De José Soares e de Nós

Image

As grandes emigrações dos anos cinquenta, sessenta e setenta, originaram comunidades que hoje são o melhor embaixador do nosso país.

José Soares, Crónica dos Regressos

Vamberto Freitas

De seu nome completo José Soares de Abrantes Reis, mas para nós, seus amigos e leitores, é simplesmente José Soares, e que não deverá ser confundido com outros aqui nos arredores, pois o nome é mais ou menos comum nestas partes. Conheci-o, ainda enquanto imigrante no Quebeque, nos Encontros de Escritores Açorianos da Maia, aqui em São Miguel nos finais dos anos 80 e princípios da década seguinte. Não me lembro de um momento em que não nos tenhamos identificado um com o outro, tanto em termos pessoais, que depressa passavam para uma amizade sólida e que dura até hoje, e logo também uma aproximação aos  seus escritos na imprensa diaspórica e muito pouco depois nas páginas dos jornais micaelenses, particularmente no Açoriano Oriental, aliás de onde saem estas magníficas e, como diria Eugénio Lisboa, “penetrantes” crónicas ou, se preferirem os mais puristas nestas questões semânticas e estilísticas, comentários, publicados entre 2002-2005. José Soares foi dos amigos que acompanharia de perto o meu regresso aos Açores em 1991, a esta ilha que já então não me era de modo algum estranha, mas não era a minha. Eu – tal como ele – quebrava com um passado na América do Norte e com uma vida que nos fora, a mim e a ele, pelo menos profissionalmente, bastante construtiva e satisfatória. Ele combinava a escrita com a política activa já a partir do seu país de adopção, eu combinava o ensino com o jornalismo e ensaísmo cultural, o que continuaríamos a fazer na nossa terra natal. Menciono estes pequenos factos biográficos para deixar bem assente nestas palavras dois factos ou atitudes de um leitor atento às suas intervenções públicas – o respeito e admiração que tenho por ele, e as discordâncias que algumas destas crónicas me suscitaram e suscitam ainda nesta segunda leitura. Mas uma atitude, quanto a mim, só engrandece a outra. Escrever à procura de reacções unânimes e sempre consensuais,  nunca contestatárias, é uma perda de tempo para quem estuda e reflecte sobre os temas que escolhe abordar publicamente. A marca primeira da inteligência do comentador é saber despertar pensamentos contraditórios, obrigar o leitor sério a olhar uma determinada questão por outro ângulo, a repensar serenamente as suas próprias ideias ou assumpções em relação a qualquer questão pública do momento, seja ela de cariz político ou cultural, ou até a sua visão do passado que nos é comum, que nos permite a comunidade real e imaginária, essa que nos enlaça irremediavelmente na construção do nosso futuro. O jornalismo que não faz isto, também vale de muito pouco. Ninguém poderá acusar José Soares de pertencer a esta última categoria da fatuidade verbal (tão comum entre nós) ou inconsequência absoluta quando não se acrescenta nada ao nosso saber, quando apenas repetimos papagaiamente o que outros, perto ou longe de nós, dizem ou pensam.

Verão que nestes escritos o autor debruça-se sobre uma considerável gama de temas, mas a agora juntos verão também emergir destas páginas uma outra narrativa sequencial de um tempo e lugar, o nosso tempo e o nosso lugar. Rara é a questão aqui em foco, seja ela nacional, regional ou internacional, escândalo ou registo concordante, que José Soares não acabe por contextualizar nos seus mundos de todo significantes, sejam eles as geografias das nossas múltiplas diásporas, sejam eles, esses nossos mundos sempre em foco aqui, as ilhas da nossa nascença e sobretudo de todos os nossos afectos. Na sua por vezes fúria política em defesa da sua terra açoriana ele nunca esquece o que alguns nunca aprenderam cá dentro – que a História, o passado, determinou e determina o espaço sócio-político e cultural que ocupamos, que herdamos, tanto das tremendas convulsões naturais deste arquipélago como das acções dos que, quase sempre à distância, acharam e acham ainda hoje que governar-nos reduzia-se ou reduz-se a mais um decreto ou declaração numa Assembleia da República, que entende não existir um “povo açoriano”, frequentemente redigido ou proferida por ignorantes tão óbvios que até há poucos anos nem sabiam bem aonde e como ficavam geográfica e humanamente estas ilhas, ou que cidadãos “adjacentes” teriam de obedecer caladamente a ideias, desejos e interesses que nada tinham – ou têm – a ver com a experiência de um povo livre, pequeno em números mas gigante no seu conhecimento, apego e respeito por outras nações, essas que sempre nos acudiram e acolheram nos piores ou desastrosos momentos da nossa vida. Quando José Soares diz que as nossas comunidades “hoje são o nosso melhor embaixador” no além-fronteiras, não exagera, diz o que simplesmente é. Para os açorianos na América do Norte, uma associação do Divino Espírito Santo nos Estados Unidos ou no Canadá vale muito mais do uma embaixada oficial e distante, que raramente considera o nosso país como um todo. É contra este eterno estado de coisas que o autor desta Crónica dos Regressos se insurge página a página, “sem medo nem favores”, optando por políticas partidárias que poderão ser minoritárias, mas são essenciais à nossa dignidade, particularmente ante o furação globalizante que a todos assola de modo opressivo e injusto, e em que o ser humano pura e simplesmente deixou de ser o centro sagrado do mundo para dar lugar à ganância de uns poucos que se escondem atrás de linguagens economicistas e financeiras que mais fazem lembrar os avisos de George Orwell do que mentes cívicas ou políticas. Ante tudo isto, e por entre a crítica ou mera observação política habitual do autor, resta-nos e sobressai ainda nestas páginas o que os americanos gostam de chamar “life affirming/em prol da vida”, o contraditório ao que de nós todos gostariam de fazer as minorias poderosas.

“O entendimento humano não ultrapassa – escreve José Soares em dado momento – o do Universo que nos rodeia. Somos um fruto desse Universo e não o contrário. O pensamento humano, está pois condicionado à formatação que lhe é imposta pela vivência entre os milhões de galáxias. E por mais ínfimos que sejamos em relação a esse Universo (ou Multiverso), a verdade é que somos parte integrante dele, como são parte integrante do nosso corpo as mais pequenas moléculas. O nosso tamanho microscópico diante do Universo, deve ser fonte inspiradora para uma cada vez maior unidade dos povos planetários…”

Regresso ao início deste meu breve texto. A nossa comum humanidade não é assegurada só por palavras e arte, por mais necessárias que elas sejam na criação e reforço, digamos, da noção de “comunidade”, que nada tem a ver com fronteiras próximas ou distantes. Quando recomecei a minha vida aqui na ilha de São Miguel contava com um reduzido círculo de amigos para um apoio a todos os níveis, para uma convivência que nos faz sentir de novo em casa, e entre esses amigos esteve sempre o José Soares. Leio-o nessa condição e nessas circunstâncias como o leio como cidadão e apreciador da sua audácia ante poderes societais reias, e ante os que se pensam momentaneamente poderosos, mas raramente vão além das suas próprias fantasias e ambições também raramente fundamentadas no seu saber ou importância para além do umbigo próprio. Um comentador como este tem de medir constantemente o seu e o nosso momento colectivo para que o possa interpretar, para que, sempre que possível, o possa moldar conforme a sua ideologia ou a sua mundividência. Não são todos que têm tido estas universidades – o conhecimento pessoal e directo de outros mundos para além dos nossos horizontes estreitos e brumosos.

É precisamente isso que nos transmite com clareza e viveza estes escritos de Crónica dos Regressos (Barcos de Palha). O reconhecimento do que aqui fica dito já foi manifestado por outros, como se poderá ler na nota biográfica do autor incluída nestas páginas. Os actos de justiça, especialmente no que diz respeito à escrita deste género, demoram. Só que numa sociedade aberta e justa acabam inevitavelmente por chegar – para dignificação e proveito de nós todos, dos leitores e mesmo dos que não o são. “A paz, se possível, Mas a verdade, A qualquer preço”, disse Martinho Lutero, e que José Soares repete aqui na sua epígrafe. Sem dúvida.

___________

José Soares, Crónica dos Regressos (Barcos de Palha), Vila Nova de Gaia, Calendário de Letras, 2014.               Este texto foi retirado do posfácio que escrevi para este livro.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s