Da nossa geração

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A inquietação é o resultado da forte experiência da condição insular por parte de algumas personagens, exatamente as que num processo de introspeção descobrem o seu fatum ou ‘signo atlântico’.

Urbano Bettencourt, Inquietação insular e figuração satírica em José Martins Garcia

                                                                 Vamberto Freitas

José Medeiros Ferreira dizia-nos há uns anos que nós, os escritores açorianos, éramos o “último” grupo literário em Portugal. Que queria dizer? Creio que isto: toda uma geração açoriana ainda se mantinha coesa na escrita e abordagem das suas obras, as formas poderiam ser a mais diferenciadas, mas a temática continuava a mesma – na ficção, na poesia, na dramaturgia, no ensaísmo, era ainda a nossa sorte colectiva que nos obcecava, que nos comovia – um passado de pobreza e repressão, a emigração como acto de salvação e regeneração, e mais tarde a guerra colonial em África e a dor de combatermos contra aqueles que teriam quase as mesmas “queixas” dos próprios açorianos. Desde esses dias dos anos 70-80 muito aconteceu entre nós. Tenho uma data precisa de quando o “grupo” se desintegrou, e cada um dos nossos escritores seguiu o seu caminho, ou pelo menos o seu isolamento – o verão de 1998, na ilha de São Jorge, quando se realizou o 5º Encontro de Escritores Açorianos. Já nada era o mesmo. É certo que ainda uma grande parte dos nossos escritores esteve presente, mas a tempestade acontecera. Discordâncias fundamentais não podiam ser mais reprimidas, cada um de nós já não sentia esse sentimento de pertença – certas forças aqui nas ilhas recém-chegadas ao Poder, sem experiência nem consciência cultural açoriana definida, tratou de enfiar uma faca no coração dos que ainda hoje constituem o melhor da nossa cultura literária contemporânea. Beijava as mãos de uns, e cuspia nas de outros. Não tolerava a nossa rebeldia e sentido agudo de autonomia ante os que tudo, sempre, sejam de que cor política forem, tentam controlar e dominar. O ambiente estava tão crispado, acreditem, que até a participação do então Director Regional da Cultura teve de ser “negociada” com os organizadores do Encontro. Mais do que outras diferenças, no que respeitava à nossa produção literária, eram agora uma espécie revanchismo político e a vingança contra os “insubordinados”. Tudo passou. Haveria de surgir um ou outro nome de uma nova geração, alguns deles acabados de chegar de Lisboa  após a sua formação académica e tentando ocupar o vazio que deixávamos em branco, e agora tentando um caminhar na nossa solidão, publicando um ou outro livro aqui e ali. Tudo isso havia, uma vez mais, de passar, e o próprio Poder depressa adoptava as nossas linguagens, até então tidas como demasiado “regionalistas”, “fechadas”, “ensimesmadas”. 

“Movimentam-se – escreveu José Medeiros Ferreira em referência aos escritores açorianos e da Diáspora, logo após o 25 de Abril, no volume oito da História de Portugal,

coordenada por José Mattoso – os intelectuais, suscitam-se patronos. Emerge Vitorino Nemésio como figura tutelar da identidade insular. Mas também surgem intelectuais mais novos, e dentro dos arquipélagos, que reclamam uma raiz insular. Natália Correia, José Martins Garcia, Onésimo Teotónio Almeida, Vamberto Freitas. E mais tarde, já na década de 80, florescem nomes na literatura como Cristóvão de Aguiar e João de Melo, que se reclamam do universalismo e aborrecem o localismo, mas cujas ‘raízes comovidas’ são insulares no precioso vocabulário e numa rememoração da primeira idade própria de ‘gente feliz com lágrimas’”. 

Entretanto começariam a surgir os nomes mais novos entre nós, alguns dos quais já deram conta de si, outros, após um breve ensaio “intelectual” na ilha, retiravam-se para o serviço do novo Poder açoriano, ora como dinamizadores culturais ora como jornalistas. Apareceram em breve escritores como Joel Neto e Ana Paula de Sousa Lima (ambos entre as duas gerações), e logo depois Nuno Costa Santos, Luís Borges, Alexandre Borges, Hélder de Medeiros, Sónia Bettencourt, Luísa Ribeiro, Rui Jorge Cabral, Rogério Sousa, Almeida Maia e Leonardo de Sousa. Brites Araújo é outro nome a ter em conta futuramente, mesmo que nunca tenha aventurado um livro, mas conhecemos a qualidade de toda a sua escrita. Começou desde há tempos a aproximação entre quase eles e a nossa geração – respeito mútuo, o reconhecimento destes mais novos de que foi a geração anterior a lavrar a terra para que a sua sementeira crescesse num terreno próprio e muito seu, reivindicando para si, afinal, uma Tradição açoriana que mais ninguém lhes pode dar, ou retirar. Que partem das nossas obras para os seus destinos próprios só lhes valoriza ainda mais, que os outros os leiam e admirem pelo que são e de onde são. O resto a mera retórica de frustrados, e ambições num país que não nos tem seu imaginário, e muito menos nos seus afectos. 

A realidade voltaria a impor-se. Retirados alguns artistas do Nada, os intelectuais do vazio ou da “sociedade do espectáculo” sem qualquer sentido, voltaria a impor-se a geração agora mais envelhecida, mas muito mais segura de si na sua arte, e especialmente ante os poderes societais que nada têm a ver com a nossa produção literária, com a arte que perpetua a nossa memória colectiva. A homenagem o ano passado ao falecido Daniel de Sá, na Maia, a recordação dos Encontros de Escritores Açorianos que ele tinha fundado com Afonso Quental, Carlos Cordeiro e Urbano Bettencourt, foi um acto não só de memorialização mas sobretudo o sinal da vitalidade dos que neles haviam participado, e ainda hoje são as algumas das vozes literárias principais da nossa comunidade. Algumas figuras de todo estranhas a esta memória nossa têm tentado apropriar-se desta página brilhante da nossa literatura e cultura, mas não conseguiram, nunca o vão conseguir. Nada disto, claro está, tem dono, mas tem uma vincada história a que outros não pertencem nem poderão pertencer à posteriori. Os mais novos

poderão contestar – mas aconselhava-os a humildade na sua aprendizagem, a dignidade dos que pretendem dar seguimento a toda uma tradição literária e cultural. Se não o fizerem, o vazio será deles, não nosso. 

Falta aqui a outra geografia da nossa criatividade e memória – os escritores da nossa Diáspora norte-americana, e, nas décadas mais recentes, brasileira. Quanto aos Estados Unidos e Canadá, falo em primeiro lugar dos que em língua portuguesa desde sempre têm dado conta da nossa experiência imigrante a oeste. São muitos os nomes, mas cito aqui os da minha, nossa, geração açoriana, que mais me tocam, que mais têm escrito sobe a nossa sorte durante a segunda metade do século passado, e que estiveram sempre interligados com os seus colegas que cá permaneceram: Onésimo Teotónio Almeida, Francisco Cota Fagundes, Diniz Borges e João-Luís de Medeiros. Sem eles, não teríamos o entendimento que temos do que tem sido a peregrinação moderna do povo destas ilhas. Cada um deles dá-nos facetas diversas da nossa vida em confronto com o futuro e com a dor da saudade, cada um deles opera nos seus textos a ligação fundamental entre o arquipélago e  o grande continente a oeste, pátria nossa onde também estão enterrados os nossos mortos, e talvez ainda mais o nosso destino numa continuidade histórica que se mantém, feliz ou infelizmente. Do Brasil, permanece a memória do heroísmo dos que partiram enganados pela  velha elite lusa, mas que acabariam por fundar algumas das mais dignas e poderosas comunidades daquele país. A literatura tem-nos dado conta desse outro nosso feito, particularmente a obra de Luiz António de Assis Brasil.

Finalmente, os escritores luso-descendentes de língua inglesa. Que dizer deles? Que uma nova geração de artistas e pensadores, que não nos devem nada, mas insistem assim mesmo em reclamar para si um um espaço memorial entre nós? É “milagroso” o que eles têm feito na sua língua natal. Quase todos eles formados em universidades do seu país, sem qualquer ligação com instituições do nosso, reclamam para si a sua ancestralidade açórica, deixam consistentemente as suas palavras em homenagem aos seus avós e pais, à terra que lhes deu parte da sua identidade, nunca rejeitada, sempre celebrada. São muitos os seus nomes, mas arrisco aqui os que nunca já poderão ser ignorados: Katherine Vaz, Frank X. Gaspar, Sam Pereira, Millicent Borges Accardi, Carlo Matos, e George Monteiro, que sendo de descendência continental, tem na ua poesia um lugar muito distinto da nossa tradição, aqui e no outro lado do mar.

Não foi pouco, não tem sido, este trabalho literário da nossa geração. Quem não sabe sobre estas nossas páginas, que pelo menos tenha o pudor de se calar.

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 Foto: um dos Encontros dos Escritores Açorianos, no Solar de Lalém, na Maia, em São Miguel, anos 80-

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