O grande romance do 25 de Abril

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Toda a revolução é uma grande alegria que anuncia uma grande tristeza. Mas isso já não importa. Águas revoltas que não moveram moinhos.

Lídia Jorge, Os Memoráveis

Vamberto Freitas

Quase todas as revoluções acabam, mais cedo ou mais tarde, por ter o seu grande romance. O que me vem de imediato à mente, em relação ao livro aqui em foco, é A Tale of Two Cities, de Charles Dickens, no qual se transfigura a libertação radical de dois povos de tradições bem diferentes, franceses e ingleses nos séculos XVII E XVIII, seguida do terror, se não na ilha natal do escritor, certamente no continente, que raramente, nessas viragens históricas, deixou de ser selvagem. A nossa revolução, todos o sabem, ficou-se, felizmente, só pela primeira fase, a de alegria por entre a confusão radical de alguns meses, e depois a consolidação da nossa democracia, hoje subvertida e manchada. Em Portugal esperamos nada menos do que quarenta anos para que o 25 de Abril de 1974 fosse artisticamente lembrado na grandeza de páginas tão brilhantes como o seu próprio referencial político e humano naqueles dias de risos, lágrimas e a euforia de finalmente avistarmos a terra prometida depois da nossa longa caminhada na escuridão do deserto que acabávamos de atravessar. Valeu a pena. Os Memoráveis, de Lídia Jorge, publicado recentemente para coincidir com a celebração dos 40 anos da revolução mais doce e civilizada de toda a história europeia, não será só um grande romance sob qualquer leitura que dele se faça ou sob qualquer perpspectiva que se adopte em termos analíticos e formais, desde a sua estrutura jornalística investigativa às suas múltiplas vozes e linguagens, aos olhares diversos de alguns dos seus protagonistas principais aqui ficcionados e sob alcunhas meio estranhas, quase todos eles ainda entre nós, alguns deles integrados em associações profissionais, de solidariedade e de intervençãpo cívica. O romance de Lídia Jorge é, para além de todo o prazer que só uma grande obra de ficção oferece aos seus leitores sérios e sem preconceitos “ideológicos”, será para sempre uma das mais belas propostas nas nossas letras para uma reflexão político-histórica e cultural, mas sem rancor ou qualquer jacobinismo, em que as acções daquela madrugada nas ruas de Lisboa foram o perfeito retrato de alma dos seus heróis desprendidos de tudo, menos da decisão, acontecesse ou que acontecesse, de devolver à nação lusa a sua dignidade total, que só em liberdade pode ser, foi, e é vivida. Não é possivel ler este livro sem emoção nem saudade – o que resulta, creio, da nossa vivência actual por entre o regresso avassalador de uma outra escuridão presente. Os Memoráveis não é só uma peça de arte literária – é um acto de redenção cívica ante a Mentira Ideológica que de novo nos oprime de modos menos evidentes, mas oprime e rouba-nos a cada dia a noçâo de povo livre e soberano.

Antes de mais, não se trata de um romance “ideológico” à maneira neo-realista. Os Memoráveis é de todo admirável até pela sua “génese” também fictícia: uma jornalista portuguesa da grande cadeia nacional americana CBS, especializada na cobertura de guerras, reside em Washington, quando não está nos campos de selvajaria nalguns países do Médio Oriente, e tem como chefe Robert Peterson, um afilhado de um destacado embaixador de Washington, de nome naturalmente fictício aqui, mas que reconhecemos de imediato como sendo a o alter-ego de Frank Carlucci. Em fins de 2003, acabado de regressar da América Latina, o seu outro continente de intervenção, oferece um beberete em sua casa, para o qual a protagnista-narradora, Ana Maria Machado, ela própria filha de um famoso comentador na imprensa lisboeta, e propõe a Peterson, chefe de secção da grande estação televisiva, uma série sobre as revoluções “felizes” das últimas décadas, começando pela Revolução dos Cravos, como contraponto a uma história demasiado violenta e ensopada em sangue noutras partes, historicamente e nos nossos dias, uma série denominada A História Acordada, que incluiria outros grandes abalos pacíficos, desde a queda do Muro de Berlim até às mudanças nos países do leste europeu, que ele diz ter sido o resultado ou consequência dos dias de Abril em Lisboa. O embaixador convence os dois a ir em frente com o projecto, pois recorda aqueles dias com o maior carinho e respeito pelo povo português, dizendo que se Ana Maria espreitar por entre as pedras da calçada da nossa capital ainda encontrará os restos das flores que coloriram aqueles dias e os cinco mil soldados que derrubaram sem tiros a mais antiga e prolongada ditadura da Europa ocidental. “O padrinho [o embaixador] falava com vivacidade contida, como se o país que invocava fosse uma pessoa amada”.

Ana Maria Machado regressa, pois, a Portugal e à casa do pai (enfrentando de novo a instabilidade emocional na sua perturbada relação com ele e com a sua própria identidade entre dois países e duas culturas bem diferentes) que se havia despedido do seu jornal, tentando António Machado agora esconder dela a sua incapacidade para se ajustar ao “novo” Portugal, e não só ao mundo do jornalismo-espectáculo. Foi um dos conspiradores de Abril, e na noite de 21 para 22 de Agosto de 1975 tinha-se reunido com grupo de capitães e outras figuras, hoje bem conhecidas por nós todos, num restaurante da baixa, aqui de nome Memories. Estava em causa o rumo da revolução, a luta entre os radicais e os moderados. Uma   fotografia do grupo tinha sido tirada, com alcunhas identificando todos os participantes, e emoldurada por ele, colocada no topo de uma das suas estantes, fora da vista de quase todos. A filha chega dos Estados Unidos e retira-a sem ele saber, decidindo que uma visita e entrevistas à maioria dos nela presentes seria a estrutura do seu documentário sobre o golpe bem sucedido. O que se segue é uma brilhante polifonia dos entrevistados, que inclui generais, incluindo O Campeador, que ninguém deixará de reconhecer como sendo Otelo de Saraiva de Carvalho, e que o embaixador recorda como “…aquele que fez o plano do golpe de Estado, e ao fim e ao cabo o executou ponto por ponto. Genial. The portuguese red oak, you know?” Não se enganem com estas minhas notas sobre Os Memoráveis – o ponto de vista ficcional, reinventado aqui, é inteiramente português, é o imaginário dos participantes directos no golpe, incluindo até o do fotógrafo que entraria no Quartel do Carmo na hora da rendição de Marcello Caetano e alguns dos seus colaboradores. Que é uma personagem aqui simultaneamente ficcional e por nós lembrada na realidade, um americano outrora embaixador dos EUA em Lisboa nas horas mais críticas do nosso processo revolucionário, ex-CIA, que desperta numa jornalista imaginária o interesse histórico pela memória da nossa libertação, quer dizer o quê, e sobre quem? Creio que significa algo sobre nós próprios, e creio ainda que significa e acusa ainda mais tudo o que vivemos nos dias correntes. A narrativa começa em 2003 e vem até 2012, até ao coração dos presentes dias de chumbo e desesperança generalizada, os dias de governantes que demonstram toda a sua ignorância e certo desprezo pelos dias de alegria e dor que nunca viveram, ou sequer estudaram, é de crer.

“Aliás, juntar a imagem do padrinho [o embaixador americano] – diz Ana Maria no encerramento de Os Memoráveis, e descrevendo a estrutura narrativa do seu documentário memorial – sentado no seu cadeirão, numa tarde de Primavera, na Glassy House, a recordar a intervenção no Senado, e El Campeador correndo sobre a alazão numa praia portuguesa, unidos na mesma sequência, é um tipo de ousadia que a história está sempre a engendrar. Porque não poderá acontecer num documentário? Em Lisboa de setenta e cinco, eles eram adversários, eles colocavam-se em lados opostos da conspiração, e provavelmente um e outro, pela calada da noite, ameaçavam-se de morte, ainda que de dia almoçassem juntos e jogassem ténis vestidos de branco”.

Ousadia foi a dos Capitães de Abril e de todos os que os acompanharam na rua, pois no mundo da política e da diplomacia nada nos pode surpreender mais, muito menos os acontecimentos daquela época. A revolução portuguesa foi única a todos os níveis, a sua generosidade não tem par reconhecível nos tempos modernos. As únicas mortes em Lisboa vieram, significantemente, dos torcionários do antigo regime, não das chaimites ou das espingardas dos nossos libertadores. É claro que a figura de Salgueiro Maia, aqui sob a alcunha de Charlie 8, recordado na narrativa pela sua viúva, ocupa algumas das páginas mais comovidas, por assim dizer, de Os Memoráveis. Ou então somos nós, os leitores, que nos comovemos irremediavelmente com a sua memória. Mereciam todos eles, e merecíamos nós, um romance como este.

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Lídia Jorge, Os Memoráveis, Lisboa, D. Quixote, 2014.

 

 

Porta Azul para o Nada nas ilhas de Lisboa

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Não é povo de revolução, este. Não tem as escaldadelas de alma dos sul-americanos. Estremecer em conforto não lhe deixa de ser confortável.

João Pedro Porto, Porta Azul Para Macau

Vamberto Freitas

Comecemos por lembrar que este Porta Azul Para Macau constitui o terceiro volume de uma trilogia romanesca ainda sem denominação própria, antecedido que por O Rochedo Que Chorou e O 2gundo Minuto. Eu creio ser uma trilogia, mesmo sem nunca ter falado a João Pedro Porto, o seu autor, sobre este seu feito literário. Vamos pois a um resumo temático do que poderia chamar-se aqui “o ilhéu agoniado em terra e mar”, os homens e mulheres das ilhas, das açorianas ou de outras, atravessando o século passado, que terminou há dias, digamo-lo assim, reduzindo o tempo à mínima fração de um milésimo das nossas vidas, tentando salvar-se em águas muito alterosas ou num chão ainda mais incerto e tremido. A visão artística do autor em toda a sua obra até ao presente é uma, quase sempre, de distopia, quando não mesmo apocalíptica, antevendo na nossa própria história a noção de que a entrada neste século seria uma de inusitada violência interior em cada um de nós, e de quedas vertiginosas de todos os mundos à nossa volta. Não vejo qualquer optimismo nas suas páginas, a “reafirmação de vida” de que tanto falavam os americanos em relação a alguma da sua literatura, mas é uma prosa também de humor incessante, uma leitura de risos constantes. Estamos ante protagonistas e demais personagens despedaçados em tudo, olhando persistentemente, obsessivamente, para o seu passado numa tentativa de compreender o estado de vida a que chegaram e que enfrentam, não por acções redentoras, mas sim através de uma viragem para a sua própria alma, o outro ou outra ao seu lado um mistério trágico ainda maior. Recordemos aqui ainda que João Pedro Porto recorre sistematicamente nos seus três romances a alusões às melhores e mais referenciadas obras literárias das nossas diversas tradições ocidentais, assim como convoca com a mesma frequência a música e o cinema como símbolos ou chaves do que vem meio escondido nas suas narrativas recortadas no tempo e por vezes nas próprias linguagens de cada capítulo. Poderemos chegar ao fim dessas páginas incertos sobre as possíveis significações de cada cena ou incidente, mas o seu poder imaginativo é indiscutível – regressamos a determinados passos de prosa ou a alguns versos nos intervalos nem que seja só para voltar a ouvir a musicalidade das palavras, o ritmo da andança no tempo ou no pensamento de qualquer um dos seus seres inventados. Uma leitura de Porta Azul Para Macau pode assemelhar-se ao que foi para a minha geração ler e tentar absorver os sinais de vida num Finnegans Wake, de James Joyce. Penetrar na mente e nas palavras reinventadas de um tal narrador é, como diria Edmund Wilson no seu magistral Axel’s Castle a propósito da obra do autor de Ulisses, como que tentar ouvir o que nos diz desconjuntadamente um moribundo durante o seu próprio velório: não será fácil entende-lo, mas quererá ele transmitir algo de importante para os que ficam.

Porta Azul Para Macau é um romance singular a todos os níveis formalistas, escondendo em si um tema claríssimo: a antiga e muito demorada queda de um povo, o nosso, sobrevivendo em busca de pão e dignidade enquanto conta estórias a si próprio sobre o que julga ter acontecido no seu passado e que, uma vez mais, o trouxe até aos seus dias mais do que existencialmente angustiantes. Lisboa foi submersa, não se sabe bem quando e como, por uma grande enchente do Tejo, e agora não passa de um arquipélago com as suas colinas tornadas ilhas, à vista só as águas furtadas e alguns monumentos ou prédios mais significativos e significantes da sua velha história, Olisipo de regresso à sua génese marítima e reduzida à sua miserável condição dos nossos dias. A narrativa vai e vem entre os anos 1909 e 1970, quase um século de perdição colectiva. Os personagens descrevem o seu quotidiano como se de uma peça de teatro se tratasse, e essa é precisamente a estrutura do romance, metaficção, representações dentro de representações, alusões a tempos e acontecimentos que nos parecem desconexos, mas interpreto-os aqui à minha maneira. 1909: Portugal está caído novamente e em vésperas de convulsões decisivas que o levará à instauração da República; 1963: Portugal sempre caído e agora enfrentando a tragédia de África; 1970: Portugal caído e tornado palco da mais kafkiana das revoluções europeias (a imagem não é minha, mas de um historiador americano), que nos traria ao tempo presente, eternamente submerso e em nova saída para o Nada em que está mergulhado e moribundo há séculos. É uma narrativa de solilóquios, repita-se, desconexos e surrealistas numa estrutura formal absolutamente desestruturada, tal como a vida dos seus personagens, a sugestão de uma sociedade e das suas instituições úteis só para uma peça de teatro.

Tudo isto faz-me lembrar o que disse Edmund Wilson sobre a caminhada da literatura, desde o início modernista do século XX, rumo à conjunção de um realismo mimético e psicológico e de um simbolismo pessoal ou referenciado em textos canónicos, resultando numa prosa tão poética como narrativa. Poderá ser que Wilson tenha exagerado, pois a narrativa tradicional e linear está de volta, pelo menos no mundo anglo-saxónico, mas na verdade alguma da melhor literatura nunca abandonou o projecto de se reinventar profundamente recriando novas linguagens e postulando novas visões do mundo e do quotidiano. João Pedro Porto tem optado pela construção dessas narrativas mistas e extremamente exigentes do leitor mais atento, levando velhos temas da literatura açoriana para outras dimensões e geografias – mas reconhecemos de imediato a tradição em que ele próprio se revê e quer ocupar. Este fazer de Lisboa um arquipélago com muito passado mas sem futuro deverá transmitir-nos intimamente o que é viver e sobreviver por cima de águas ora revoltas ou ora quietas, e navegando às escuras. Por outras palavras, não somos nem mais nem menos do que os outros com quem partilhamos a nossa história e destino, nem são ou alguma vez foram mais ou menos do que nós os outros, a humanidade a saque talvez o único universalismo que nos resta.

Entre os vários personagens-actores deste romance está proeminentemente um bando (a palavra é do narrador, não minha) de intelectuais liderados por um Érico, director de um jornal chamado Ínsula. A velha Lisboa haveria de engolir e sofrer o seu próprio veneno. Juntam-se e deambulam pelas ilhas lisboetas, e auto-denominam-se os “metarrealistas”, fazendo sair um manifesto à velha maneira portuguesa – não fazem nada, não conseguem mudar a hiper-realidade à sua volta, mas a palavra entre eles nunca morre. O dito manifesto é publicado em forma de um poema, com uma linguagem tão metafórica como a sua existência surrealista nas ilhas de Lisboa. Claro que nunca sabemos do impacto, se algum, desse manifesto. Faz parte – alguma vez as palavras entre nós mudaram seja o que for? Sobrevoando o novo arquipélago estão os Corvos abutres em busca de tudo o que possam morder ou levar, preferindo eles o que resta dos edifícios do Estado, que aqui ninguém vê, ou sabe sequer se existe. Macau é um velho bar onde se reúne o bando de pensadores ou intelectuais. Também aqui ninguém sabe muito bem o que fazem lá dentro, mas é o seu poiso preferido, e eventualmente outra terra de exílio. Como numa sinfonia, um som atrás do outro significando nada, parafraseando o grande bardo inglês. As poucas cenas de amor entre um homem e uma mulher parecem transmitir a ideia persistente destas páginas de que nada significa nada, a má sorte de homens e mulheres não tem saída à vista, só nos resta o prazer indestrutível de dois corpos juntos.

Dito tudo isto, permitam-me concluir o que penso de, ou como interpretei parcialmente Porta Azul Para Macau mesmo logo a partir de uma das epígrafes escolhidas pelo autor, e uma epígrafe é sempre, ou deve ser, um piscar de olho ao leitor: “E assim seguimos, os barcos contra a corrente, incessantemente puxados de volta ao passado”. Haverá melhor síntese da nossa sorte como esta escrita por F. Scott Fitzgerald, e que encerra seu O Grande Gatsby? Se existe uma qualquer “universalidade” na literatura, este passo será um dos seus melhores exemplos. O que nos deverá reconfortar – não estamos sós, nunca estivemos, até um autor americano já sabia e descrevia o nosso estado de alma e circularidade de vida e história na sua América dos anos 20.

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João Pedro Porto, Porta Azul Para Macau, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2014. Este texto é o prefácio ao romance.

Passagens, ou poética da vida e da morte

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E então morrem. Por amor de nós, como se achassem que viveram demais e ocuparam demasiado tempo e espaço nas nossas vidas.

 

Teolinda Gersão, Passagens

 

Vamberto Freitas

 

Permitam-me começar aqui com uma confissão, sem entrar em questões pessoais. Passagens, o novo romance de Teolinda Gersão, foi-me uma leitura dolorosa. Suspeito que lhe foi ainda mais doloroso escrevê-lo. Toda a ficção, e não só, é autobiográfica, como outros já o afirmaram ao longo dos tempos, se não nos “factos” pelo menos nos “sentimentos”, tal como como toda a ficção, atrevo-me a dizer, é feita de inúmeros heterónimos, cada personagem, protagonista ou não, representando ou a pessoa do próprio autor-narrador, ou então alguém que se atravessou no seu percurso ou na sua imaginação. Walt Whitman tinha multidões dentro de si, mesmo que não as descrevesse uma a uma? Fernando Pessoa, como nos relembra o seu melhor crítico de língua inglesa, Harold Bloom, lutaria com a sua ansiedade da influência ante o bardo americano. Existimos sempre, cada um de nós, escritor ou leitor, no plural. A descoberta de Pessoa foi original só pela audácia do poeta ao colocar em diálogo o que ele chamava um “drama em gente”, nomeando-os, dando-lhes uma “biografia” completa, e fazendo dialogar uns com os outros todos os seus seres imaginados. Este romance de Teolinda Gersão pertence a essa esfera da Grande Arte dos nossos dias – o teatro da vida e a vida em teatro, aqui numa estrutura que nos coloca em frente a um palco onde se desenrola um drama humano dos nossos dias, onde cada palavra dos seus personagens nos é dirigida directamente, como se cada um deles nos conhecesse na intimidade. Foi-me doloroso, disse, ler Passagens? Foi. Cada uma destas páginas como que contém uma metáfora ou um símbolo da dor de estarmos vivos enquanto os que amamos estão a morrer, ou morrem. Jorge de Sena diria num poema, escrito durante o seu calvário rumo ao seu destino final: primeiro acontece a “morte social” do doente, em que todos fogem ou fingem não saber, seguida da morte real, o fim do seu sofrimento e o começo da nossa dor ainda mais profunda pela perda irremediável, passando agora à escuridão absoluta. Ler este romance é ler-nos. A sua beleza está no feito artístico, reservado só a um punhado de escritores, de prender o nosso “olhar” à luz que tanto nos aponta o infinito como nos engrandece na vida. Os que ficam têm o dever de celebrar todas as “passagens” dos que nos deixam, recordar a sua bondade e esquecer todo o resto.

 

Toda a grande literatura é feita disto, a sua temática raramente variou: da vida em família e em comunidade, do amor e desamor, da felicidade e infelicidade, da coragem e da cobardia, da vida e da morte, em suma. A nossa existência é um jogo de espelhos distorcidos em que a mentira se confunde com a verdade, restando à arte literária “retratar” ora esse caos pessoal e vivencial, ora a ordem das coisas ante, quase sempre e talvez universalmente, a desordem, as contradições inerentes ao nosso sentir e ao nosso esquecimento. Passagens, necessariamente também no plural, é isso mesmo – a memória reativada para que os mortos, na sua viagem absolutamente desconhecida para o Além ou para o Nada, nunca deixem de existir em nós, de rememorar em nós todo um  passado no seu quotidiano, ou na companhia, próxima ou distante, das gerações a que deram vida ou que testemunharam o seu percurso entre todos eles. O romance é “sobre” a morte de Ana, a sua história agora recordada pela filha Marta, por netas e outras pessoas conhecidas, ou que a conheceram em circunstâncias várias. A fala de Ana chega-nos já do seu caixão, em que os que a rodeiam no velório vão pensando por ela e adivinhando o que ela diria de si e dos seus, das suas circunstâncias desde a juventude até ao lar onde acaba a sua vida, como ela viveu e como encarou o seu próprio fim. A morta vê e comenta os vivos, assim como fala para si própria. Este não é um ajuste de contas familiar, é o enaltecimento e o perdão de todas as fraquezas, dúvidas e alegrias dos que o acaso juntou pelo cordão umbilical, pelo amor, ou pelo destino que se impõe e determinou as suas vidas, as nossas vidas. O grande esquema das coisas e do universo, afinal, pouco nos interessa ou influi na nossa caminhada – é a soma dos dias indistintos, do beijo ou do rancor momentâneo, da palavra dita ou não dita enquanto estamos juntos, do gesto feito ou não que nos define e nos dá a razão de estar e ser na condição existencialista que pensamos criar e dominar por nós próprios. Nestas páginas, ninguém faz nada acontecer, reage, e só, ao que lhe vai acontecendo. A memória perpetuada de Ana não tem já qualquer significado transcendente, é apenas a memória que relembra aos vivos, aos que ficam, que também caminham para o seu fim anunciado, venha quando vier e como vier. A força cósmica terá só uma mensagem – ama os que te amaram, a procura da felicidade possível não é uma escolha, é uma obrigação sagrada. Uma vez mais, contra o esquecimento das sucessivas gerações, a vida vivida de cada personagem, de cada um de nós. Não há literatura “abstracta”, toda ela conta verdades e mentiras, vivências “reais” ou imaginárias – ou nos vemos nela, ou não valerá a pena ler uma única página

 

“Sim, a peça – diz Ana, auto-desdobrada em duas pessoas, heterónimo de si própria,  no fim da sua narrativa e a partir dessa sua outra dimensão, dando lugar, uma vez mais, a outras vozes – está quase a terminar. Já não iremos dizer mais nada, são agora os outros que vão entrar em palco: dirão as suas falas pegando nas deixas uns dos outros, farão os gestos e os movimentos certos, cumprirão todas as marcações.

 

“Nós temos a partir de agora um papel passivo. Na última cena colocar-nos-ão sobre um tapete rolante, mecânico, e deslizaremos ambas alguns metros até desaparecermos, atrás de uma cortina”.

 

Ao contrário do que se poderá pensar, e apesar das minhas palavras iniciais (que têm a ver só com circunstâncias da vida minha pessoal), Passagens não é um romance deprimente, longe disso. É mais uma celebração da vida do que da morte, o plural do título, uma vez mais, igualmente de múltiplas significações, a vida, todas as nossas vidas, sendo uma sucessão de etapas e estágios, a própria morte um destino incerto, desconhecido de todos, e logo, paradoxalmente em aberto. A própria Ana (“Não estás sozinha. Mesmo no escuro, tens a tua própria companhia)”), estendida no seu caixão coberto de flores e pouco antes de se tornar cinzas, que irão entrar num novo ciclo da terra e na vida por ela gerada perpetuamente, fala num tom neutro, ou com o humor e a discrição de quem já se livrou do sofrimento. Nos últimos dias da sua existência sem sentido num “lar” pago a preço de ouro e supostamente “profissional”, tratada por estranhos sem paciência ou sequer empatia pelos que estão a seu cuidado, odiando a fealdade da velhice e da doença com que têm de lidar diariamente e a altas horas, finge ter Alzheimer para “libertar” os seus, fazê-los crer que já não vale a pena o seu esforço e a sua presença ante uma mãe, avó ou amiga que já não os conhece no seu olhar baço e dirigido a ninguém e a nenhures.

 

A arte imita a vida, sabemos. Quando a vida imita arte, é que o nosso olhar e sentir se tornam mais complicados. Imagino que para a autora (para se escrever assim, só com conhecimento directo e examinado da temática em foco), se junta de outro modo a muitos dos seus leitores – ninguém está só, a memória dos nossos é a reconstituição da sua vida, os nossos “heterónimos” não são mera invenção, são eles em nós, não são metáforas nem símbolos, são carne e osso, sangue do nosso sangue. A literatura é pensamento e emoção, não um mero jogo de palavras e artífices de frases e expressões conjugadas numa suposta  sucessão de esperteza artística.  Sublinhamos ou comentamos um livro nas suas margens porquê? Só para voltarmos a reler, o que raramente acontece? Não, cada um o absorve à sua maneira, mas a interacção literalmente física com um livro como este, significa algo mais. Ninguém nos fala diretamente à razão e ao coração sem levar uma resposta, que poderá tomar a forma de uma concordância sem reticências. Foi exactamente assim que li este singular romance, Passagens, ficções dentro da ficção, a própria essência da arte literária. A obra deTeolinda Gersão, tome a forma que tomar, é já a construção  incomparável de um grande mosaico literário, cada peça condizente com as outras, cada cor em perfeita harmonia com o todo. O que alguns críticos nacionais e estrangeiros vêm dizendo dela desde há muito, confirma tudo isto.

 

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Teolinda Gersão, Passagens, Porto, Sextante/Porto Editora, 2014.

Continuar a ler

BorderCrossings – Leituras transatlânticas -2

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Santos Narciso

Ainda não passaram dois anos e Vamberto Freitas está aí com o segundo volume do BorderCrossings – Leituras transatlânticas, depois de há poucos meses nos ter brindado com a 2ª Edição de O Imaginário dos Escritores Açorianos. Aqui nestas Leituras do Atlântico, que se ficam à beira da praia do conhecimento, ao lado do Mar Cavado de tantas recensões que nos traz o escritor que veio das Fontinhas, este não é apenas mais um livro com a chancela da Letras Lavadas, da Publiçor. Estas Leituras Transatlânticas são o retrato de que há sempre fronteiras para atravessar e o único passaporte é o desejo de deixar conhecimento onde muitos conhecimentos não podem chegar.

Vamberto Freitas diz, algures, neste BorderCrossings, que só escreve sobre um livro quando gosta dele. Por este princípio me vou governando também, com a certeza que só escrevo quando leio o livro e consigo captar a mensagem e a beleza das palavras. E, continuando com Vamberto Freitas, se há livros que valem só por uma frase, outros há, como este, que valem uma estante de biblioteca que não conseguimos ter, nem ler.

É assim que eu vejo Vamberto Freitas. Um “apóstolo da literatura” que me tem proporcionado conhecimentos sobre obras, autores e tendências literárias que eu nunca teria possibilidade de conhecer a não ser pelas crónicas, recensões e ensaios que ele me vai proporcionando.

Há pouco tempo, numa rede social, Carlos Melo Bento, Homem da Cultura e da História insular, numa rede social escreveu que Vamberto Freitas é o “cronista dos cronistas” dos Açores da actualidade. Atrevo-me a ir mais longe e digo que o jornalismo literário que se faz nos Açores não seria o mesmo sem Vamberto Freitas. E basta olhar para os cinco anos do SAC – Suplemento Açoriano de Cultura – que ele coordenou no “Correio dos Açores” e que para mim, como jornalista foi uma experiência inesquecível. Depois há mais três anos de SAAL – Suplemento Atlântico de Artes e Letras, da Revista Açores, e até agora a AL – Artes e Letras – com Álamo Oliveira no Semanário Terra Nostra. E não quebro qualquer segredo se disser que dentro de dias, outro projecto nascerá, em outro órgão de comunicação social de São Miguel. Isto para além da presença que mantém na imprensa regional, nacional e da diáspora.

Álamo de Oliveira escreve que Vamberto Freitas “é um crítico generoso, exercendo o seu direito de opinião sob uma perspectiva pedagógica optimizada. Não fosse a sua generosidade e o seu gosto pela leitura e muito pouco se saberia, a nível regional e nacional, sobre a actividade editorial açoriana”.

Efectivamente ele é o Homem da Ilha em Frente que consegue dar-nos visões rasgadas, corajosas e quase sempre carinhosas, sobre autores açorianos. Nestas oitenta crónicas deste BorderCrossings perpassam escritores açorianos e outros, que marcam a actualidade e o passado mais recente da literatura açoriana. Com risco de deixar de fora algum, de que desde já me penitencio, por ali passa Joel Neto, João Pedro Porto, Urbano Bettencourt, Emanuel Jorge Botelho, Dimas Simas Lopes, Fernando Aires, Adelaide Freitas, Virgílio Vieira, Eduardo Bettencourt Pinto, Nelson Moniz, Vasco Pereira da Costa, Machado Pires, Juan Carlos de Sancho, Natália Correia, Fernando Dacosta, Álamo de Oliveira, Onésimo Almeida, para só falar naqueles que Vamberto inclui na I parte do livro sobre Literatura e Açorianidade. Na parte II ocupa-se Vamberto Freitas de Diáspora e Literatura, em mais de trinta saborosas crónicas e recensões, havendo ainda lugar para dezena e meia de escritos sobre Imaginários Americanos e na IV e última parte, um salto mais a Sul para  Brasil Próximo e Distante.

Para transmitir o que penso sobre Vamberto Freitas, nada melhor do que a boleia de um escritor como é Álamo Oliveira: “Vamberto Freitas é a voz autorizada dos livros de autores portugueses, com predominância para os dos Açores e também dos livros de autores que escrevem na língua dos seus países de adopção e que têm procurado conquistar visibilidade nas designadas literaturas étnicas dos espaços da emigração portuguesa.

São já muitos os livros que Vamberto Freitas tem publicados, nos quais vem a reunir um trabalho persistente no âmbito da recensão crítica. São bem disto quantos têm acompanhado o que faz publicar em jornais, revistas e, sobretudo, em suplementos literários, muitos dos quais coordenados por ele. Todos têm a noção de que se está perante um contributo inestimável para a revelação e apreço do que tem sido a nossa escrita criativa”.

E como estamos em vésperas dos 40 anos da Revolução de Abril, refiro que me comoveu a narração que Vamberto Freitas faz (páginas 98-99) da forma como, sentado num banco de autocarro, na Califórnia, lendo o Los Angeles Times, soube do 25 de Abril, no dia seguinte, e a mudança que tal notícia provoca na sua vida quando já olhava para o se BI português como coisa distante, num “Portugal miserável em tudo menos no seu passado”. E pensei que a liberdade muitas vezes é mais sentida quando os caminhos da vida nos levaram a fazer exílio dentro da mágoa disfarçada de distância.

Por este BroderCrossings 2 Vamberto leva-me a emoções sentidas de quem procura sempre aprender. Não se é Professor só dentro das paredes de uma universidade e é muitas vezes este elitismo literário que distancia autores e leitores. Em Vamberto Freitas parece que tudo é proximidade, mesmo quando não concordamos. É como um bom copo de vinho que remata uma discussão que, dividindo ideias, cimenta a amizade.

Como diz a escritora de Santa Catarina do Brasil, Lélia Nunes que vive ali na Esquina das Ilhas, sempre com os Açores presentes, “a escrita de Vamberto Freitas será sempre de intervenção e resposta à condição humana, seja ao retratar uma sociedade na América, nos Açores e/ou no Brasil SUL onde os açorianos nos deixaram uma herança e todo um imaginário enraizado e expandido numa equipa oceânica abaixo do Equador”. É esta vertente de intervenção humanista que me seduz em Vamberto Freitas, porque sinto que ele, mais do que escrever sobre o que trata um livro faz transparecer quem está naquelas páginas. Este jogo do que e do quem torna-se contagiante porque mantém vivos e presentes os escritores, mesmo que já tenham partido para a outra dimensão da vida ou para outras dimensões do estar aqui.

Por isso é que BorderCrossings é mais do que cruzar fronteiras: é uma cruzada sem fronteiras.

Marta de Jesus, ou como alguns açorianos tentaram libertar Portugal

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Se esta foi ou não a verdadeira história de Marta de Jesus, ninguém sabe. Sabe-se que nasceu, viveu e morreu na ilha das Flores.

Álamo Oliveira, Marta de Jesus: A Verdadeira

 

Vamberto Freitas

 

Marta de Jesus, de Álamo Oliveira, não é só um grande romance açoriano, é um grande romance de língua portuguesa e que pertence por direito artístico e temático ao melhor que se escreve no vasto mundo lusófono. Portugal nunca se habituou e nunca admitiu no seu seio  uma arte literária que responda com força à hegemonia que as suas letras têm exercido sobre nós todos fora do pequeno retângulo ibérico. Tentou sempre definir a nossa identidade e escrever a nossa História em pequenos parágrafos ou em breves notas de rodapé, que nem sequer na nossa geografia acertavam, e ainda hoje não acertam. Olhou-nos sempre a partir dos seus preconceitos, e sobretudo ignorância. Isso acabou. Marta de Jesus requer um conhecimento alargado do Novo Testamento, de Jesus como guerrilheiro anti-Poder, mas requer sobretudo saber e aceitar como um povo de umas ilhas tão pequenas e isoladas sobreviveu com dignidade ao longo dos séculos. E nestas páginas, esse mesmo povo do mar português, propõe-se navegar para Lisboa e libertar o resto na Nação. “Talking back to the empire/Respondendo ao império”. Nada menos do que isso.

A melhor literatura açoriana dos nossos dias tem conseguido o que a política nunca foi capaz de conseguir: definir ou redefinir a nossa identidade, e sobretudo o nosso lugar na história do país. A ficção não tem nada de se preocupar com “factos”, tem, isso sim, de ver o nosso passado como que num clarão, mesmo sem detalhes, tal como nos dizia Walter Benjamin, e partir daí para uma reconstituição de que como tem vivido e sentido o seu povo, ou a comunidade a que se refere ou lhe serve de fundo para criar a arte que nos interliga a todos os outros, a uma humanidade que partilha irremediavelmente dores, dúvidas e alegrias existenciais. A trama deste novo romance de Álamo Oliveira poderá ser mais plausível do que parece à primeira vista, mesmo em termos históricos factuais: Os Açores foram com certa frequência durante séculos o ponto de partida e força para libertar ou manter o resto de Portugal, desde o cativeiro espanhol à guerra civil entre as forças de D. Pedro e de seu irmão Miguel; o plano “B” do 25 de Abril, caso Salgueiro Maia falhasse no Terreiro do Paço ou no Largo do Carmo, seria uma retirada para os Açores, uma declaração de independência, se necessário fosse, e de novo uma guerra para, uma vez mais, libertar “Lisboa”. O general Spínola chegou a ter a mesma ideia, e isso eu ouvi da sua própria boca numa visita às nossas comunidades da Califórnia quando andava a dirigir o seu Exército de Libertação de Portugal. Restam ainda as inúmeras figuras açorianas que a partir do século XIX não só contribuíram para a libertação da sociedade portuguesa, como outros, através da escrita em várias formas, a consciencializaram para esses fins. Foi um outro açoriano da nossa geração, que um ano antes da revolução de Abril, também definiu o que deveriam ser os seus objectivos, quando acontecesse, os três “D” de José Medeiros Ferreira – Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.

Desculpem por, afinal, não ter resistido a esta breve tentativa de misturar aqui ficção e história, mas Marta de Jesus como que convida a isso mesmo, tal a originalidade da sua proposta, ou da sua audácia artística. Aliás, creio que muita da grande arte da modernidade e pós-modernidade está quase sempre ligada ou parte de acontecimentos históricos, desde a Guerrnica de Picasso aos romances de José Saramago já nossos dias. Reimaginar ou reinventar o curso da história é um dos mais antigos temas de toda a literatura, e este romance de Álamo Oliveira é outro exemplo, enquadrando-se perfeitamente em toda a sua obra ficcional. A sua trama, uma vez mais, é tão simples como destemida: um grupo de florentinos nos anos 60 recebe como mentor um outro florentino rebelde e anti-regime “exilado” em Lisboa, de nome Pedro, que acaba por convencer um Emanuel Salvador, lavrador de ofício como quase todos naquela ilha isolada,  a espalhar a palavra redentora entre os seus vizinhos ou conterrâneos. Estamos numa década de absoluta decadência numa sociedade já em guerra colonial, e não foi difícil formar um grupo, pois claro, de 12 seguidores (com três mulheres, Marta, sua irmã Maria, e Maria Madalena, esta recém-chegada dos subterrâneos sexuais na ilha do Faial), cada um com um nome de apóstolo de Cristo, decididos a embarcar para Lisboa (no “Lima”, esse outro  navio mítico para os açorianos) e aí de novo espalhar a mensagem até à libertação final. O autor diria num encontro recente que achava que o seu romance era também sobre a impossibilidade de os açorianos chegarem um dia a agir sobre o resto país. Deixo aqui uma nota discordante. O seu romance é sobre a coragem de um pequeno povo assumir o papel de libertador, seguindo os passos do que na nossa história já tinha acontecido adentro da nação, como tentei fazer crer num dos parágrafos acima. O grupo desembarca no Faial, onde é preso imediatamente, e “julgado” num daqueles tribunais  especiais e instantâneos a que as ditaduras recorrem sempre para difamar e esmagar os seus inimigos. O Poder absoluto, parafraseando George Orwell, é absolutamente corrupto. As peripécias que levam à prisão de alguns e à desagregação de todos prende o leitor num sorriso amargo de página a página, numa linguagem que só um autor com a formação seminarista (ou conhecedor da teologia então reinante) e um domínio total da sua arte literária poderia atingir ou permitir. Terminada a nossa surpresa ante personagens e incidentes sem par na nossa literatura, em que o Novo Testamento tanto é repetido como subvertido (as bodas de casamento no fim da narrativa fará qualquer leitor rir em voz alta), vem a meditação sobre a vida nas nossas ilhas naquele tempo: a solidão asfixiante, a ausência de esperança, a pobreza sem ressentimentos, os olhos posto no horizonte quedando-se na miragem de um barco à distância, rumo aos mundos a oeste, os dos nossos sonhos e real salvação, como no poema de Pedro Silveira, que aparece na narrativa como o poeta ele próprio, e suspeito que o Pedro apóstolo e mentor é também modelado, por assim dizer, na figura real que moveu e comoveu a nossa geração, quase sempre com toda a razão.

“Os tempos vividos – escreve o narrador após o regresso às Flores do grupo derrotado e já morrendo da idade e das suas circunstâncias – sob os ditames da missão de Pedro e de Emanuel foram-se apagando dentro de Marta, como velas a arder em cima do altar. Após a morte de Maria Nazaré, pouco mais aconteceu a favor da manutenção, na memória, de quanto o grupo tinha feito e dito. É verdade que todos tinham mudado o seu entendimento do mundo, mas, com o decorrer do tempo, essa mudança foi tida como natural… Depois, foi uma decepção a forma como as restantes ilhas ignoraram quanto os florentinos tinham feito em prol da paz e da liberdade”.

Estamos condenados a ter de conhecer com clareza e profundidade todo o nosso país desde as suas origens até ao presente, as “margens” não podem sobreviver de outro modo, enquanto os do continente, os do “centro”, nem sabem onde ficamos nem sequer quem somos. A nossa é uma história “unidireccional”, a de “colónia” sempre com os olhos assustados virados para a “metrópole”. Não somos os únicos filhos do império que sempre tiveram de viver assim, mas no caso lusitano somos os últimos. Em Marta de Jesus é também mais do que evidente que de leste, como outros já escreveram, vêm os editais seguidos de sentenças e logo depois o esquecimento. Álamo Oliveira bem conhece a nossa história – a América é uma presença viva nestas suas páginas, está para lá do horizonte, mas sempre sempre insinuada ou lembrada quando todo o resto nos falha na nossa tentativa de liberdade, dignidade cívica e económica. A memória do poema de Pedro da Silveira, os cinco versos de “Califórnias perdidas de abundância” rondam por aqui, e nos dias presentes que vivemos continuam cheios de relevância temática. A nossa literatura tem sido sempre reconfirmada pela história, numa actualidade que parece sem fim nesta sociedade, cuja vida circular nunca chega a lado nenhum

De resto, Marta de Jesus: A Verdadeira também convoca outras duas vozes maiores do nosso destino: Emanuel Félix e Roberto de Mesquita, este o poeta de toda a nossa solidão. Eis um outro papel da arte: retratar um povo, dialogar com as suas vozes criativas.

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Álamo Oliveira, Marta de Jesus: A Verdadeira, Ponta Delgada, Letras lavadas, 2014.