EUA, o nosso destino nas terras distantes, eliminando a geografia ao insistirem no passado dos que lhes deram vida, abraçando na sua escrita e sem complexos a sua condição de cidadãos hifenizados. Literatura canadiana ou norte-americana? Sim, estão integradas canonicamente na sua tradição muito própria. E depois de traduzidas para a nossa língua, com as suas imagens, metáforas, referências históricas e terminologia e ditos portugueses em itálico no inglês original? A desterritorialização, ou mesmo a desnacionalização, da literatura está em curso há várias décadas, as línguas já não têm pátrias — têm falantes, que nosso caso espalham-se literalmente pelo mundo inteiro.

Estas considerações vêm naturalmente a propósito do segundo romance de Anthony De Sa, recentemente publicado no Canadá, Kicking the Sky (“subindo aos céus”, na minha tradução), que tanto dá continuidade à sua prosa e temática anteriores como parte para outros e bem mais dramáticos (e cómicos) territórios da mente e do coração. Baseado num caso verídico acontecido em Toronto em 1977, parte do assassínio de um adolescente engraxador açor-canadiano (“the Shoeshine Boy”) de nome Emanuel Jacques envolvido com a alguma homossexualidade num bairro da cidade (o romance não tem nada de homofóbico, pelo contrário) para nos levar pelos mais isolados e deprimidos becos num bairro maioritariamente luso, a narrativa de outro adolescente, Anthony/António Rebelo, que olha de novo para esse destino de pais da primeira geração imigrada, de linguagens despedaçadas, de vizinhos e amigos entalados entre os seus dois mundos luso-canadianos, a ambição esbatida de alguns dando também lugar ao desespero dos seus filhos. Nunca nada assim tinha sido escrito por um luso-descendente: a mítica do nosso suposto triunfo (que é sempre de poucos, e nunca da maioria) lado a lado com a tragédia e a solidão dos que estão sem pertencer inteiramente, da essencial rebeldia da geração seguinte em busca de um lugar e da felicidade prometida. A primeira condição comunitária revelada em Kicking the Sky é um agudo sentido da claustrofobia de um bairro marginal, e onde convivem a desilusão no amor em casa e na rua comunitária com o sonhado sucesso profissional que parece vedado a esta gente, uma vida dominada inteiramente ou pelo trabalho insano ou pela aceitação da pobreza camuflada. O único “canadiano”, James, que vemos e ouvimos durante quase toda a narrativa é um outro marginal a viver numa garagem de bairro entre os portugueses, e a chular os adolescentes em sua volta. A morte violenta de Emanuel que dá unidade firme a esta narrativa acontece logo de início, e ainda sem sabermos que era de facto quase inevitável. O que passamos a perceber é que essa morte rondava constantemente os amigos sobreviventes, quase todos dedicados aos pequenos roubos e tráfico de drogas, ou então passeavam-se nos bairros do sexo comercial, por assim dizer, a vender sem prazer um corpo em busca de alguma recompensa monetária. De resto, espreitamos aqui o perigo quotidiano destes jovens, nunca esquecemos a solidão entre homens e mulheres adultas que ritualisticamente pretendem a felicidade de uma vida estável na cidade dos seus sonhos.

A lapa anda de novo por aqui, agora constantemente dita em português, e no inglês caiu barnacle para dar lugar ao nome mais popular de limpet. O seu simbolismo de apego ao passado ancestral por parte do protagonista-narrador e dos seus é ainda mais forte: António/Anthony, aqui aos doze anos de idade, come-as cruas como se na Lomba da Maia tivesse nascido e sido criado. Só que um dia, com a concha na mão, dá-se um jogo de luz reflectida, e ele julga que viu claramente uma figura de Cristo, parecendo, já se sabe, um Santo Cristo. Quando o pai descobre o “milagre” e a “revelação”, não tem meias medidas: anuncia tudo no bairro e passa a abrir a mesma garagem da sua casa onde prime uvas para o seu vinho, passando de imediato a receber gente vizinha, e não só, a pedir a bênção do filho, à procura de curas e paz, e, pensava ele, melhorando a sua situação financeira com as dádivas deste crentes. António fica sentado na garagem como uma espécie de Buda da Cristandade em frente de todos, vestido com  uma capa vermelha sobre os ombros e ornamentada a cores de ouro (fala memória…), até que o pároco português local põe cobro a tudo, como sempre se encarrega a Santa Igreja, que não admite concorrência nem pregação fora do seu alcance. Acontece em Kicking the Sky o que dificilmente acontece num romance, e que nem sempre funciona, ao contrário do que vai nestas páginas – drama e comédia, nos mesmos personagens, nos mesmos incidentes, na mesma ambiência inventada numa geografia precisa. Recordemos que a nossa comunidade em Toronto é uma das pouquíssimas que está inserida numa grande e rica área metropolitana hiper-moderna, mas insistindo sempre na sua vida própria, pré-definida durante longos séculos em pequenas ilhas isoladas no fantasmagórico Atlântico, as luzes da cidade no grande continente quente e frio brilham, mas ao longe e aparentemente só para outros. Todo este vasto e simultaneamente pequeno mundo é visto através dos três adolescentes açor-canadianos, o narrador, Manny (ladrão de bicicletas que vende por encomenda de outros e para uns poucos dinheiros na algibeira), e Ricky, o mais trágico deles, vivendo só com o pai alcoólico abandonado pela esposa que desde há muito tinha regressado a São Miguel. Eis aqui um dos nossos primeiros repatriados, que encontra a paz e o bem estar na ilha dos seus antepassados. Ironia, sim, brilhante e redentora. Deixou o Inferno para aqui na ilha “subir ao céu” na companhia da única pessoa que lhe poderia amar e proteger. Numa carta a António escreve que agora se levanta e tem um almoço à sua espera.

Kicking the Sky pode por vezes ser uma viagem literária mais ou menos deprimente, mas creio que o seu autor não só encontrou a sua voz muito própria, como manipula com destreza sábia as suas linguagens. A tensão por dentro desta narrativa está equilibrada pelo humor e tantas vezes pela ingenuidade e sabedoria de adolescentes, já velhos na vida pela sorte e experiência que lhes coube. Desmitifica aqui a ideia da felicidade absoluta que os nossos tradicionais relatos da imigração na América do Norte nos impunham, quase sempre falsamente. Sexualidade transgressora e condenada, conflito familiar, descrença na bondade da Terra Nova. O romance de Anthony De Sa integra-se nessa grande tradição artística novo-mundista – a perda da inocência, o confronto com a “realidade”, o saber que pouco do que dizem os adultos faz sentido ou é verdade. Entre a fantasia e a realidade, fica o essencial – a vida na sua completude feia e bela, no amor e na tragédia, entre o choro e o riso.

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Anthony De Sa, Kicking the Sky, Canada, Doubleday Canada, 2013. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

Nos 25 anos de Gente Feliz Com Lágrimas*

Capa Gente Feliz Com L+ígrimasQuando as mulheres vieram pedir-me por esmola que lhe encarreirasse cartas para o Brasil ou para a América, olhava aqueles rostos tristes, as bocas que principiavam a desdentar-se na ausência dos seus homens e senti-me perdido.

João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas

/Vamberto Freitas

Gente Feliz Com Lágrimas e o seu antecessor natural, O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, estarão talvez para a literatura portuguesa contemporânea como a parte melhor da obra de William Faulkner está para a literatura americana também deste século – o registo artístico e de todo universal da tragédia e da sobrevivência de um outro povo, da sua perduração de corpo e espírito ante os mais atribulados dias e incerta história colectiva. Que João de Melo nos seus dias de grande criatividade e força narrativa regressasse conscientemente à ilha açoriana da sua nascença e formação psíquica deve significar, acima de tudo, que determinadas realidades humanas nas mãos de um mestre, ao serem transfiguradas na sua ficção, tornam-se inevitavelmente noutra revelação da nossa comum condição humana.

João de Melo já afirmou mais do que uma vez que pouco ou nada conhecia de William Faulkner. A comparação que aqui faço, no entanto, não é tão descabida como à primeira vista poderá parecer. As regiões ditas periféricas, como os Açores no país português, onde durante muito tempo o ser humano viveu de um modo, digamos, muito mais sincero e honesto, mesmo que isso se traduzisse em sociedades por demais apeadas ao passado e mitologia própria, a sua humanidade caracterizada por bondades e maldades, conhecimentos e ignorância que nos grandes centros da “modernidade” estão escondidas por subtilezas de outro tipo de comportamento inerente à massificação humana, foram sempre ricos viveiros de reflexão e literatura. O minimalismo literário encarregou-se por algum tempo de retratar aí os que foram apanhados pela correria citadina dos nossos dias – e aparecem todos como indivíduos desinteressantes, comicamente pretensiosos, peças patéticas de uma vida medíocre e muito mais regimentada que nos pequenos meios.

A leitura – ou (re)leitura — de Gente Feliz Com Lágrimas reconfirma a justiça feita ao romance quando lhe atribuíram o grande prémio APE da ficção portuguesa (1988), assim como os outros prémios nacionais que esta obra recebeu. Nas suas quase 500 páginas estão praticamente todas as qualidades estéticas e técnicas de narrativa que uma grande obra de fins de século no nosso país recebeu  de todas as heranças literárias que a precederam, inclusive as de outras línguas no além-fronteiras. Narrativa ora fulminante ora meditativa, é uma tour de force ficcional, marcada especialmente por uma polifonia de vozes, variedade de tons, tempos e andamentos, como ainda pela simplicidade linear de uma linguagem sob o controlo absoluto do autor, e que ao leitor facilita e o motiva para o acompanhamento sem cansaço nos percursos de vida aqui reinventados. Num mundo árido e tantas vezes insensível à dor ou à alegria humanas, realidade que sobressai também no próprio romance, todo o resto aqui é revisto e reescrito, acabando o narrador por devolver às suas personagens o direito à caminhada em busca de outros lugares e sorte, com a dignidade a que o ser humano terá sempre direito.

Gente Feliz Com Lágrimas faz lembrar, como aqui já foi dito, o outro grande romance do autor, O Meu Mundo Não É Deste Reino, que abriu esta saga de uma família portuguesa dos Açores condenada por si própria e pelo seu meio à luta e busca constantes de um lugar e de uma identidade dignificada dentro e fora do seu país natal. Aliás, Gente Feliz Com Lágrimas é precisamente a continuação dessa viagem, agora através de continentes e bem diferentes situações e tempos, em que a tragédia tantas vezes se mistura com os triunfos das personagens, tendo a magia e solidão do primeiro livro dado lugar ao realismo e solidão deste outro. É um romance, ao contrário do que vinha acontecendo na  ficção lusa até então, de grande movimento geográfico e de espírito. Acompanhamos estas personagens nas suas contínuas fugas e tentativas de vida, desde os Açores ao Continente português e depois até ao Canadá — e desse constante embate de gente com lugares e diversos estilos de vida percebemos claramente que ser-se português nesse século (como ainda hoje) foi nunca parar de cair e levantar, juntar destroços e logo reconstruir e reinventar vidas e sonhos.

Colocados em mundos e circunstâncias de violência, fome e também abastança, encaram todos eles a vida e a morte, condicionados por raivas ancestrais e amores fingidos ou falhados; a sua alegria e a sua tristeza, quer disso estejam conscientes ou não, resultam de, ou vão coincidindo com a história colectiva do seu país e do seu tempo, caracterizada durante todo tempo pela paz podre de um país dormente, pela guerra e pela emigração. Se é um romance autobiográfico ou não, é questão que aqui pouco importa. Mas ao manter-se fiel ao seu meio social, à gente e vida que tão bem conhece, o autor consegue relatar estórias em que de imediato, numa ou noutra personagem ou situação, nos reconhecemos todos, tornamo-nos conscientes das nossas raízes e das causas das coisas no nosso passado, tudo o que só um  autêntico artista nos pode desvendar.

Durante toda esta atribulada viagem de observação de vidas familiarmente muito próximas e geradas numa região do nosso país que até há bem poucos anos estavam completamente esquecidas e ignoradas, João de Melo manifesta outra semelhança com a obra de Faulkner, esse outro escritor também obcecado com a condição humana presa entre a força do passado e as exigências, desorientação, do presente e do futuro. Não é a história contada de fio a pavio nem a cronologia dos acontecimentos que interessam em Gente Feliz Com Lágrimas, mas sim o que haviam parecido pequenos e insignificantes momentos, determinadas decisões, palavras ditas ao acaso mas que atingiam o seu alvo deixando feridas graves e permanentes, olhares de gente amada ou odiada em certas circunstâncias. Assim, as múltiplas histórias neste romance contadas e recontadas criam como que uma teia social e psicológica a que obcecadamente se agarram os seus personagens, e, do mesmo modo, nela envolvem profundamente o leitor que tudo isso vai, repita-se, reconhecendo e, até, temendo.

O narrador todos vai ouvindo, ponto-contraponto, mas numa das secções do livro fala só à distância – e o que à superfície pareciam ou parecem vidas pelo tempo e por longínquas andanças desligadas e desiguais, regressam todos às raízes e vidas comummente vividas em tempos idos. Camponeses que emigram vivem agora na riquíssima solidão do Novo Mundo; pais que castigavam e amontoavam algum dinheiro e coisas só para depois pouco antes da morte tudo redistribuírem pelos mesmos filhos; um ex-seminarista, personagem central do romance, torna-se um escritor conhecido, mas à custa da felicidade conjugal; uma enfermeira, Amélia, mulher heróica, vai de tristeza em tristeza, desde o início da vida nos Açores até à passagem por Lisboa e África; e outros deixados sós para sempre no solo atlântico da sua presença esperam que a morte acabe com o tédio maldito do seu quotidiano.

Que significa tudo isto – parece ser essa a interrogação principal deste romance – para as personagens, e, em última análise, para um país que é e foi o seu, para o ser humano do nosso tempo? As pungentes e dramáticas páginas finais de Gente Feliz Com Lágrimas são das mais belas que eu tenha lido acerca da separação irremediável de gente que durante séculos havia nascido para lutar dia-a-dia e depois morrer junta na mesma casa e cama. Sobre a emigração portuguesa na América do Norte, são páginas simplesmente incomparáveis, a primeira vez que um escritor português agarrou por completo e profundamente a dor de se ter sido outra coisa e gente, a lenta transformação, desnacionalização, até às gerações que com rapidez tudo e todos esquecem, para nada dizer dos dramas e tragédias que os viriam a colocar nessa outra bem diferente pátria sua.

Gente Feliz Com Lágrimas é também um romance de sobreviventes, e de renovação psíquica e social, de incrível apego à vida. Regresso à casa dos Açores, reencontro com a terra atlântica – não será isso? – para de vez enterrar o passado, “o mundo perdido”, e noutras partes renascer para o futuro.

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João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas (23ª edição, comemorativa dos 25 anos do romance), Lisboa, D. Quixote, 2013.

O meu texto aqui foi originalmente publicado no Diário de Notícias aquando da primeira edição em 1988, e depois parte do meu O Imaginário dos Escritores Açorianos, de 1992, em forma mais extensa. Tenciono escrever um outro ensaio numa (re)leitura desta nova edição.