Quando alguns escritores falam de si

Capa A Fala dos Escritores São eles que, dando-se a conhecer nas suas respostas, nos oferecem pistas de reflexão para podermos lê-los melhor.

Carlos Vaz Marques, Os Escritores (Também) Têm Coisas A Dizer

/Vamberto Freitas

 Carlos Vaz Marques, profissional da rádio e da televisão, colaborador dalgumas das mais importantes revistas literárias e culturais no nosso país, demonstra como poucos da sua geração as possibilidades da difusão e consequentes discussões sobre a melhor literatura nacional e estrangeira. Foi na revista LER que comecei a acompanhar as suas extensas entrevistas com escritores portugueses ou de língua portuguesa (Mia Couto e António Tabucchi são dois dos escritores cujas “cidadanias” literárias já se “confundiam” desde há muito entre Moçambique num caso e no outro a Itália e Portugal), algumas das quais ele acaba de publicar em forma de livro, Os Escritores (Também) Têm Coisas A Dizer. Leitor omnívoro, Carlos Vaz Marques chega às suas entrevistas com uma preparação admirável em volta das obras que vai questionar nos seus encontros com os respectivos autores.

Antes de mais, queria contextualizar aqui um pouco a sequência de trabalhos deste género de que ele vem sendo autor no nosso país, oferecendo-nos a todos não só prazer de publicações até há bem pouco singulares entre nós, tanto no seu formato gráfico como constituindo ainda mais um foco de visão sobre o melhor que se vai publicando lá fora, muito particularmente entre várias gerações no mundo anglo-saxónico. Tradutor competente, essa faceta na sua actividade de jornalismo literário no seu melhor na nossa língua vem-se tornando num grande contributo ora para o nosso encontro com escritores que de outro modo por poucos seriam lidos no nosso país ora como uma referência que outros poderão absorver e desenvolver nos seus próprios escritos. Nada em literatura, sabemos todos, é estritamente original desde os gregos e a Bíblia, mas a reinvenção artística através das palavras só se poderá dar com o conhecimento do que no nosso próprio tempo vão escrevendo outros em várias línguas ou geografias. Carlos Vaz Marques é responsável pelo recente lançamento da revista britânica Granta na sua versão lusa, mantendo o formato de little magazine original e juntando nas suas páginas escritores de língua inglesa e do nosso país, com portfólios de artes plásticas e fotográficas. Por detrás dos seus projectos, está o seu conhecimento de uma revista norte-americana que desde os anos 50 tem sido a mais firme e consequente referência neste tipo de periódico literário – a The Paris Review, nascida na cidade do mesmo nome por iniciativa de escritores norte-americanos lá temporariamente residentes na altura, hoje quase todos eles figuras “canónicas” na cultura do seu país, mas depressa transferida para Nova Iorque, onde ainda é publicada com o mesmo fulgor e criatividade. De todas a suas secções, a que mais a distingue são as entrevistas com prosadores, poetas, dramaturgos e ensaístas – duas em cada número – numa fase da sua carreira já legitimada pela crítica pública e pelas abordagens académicas. São conversas directas e únicas entre os entrevistadores e os autores em foco: desde os hábitos diários ou corriqueiros no acto da criação literária de cada um deles ao esclarecimento sobre um personagem, incidente ou contexto histórico de uma dessas obras ou de um conjunto de obras, de tudo se fala para que o leitor venha a ter uma ideia muito mais aprofundada daquilo que o escritor fez, ou pensa que fez, para além das interpretações de cada crítico ou leitor. Quem gosta de e valoriza a literatura não poderá deixar de gostar destes encontros prolongados, primeiros gravados e depois “editados” ou revistos, no caso norte-americano, pelo próprio autor. A finalidade é deixar um documento que perdure no tempo, que venha a ser um elaborado retrato de como viveu e escreveu esse autor ou autora. Desde o início que a The Paris Review depois reúne essas entrevistas em forma de livros intitulados precisamente The Paris Review Interviews: Writers at Work. Foi daí que Carlos Vaz Marques retiraria não só o seu modelo de trabalho entre nós, como seleccionou uma série dessas mesmas entrevistas, traduzi-as e publicou o volume intitulado Entrevistas da Paris Review (2009), que recenseei então nestas e noutras páginas.

É, pois, vindo de todo este referencial literário anglo-americano que agora temos este precioso volume de Os Escritores (Também) Têm Coisas A Dizer. Carlos Vaz Marques pede desculpa por ter deixado de fora alguns dos autores por si entrevistados (que venha brevemente com outro volume, porque não?), mas uma colectânea deste género é isso mesmo – a selecção subjectiva de quem a organiza e assina. Para os leitores, creio, o que interessa é a obra que tem nas mãos para ler, e neste caso até reler, um dos mais distintos grupos de ficcionistas lusos (e num dos casos aqui, do grande ensaísta Eduardo Lourenço) de várias gerações e de estéticas literárias variadas tal como as suas temáticas recorrentes. Ir ao seu encontro nestas páginas é estar quase na sua presença física e a ouvir as suas vozes em conversa amena com o seu interlocutor, abordando com a maior inteligência não só as suas próprias obras como a literatura do nosso tempo e na sua historicidade durante várias décadas. Acreditem que das voz  de José Saramago ou de Agustina Bessa-Luís a Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe ficam retratados, ora na experiência pessoal de cada autor ou autora, vários mundos e mundividências adentro do nosso espaço nacional e tempo, estéticas e temáticas literárias das mais diferenciadas mas que depois vemos como necessariamente convergem todos nas suas transfigurações das “realidades” comuns por eles ficcionadas e nas frequentes alusões aos seus antepassados literários significantes – a decantada ansiedade da influência de Harold Bloom nunca separando, mas, pelo contrário, criando uma linha que por mais curvada que seja acaba necessariamente por dar continuidade a toda uma Tradição distinta numa língua ou “cultura” como a nossa. Por certo que a pós-modernidade num mundo sem fronteiras está também a desterritorializar as artes em geral, e as literaturas “nacionais” são cada vez mais difíceis de “identificar” ou “separar” umas de outras. A pergunta uma vez mais: um escritor luso-descendente, mesmo a escrever noutra língua, será ou não igualmente um escritor “português”,  cujas imagens, metáforas e chamamentos históricos ou ancestrais são os da nação a que pertenceram as suas gerações antepassadas? Aliás, alguns dos escritores neste volume levantam implicitamente essa questão, mesmo que disso não se deem conta, ou se interessem por estas hierarquizações, agora já quase só académicas.

Umas das grandes virtudes de um livro como este são os momentos de descoberta que qualquer leitor, por mais bem lido que seja, fará de autores que desconhecia em parte ou na totalidade. Foi o meu caso com a escritora Dulce Maria Cardoso, autora de contos e alguns romances, entre eles O Retorno (que aparentemente motiva esta entrevista com Carlos Vaz Marques) quando  ele afirma na respectiva introdução que a obra da autora tem “tido mais fortuna fora de Portugal do que nas livrarias portuguesas, tanto em edições estrangeiras como na atribuição de um prémio europeu de literatura”. Retornada a Portugal como consequência do 25 de Abril, este seu quarto romance tem como tema principal a chegada ao nosso país de mais de 600 mil portugueses vindos das ex-colónias. Pelo que aqui fica neste diálogo entre ela e o seu entrevistador, não tenho dúvidas de que se trata de uma obra absolutamente original e regressa a um dos mais dramáticos momentos da nossa contemporaneidade política e social. Narrado por um jovem adolescente, o tema de “perdas” e de “identidades” desfeitas, caídas e depois reerguidas adentro de um outro labirinto da existência humana só pode vir confirmar o que acima deixei dito quanto à nova literatura sem mapa nem território definidos.

“Acho que sim, – responde Dulce Maria Cardoso a Carlos Vaz Marques quando este lhe pergunta se Já sabe de que terra é – mas não estou bem certa. Talvez só no ano passado [2010] tenha feito as pazes com a metrópole, com Portugal, depois de ter estado um ano na Alemanha. Até aí, não tinha terra. Também não era uma coisa dramática, de andar todos os dias angustiada. Mas não sentia uma pertença”.

Para além das ideias ou da informação puramente literária em Os Escritores (Também) Têm Coisas A Dizer, o “prazer do texto” acontece de linha a linha, de entrevista em entrevista. São estes os textos que despertam em qualquer leitor sério a vontade de depois ficar só num recanto com uma obra ante a sombra quase viva de um destes  autores ou autoras.

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Carlos Vaz Marques, Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer, Lisboa, Tinta-Da-China, 2013.

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