Edmund Wilson: Da canonicidade às margens literárias e culturais (2)

 A Life in LettersDe certa maneira, ninguém poderá ler acertadamente o livro que o autor escreveu, e, do mesmo modo, ninguém poderá fazer a mesma leitura duas vezes do mesmo livro.

Edmund Wilson, The Triple Thinkers

/Vamberto Freitas

A obra de Wilson (nascido em 1895 em Nova Jersey, filho único de pais mais ou menos “patrícios”, e falecido em 1972 na sua casa ancestral no estado de Nova Iorque) como discurso eminentemente público nos Estados Unidos é de tal assombro na sua abrangência e influência que sintetizá-la em Portugal hoje tornar-se-á extremamente difícil, pois ele sempre contrariou outra das tendências cimentadas pelas universidades: foi demasiado “prolífico”, até que se veja quão interligada e sequencial é de facto toda a sua obra crítica e historicista, pois de lado e por agora ficará aqui a sua poesia, ficção e teatro, se bem que mesmo nestes géneros as suas preocupações maiores nunca estejam longe dos alvos culturais que Wilson queria atingir e, digamos, moldar (e emoldurar) no seu país. David Bromwich, no ensaio “Wilson´s Modernism”, retoma a ideia de Adorno que um crítico deve simultaneamente interiorizar o momento (ou a Tradição) enquanto corta radicalmente com todas as assunções desse tempo, rasgando outras vias intelectuais e criativas. Acrescenta Bromwich: “A tendência de nos preocuparmos com a interiorização do momento (fashion) poderá levar do mesmo modo a uma exteriorização (ou seja, a necessidade de contestação e criação do novo) compulsiva, tal como claramente acontece com ou nas teorias pós-modernistas, ou em obras executadas em obediência a essas teorias. Wilson foi um historiador heróico da resistência do artista às modas, e parte da verdade que ele nos passou se calhar é o que mais nele hoje esquecemos”. Efectivamente, se Wilson havia construído toda a sua reputação como observador e publicista das minorias modernistas em Nova Iorque a partir dos anos 20, quando ele ingressa nas revistas Vanity Fair, Dial e The New Republic, atravessa depois na década de 40 um longo período de indefinição (se bem que extremamente produtivo, com a publicação de mais sete livros) em que vai saltitando intelectualmente como que para evitar uma “paralisia” intelectual, mas em busca já de novas perspectivas e zonas de descoberta literária e cultural.

Edmund Wilson regressaria à ribalta (principalmente nas páginas de The New Yorker, na qual ingressa em 1943 como ensaísta e recenseador) no fim dessa década até à sua morte em 1972, com o que só se poderá chamar aqui uma espécie de ante-visão do que ironicamente dominaria o pensamento universitário e institucional (que tanto o haviam de rejeitar e marginalizar, embora nunca com a radicalidade que sentia e denunciava o próprio Wilson): esse pós-modernismo que Bromwich denuncia, mas que se dedica (na sua fase menos desconstrutivista e mais afirmativa) primeiro do que tudo à defesa das literaturas e historicidade global das minorias de toda a ordem e em toda parte, redefinindo e interligando para sempre centros e periferias, canonicidade e marginalidade. Creio que Bromwich peca aqui tão-só por omissão: Wilson foi de facto o crítico-historiador cimeiro da “resistência” a determinado momento e “moda” na arte e cultura — culturalismo — no seu país, mas foi também ou quiçá sobretudo um dos impulsionadores dessas novas vias que, primeiro, viriam a ser o modernismo nova-iorquino, e depois (o que mais nos interessa aqui e agora) o ante-visionista do pós-modernismo para-textual e temático que ainda hoje domina praticamente toda a crítica universitária e mesmo pública nos Estados Unidos. Por certo, a contínua presença de Wilson a mais se deve do que ao seu papel de historiador literário e cultural. A sua poesia é principalmente satírica, na medida em que se debruça quase sempre sobre nomes e momentos da vida literária do seu tempo. A ficção inclui o famigerado Memoirs of Hecate County, condenado num tribunal de Nova Iorque pelo seu grau de sexo explícito (para o tempo, 1946) e assim impedido de conseguir uma grande circulação por estar constantemente sob o perigo de levar a tribunal quem o vendesse ao público. Tanto este romance (ou conjunto de contos vagamente unificados pela voz e pose do narrador) como o I Thought of Daisy (1929) ou ainda The Higher Jazz (romance póstumo) são hoje considerados senão boa ficção, bons documentos culturais, quer dos anos 20 na Greenwich Village (berço do modernismo literário e cultural norte-americano) quer do  restante país em várias outras épocas. O teatro, curiosamente, consegue estar ainda em circulação, apesar de raramente ter sido encenado.

A partir dos anos 40, Wilson começa a abandonar a crítica de obras de autores conhecidos  –  com a excepção de autores russos, particularmente o todo importante na sua vida e afectos, Vladimir Nabokov — e dedica-se sistematicamente ao estudo da literatura e de culturas minoritárias tanto no seu país como no estrangeiro, publicando tudo ainda nas revistas de grande circulação mas de reconhecida qualidade, principalmente em The New Yorker, como já foi referido, nesta fase que durará até à sua morte. Este seu pioneirismo provém naturalmente de diversos impulsos biográficos e opções intelectuais, mas terá sobretudo a ver com a sua confessada tentativa de contrabalançar a hegemonia das literaturas e políticas centralizadoras dos grandes meios metropolitanos (ou “politicamente correctos” no ocidente de então), principalmente adentro do seu próprio país, e tornam-no seguramente e acima de tudo um pioneiro e visionário extra-institucional no que pouco mais tarde (a partir já dos anos 60, como resultado dos levantamentos histórico-sociais e culturais então vividos) se haveria de denominar “estudos étnicos”. Alguns dos títulos denotam os grupos e as áreas por ele abordadas: The Scrolls from the Dead Sea (1955), Red, Black, Blond and Olive. Studies in Four Civilizations: Zuñi, Haiti, Soviet Russia, Israel (1956), Apologies to the Iroquois (1960), O Canada: An American’s Notes on Canadian Culture (1965) e, por que não?, Patriotic Gore: Studies in the Literature of the American Civil War, a literatura “marginal” e de, com algumas excepções, como nos casos de Harriet Beecher Stowe e de Abraham Lincoln, autores de importância menor, mas que, segundo Wilson, melhor explicariam o lado minoritário sulista na sua vasta e profunda angústia político-cultural contra o Norte centralizador e hegemónico.

Creio que será supérfluo dizer que Wilson é pouquíssimo conhecido no nosso país pela classe culta que escreve fora dos estudos anglísticos ou americanos nas nossas universidades. Já nos nossos dias, Wilson tem sido mencionado com respeito, mas de passagem só, por alguns críticos literários e culturais, como Clara Ferreira Alves e Paulo Nogueira, ambos no Expresso, e noutra parte por Eugénio Lisboa, que sei ter lido The Shores of Light, e cita profusamente um outro livro do mesmo autor, The Triples Thinkers, num ensaio a propósito da revista Presença e presencismo. Por sua vez, o Professor George Monteiro, da Brown University e especializado na literatura norte-americana, publicaria num número da Colóquio-Letras (1983) numa secção então chamada “Carta da América”, um breve ensaio intitulado “A Permanência de Edmund Wilson”, em que dava conta do presente (à época) estatuto do crítico nas universidades e entre a classe culta em geral. Que eu saiba, esta representa a única vez em que no nosso país a obra de Wilson foi abordada com algum detalhe e todo o cuidado académico.

Edmund Wilson foi, sem qualquer dúvida, o grande crítico público da modernidade literária do seu país, a partir de Nova Iorque onde residiu durante a primeira fase da sua carreira. A sua mudança para a “periferia” (Wellfleet, em Cape Cod, onde viveu também entre imigrantes e luso-descendentes, e o grande amigo de John Dos Passos até ao fim) como que simbolizava a viragem na sua carreira, e a dedicação insuperada por qualquer outro crítico norte-americano da sua época e formação a culturas e literaturas que até então permaneciam nas margens institucionais ou no pensamento dos seus conterrâneos. É o crítico e ensaísta americano mais biografado na história da literatura do seu país. Casou quatro vezes, e havia outras (muitas) pelo meio. Uma das mais recentes obras sobre ele intitula-se precisamente Critic in Love: A Romantic Biography of Edmund Wilson, de David Castronovo e Janet Groth.

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Este texto faz parte de um longo estudo meu nunca publicado em forma de livro. Para a mais autorizada informação sobre o autor, recomendo Lewis M. Dabney, Edmund Wilson: A Life In Literature, New York, NY, Farrar, Straus & Giroux, 2005.

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Memória, ou a nossa diáspora a norte

Capa Mem+¦ria (1)Esta antologia é dedicada aos canadianos de etnicidade portuguesa, uma comunidade que me orgulho de dizer que é minha.

Fernanda Viveiros, Memória: An Anthology of Portuguese Canadian Writers

/Vamberto Freitas

 Memória: An Anthology of Portuguese Canadian Writers foi organizado por Fernanda Viveiros, ela própria uma canadiana de descendência açoriana, tendo sido os 15 escritores, poetas, dramaturgos e ensaístas aqui presentes seleccionados naturalmente por ela em conjunto com uma comissão editorial. Trata-se de uma antologia bilingue, pois alguns destes textos foram originalmente escritos em português pelos autores da primeira geração de imigrantes, e outros  escritos em inglês pelos que já nasceram no Canadá, a segunda e demais gerações hifenizadas. Trata-se da primeira grande obra deste género, e vem num tempo muito próprio. Como se sabe, a nossa emigração para aquele país só começa em massa a meados dos anos 50 do século passado, pelo que o registo artístico da nossa experiência de vida canadiana é muito posterior à dos Estados Unidos, onde já existe um substancial cânone literário luso-americano, com alguns dos seus escritores desfrutando de um reconhecido estatuto no sistema literário do seu país enquanto permanecem fiéis em muitas das suas obras à sua ancestralidade lusa. No Canadá, neste momento, gozam dessa projecção nacional dois nomes, estranhamente aqui ausentes, como outros recenseadores já apontaram: Erika de Vasconcelos (My Darling Dead Ones/Meus Queridos Mortos) e Anthony De Sa (Barnacle Love/Terra Nova, e mais recentemente Kicking the Sky). Também sei da problemática de nomes mais destacados em aceitar a sua presença numa primeira antologia deste género. Seja como for, comecemos pelo o que nos é aqui essencial: esta iniciativa de Fernanda Viveiros, que também detém uma nova editora, a Fidalgo Books, que agora se propõe publicar toda uma série de livros de outros autores luso-descendentes pertencentes aos dois lados da fronteira norte-americana, constitui uma magnífica e vivíssima colectânea de textos que passam doravante a fazer parte integrante dos nossos arquivos artísticos, da nossa memória colectiva, da nossa histórica vivência entre dois mundos bem diferentes, entre duas línguas e duas bem distintas tradições literárias, num vaivém sem fim entre a antiguidade do Velho e a modernidade do Novo Mundo.

Primeiro do que tudo, uma breve contextualização da obra aqui em foco na cultura literária do Canadá. Não queria apontar alguns nomes presentes nestas páginas, e deixar outros de fora. O que quero deixar bem vincado é que qualquer deles honra a nossa tradição literária diaspórica, nada menos do que os seus colegas no outro lado da fronteira – de primeiros embates com uma identidade plural à aceitação, e ascensão, sem dúvida, do seu lugar numa sociedade multicultural, cada poema, conto, ensaio ou peça de teatro transmite-nos tanto a alegria de combinar a ancestralidade açoriana e europeia com o dinamismo da vida numa sociedade como a canadiana enquanto nos fala da comédia ou tragédia humana em qualquer sociedade. A minha descoberta da literatura luso-canadiana deu-se num hotel em Toronto, há uns bons anos. Quando numa certa manhã abri o The Globe and Mail, o grande diário nacional, topei logo na primeira página um extenso artigo sobre o primeiro romance de Erika de Vasconcelos, My Darling Dead Ones, que acabava de ser publicado. Foi-me uma descoberta com vários significados. Disse para mim, isto nos Estados Unidos nunca aconteceria, muito menos com uma escritora até então desconhecida, e muito menos ainda com um romance que tinha como temática recorrente a visão de uma protagonista canadiana sobre o passado da sua família em Portugal, e depois a experiência imigrante dessa primeira geração no país de acolhimento. Não sei se este destaque pouco habitual entre nós em qualquer parte acontecia devido a um momento de busca identitária no país e cultura canadiana, ou se era a surpresa de um nome português aparecer na capa de romance publicado por uma grande editora. Eu tinha lido que até aos anos 60 falar de “literatura canadiana” era mais ou menos como nós aqui nas ilhas a falar sobre “literatura açoriana”, ambos levantando suspeitas de separatismo ou chauvinismo cultural, por assim dizer, ou então estávamos a falar de algo que “não existia”. Li, já aqui nos Açores, e para apoio teórico, o crítico Robin Mathews, no seu incontornável, quanto a estas questões, Canadian Literature: Surrender or Revolution (1978). Entretanto, eu também já tinha lido O Canada: An American’s Notes On Canadian Culture (1964), de Edmund Wilson, o primeiro grande crítico norte-americano a querer investigar e a conhecer o que se passava no país tão próximo e ainda tão “distante” do seu. O que sobressaía no livro de Wilson era de facto um rol de grandes escritores e obras, conhecidas apenas em pequenos círculos intelectuais no próprio Canadá e por uns tantos outros no estrangeiro. Hoje, Memória: An Anthology of Portuguese Canadian Writers passa a pertencer a uma tradição em construção que inclui nomes tão conhecidos no mundo como o grande teórico da literatura Northrop Frye, e os ficcionistas Robertson Davies, Margaret Atwood, e a recente vencedora do Nobel, Alice Munro.

Por certo que nenhuma literatura “nacional” é feita só de escritores famosos ou vencedores de grandes prémios. Esta antologia de escritores luso-canadianos é bem sintomática de como na escrita de qualquer língua ou país o estar nas margens em nada significa ausência de beleza e força linguística em qualquer uma das duas línguas que nestas páginas servem de signos carregados de “sentido”, “verdade”, e muito mais ainda de “estética” muito própria quando se memoriza, se retira do esquecimento, um passado vivido ou imaginado, quando se retrata uma mundividência simultaneamente no centro e, uma vez mais, nas margens da grande sociedade em que também se inserem as nossas comunidades naquele país. Na América do Norte, parece, toda a grande literatura parte de uma essencialidade identitária numa civilização continuamente a ser reinventada na diversidade humana que a compõe, o mosaico novo-mundista que junta literalmente as nações do mundo em convivência mais ou menos pacífica. São nos detalhes, já se sabe, que sobressai um vizinho ao lado em tudo igual a nós e, ao mesmo tempo, em tudo diferente de nós. Creio que a preocupação primeira de Fernanda Viveiros, que de literatura muito sabe, foi de facto dar-nos essa visão de comunidades só recentemente transfiguradas e reinventadas pelos seus artistas da palavra, e o leitor sai desta viagem com outra compreensão do percurso comunitário da nossa gente num país de calor e de gelo, em tudo radicalmente diferente do das nossas origens. Se este conjunto de escritores seleccionados é uma mostra desta outra escrita “lusa” em peregrinação só posso concluir que estamos de parabéns pela sensibilidade estética e pela agilidade linguística com eles nos brindam em cada texto.

“O meu pai – escreve Tony Correia num ensaio deliciosamente intitulado ‘One Man’s Island’, numa tradução minha, que admito retirar algum poder do inglês em que está escrito – era um homem para quem o trabalho era divertimento. O único momento em que ele se sentava era para fumar um cigarro, beber uma cerveja, ou adormecer no seu cadeirão a ver televisão. Ele governava a casa como se fosse uma fazenda, e de facto em todas as aparências era isso mesmo. O meu pai não criava porcos, mas todos os anos havia uma matança. Ele plantava a sua própria fruta e vegetais, fazia o seu vinho, enchia e defumava o chouriço. Até mesmo a meio do inverno, ele plantava flores numa estufa que tinha construído para assim antecipar a chegada da primavera”.

Eis aí a nossa ruralidade numa das cidades mais metropolitanas e modernas do mundo, a nossa capacidade de desafiar o tempo e o modo, passe aqui a alusão à famosa e defunta revista lisboeta. Nenhum destes escritores esquece nunca de onde lhe veio a sua postura no mundo – família, igreja, trabalho, história e o quotidiano, cada tema embrulhado na vivência canadiana de todos eles com a persistente memória dos seus numa pequena ilha atlântica ou nas ruas de uma cidade ou aldeia continental. Estes não são olhares de fora para dentro, mas o contrário, são os olhares de quem já pertence inteiramente ao Novo Mundo mas não esquece, não pode esquecer, os laços que para sempre os trazem a nós aqui na outra margem atlântica. Como diz Onésimo Teotónio Almeida na sua nota introdutória a Memória: An Anthology of Portuguese Canadian Writers, em muito estes escritores se parecem com os seus pares luso-descendentes nos EUA, mas transparece sempre, mesmo assim, a originalidade da sua história própria, da sua vivência nessa outra geografia quase esquecida ou assombrada, em muitos aspectos, pelo império a sul.

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Memória: An Anthology of Portuguese Canadian Writers (org. de Fernanda Viveiros), Fidalgo Books, 2013.

Edmund Wilson: da literatura e da crítica

E Wilson Devo fazer um esforço para nunca me evaporar.
Edmund Wilson, The Bit Between My Teeth

 /Vamberto Freitas

 Segundo muitos dos estudiosos da vida intelectual norte-americana do século XX, Edmund Wilson terá sido o crítico literário e cultural talvez de maior repercussão pública no seu país desde sempre até aos nossos dias. Depois dele (faleceu em 1972, e já tinha caído há muito em desgraça ou fora de moda) vieram os charlatães das supostas “teorias da literatura” nas universidades do seu país, e no Ocidente em geral, de quem já nem ninguém se lembra ou cita e que, afinal, não tiveram a mínima influência de como ou porquê se lê um bom romance, poema, peça de teatro ou ensaio. Com efeito, Wilson é o único crítico norte-americano que Harold Bloom, no seu The Western Canon: The Books And School Of The Ages/Os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempos, inclui com um possível ou previsível estatuto canónico no seu país. Bloom avança com dois títulos que lhe parecem permanentes no referencial crítico e intelectual norte-americano: The Shores of Light: A Literary Chronicle of the Twenties and Thirties (1952) e Patriotic Gore: Studies in the Literature of the Civil War (1962). O primeiro é uma recolha dos ensaios e recensões publicadas durante os anos 20 e 30, e o segundo o livro que muitos consideram ser o seu magnum opus, outra recolha sistemática de ensaios que começaram a ser escritos na década de 40 e que abordam a Guerra Secessionista do Sul (1861-1865) através da literatura considerada “menor” (diários, cartas, contos, romances e até memórias militares) mas reveladora do verdadeiro estado de espírito imediatamente antes, durante e depois do grande conflito. Menciono aqui Patriotic Gore um pouco mais detalhadamente porque, de certo modo, é também uma obra que se integra nesta fase de escrita wilsoniana, que aqui denomino como “escrita minoritária”, que tem a ver sobretudo com a sua viragem para a investigação e divulgação em periódicos de grande tiragem (como o The New Yorker, nessa fase derradeira da sua escrita) mas sempre dirigidos à “classe culta” norte americana de que falava Lionel Trilling, e depois rescritos e republicados em forma de livro. Por outro lado, raras são ainda hoje as referências aos estudos literários nos Estados Unidos ou em recensões e ensaios acerca da literatura norte-americana de autores seus contemporâneos que não tenham eventualmente de lembrar a uns e relembrar  a outros o quase “esmagador” estatuto intelectual do autor de Axle’s Castle: A Study in the Imaginative Literature of 1870-1930  e de To The Finland Station/Rumo à Estação da Finlândia. Num extenso ensaio na The New Yorker (“The Buried Life”) da autoria da conhecida escritora Cynthia Ozick sobre a vida e obra de Lionel Trilling, um dos mais proeminentes dos muito influentes New York Intellectuals,  a autora ressalvava o que parece ser o duradouro estatuto de Edmund Wilson no fim do século passado.

“Provavelmente nenhum outro crítico literário – escreve Cynthia Ozick — da estatura de Trilling, com uma história de carreira tão duradoura e uma presença tão autorizada, estará eclipsado hoje como ele. Edmund Wilson poderá já não ser muito lido, mas survive como uma fulgurante presença cultural, quem sabe, talvez até por estar associado e andar nas nuvens lendárias que continuam a projectar Scott Fitzgerald e Hemingway. O aristocrata Wilson, quem Trilling admirava e desejava imitar, foi também um dos últimos homens de letras independente  – um freelancer de autonomia sem compromissos”.

O facto é que Wilson será um dos poucos críticos que sobrevive com pujança a alguns próprios dos escritores que ele um dia recenseou ou criticou. Poucos críticos e ensaístas (ou jornalistas, como Wilson preferia ser conhecido e se auto-denominava) da sua ou de qualquer outra geração terão tido  tantos dos seus livros nos mais variados géneros em circulação activa contínua. No que toca ao presente estado dos estudos sobre Wilson e a sua obra e ao seu estatuto na comunidade intelectual norte-americana, dentro e fora das universidades, para além de todos os estudos já publicados sobre a obra de Wilson na sua generalidade, Jeffrey Meyers (que leccionou ao longo dos anos em universidades do seu país e no estrangeiro) é autor de diversas biografias de escritores norte-americanos e britânicos, tendo publicado em 1995 a primeira grande biografia generalista de Wilson, Edmund Wilson: A Biography, em que, à maneira anglo-saxónica neste género de escrita, mistura os pormenores biográficos da vida pessoal e familiar do autor com a análise crítica da obra. Polémico pela atenção que dedica precisamente a esses pormenores íntimos da vida do escritor, Meyers, no entanto, interliga esses percursos pessoais (e não revela nada que o próprio crítico não tenha deixado escrito nos seus diários que seriam todos publicados postumamente) de Wilson com uma competente análise crítica da obra, à qual se mostra sempre, digamos, favorável no contexto do modernismo literário norte-americano. De qualquer modo, a grande e provavelmente definitiva biografia de Wilson só viria a ser publicada em 2005, o trabalho de uma vida do professor Lewis M. Dabney, Edmund Wilson: A Life in Letters. Entre algumas das muitas figuras literárias de renome mundial que também escreveram sobre Wilson com consistência ao longo dos anos, contam-se o romancista John Updike e o crítico Frank Kermode, assim como Isaiah Berlin. Em 1995 celebrou-se na Princeton University (a alma mater do autor) e em Nova Iorque o seu centenário com vários simpósios que incluíram a participação activa e directa de universitários especializados ou admiradores da sua obra, intelectuais públicos, críticos literários e escritores (como Toni Morrison, por exemplo). As mais importantes intervenções desse evento viriam pouco depois a ser coligidas e publicadas em 1997 em Edmund Wilson: Centennial Reflections. Para além de ter sido Wilson a introduzir com sistematização o modernismo europeu nos Estados Unidos (Proust, Joyce, Eliot e Valery, entre outros incluídos num dos seus livros canónicos, o já mencionado Axle’s Castle)  e de ter exercido a mais profunda influência (e “consciência”, segundo alguns) entre os escritores modernistas americanos da sua época, como Hemingway e Fitzgerald, torna-se mais tarde como que a principal referência dos, uma vez mais, New York Intellectuals, em que se reviam Lionel Trilling e Alfred Kazin, e ainda também uma presença relevante nos referenciais literários de Gore Vidal, John Updike e Joan Didion.

Wilson, depois de um longo período de marginalização preconceituosa nas universidades norte-americanas, permanece como figura verdadeiramente incontornável e provavelmente passará a ser sujeito e a sua obra analisada em teses e outros estudos. Ironicamente e apesar de todas as queixas de Wilson contra o mundo académico em geral, a sua obra começa já na década de 60 a ser objecto de estudos e teses em várias universidades do país, que depois seriam publicadas em editoras de grande prestígio universitário. O conflito de Wilson contra os universitários conheceria a sua fase mais dramática quando, em 1968, ele publica em dois números do The New York Review of Books (de 26 de Setembro e de 10 de Outubro de 1968) o seu hoje famoso panfleto, The Fruits of the MLA (Modern Language Association) no qual atacava o trabalho que ele considerava academicamente viciado em volta de edições críticas universitárias dos clássicos americanos, acreditando que o aparato pretensamente “científico” afastaria o leitor em vez de o aproximar da sua “herança” (as aspas são minhas) literária e cultural. The American Library, fundada em 1982 e agora especializada em edições críticas mas de aparato gráfico simples e atraente da obra completa de autores norte-americanos escolhidos havia sido idealizada por ele próprio (como Wilson faz questão em tornar claro numa carta de 18 de Agosto de 1962 ao director de The New York Review of Books, Jason Epstein) e inspiradas nas edições que ele bem conhecia dos clássicos franceses da Plêiade. Num dos seus muitos ataques aos estudos universitários noutra parte, Wilson escreveria: “Stay away from academic canons that always tend to keep literature provincial/Evitem os canônes académicos, esses que mantêm sempre a literatura como um acto provinciano”. Num acto de pura justiça e honestidade literária e cultural, a Americana Library, teria de ser, editou dois grossos volumes da obra seleccionada de Wilson.

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Para uma leitura sobre o diálogo de Edmund Wilson com os seus pares durante toda a sua vida literária (até à sua morte), leiam Edmund Wilson: Letters on Literature and Politics 1912-1972, New York, NY, Farrar, Straus And Giroux.