Nos vinte e cinco anos de Gente Feliz Com Lágrimas

Capa Gente Feliz Com L+ígrimasE onde descrevi a ruína e a sombra destas paredes, erguerei janelas que se abrirão para o sol da manhã.
João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas

Para a Adelaide, com uma lágrima de saudade

/Vamberto Freitas

 Quando da publicação da primeira edição, em 1988, de Gente Feliz Com Lágrimas eu residia algures no sul da Califórnia, tinha uma vida estável e satisfatória em tudo que nos traz a felicidade possível, resumia os meus dias a dar aulas e a escrever para o Diário de Notícias. Tinha começado a escrever sistematicamente sobre as literaturas norte-americana e açoriana para o suplemento então chamado simplesmente Cultura do diário lisboeta, o que me obrigava a estar atento ao melhor que no nosso país se ia publicando com os Açores como referência principal. Nas mais improváveis situações de vida, os livros também se podem tornar parte íntima de nós, quer por amizade ao seu autor quer por acontecimentos nas nossas vidas, que, sem sabermos ou suspeitarmos, nos continham a nós próprios nas suas páginas em representações que mesmo em sucessivas leituras nos parecem naturalmente distantes dos nossos próprios percursos, os mundos reinventados de outros, a ficção como acto artístico que nos poderá falar directamente, mas deverá permanecer sempre exclusivamente como referência identitária só na nossa capacidade intelectual de sentirmos a pertença a uma comunidade agora tornada imaginária, da qual já nos havíamos desligado ou dela nunca havíamos feito parte geograficamente, restando só a memória de uma cidadania quase só sentimental. Com este romance de João de Melo tudo se transformaria, a minha aproximação ao texto, por assim dizer, viria a ser desusada, tomaria contornos demasiado pessoais e emotivos.

Conheci João de Melo pela primeira vez num dos Encontros de Escritores Açorianos, aqui em São Miguel, mais ou menos um ano depois de Gente Feliz Com Lágrimas ter sido publicado e já então largamente comentado e premiado. Nunca sobre ele tinha escrito uma palavra, pois como eu diria dali a pouco num ensaio do Diário de Notícias, a sua escrita intimidava-me como poucas, particularmente a de O Meu Mundo Não É Deste, o antecessor do romance hoje em foco. Só que nesse mesmo Solar de Lalém da Maia, eu conheceria alguém que derrubaria esta e outras barreiras literárias em mim, tal como eu derrubaria as dela – uma mulher que então se chamava Adelaide Batista, e hoje chama-se Adelaide Freitas. O meu regresso a casa, como já disse noutra parte, iniciar-se-ia em breve. Mais do que isso, Adelaide tinha sido vizinha e amiga de João de Melo na Achadinha, que viraria Rozário em muita da obra deste autor. Doutorada em Literatura Norte-Americana, Adelaide estava já virada também para a Literatura Açoriana contemporânea, e dentro desta muito afincadamente para a obra do seu conterrâneo e vizinho, que eventualmente resultaria no primeiro livro de ensaios sobre a obra do autor de Gente Feliz Com Lágrimas, intitulado precisamente João de Melo e a Literatura Açoriana, publicado pela editora D. Quixote, em 1993. Estávamos ainda numa época em que nomear assim a nossa literatura mais parecia ante muitos outros uma espécie de criminalidade literária e cultural, o que não inquietava ou comovia a Adelaide minimamente. Seria ela, quando nos conhecemos na Maia e em pouco iniciávamos uma rica e intelectualmente frutífera vida em comum, que preencheu por completo os meus dias em tudo, a literatura dos nossos afectos uma constante na nossa casa, a escrita e a conversa imparáveis sobre os nossos projectos, com João de Melo e toda a sua obra até àquela data figurando num centro especial para nós os dois. Eventualmente eu escreveria vários ensaios sobre o autor nosso amigo, mas ela escreveu muito mais e melhor. Só mais uma palavra sobre a Adelaide no que se refere à obra de João de Melo – foi ela que colocou O Meu Mundo Não É Deste Reino nas mãos do seu antigo professor na City University of New York, e seu grande amigo até hoje, Gregory Rabassa. Não vou repetir aqui o que o grande mestre da tradução nos Estados Unidos diria sobre o romance numa carta que depressa nos enviava, basta relembrar que My World Is Not Of This Kingdom seria mais tarde publicado naquele país, e objecto de apreciações várias.

“O valor da obra de João de Melo – diria ela no extenso ensaio intitulado “A Miticidade em João de Melo” e incluído no seu já mencionado livro – deriva da riqueza do seu potencial significativo. Ela não vale pelo que diz mas pelo encerra; não tanto pelo que revela mas pelo que potencializa (…), cuja ontologia encontra expressão numa linguagem mítica. Uma linguagem dialógica, de tensão interna, para a qual concorrem as vozes e o estilo, o discurso, as disjunções subtis do tempo e do espaço, as personagens, o ponto de vista, etc., tudo num jogo livre de aproximação e rejeição, com vista à dramatização entre um número variado de sentidos opostos: o indivíduo e a sociedade, o homem e a natureza, o interior e o exterior, o passado e o futuro, e todas as oposições existenciais nos seus diversos códigos analógicos. Nesta dinâmica se movem todas as placas giratórias, garante fundamental da força e organicidade textual e narrativa, que dá suporte a uma miticidade que, clarificando a cultura, a prepara para o seu desenvolvimento e para outras manifestações. Trata-se, com efeito, de um verdadeiro hino à esperança, à tenacidade e sobrevivência de um povo, que é dos Açores como de outro qualquer lugar do mundo”.

Nestes vinte e cinco anos de Gente Feliz Com Lágrimas muitas outras lágrimas já escorreram, mas o “hino à esperança” de que falava a autora de Sorriso Por Dentro Da Noite, mantém-se – tem de se manter. A “realidade” transfigurada em Gente Feliz Com Lágrimas parecia-nos uma estória de um tempo ido, a memória, sempre, da miséria e do desespero do povo português, aqui e em todo o país, da nossa procura incessante pela nossa própria regeneração e salvação, rumo a novos mundos mais abertos, que não o que nos haviam legado desde a fundação da pátria. A esperança, uma vez mais, permanece – mas Gente Feliz Com Lágrimas torna-se agora um clássico actualizadíssimo, como aliás são todos os clássicos. Não estamos nos anos 60, mas estamos de novo nas mesmas ausências e desespero – famílias com fome, jovens desesperados por um futuro que de novo lhes é negado, um sistema político de todo insensível, frio e protector exclusivamente de uma outra elite que, tal como nesse passado ainda da nossa memória magoada, parece tratar de si e só de si, e ainda volta a prescrever descaradamente o remédio português de sempre – emigrem, literalmente dito por alguns deles, “abandonem a zona de conforto” rumo a outra Europa, ou ao Novo Mundo. A grande ficção nunca tem de ser justificada pela chamada “realidade”, no seu melhor é uma tirada artística, um “retrato” de um lugar e de um tempo. No nosso caso, desgraçadamente, é sempre esse lugar e esse tempo que reconfirmam a nossa arte literária, desde há séculos, numa perversão de todas as nossas vontades e sonhos. Gente Feliz Com Lágrimas é uma grande obra de arte, não precisava de nada disto, só da nossa memória e capacidade imaginativa, do nosso gosto pelas, e apreciação das suas linguagens simultaneamente de beleza pura e, sim, dureza realista. “Tudo para o ilhéu – citava ainda a Adelaide o autor de nome Vitorino Nemésio noutro texto – se resume em longitude e apartamento. A solidão é o âmago do que está separado e distante”.

O que me leva aqui a outra afirmação sobre Gente Feliz Com Lágrimas – trata-se também, para mim sem qualquer dúvida, do primeiro grande romance de um escritor português e açoriano sobre a nossa imigração na América do Norte. Por certo que antes de João de Melo já existiam os escritores imigrados e luso-descendentes nos EUA, mas falo de um escritor que teve a capacidade e sensibilidade literária e intelectual de olhar e de facto ver o que nos acontecia num grande país a norte naquele continente, o Canadá, essa outra pátria nossa a partir de meados do século passado. Houve sempre a tentação por parte dos nossos escritores açorianos residentes, até há bem poucos anos, de olhar para os nossos imigrantes através de uma espécie de atrevimento desumanizante. Não tinham vida interior, pouco mais sabiam do que a sua linguagem despedaçada. Com João de Melo passamos dessa unidimensionalidade para seres humanos reinventados em toda a sua complexidade e, sim, inteligência. Tudo isto faz parte da grandeza de Gente Feliz Com Lágrimas.

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João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas (23ª edição), Lisboa, D. Quixote, 2013. Este foi o texto de apresentação da edição comemorativa dos vinte e cinco anos do romance numa sessão com o seu autor na Livraria SolMar.

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