Nos 25 anos de Gente Feliz Com Lágrimas*

Capa Gente Feliz Com L+ígrimasQuando as mulheres vieram pedir-me por esmola que lhe encarreirasse cartas para o Brasil ou para a América, olhava aqueles rostos tristes, as bocas que principiavam a desdentar-se na ausência dos seus homens e senti-me perdido.

João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas

/Vamberto Freitas

Gente Feliz Com Lágrimas e o seu antecessor natural, O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, estarão talvez para a literatura portuguesa contemporânea como a parte melhor da obra de William Faulkner está para a literatura americana também deste século – o registo artístico e de todo universal da tragédia e da sobrevivência de um outro povo, da sua perduração de corpo e espírito ante os mais atribulados dias e incerta história colectiva. Que João de Melo nos seus dias de grande criatividade e força narrativa regressasse conscientemente à ilha açoriana da sua nascença e formação psíquica deve significar, acima de tudo, que determinadas realidades humanas nas mãos de um mestre, ao serem transfiguradas na sua ficção, tornam-se inevitavelmente noutra revelação da nossa comum condição humana.

João de Melo já afirmou mais do que uma vez que pouco ou nada conhecia de William Faulkner. A comparação que aqui faço, no entanto, não é tão descabida como à primeira vista poderá parecer. As regiões ditas periféricas, como os Açores no país português, onde durante muito tempo o ser humano viveu de um modo, digamos, muito mais sincero e honesto, mesmo que isso se traduzisse em sociedades por demais apeadas ao passado e mitologia própria, a sua humanidade caracterizada por bondades e maldades, conhecimentos e ignorância que nos grandes centros da “modernidade” estão escondidas por subtilezas de outro tipo de comportamento inerente à massificação humana, foram sempre ricos viveiros de reflexão e literatura. O minimalismo literário encarregou-se por algum tempo de retratar aí os que foram apanhados pela correria citadina dos nossos dias – e aparecem todos como indivíduos desinteressantes, comicamente pretensiosos, peças patéticas de uma vida medíocre e muito mais regimentada que nos pequenos meios.

A leitura – ou (re)leitura — de Gente Feliz Com Lágrimas reconfirma a justiça feita ao romance quando lhe atribuíram o grande prémio APE da ficção portuguesa (1988), assim como os outros prémios nacionais que esta obra recebeu. Nas suas quase 500 páginas estão praticamente todas as qualidades estéticas e técnicas de narrativa que uma grande obra de fins de século no nosso país recebeu  de todas as heranças literárias que a precederam, inclusive as de outras línguas no além-fronteiras. Narrativa ora fulminante ora meditativa, é uma tour de force ficcional, marcada especialmente por uma polifonia de vozes, variedade de tons, tempos e andamentos, como ainda pela simplicidade linear de uma linguagem sob o controlo absoluto do autor, e que ao leitor facilita e o motiva para o acompanhamento sem cansaço nos percursos de vida aqui reinventados. Num mundo árido e tantas vezes insensível à dor ou à alegria humanas, realidade que sobressai também no próprio romance, todo o resto aqui é revisto e reescrito, acabando o narrador por devolver às suas personagens o direito à caminhada em busca de outros lugares e sorte, com a dignidade a que o ser humano terá sempre direito.

Gente Feliz Com Lágrimas faz lembrar, como aqui já foi dito, o outro grande romance do autor, O Meu Mundo Não É Deste Reino, que abriu esta saga de uma família portuguesa dos Açores condenada por si própria e pelo seu meio à luta e busca constantes de um lugar e de uma identidade dignificada dentro e fora do seu país natal. Aliás, Gente Feliz Com Lágrimas é precisamente a continuação dessa viagem, agora através de continentes e bem diferentes situações e tempos, em que a tragédia tantas vezes se mistura com os triunfos das personagens, tendo a magia e solidão do primeiro livro dado lugar ao realismo e solidão deste outro. É um romance, ao contrário do que vinha acontecendo na  ficção lusa até então, de grande movimento geográfico e de espírito. Acompanhamos estas personagens nas suas contínuas fugas e tentativas de vida, desde os Açores ao Continente português e depois até ao Canadá — e desse constante embate de gente com lugares e diversos estilos de vida percebemos claramente que ser-se português nesse século (como ainda hoje) foi nunca parar de cair e levantar, juntar destroços e logo reconstruir e reinventar vidas e sonhos.

Colocados em mundos e circunstâncias de violência, fome e também abastança, encaram todos eles a vida e a morte, condicionados por raivas ancestrais e amores fingidos ou falhados; a sua alegria e a sua tristeza, quer disso estejam conscientes ou não, resultam de, ou vão coincidindo com a história colectiva do seu país e do seu tempo, caracterizada durante todo tempo pela paz podre de um país dormente, pela guerra e pela emigração. Se é um romance autobiográfico ou não, é questão que aqui pouco importa. Mas ao manter-se fiel ao seu meio social, à gente e vida que tão bem conhece, o autor consegue relatar estórias em que de imediato, numa ou noutra personagem ou situação, nos reconhecemos todos, tornamo-nos conscientes das nossas raízes e das causas das coisas no nosso passado, tudo o que só um  autêntico artista nos pode desvendar.

Durante toda esta atribulada viagem de observação de vidas familiarmente muito próximas e geradas numa região do nosso país que até há bem poucos anos estavam completamente esquecidas e ignoradas, João de Melo manifesta outra semelhança com a obra de Faulkner, esse outro escritor também obcecado com a condição humana presa entre a força do passado e as exigências, desorientação, do presente e do futuro. Não é a história contada de fio a pavio nem a cronologia dos acontecimentos que interessam em Gente Feliz Com Lágrimas, mas sim o que haviam parecido pequenos e insignificantes momentos, determinadas decisões, palavras ditas ao acaso mas que atingiam o seu alvo deixando feridas graves e permanentes, olhares de gente amada ou odiada em certas circunstâncias. Assim, as múltiplas histórias neste romance contadas e recontadas criam como que uma teia social e psicológica a que obcecadamente se agarram os seus personagens, e, do mesmo modo, nela envolvem profundamente o leitor que tudo isso vai, repita-se, reconhecendo e, até, temendo.

O narrador todos vai ouvindo, ponto-contraponto, mas numa das secções do livro fala só à distância – e o que à superfície pareciam ou parecem vidas pelo tempo e por longínquas andanças desligadas e desiguais, regressam todos às raízes e vidas comummente vividas em tempos idos. Camponeses que emigram vivem agora na riquíssima solidão do Novo Mundo; pais que castigavam e amontoavam algum dinheiro e coisas só para depois pouco antes da morte tudo redistribuírem pelos mesmos filhos; um ex-seminarista, personagem central do romance, torna-se um escritor conhecido, mas à custa da felicidade conjugal; uma enfermeira, Amélia, mulher heróica, vai de tristeza em tristeza, desde o início da vida nos Açores até à passagem por Lisboa e África; e outros deixados sós para sempre no solo atlântico da sua presença esperam que a morte acabe com o tédio maldito do seu quotidiano.

Que significa tudo isto – parece ser essa a interrogação principal deste romance – para as personagens, e, em última análise, para um país que é e foi o seu, para o ser humano do nosso tempo? As pungentes e dramáticas páginas finais de Gente Feliz Com Lágrimas são das mais belas que eu tenha lido acerca da separação irremediável de gente que durante séculos havia nascido para lutar dia-a-dia e depois morrer junta na mesma casa e cama. Sobre a emigração portuguesa na América do Norte, são páginas simplesmente incomparáveis, a primeira vez que um escritor português agarrou por completo e profundamente a dor de se ter sido outra coisa e gente, a lenta transformação, desnacionalização, até às gerações que com rapidez tudo e todos esquecem, para nada dizer dos dramas e tragédias que os viriam a colocar nessa outra bem diferente pátria sua.

Gente Feliz Com Lágrimas é também um romance de sobreviventes, e de renovação psíquica e social, de incrível apego à vida. Regresso à casa dos Açores, reencontro com a terra atlântica – não será isso? – para de vez enterrar o passado, “o mundo perdido”, e noutras partes renascer para o futuro.

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João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas (23ª edição, comemorativa dos 25 anos do romance), Lisboa, D. Quixote, 2013.

O meu texto aqui foi originalmente publicado no Diário de Notícias aquando da primeira edição em 1988, e depois parte do meu O Imaginário dos Escritores Açorianos, de 1992, em forma mais extensa. Tenciono escrever um outro ensaio numa (re)leitura desta nova edição.

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