Richard Rodriguez: da memória como literatura

A tarefa de sempre do escritor na Califórnia tem sido escrever sobre o que significa manter a nossa humanidade num lugar propagandeado como sendo o Paraíso.
Richard Rodriguez,
Darling: A Spiritual Autobiography

/Vamberto Freitas

CAPA DarlingComecei a ler o grande ensaísta e intelectual público norte-americano Richard Rodriguez logo no início da sua carreira, quando publicou o seu primeiro livro intitulado Hunger of Memory: The Education of Richard Rodriguez (1982) seguido de alguns outros, para mim especialmente Days Of Obligation: An Argument With My Mexican Father (1992). Creio que hoje os ensaios publicados nalgumas das mais prestigiadas revistas do seu país e depois reunidos sequencialmente em livros já não provocam o que então provocou o primeiro livro aqui mencionado – ataques ferozes vindos da esquerda étnica, principalmente do seu próprio grupo mexicano-americano. Estávamos então no auge do debate sobre bilinguismo e multiculturalismo na sociedade americana, e muito especialmente quando essa mesma esquerda reclamava a essencialidade da chamada política de identidade, ou seja, a lealdade incondicional ao grupo e à respectiva cultura herdada dos antepassados, as minorias que haviam desde sempre permanecido nas margens da mesma sociedade, quase sempre discriminadas quando não vilipendiadas aberta ou subtilmente nas instituições dominantes do país. Pela minha parte, desde a universidade à minha carreira como professor no ensino secundário oficial californiano, aderia mas nunca concordei com as fronteiras psíquicas e intelectuais que nos deveriam limitar nos nossos interesses literários, ou mesmo adesões sócio-políticas, dentro ou fora do convencionalismo societal. O autor foi ferozmente acusado de se querer aproveitar das simpatias que a sua escrita passou de imediato a receber de outros que não da sua comunidade latina. Só que assumia por inteiro a sua etnicidade, mas a sua educação clássica na academia norte-americana e depois na Inglaterra tinham-no levado para um universalismo literário e artístico que interligava sem complexos o seu ser total e íntegro, a sua escrita definindo a beleza ou a tragédia dos seus outros mundos, e não só a luta pelo reconhecimento que travava naquele momento a sua própria comunidade de origem. Eu sou daqui, quereria dizer, como sou de toda a parte. Aliás todos os títulos dos seus livros posteriores seriam de imediato reconhecidos pelos próprios títulos, de uma poesia brilhante, bela, significante, deliberadamente ambígua, aberta. A fome da/de memória, um argumento com o meu pai mexicano, quem ele adorava e respeitava na totalidade, não deveriam, seria de pensar, ter deixado espaço a ninguém para questionar “lealdades” restritas ou provincianas, muito pelo contrário. Richard Rodriguez simplesmente chamava a si o seu passado, para de lá partir para o mundo, para outros povos e as suas outras literaturas, principalmente as que lhe tinham fornecido uma língua e linguagens através das quais ele agora contava sempre, transfigurava, a experiência dos que nunca haviam ter tido voz na mesma sociedade. Quantos desses seus críticos originais teriam de facto lido o seu grande livro? Bem sabemos como isso acontece no nosso próprio país.

Nascido em 1944 de pais imigrantes mexicanos em Sacramento, a capital da Califórnia, não poderia nunca negar a o seu próprio ser, mas poderia e fê-lo chegar a outros que historicamente o ignoravam e mantinham os restantes na relativa invisibilidade de uma minoria sem poder nem voz, vítima dos mais irracionais estereótipos e chauvinismos de toda a ordem. Vi-o nesses anos em programas televisivos a defender-se da mesma irracionalidade, especialmente quando vinda amarguradamente dos seus conterrâneos mexicano-americanos – contrapunha as suas palavras com a mesma serenidade e beleza com que compõe a sua prosa desde o início até aos nossos dias. Da sua “verdade” sempre soube fazer arte, da sua arte sempre soube aproximar uns e outros numa pós-modernidade simultaneamente atribulada e libertadora. Desse modo, haverá bem poucos escritores contemporâneos norte-americanos tão pertinentes e em consonância com a nascente intelectualidade luso-americana das segundas e terceiras gerações – vede como se parte das margens para outros mundos, vede como se reconcilia a força das nossas raízes com a vastidão e diversidade do que fica para além de nós próprios. Os escritores luso-americanos chegaram um pouco mais tarde, mas também chegaram, sem dever nada a ninguém, a não ser às suas duas grandes tradições literárias, a norte-americana e a portuguesa.

Acaba de sair o novo livro de Richard Rodriguez, Darling: A Spiritual Autobiography. Como sempre na sua obra, trata-se de um conjunto de ensaios, alguns dos quais previamente publicados em grande revistas ou jornais, mas agora no conjunto constituindo uma narrativa interligada por acontecimentos da nossa actualidade, reflexões literárias e filosóficas, história e, de novo, a memória dos seus e de si. Darling, expressão tão do nosso conhecimento nos filmes americanos e outros média, traduzido aqui vagamente, e com toda a ironia do próprio autor quando a emprega, por querido ou querida, refere-se inevitavelmente à sua assumida homossexualidade anunciada logo nos seus primeiros escritos. Richard Rodriguez vive em São Francisco desde sempre, um meio não hostil à sua orientação sexual, mas imagine-se uma condição como a dele: descendente de mexicanos, de cor, diz ele sempre, “castanha”, homossexual vindo de umas das mais “machistas” culturas e tradições nacionais, escritor de grande alcance dentro e sobretudo para além de um grupo historicamente denegrido nos EUA, e depois ter de se “impor”, de dialogar com a grande sociedade transfronteiriça, com todo o saber e arte do Ocidente, entalado entre o seu passado e memória e a contemporaneidade, que ele tão bem tem sabido interpretar e transmitir. Numa escrita absolutamente original, ao mesmo tempo clara, directa, pluri-significante enquanto alicerçada no melhor da literatura e pensamento ocidentais, vamos de página em página fascinados pela sua inteligência e angústia de pertença ao todo na sua e noutras comunidades. Desde a condição humana na Califórnia até ao mistério da Terra Santa ou do Catolicismo, a que ele adere sem apologias nem pedido de desculpas à hierarquia da Igreja (vai à missa todos os domingos), acompanhamos o intelectual sereno e sabedor na sua insistência na bondade da Humanidade. Acontece o 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, acontece mais tarde a morte de uma amigo com SIDA em Las Vegas – recusa-se, sempre, a culpar seja quem for, parte para a tentativa de descoberta do que move e comove os que fazem a História, desde o amor de Cristo aos islâmicos em ira radical, quer saber destes que fizeram ou fazem a História, e quer saber dos que a sofreram e a sofrem nos nossos dias. Eis a diferença do grande intelectual – na linha de um Edward Said, por exemplo – e os que não conseguem libertar-se da sua condição de membros da elite nos seus países. A partir do violento ataque a Nova Iorque declara-se judeu-cristão-islâmico. Quer saber sobretudo de onde vem tanto ódio por parte daqueles que partilham a crença de um só Deus, o Deus “do deserto” médio oriental, o Deus dos três grande profetas – Moisés, Cristo, Maomé. Confesso, como seu leitor, que o prefiro menos virado para o Mistério, e mais ligado ao seus e nossos mundos quotidianos, históricos, artísticos.

Foi o ensaio intitulado “Disappointment” que mais provocou o meu constante sublinhar e marginália vária. É uma viagem pela literatura californiana desde o século XIX a meados do século passado – o escritor enfrentando a mítica de uma Califórnia paradisíaca, a mesma que levaria John Steinbeck a desmistificar em sucessivos romances a partir da Grande Depressão até à sua morte nos anos 60. Rodriguez relembra ainda que no seu tempo de escola e faculdade era ainda quase proibido falar nessa literatura, tal o embate com a propaganda-outra da vida à beira do Pacífico, a última fronteira continental do Ocidente, a terra de todas as possibilidades. Como mexicano-americano, o autor sabia muito bem da mentira sobre a realidade e da verdade da arte que a espelhava de outro modo. “Esta era a Califórnia – escreve Richard Rodriguez – como sendo a América da América”.

Pena é que nenhum dos seus livros esteja traduzido entre nós aqui em Portugal. Poder-se-ia começar por este Darling: A Spiritual Autobiography. Tem muito a ver connosco – cá dentro e sobretudo com a nossa histórica caminhada imigrante na América do Norte.

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Richard Rodriguez, Darling: A Spiritual Autobiography, New York, NY, Viking Penguin, 2013. As traduções aqui são minha responsabilidade.

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