Edmund Wilson: Da canonicidade às margens literárias e culturais (2)

 A Life in LettersDe certa maneira, ninguém poderá ler acertadamente o livro que o autor escreveu, e, do mesmo modo, ninguém poderá fazer a mesma leitura duas vezes do mesmo livro.

Edmund Wilson, The Triple Thinkers

/Vamberto Freitas

A obra de Wilson (nascido em 1895 em Nova Jersey, filho único de pais mais ou menos “patrícios”, e falecido em 1972 na sua casa ancestral no estado de Nova Iorque) como discurso eminentemente público nos Estados Unidos é de tal assombro na sua abrangência e influência que sintetizá-la em Portugal hoje tornar-se-á extremamente difícil, pois ele sempre contrariou outra das tendências cimentadas pelas universidades: foi demasiado “prolífico”, até que se veja quão interligada e sequencial é de facto toda a sua obra crítica e historicista, pois de lado e por agora ficará aqui a sua poesia, ficção e teatro, se bem que mesmo nestes géneros as suas preocupações maiores nunca estejam longe dos alvos culturais que Wilson queria atingir e, digamos, moldar (e emoldurar) no seu país. David Bromwich, no ensaio “Wilson´s Modernism”, retoma a ideia de Adorno que um crítico deve simultaneamente interiorizar o momento (ou a Tradição) enquanto corta radicalmente com todas as assunções desse tempo, rasgando outras vias intelectuais e criativas. Acrescenta Bromwich: “A tendência de nos preocuparmos com a interiorização do momento (fashion) poderá levar do mesmo modo a uma exteriorização (ou seja, a necessidade de contestação e criação do novo) compulsiva, tal como claramente acontece com ou nas teorias pós-modernistas, ou em obras executadas em obediência a essas teorias. Wilson foi um historiador heróico da resistência do artista às modas, e parte da verdade que ele nos passou se calhar é o que mais nele hoje esquecemos”. Efectivamente, se Wilson havia construído toda a sua reputação como observador e publicista das minorias modernistas em Nova Iorque a partir dos anos 20, quando ele ingressa nas revistas Vanity Fair, Dial e The New Republic, atravessa depois na década de 40 um longo período de indefinição (se bem que extremamente produtivo, com a publicação de mais sete livros) em que vai saltitando intelectualmente como que para evitar uma “paralisia” intelectual, mas em busca já de novas perspectivas e zonas de descoberta literária e cultural.

Edmund Wilson regressaria à ribalta (principalmente nas páginas de The New Yorker, na qual ingressa em 1943 como ensaísta e recenseador) no fim dessa década até à sua morte em 1972, com o que só se poderá chamar aqui uma espécie de ante-visão do que ironicamente dominaria o pensamento universitário e institucional (que tanto o haviam de rejeitar e marginalizar, embora nunca com a radicalidade que sentia e denunciava o próprio Wilson): esse pós-modernismo que Bromwich denuncia, mas que se dedica (na sua fase menos desconstrutivista e mais afirmativa) primeiro do que tudo à defesa das literaturas e historicidade global das minorias de toda a ordem e em toda parte, redefinindo e interligando para sempre centros e periferias, canonicidade e marginalidade. Creio que Bromwich peca aqui tão-só por omissão: Wilson foi de facto o crítico-historiador cimeiro da “resistência” a determinado momento e “moda” na arte e cultura — culturalismo — no seu país, mas foi também ou quiçá sobretudo um dos impulsionadores dessas novas vias que, primeiro, viriam a ser o modernismo nova-iorquino, e depois (o que mais nos interessa aqui e agora) o ante-visionista do pós-modernismo para-textual e temático que ainda hoje domina praticamente toda a crítica universitária e mesmo pública nos Estados Unidos. Por certo, a contínua presença de Wilson a mais se deve do que ao seu papel de historiador literário e cultural. A sua poesia é principalmente satírica, na medida em que se debruça quase sempre sobre nomes e momentos da vida literária do seu tempo. A ficção inclui o famigerado Memoirs of Hecate County, condenado num tribunal de Nova Iorque pelo seu grau de sexo explícito (para o tempo, 1946) e assim impedido de conseguir uma grande circulação por estar constantemente sob o perigo de levar a tribunal quem o vendesse ao público. Tanto este romance (ou conjunto de contos vagamente unificados pela voz e pose do narrador) como o I Thought of Daisy (1929) ou ainda The Higher Jazz (romance póstumo) são hoje considerados senão boa ficção, bons documentos culturais, quer dos anos 20 na Greenwich Village (berço do modernismo literário e cultural norte-americano) quer do  restante país em várias outras épocas. O teatro, curiosamente, consegue estar ainda em circulação, apesar de raramente ter sido encenado.

A partir dos anos 40, Wilson começa a abandonar a crítica de obras de autores conhecidos  –  com a excepção de autores russos, particularmente o todo importante na sua vida e afectos, Vladimir Nabokov — e dedica-se sistematicamente ao estudo da literatura e de culturas minoritárias tanto no seu país como no estrangeiro, publicando tudo ainda nas revistas de grande circulação mas de reconhecida qualidade, principalmente em The New Yorker, como já foi referido, nesta fase que durará até à sua morte. Este seu pioneirismo provém naturalmente de diversos impulsos biográficos e opções intelectuais, mas terá sobretudo a ver com a sua confessada tentativa de contrabalançar a hegemonia das literaturas e políticas centralizadoras dos grandes meios metropolitanos (ou “politicamente correctos” no ocidente de então), principalmente adentro do seu próprio país, e tornam-no seguramente e acima de tudo um pioneiro e visionário extra-institucional no que pouco mais tarde (a partir já dos anos 60, como resultado dos levantamentos histórico-sociais e culturais então vividos) se haveria de denominar “estudos étnicos”. Alguns dos títulos denotam os grupos e as áreas por ele abordadas: The Scrolls from the Dead Sea (1955), Red, Black, Blond and Olive. Studies in Four Civilizations: Zuñi, Haiti, Soviet Russia, Israel (1956), Apologies to the Iroquois (1960), O Canada: An American’s Notes on Canadian Culture (1965) e, por que não?, Patriotic Gore: Studies in the Literature of the American Civil War, a literatura “marginal” e de, com algumas excepções, como nos casos de Harriet Beecher Stowe e de Abraham Lincoln, autores de importância menor, mas que, segundo Wilson, melhor explicariam o lado minoritário sulista na sua vasta e profunda angústia político-cultural contra o Norte centralizador e hegemónico.

Creio que será supérfluo dizer que Wilson é pouquíssimo conhecido no nosso país pela classe culta que escreve fora dos estudos anglísticos ou americanos nas nossas universidades. Já nos nossos dias, Wilson tem sido mencionado com respeito, mas de passagem só, por alguns críticos literários e culturais, como Clara Ferreira Alves e Paulo Nogueira, ambos no Expresso, e noutra parte por Eugénio Lisboa, que sei ter lido The Shores of Light, e cita profusamente um outro livro do mesmo autor, The Triples Thinkers, num ensaio a propósito da revista Presença e presencismo. Por sua vez, o Professor George Monteiro, da Brown University e especializado na literatura norte-americana, publicaria num número da Colóquio-Letras (1983) numa secção então chamada “Carta da América”, um breve ensaio intitulado “A Permanência de Edmund Wilson”, em que dava conta do presente (à época) estatuto do crítico nas universidades e entre a classe culta em geral. Que eu saiba, esta representa a única vez em que no nosso país a obra de Wilson foi abordada com algum detalhe e todo o cuidado académico.

Edmund Wilson foi, sem qualquer dúvida, o grande crítico público da modernidade literária do seu país, a partir de Nova Iorque onde residiu durante a primeira fase da sua carreira. A sua mudança para a “periferia” (Wellfleet, em Cape Cod, onde viveu também entre imigrantes e luso-descendentes, e o grande amigo de John Dos Passos até ao fim) como que simbolizava a viragem na sua carreira, e a dedicação insuperada por qualquer outro crítico norte-americano da sua época e formação a culturas e literaturas que até então permaneciam nas margens institucionais ou no pensamento dos seus conterrâneos. É o crítico e ensaísta americano mais biografado na história da literatura do seu país. Casou quatro vezes, e havia outras (muitas) pelo meio. Uma das mais recentes obras sobre ele intitula-se precisamente Critic in Love: A Romantic Biography of Edmund Wilson, de David Castronovo e Janet Groth.

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Este texto faz parte de um longo estudo meu nunca publicado em forma de livro. Para a mais autorizada informação sobre o autor, recomendo Lewis M. Dabney, Edmund Wilson: A Life In Literature, New York, NY, Farrar, Straus & Giroux, 2005.

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