De José Soares e de Nós

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As grandes emigrações dos anos cinquenta, sessenta e setenta, originaram comunidades que hoje são o melhor embaixador do nosso país.

José Soares, Crónica dos Regressos

Vamberto Freitas

De seu nome completo José Soares de Abrantes Reis, mas para nós, seus amigos e leitores, é simplesmente José Soares, e que não deverá ser confundido com outros aqui nos arredores, pois o nome é mais ou menos comum nestas partes. Conheci-o, ainda enquanto imigrante no Quebeque, nos Encontros de Escritores Açorianos da Maia, aqui em São Miguel nos finais dos anos 80 e princípios da década seguinte. Não me lembro de um momento em que não nos tenhamos identificado um com o outro, tanto em termos pessoais, que depressa passavam para uma amizade sólida e que dura até hoje, e logo também uma aproximação aos  seus escritos na imprensa diaspórica e muito pouco depois nas páginas dos jornais micaelenses, particularmente no Açoriano Oriental, aliás de onde saem estas magníficas e, como diria Eugénio Lisboa, “penetrantes” crónicas ou, se preferirem os mais puristas nestas questões semânticas e estilísticas, comentários, publicados entre 2002-2005. José Soares foi dos amigos que acompanharia de perto o meu regresso aos Açores em 1991, a esta ilha que já então não me era de modo algum estranha, mas não era a minha. Eu – tal como ele – quebrava com um passado na América do Norte e com uma vida que nos fora, a mim e a ele, pelo menos profissionalmente, bastante construtiva e satisfatória. Ele combinava a escrita com a política activa já a partir do seu país de adopção, eu combinava o ensino com o jornalismo e ensaísmo cultural, o que continuaríamos a fazer na nossa terra natal. Menciono estes pequenos factos biográficos para deixar bem assente nestas palavras dois factos ou atitudes de um leitor atento às suas intervenções públicas – o respeito e admiração que tenho por ele, e as discordâncias que algumas destas crónicas me suscitaram e suscitam ainda nesta segunda leitura. Mas uma atitude, quanto a mim, só engrandece a outra. Escrever à procura de reacções unânimes e sempre consensuais,  nunca contestatárias, é uma perda de tempo para quem estuda e reflecte sobre os temas que escolhe abordar publicamente. A marca primeira da inteligência do comentador é saber despertar pensamentos contraditórios, obrigar o leitor sério a olhar uma determinada questão por outro ângulo, a repensar serenamente as suas próprias ideias ou assumpções em relação a qualquer questão pública do momento, seja ela de cariz político ou cultural, ou até a sua visão do passado que nos é comum, que nos permite a comunidade real e imaginária, essa que nos enlaça irremediavelmente na construção do nosso futuro. O jornalismo que não faz isto, também vale de muito pouco. Ninguém poderá acusar José Soares de pertencer a esta última categoria da fatuidade verbal (tão comum entre nós) ou inconsequência absoluta quando não se acrescenta nada ao nosso saber, quando apenas repetimos papagaiamente o que outros, perto ou longe de nós, dizem ou pensam.

Verão que nestes escritos o autor debruça-se sobre uma considerável gama de temas, mas a agora juntos verão também emergir destas páginas uma outra narrativa sequencial de um tempo e lugar, o nosso tempo e o nosso lugar. Rara é a questão aqui em foco, seja ela nacional, regional ou internacional, escândalo ou registo concordante, que José Soares não acabe por contextualizar nos seus mundos de todo significantes, sejam eles as geografias das nossas múltiplas diásporas, sejam eles, esses nossos mundos sempre em foco aqui, as ilhas da nossa nascença e sobretudo de todos os nossos afectos. Na sua por vezes fúria política em defesa da sua terra açoriana ele nunca esquece o que alguns nunca aprenderam cá dentro – que a História, o passado, determinou e determina o espaço sócio-político e cultural que ocupamos, que herdamos, tanto das tremendas convulsões naturais deste arquipélago como das acções dos que, quase sempre à distância, acharam e acham ainda hoje que governar-nos reduzia-se ou reduz-se a mais um decreto ou declaração numa Assembleia da República, que entende não existir um “povo açoriano”, frequentemente redigido ou proferida por ignorantes tão óbvios que até há poucos anos nem sabiam bem aonde e como ficavam geográfica e humanamente estas ilhas, ou que cidadãos “adjacentes” teriam de obedecer caladamente a ideias, desejos e interesses que nada tinham – ou têm – a ver com a experiência de um povo livre, pequeno em números mas gigante no seu conhecimento, apego e respeito por outras nações, essas que sempre nos acudiram e acolheram nos piores ou desastrosos momentos da nossa vida. Quando José Soares diz que as nossas comunidades “hoje são o nosso melhor embaixador” no além-fronteiras, não exagera, diz o que simplesmente é. Para os açorianos na América do Norte, uma associação do Divino Espírito Santo nos Estados Unidos ou no Canadá vale muito mais do uma embaixada oficial e distante, que raramente considera o nosso país como um todo. É contra este eterno estado de coisas que o autor desta Crónica dos Regressos se insurge página a página, “sem medo nem favores”, optando por políticas partidárias que poderão ser minoritárias, mas são essenciais à nossa dignidade, particularmente ante o furação globalizante que a todos assola de modo opressivo e injusto, e em que o ser humano pura e simplesmente deixou de ser o centro sagrado do mundo para dar lugar à ganância de uns poucos que se escondem atrás de linguagens economicistas e financeiras que mais fazem lembrar os avisos de George Orwell do que mentes cívicas ou políticas. Ante tudo isto, e por entre a crítica ou mera observação política habitual do autor, resta-nos e sobressai ainda nestas páginas o que os americanos gostam de chamar “life affirming/em prol da vida”, o contraditório ao que de nós todos gostariam de fazer as minorias poderosas.

“O entendimento humano não ultrapassa – escreve José Soares em dado momento – o do Universo que nos rodeia. Somos um fruto desse Universo e não o contrário. O pensamento humano, está pois condicionado à formatação que lhe é imposta pela vivência entre os milhões de galáxias. E por mais ínfimos que sejamos em relação a esse Universo (ou Multiverso), a verdade é que somos parte integrante dele, como são parte integrante do nosso corpo as mais pequenas moléculas. O nosso tamanho microscópico diante do Universo, deve ser fonte inspiradora para uma cada vez maior unidade dos povos planetários…”

Regresso ao início deste meu breve texto. A nossa comum humanidade não é assegurada só por palavras e arte, por mais necessárias que elas sejam na criação e reforço, digamos, da noção de “comunidade”, que nada tem a ver com fronteiras próximas ou distantes. Quando recomecei a minha vida aqui na ilha de São Miguel contava com um reduzido círculo de amigos para um apoio a todos os níveis, para uma convivência que nos faz sentir de novo em casa, e entre esses amigos esteve sempre o José Soares. Leio-o nessa condição e nessas circunstâncias como o leio como cidadão e apreciador da sua audácia ante poderes societais reias, e ante os que se pensam momentaneamente poderosos, mas raramente vão além das suas próprias fantasias e ambições também raramente fundamentadas no seu saber ou importância para além do umbigo próprio. Um comentador como este tem de medir constantemente o seu e o nosso momento colectivo para que o possa interpretar, para que, sempre que possível, o possa moldar conforme a sua ideologia ou a sua mundividência. Não são todos que têm tido estas universidades – o conhecimento pessoal e directo de outros mundos para além dos nossos horizontes estreitos e brumosos.

É precisamente isso que nos transmite com clareza e viveza estes escritos de Crónica dos Regressos (Barcos de Palha). O reconhecimento do que aqui fica dito já foi manifestado por outros, como se poderá ler na nota biográfica do autor incluída nestas páginas. Os actos de justiça, especialmente no que diz respeito à escrita deste género, demoram. Só que numa sociedade aberta e justa acabam inevitavelmente por chegar – para dignificação e proveito de nós todos, dos leitores e mesmo dos que não o são. “A paz, se possível, Mas a verdade, A qualquer preço”, disse Martinho Lutero, e que José Soares repete aqui na sua epígrafe. Sem dúvida.

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José Soares, Crónica dos Regressos (Barcos de Palha), Vila Nova de Gaia, Calendário de Letras, 2014.               Este texto foi retirado do posfácio que escrevi para este livro.

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Da nossa geração

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A inquietação é o resultado da forte experiência da condição insular por parte de algumas personagens, exatamente as que num processo de introspeção descobrem o seu fatum ou ‘signo atlântico’.

Urbano Bettencourt, Inquietação insular e figuração satírica em José Martins Garcia

                                                                 Vamberto Freitas

José Medeiros Ferreira dizia-nos há uns anos que nós, os escritores açorianos, éramos o “último” grupo literário em Portugal. Que queria dizer? Creio que isto: toda uma geração açoriana ainda se mantinha coesa na escrita e abordagem das suas obras, as formas poderiam ser a mais diferenciadas, mas a temática continuava a mesma – na ficção, na poesia, na dramaturgia, no ensaísmo, era ainda a nossa sorte colectiva que nos obcecava, que nos comovia – um passado de pobreza e repressão, a emigração como acto de salvação e regeneração, e mais tarde a guerra colonial em África e a dor de combatermos contra aqueles que teriam quase as mesmas “queixas” dos próprios açorianos. Desde esses dias dos anos 70-80 muito aconteceu entre nós. Tenho uma data precisa de quando o “grupo” se desintegrou, e cada um dos nossos escritores seguiu o seu caminho, ou pelo menos o seu isolamento – o verão de 1998, na ilha de São Jorge, quando se realizou o 5º Encontro de Escritores Açorianos. Já nada era o mesmo. É certo que ainda uma grande parte dos nossos escritores esteve presente, mas a tempestade acontecera. Discordâncias fundamentais não podiam ser mais reprimidas, cada um de nós já não sentia esse sentimento de pertença – certas forças aqui nas ilhas recém-chegadas ao Poder, sem experiência nem consciência cultural açoriana definida, tratou de enfiar uma faca no coração dos que ainda hoje constituem o melhor da nossa cultura literária contemporânea. Beijava as mãos de uns, e cuspia nas de outros. Não tolerava a nossa rebeldia e sentido agudo de autonomia ante os que tudo, sempre, sejam de que cor política forem, tentam controlar e dominar. O ambiente estava tão crispado, acreditem, que até a participação do então Director Regional da Cultura teve de ser “negociada” com os organizadores do Encontro. Mais do que outras diferenças, no que respeitava à nossa produção literária, eram agora uma espécie revanchismo político e a vingança contra os “insubordinados”. Tudo passou. Haveria de surgir um ou outro nome de uma nova geração, alguns deles acabados de chegar de Lisboa  após a sua formação académica e tentando ocupar o vazio que deixávamos em branco, e agora tentando um caminhar na nossa solidão, publicando um ou outro livro aqui e ali. Tudo isso havia, uma vez mais, de passar, e o próprio Poder depressa adoptava as nossas linguagens, até então tidas como demasiado “regionalistas”, “fechadas”, “ensimesmadas”. 

“Movimentam-se – escreveu José Medeiros Ferreira em referência aos escritores açorianos e da Diáspora, logo após o 25 de Abril, no volume oito da História de Portugal,

coordenada por José Mattoso – os intelectuais, suscitam-se patronos. Emerge Vitorino Nemésio como figura tutelar da identidade insular. Mas também surgem intelectuais mais novos, e dentro dos arquipélagos, que reclamam uma raiz insular. Natália Correia, José Martins Garcia, Onésimo Teotónio Almeida, Vamberto Freitas. E mais tarde, já na década de 80, florescem nomes na literatura como Cristóvão de Aguiar e João de Melo, que se reclamam do universalismo e aborrecem o localismo, mas cujas ‘raízes comovidas’ são insulares no precioso vocabulário e numa rememoração da primeira idade própria de ‘gente feliz com lágrimas’”. 

Entretanto começariam a surgir os nomes mais novos entre nós, alguns dos quais já deram conta de si, outros, após um breve ensaio “intelectual” na ilha, retiravam-se para o serviço do novo Poder açoriano, ora como dinamizadores culturais ora como jornalistas. Apareceram em breve escritores como Joel Neto e Ana Paula de Sousa Lima (ambos entre as duas gerações), e logo depois Nuno Costa Santos, Luís Borges, Alexandre Borges, Hélder de Medeiros, Sónia Bettencourt, Luísa Ribeiro, Rui Jorge Cabral, Rogério Sousa, Almeida Maia e Leonardo de Sousa. Brites Araújo é outro nome a ter em conta futuramente, mesmo que nunca tenha aventurado um livro, mas conhecemos a qualidade de toda a sua escrita. Começou desde há tempos a aproximação entre quase eles e a nossa geração – respeito mútuo, o reconhecimento destes mais novos de que foi a geração anterior a lavrar a terra para que a sua sementeira crescesse num terreno próprio e muito seu, reivindicando para si, afinal, uma Tradição açoriana que mais ninguém lhes pode dar, ou retirar. Que partem das nossas obras para os seus destinos próprios só lhes valoriza ainda mais, que os outros os leiam e admirem pelo que são e de onde são. O resto a mera retórica de frustrados, e ambições num país que não nos tem seu imaginário, e muito menos nos seus afectos. 

A realidade voltaria a impor-se. Retirados alguns artistas do Nada, os intelectuais do vazio ou da “sociedade do espectáculo” sem qualquer sentido, voltaria a impor-se a geração agora mais envelhecida, mas muito mais segura de si na sua arte, e especialmente ante os poderes societais que nada têm a ver com a nossa produção literária, com a arte que perpetua a nossa memória colectiva. A homenagem o ano passado ao falecido Daniel de Sá, na Maia, a recordação dos Encontros de Escritores Açorianos que ele tinha fundado com Afonso Quental, Carlos Cordeiro e Urbano Bettencourt, foi um acto não só de memorialização mas sobretudo o sinal da vitalidade dos que neles haviam participado, e ainda hoje são as algumas das vozes literárias principais da nossa comunidade. Algumas figuras de todo estranhas a esta memória nossa têm tentado apropriar-se desta página brilhante da nossa literatura e cultura, mas não conseguiram, nunca o vão conseguir. Nada disto, claro está, tem dono, mas tem uma vincada história a que outros não pertencem nem poderão pertencer à posteriori. Os mais novos

poderão contestar – mas aconselhava-os a humildade na sua aprendizagem, a dignidade dos que pretendem dar seguimento a toda uma tradição literária e cultural. Se não o fizerem, o vazio será deles, não nosso. 

Falta aqui a outra geografia da nossa criatividade e memória – os escritores da nossa Diáspora norte-americana, e, nas décadas mais recentes, brasileira. Quanto aos Estados Unidos e Canadá, falo em primeiro lugar dos que em língua portuguesa desde sempre têm dado conta da nossa experiência imigrante a oeste. São muitos os nomes, mas cito aqui os da minha, nossa, geração açoriana, que mais me tocam, que mais têm escrito sobe a nossa sorte durante a segunda metade do século passado, e que estiveram sempre interligados com os seus colegas que cá permaneceram: Onésimo Teotónio Almeida, Francisco Cota Fagundes, Diniz Borges e João-Luís de Medeiros. Sem eles, não teríamos o entendimento que temos do que tem sido a peregrinação moderna do povo destas ilhas. Cada um deles dá-nos facetas diversas da nossa vida em confronto com o futuro e com a dor da saudade, cada um deles opera nos seus textos a ligação fundamental entre o arquipélago e  o grande continente a oeste, pátria nossa onde também estão enterrados os nossos mortos, e talvez ainda mais o nosso destino numa continuidade histórica que se mantém, feliz ou infelizmente. Do Brasil, permanece a memória do heroísmo dos que partiram enganados pela  velha elite lusa, mas que acabariam por fundar algumas das mais dignas e poderosas comunidades daquele país. A literatura tem-nos dado conta desse outro nosso feito, particularmente a obra de Luiz António de Assis Brasil.

Finalmente, os escritores luso-descendentes de língua inglesa. Que dizer deles? Que uma nova geração de artistas e pensadores, que não nos devem nada, mas insistem assim mesmo em reclamar para si um um espaço memorial entre nós? É “milagroso” o que eles têm feito na sua língua natal. Quase todos eles formados em universidades do seu país, sem qualquer ligação com instituições do nosso, reclamam para si a sua ancestralidade açórica, deixam consistentemente as suas palavras em homenagem aos seus avós e pais, à terra que lhes deu parte da sua identidade, nunca rejeitada, sempre celebrada. São muitos os seus nomes, mas arrisco aqui os que nunca já poderão ser ignorados: Katherine Vaz, Frank X. Gaspar, Sam Pereira, Millicent Borges Accardi, Carlo Matos, e George Monteiro, que sendo de descendência continental, tem na ua poesia um lugar muito distinto da nossa tradição, aqui e no outro lado do mar.

Não foi pouco, não tem sido, este trabalho literário da nossa geração. Quem não sabe sobre estas nossas páginas, que pelo menos tenha o pudor de se calar.

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 Foto: um dos Encontros dos Escritores Açorianos, no Solar de Lalém, na Maia, em São Miguel, anos 80-

O último adeus ao império

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…Olhou para o mar e jurou, nunca mais ninguém me expulsa de lado nenhum, esta vai ter de ser a minha terra.

Dulce Maria Cardoso, O Retorno

                                                                  Vamberto Freitas

Vamos celebrar em poucos dias os 40 anos do 25 de Abril – a libertação de uns e a dor de outros. Não haverá nada de mais cruel na reestruturação revolucionária de uma sociedade do que esquecer algumas das suas vidas que mais sofreram com tais vendavais. Repito aqui uma confissão muito pessoal: para mim, que vivia um oceano e um continente imenso à distância de Lisboa, foi, sem que eu me apercebesse imediatamente de tal turbilhão pessoal, um dia que mudou todo o meu destino, tanto dentro da América como depois no meu regresso definitivo à nossa terra. Digo isto para dizer de seguida: celebro sempre a grande transformação da sociedade portuguesa como um acontecimento que me trouxe tudo o que sonhara naqueles anos de faculdade e politização à esquerda, como convinha à maioria da minha geração do Vietname (de onde me livrei, ao contrário de muitos com a minha idade à época), e que me abriria as portas para que eu pudesse voltar a viver com dignidade no meu país de nascença. Essa é outra história, a minha e a de milhares de conterrâneos meus,e não cabe por enquanto neste espaço. Enquanto eu me incluía entre os cidadãos em euforia e liberdade reconquistada, outros seriam em poucos meses rotulados de “retornados”, mal olhados e discriminados como se de um grupo marginal e de todo inconveniente se tratasse, alojados em hotéis, pensões ou em casas de familiares, os seus contentores amontoados em Alcântara com o que lhes restava de uma vida, por vezes de gerações, ao serviço de pátria nas terras distantes. Não tinham nada a agradecer ao golpe militar em Lisboa, foram as suas vítimas inesperadas; não eram “colonialistas”, eram na sua grande maioria famílias que haviam deixado a miséria portuguesa para reconstruir as suas vidas “no país dos outros”, como diria o grande poeta moçambicano Rui Knopfli noutro contexto e forma, tinham lançado novas raízes, e tinham, uma vez mais, na sua vasta maioria, reconstruido satisfatoriamente vidas remediadas nos trópicos sem nunca pensarem que seriam convidados a abandonar tudo ou a morrer mesmo às mãos de novos poderes sem imaginação naquele momento escaldante de interesses próprios. Que esses mesmos trópicos aceitam hoje novas ondas de emigração lusa exactamente para retomarem projectos de interesse nacional é de uma ironia mais do que cruel para nós – é vergonhoso, degradante e injusto num país que “pertence” novamente a um suposto grande bloco de nações, também ironicamente intitulado de União Europeia. Que união, que prosperidade, e que futuro nos esperava, não descontando obviamente o que de bom também nos veio da nova aventura no continente a que, pelo menos geograficamente, pertence Portugal.

O breve introito aqui tem a ver com um romance que li tardiamente, mas agradeço a

quem mo trouxe à minha atenção, ficando eu a saber que vinha directamente ao encontro das minhas temáticas ficcionais preferidas, ou seja a peregrinação do nosso povo nas mais variadas circunstâncias e geografias durante todo o século passado: O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, publicado originalmente em 2011 e depois numa terceira edição o ano passado, e que também acaba de ser lançado na França por razões, suponho, muito parecidas com as nossas, a Argélia dificilmente sairá da sua memória – o regresso após a aventura colonialista em África de centenas de milhares de cidadãos a uma terra que haviam há muito deixado e os seus filhos que de cá só a conheciam, como aliás se refere mais do que uma vez neste magnífico romance, dos mapas da escola ou das histórias de pais e avós. Estamos, no tempo real e diegético destas páginas, em Luanda e Lisboa, em 1975, cujos dias, esses, quase todos conhecem ou lembram com fervor ideológico, ou então o sofrimento da incerteza quando todo um mundo se desmorona à nossa volta. Genialmente – uso a palavra sem quaisquer reticências neste caso – a autora opta por um jovem narrador de 15 anos de idade, de nome Rui, que nos conta toda história enquanto “reside” no Hotel do Estoril, não pelo luxo mas simplesmente porque tinha sido também escolhido pelas autoridades como albergue parcial dos recém-chagados a Lisboa com pouquíssimos escudos na algibeira. Pela sua idade e pelo seu espanto do que lhe acabava de acontecer na vida na companhia de sua mãe e irmã enquanto esperam ansiosamente pelo pai que havia sido preso pelas novas forças de segurança angolana, Rui é um imparável turbilhão de palavras e conflitos interiores, a raiva que sente só temperada pelos afazeres diários de um adolescente com outros na mesma condição, e pela sua lenta descoberta do país que para ele havia sido só uma abastração longínqua. Creio ter havido mais uma razão para que a voz desta fulgurante narrativa seja a de Rui, é um modo de eliminar a “ideologia” da raiva, que se tornaria, por certo, uma vociferação violenta de qualquer adulto com a vida desfeita – essa inevitável gaveta do romance vem-nos de modo bem mais ameno quando nos é relatado a fala que ele ouve e transmite dos adultos à sua volta. É tempo de todas as memórias, de tudo o que haviam vivido numa casa mais ou menos humilde em África, dos amigos de paradoiro agora desconhecido, das alegrias e tristezas de vidas por entre a aventura constante e, assim mesmo a saudade da metrópole à distância, a referência sempre presente nos dias em que ainda não adivinhavam a sua sorte decidida por acontecimentos e personalidades históricas desconhecidas até à inevitabilidade do fim do império. Sim, os personagens reais são referidos aqui, e o leitor não se surpreende dos termos utilizados para os descrever, muitos deles ainda vivos e no activo entre nós. De resto, é o humor imparável, que também aproxima o leitor alheio à experiência real vivida e sofrida por todos estes personagens.

“Mas a minha irmã – diz Rui ao chegar ao fim da sua aventura de desalojado, a narrativa

estando prestes a encerrar – ainda não vai para universidade, inventaram uma coisa que se chama serviço cívico e é o que a minha irmã vai fazer este ano, a minha irmã e o namorado, o besugo da metrópole que ainda nem está na universidade e já parece um doutor. A minha irmã deve pensar que se namorar com um besugo de cá deixa de ser retornada, só mesmo uma rapariga para pensar numa coisas dessas… O Gegé e o Lee também não vão acreditar que aqui na metrópole as famílias vão à matinée ver filmes como a Emmanuelle, aposto que nem no Brasil nem na África do Sul acontece isso, deve ser uma das poucas coisas que a metrópole tem melhor…”

Autora/narrador, texto, contexto. Suponho que Dulce Maria Cardoso fala de si neste romance, transfigurada numa voz masculina, pois devia ter a mesma idade do Rui aquando do seu regresso à “metrópole”. Portugal nunca entendeu, ou se importou, com a dor dos seus emigrados “voluntários”, muito menos com a dor destes “retornados”, mais de meio milhão de seres humanos a braços naquele dramático momento histórico com todos os seus mundos caídos, e em dias revolucionários que lhes manifestavam só desconfiança e acusações injustas de toda ordem, esquecendo-se os alguns militares protagonistas do 25 de Abril que foram eles os primeiros colaboradores de um Estado senil e sem uma consciência empática do que tinha feito à sua gente, dentro e fora do pequeno território nacional. Num outro texto citei a autora quando numa entrevista literária diria ao seu interlocutor que só em 2010 começou a admitir certo sentimento de pertença a Portugal, mas ainda não estava totalmente certa disso. Grande e generosa escritora – se fosse eu, a rejeição seria para sempre após a recepção que um país em delírio raivoso me tinha dispensado.

A menção de dois países aparece continuamente nestas páginas: América e Brasil, que um jovem narrador já imaginava como sendo a salvação e regeneração dos seus, e como comprova a nossa história. É para aí que vamos quando mais nada é possível ou viável portas adentro. Acabam eles por ficar, e a sua razão é também implacável – fariam finalmente de Portugal a sua incerta e nova ou ancestral pátria, fariam dela o seu último poiso. O sucesso da sua reintegração não se deve a quem os recebeu, deve-se à sua coragem, força, inteligência e iniciativa. 

Antes do presente volume, Dulce Maria Cardoso já tinha publicado Até Nós, O Chão dos Pardais, Os Meus Sentimentos e Campo de Sangue. Acaba de publicar este ano os contos de tudo são histórias de amor. O Retorno, pelo que li a este respeito também, é ainda hoje mais reconhecido no estrangeiro do que entre nós. Entendo isso, infelizmente.

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Dulce Maria Cardoso, O Retorno (3ª edição), Lisboa, Tinta-Da-China, 2013.