O Natal Em Cada Um De Nós

/Vamberto Freitas

Escola Ladeira da PenaQuando aqui há dias disse a uns amigos/as que ia escrever sobre o Natal para este suplemento especial do Açoriano Oriental disse-lhes também que desde há muitos anos não abordava o tema na minha escrita. Dizer o quê? Que acredito na fraternidade e bondade da quadra nestes dias? Que acredito que a noção do Sagrado continua a ser essencial à convivência pacífica e civilizada entre todos nós, e entre as próprias nações do mundo? Que ir ou não ir à igreja não tem nada a ver com as nossas crenças ou não num Deus misericordioso? Que o Natal é dos inocentes, mas quem determina a sua felicidade são os adultos à sua volta, nem sempre os mais aconselháveis? Depois temos, agora, toda a sociedade – sociedades – em convulsões cruéis para a maior parte dos nossos concidadãos. Se as próprias instituições do Estado que deveriam zelar pelo nosso bem estar acreditam que é absolutamente necessário sacrificar a felicidade de milhões dos seus súbditos (é o que somos, e só, neste momento) em nome dos mais obscuros interesses financeiros nacionais e internacionais, vamos falar ainda do Natal? Que me disseram os meus amigos e as minhas amigas? Que sim, que devemos falar e viver sempre o Natal. Estou mais ou menos de acordo, quando repenso a questão, e sobretudo quando repenso os nossos deveres. Como sou um existencialista, não posso nem devo ignorar que a ética e os nossos valores começam irremediavelmente em nós próprios, que os indivíduos não se devem refugiar na desculpa de que mais ninguém exerce os seus bons ofícios entre nós, que devemos fazer o que faz o médico protagonista do romance A Peste, de Albert Camus, quando decide ficar e ajudar os condenados na cidade argelina assolada por ratos infetados e mortíferos, enfrentando ele próprio o mesmo risco de vida. Não, será cada um de nós a resistir ao chamado “espírito do tempo”, ou a tentar moldá-lo conforme a sua noção do Bem e do Mal. Não direi aqui, nunca o direi, que acredito que uns são virtuosos e os outros todos maldosos, injustos, egoístas. Digo simplesmente que em vez de os criticar tentarei – deveríamos todos e cada um de nós tentar, acredito – ser o melhor vizinho, amigo, colega e concidadão possível, muito especialmente por entre e durante a catástrofe económica e social que estamos de novo a viver no nosso país.

Os da minha geração açoriana, nascidos mais ou menos no pós-Segunda Grande Guerra, tiveram este privilégio – viver vários tempos, se não séculos, durante algumas seis ou sete décadas de vida aqui nas ilhas. Não guardo nem cultivo a nostalgia dos anos 50 nas Fontinhas (Ilha Terceira). Guardo, isso sim, o ter visto a caminhada que nos levou de canadas lamacentas, de águas tiradas do poço ou contidas em tanques pouco higiénicos, dos serões à luz do petromax, ou do candeeiro a petróleo, da ausência de meios de comunicação que nos mostrassem o resto do mundo, e guardo ainda mais o menino vivo e inocente em mim. Cada evolução no nosso quotidiano trazia uma alegria acrescida, o fascínio dos novos confortos que nos iam proporcionando certas forças longínquas e por nós desconhecidas (esqueçamos aqui por uns momentos as ideologias que orientavam e governavam as nossas vidas de então). Dos pés descalços de outrora à música que os primeiros rádios nos traziam (e que as nossas mães cobriam ou ornamentavam com um bordado ou coisa parecida, um novo luxo em casa assim acarinhado) chegava sempre uma prenda que tornava a vida solitária numa freguesia rural açoriana num Natal sem data precisa. Todos sabemos como a época do Natal verdadeiro, por sua vez, tornava as nossas casas mais cheirosas com as folhas verdes da Natureza húmida e exuberante, e um pouco mais abundantes nalgumas delícias que no resto do ano nos faltava. Havia mais sempre a chegar nos anos da nossa escuridão e humildade colectiva, tudo mexia à nossa volta, era a modernidade tardia que aparecia aos poucos vinda de nós próprios, e vinda de outros que haviam passado a partilhar as geografias dos nossos “afectos e memórias”. Crente ou não crente, tudo isso ficaria indelevelmente associado aos rituais sagrados da época, faz parte do nosso mais íntimo ser, é o contraponto absoluto a todas as desgraças ou infelicidades vividas ontem tal como na nossa actualidade.

Quando leio hoje, quase diariamente, sobre a Base da Lajes, que fica a dois passos da minha casa de nascença e adolescência, não consigo absorver a informação dos jornais ou das conversas de um modo distante, e muito menos a pensar em “estratégias militares”, “acordos”, “economia”, ou lá o que motiva o debate em curso em volta da presença, ou não, diminuída ou acrescida, de americanos entre nós. Nem sequer consigo pensar na “Base das Lajes” como posto militar, confesso, que sei muito bem que é, como e por que nasceu e se mantém no Ramo Grande, para o conforto de uns, e o escândalo de outros. Para mim, aquela pequena sociedade – e era uma mesmo uma pequena sociedade auto-sustentável, e que de nós não precisava de nada – foi sempre a minha fonte dos belos cheiros americanos, dos gelados e de outras doçuras que o meu pai trazia embrulhadas caminhando de noite pelos cerrados que atravessava para chegar casa vindo daquela mini-América, e antes de ter o seu primeiro carro, foi o sustento desde sempre da minha família imediata. Essa outra América, a que ficava geograficamente à “distância”, manisfestava-se ainda de outras maneiras com as visitas dos nossos familiares, os que nos confirmavam que outros e bem melhores mundos existiam, e que estávamos bem perto deles tanto em casa como na nossa imaginação. O Natal da minha infância nas Fontinhas incluía sobretudo o dia mais alegre do ano, tirando o início das festas da nossa padroeira. Nas conversas que já referi aqui, foi a minha prima Ivete Pamplona, residente na nossa freguesia onde segura a casa ancestral dos nossos avós, que fez lembrar esse dia do nosso outro contentamento. Ofereceu-me em directo as palavras com que eu poderia ter iniciado esta crónica natalícia.

“Naquele dia, – escreveu a Ivete por mim — a chuva teimou em ficar, mas o meu coração, alvoraçado, batia tanto que não me incomodavam aqueles pingos frios no meu rosto sardento, afogueado. Corria pela ladeira acima, com ligeireza. O cheiro de Natal começava mais cedo nas Fontinhas, quando o carro dos militares americanos parava em frente da nossa escola… e eu não queria perder esse momento… Querido primo, não pretendo concorrer com uma frase, apenas recordar-te a magia que sentíamos ao receber aquelas preciosas caixinhas com cheiro à América…”

Caixinhas com cheiro à América? Era isso mesmo. O que o Estado Novo não nos dava, como agora volta a Terceira República a não dar a ninguém, davam-nos os americanos, nossos vizinhos, a besta negra de tantos outros esquerdistas da minha terra. Eis “as caixinhas”. Se quiserem imaginar o seu tamanho, será fácil: pensem nas caixinhas das sanduíches com que a SATA Internacional nos brinda a caminho de Lisboa ou do Porto, e terão uma ideia muito aproximada. Ficávamos sentados nas nossas carteiras, a olhar para uma Cruz e para o Salazar, a professora tentando manter a ordem, os nossos ouvidos em atenção ao barulho da chegada dos militares americanos. Não podem imaginar a emoção quando finalmente sabíamos que eles já estavam no lado de fora prestes a entrar na nossa escola primária da Ladeira da Pena. Depois era receber, cada um de nós, a prenda mais esperada de todo o ano. Que tinha lá dentro? Esferográficas, lápis, borrachas, berlindes, réguas, tudo colorido e acompanhado do inesquecível, irreprimível, “cheiro à América”. Como veem, era tudo o que não tínhamos durante o resto do ano. O dia era passado depois ora em trocas, ora em jogos, ora em gritaria porque um de nós se recusava a negociar este ou aquela prenda das ditas caixinhas.

Era o Natal de quem pouco tinha, era o Natal que mais sentido fazia, a bondade, uma vez mais, e a surpresa não na quantidade ou qualidade das coisas, mas sim na apreciação do que outros sabiam ser essencial na formação de cidadãos, na educação de crianças, na alegria do encontro com o inesperado e oferecido por quem connosco raramente saberia comunicar de outro modo. O que viria a pensar deles mais tarde, já seria como cidadão da América, já seria como observador, nem sempre simpatizante, do seu papel no mundo, da sua presença no meu torrão natal. Pois, havia de se ir o menino e a inocência.

Nunca se irá a sua gratidão. Nunca se irá a memória do seu afecto, da mão estendida. Se mera “propaganda” era, se era a famosa conquista de “corações e mentes”, era muito mais e melhor do que recebíamos dos ricos e poderosos no outro lado da rua – ou do outro lado do mar, a leste.

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