Edmund Wilson: da literatura e da crítica

E Wilson Devo fazer um esforço para nunca me evaporar.
Edmund Wilson, The Bit Between My Teeth

 /Vamberto Freitas

 Segundo muitos dos estudiosos da vida intelectual norte-americana do século XX, Edmund Wilson terá sido o crítico literário e cultural talvez de maior repercussão pública no seu país desde sempre até aos nossos dias. Depois dele (faleceu em 1972, e já tinha caído há muito em desgraça ou fora de moda) vieram os charlatães das supostas “teorias da literatura” nas universidades do seu país, e no Ocidente em geral, de quem já nem ninguém se lembra ou cita e que, afinal, não tiveram a mínima influência de como ou porquê se lê um bom romance, poema, peça de teatro ou ensaio. Com efeito, Wilson é o único crítico norte-americano que Harold Bloom, no seu The Western Canon: The Books And School Of The Ages/Os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempos, inclui com um possível ou previsível estatuto canónico no seu país. Bloom avança com dois títulos que lhe parecem permanentes no referencial crítico e intelectual norte-americano: The Shores of Light: A Literary Chronicle of the Twenties and Thirties (1952) e Patriotic Gore: Studies in the Literature of the Civil War (1962). O primeiro é uma recolha dos ensaios e recensões publicadas durante os anos 20 e 30, e o segundo o livro que muitos consideram ser o seu magnum opus, outra recolha sistemática de ensaios que começaram a ser escritos na década de 40 e que abordam a Guerra Secessionista do Sul (1861-1865) através da literatura considerada “menor” (diários, cartas, contos, romances e até memórias militares) mas reveladora do verdadeiro estado de espírito imediatamente antes, durante e depois do grande conflito. Menciono aqui Patriotic Gore um pouco mais detalhadamente porque, de certo modo, é também uma obra que se integra nesta fase de escrita wilsoniana, que aqui denomino como “escrita minoritária”, que tem a ver sobretudo com a sua viragem para a investigação e divulgação em periódicos de grande tiragem (como o The New Yorker, nessa fase derradeira da sua escrita) mas sempre dirigidos à “classe culta” norte americana de que falava Lionel Trilling, e depois rescritos e republicados em forma de livro. Por outro lado, raras são ainda hoje as referências aos estudos literários nos Estados Unidos ou em recensões e ensaios acerca da literatura norte-americana de autores seus contemporâneos que não tenham eventualmente de lembrar a uns e relembrar  a outros o quase “esmagador” estatuto intelectual do autor de Axle’s Castle: A Study in the Imaginative Literature of 1870-1930  e de To The Finland Station/Rumo à Estação da Finlândia. Num extenso ensaio na The New Yorker (“The Buried Life”) da autoria da conhecida escritora Cynthia Ozick sobre a vida e obra de Lionel Trilling, um dos mais proeminentes dos muito influentes New York Intellectuals,  a autora ressalvava o que parece ser o duradouro estatuto de Edmund Wilson no fim do século passado.

“Provavelmente nenhum outro crítico literário – escreve Cynthia Ozick — da estatura de Trilling, com uma história de carreira tão duradoura e uma presença tão autorizada, estará eclipsado hoje como ele. Edmund Wilson poderá já não ser muito lido, mas survive como uma fulgurante presença cultural, quem sabe, talvez até por estar associado e andar nas nuvens lendárias que continuam a projectar Scott Fitzgerald e Hemingway. O aristocrata Wilson, quem Trilling admirava e desejava imitar, foi também um dos últimos homens de letras independente  – um freelancer de autonomia sem compromissos”.

O facto é que Wilson será um dos poucos críticos que sobrevive com pujança a alguns próprios dos escritores que ele um dia recenseou ou criticou. Poucos críticos e ensaístas (ou jornalistas, como Wilson preferia ser conhecido e se auto-denominava) da sua ou de qualquer outra geração terão tido  tantos dos seus livros nos mais variados géneros em circulação activa contínua. No que toca ao presente estado dos estudos sobre Wilson e a sua obra e ao seu estatuto na comunidade intelectual norte-americana, dentro e fora das universidades, para além de todos os estudos já publicados sobre a obra de Wilson na sua generalidade, Jeffrey Meyers (que leccionou ao longo dos anos em universidades do seu país e no estrangeiro) é autor de diversas biografias de escritores norte-americanos e britânicos, tendo publicado em 1995 a primeira grande biografia generalista de Wilson, Edmund Wilson: A Biography, em que, à maneira anglo-saxónica neste género de escrita, mistura os pormenores biográficos da vida pessoal e familiar do autor com a análise crítica da obra. Polémico pela atenção que dedica precisamente a esses pormenores íntimos da vida do escritor, Meyers, no entanto, interliga esses percursos pessoais (e não revela nada que o próprio crítico não tenha deixado escrito nos seus diários que seriam todos publicados postumamente) de Wilson com uma competente análise crítica da obra, à qual se mostra sempre, digamos, favorável no contexto do modernismo literário norte-americano. De qualquer modo, a grande e provavelmente definitiva biografia de Wilson só viria a ser publicada em 2005, o trabalho de uma vida do professor Lewis M. Dabney, Edmund Wilson: A Life in Letters. Entre algumas das muitas figuras literárias de renome mundial que também escreveram sobre Wilson com consistência ao longo dos anos, contam-se o romancista John Updike e o crítico Frank Kermode, assim como Isaiah Berlin. Em 1995 celebrou-se na Princeton University (a alma mater do autor) e em Nova Iorque o seu centenário com vários simpósios que incluíram a participação activa e directa de universitários especializados ou admiradores da sua obra, intelectuais públicos, críticos literários e escritores (como Toni Morrison, por exemplo). As mais importantes intervenções desse evento viriam pouco depois a ser coligidas e publicadas em 1997 em Edmund Wilson: Centennial Reflections. Para além de ter sido Wilson a introduzir com sistematização o modernismo europeu nos Estados Unidos (Proust, Joyce, Eliot e Valery, entre outros incluídos num dos seus livros canónicos, o já mencionado Axle’s Castle)  e de ter exercido a mais profunda influência (e “consciência”, segundo alguns) entre os escritores modernistas americanos da sua época, como Hemingway e Fitzgerald, torna-se mais tarde como que a principal referência dos, uma vez mais, New York Intellectuals, em que se reviam Lionel Trilling e Alfred Kazin, e ainda também uma presença relevante nos referenciais literários de Gore Vidal, John Updike e Joan Didion.

Wilson, depois de um longo período de marginalização preconceituosa nas universidades norte-americanas, permanece como figura verdadeiramente incontornável e provavelmente passará a ser sujeito e a sua obra analisada em teses e outros estudos. Ironicamente e apesar de todas as queixas de Wilson contra o mundo académico em geral, a sua obra começa já na década de 60 a ser objecto de estudos e teses em várias universidades do país, que depois seriam publicadas em editoras de grande prestígio universitário. O conflito de Wilson contra os universitários conheceria a sua fase mais dramática quando, em 1968, ele publica em dois números do The New York Review of Books (de 26 de Setembro e de 10 de Outubro de 1968) o seu hoje famoso panfleto, The Fruits of the MLA (Modern Language Association) no qual atacava o trabalho que ele considerava academicamente viciado em volta de edições críticas universitárias dos clássicos americanos, acreditando que o aparato pretensamente “científico” afastaria o leitor em vez de o aproximar da sua “herança” (as aspas são minhas) literária e cultural. The American Library, fundada em 1982 e agora especializada em edições críticas mas de aparato gráfico simples e atraente da obra completa de autores norte-americanos escolhidos havia sido idealizada por ele próprio (como Wilson faz questão em tornar claro numa carta de 18 de Agosto de 1962 ao director de The New York Review of Books, Jason Epstein) e inspiradas nas edições que ele bem conhecia dos clássicos franceses da Plêiade. Num dos seus muitos ataques aos estudos universitários noutra parte, Wilson escreveria: “Stay away from academic canons that always tend to keep literature provincial/Evitem os canônes académicos, esses que mantêm sempre a literatura como um acto provinciano”. Num acto de pura justiça e honestidade literária e cultural, a Americana Library, teria de ser, editou dois grossos volumes da obra seleccionada de Wilson.

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Para uma leitura sobre o diálogo de Edmund Wilson com os seus pares durante toda a sua vida literária (até à sua morte), leiam Edmund Wilson: Letters on Literature and Politics 1912-1972, New York, NY, Farrar, Straus And Giroux.

 

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