Marta de Jesus, ou como alguns açorianos tentaram libertar Portugal

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Se esta foi ou não a verdadeira história de Marta de Jesus, ninguém sabe. Sabe-se que nasceu, viveu e morreu na ilha das Flores.

Álamo Oliveira, Marta de Jesus: A Verdadeira

 

Vamberto Freitas

 

Marta de Jesus, de Álamo Oliveira, não é só um grande romance açoriano, é um grande romance de língua portuguesa e que pertence por direito artístico e temático ao melhor que se escreve no vasto mundo lusófono. Portugal nunca se habituou e nunca admitiu no seu seio  uma arte literária que responda com força à hegemonia que as suas letras têm exercido sobre nós todos fora do pequeno retângulo ibérico. Tentou sempre definir a nossa identidade e escrever a nossa História em pequenos parágrafos ou em breves notas de rodapé, que nem sequer na nossa geografia acertavam, e ainda hoje não acertam. Olhou-nos sempre a partir dos seus preconceitos, e sobretudo ignorância. Isso acabou. Marta de Jesus requer um conhecimento alargado do Novo Testamento, de Jesus como guerrilheiro anti-Poder, mas requer sobretudo saber e aceitar como um povo de umas ilhas tão pequenas e isoladas sobreviveu com dignidade ao longo dos séculos. E nestas páginas, esse mesmo povo do mar português, propõe-se navegar para Lisboa e libertar o resto na Nação. “Talking back to the empire/Respondendo ao império”. Nada menos do que isso.

A melhor literatura açoriana dos nossos dias tem conseguido o que a política nunca foi capaz de conseguir: definir ou redefinir a nossa identidade, e sobretudo o nosso lugar na história do país. A ficção não tem nada de se preocupar com “factos”, tem, isso sim, de ver o nosso passado como que num clarão, mesmo sem detalhes, tal como nos dizia Walter Benjamin, e partir daí para uma reconstituição de que como tem vivido e sentido o seu povo, ou a comunidade a que se refere ou lhe serve de fundo para criar a arte que nos interliga a todos os outros, a uma humanidade que partilha irremediavelmente dores, dúvidas e alegrias existenciais. A trama deste novo romance de Álamo Oliveira poderá ser mais plausível do que parece à primeira vista, mesmo em termos históricos factuais: Os Açores foram com certa frequência durante séculos o ponto de partida e força para libertar ou manter o resto de Portugal, desde o cativeiro espanhol à guerra civil entre as forças de D. Pedro e de seu irmão Miguel; o plano “B” do 25 de Abril, caso Salgueiro Maia falhasse no Terreiro do Paço ou no Largo do Carmo, seria uma retirada para os Açores, uma declaração de independência, se necessário fosse, e de novo uma guerra para, uma vez mais, libertar “Lisboa”. O general Spínola chegou a ter a mesma ideia, e isso eu ouvi da sua própria boca numa visita às nossas comunidades da Califórnia quando andava a dirigir o seu Exército de Libertação de Portugal. Restam ainda as inúmeras figuras açorianas que a partir do século XIX não só contribuíram para a libertação da sociedade portuguesa, como outros, através da escrita em várias formas, a consciencializaram para esses fins. Foi um outro açoriano da nossa geração, que um ano antes da revolução de Abril, também definiu o que deveriam ser os seus objectivos, quando acontecesse, os três “D” de José Medeiros Ferreira – Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.

Desculpem por, afinal, não ter resistido a esta breve tentativa de misturar aqui ficção e história, mas Marta de Jesus como que convida a isso mesmo, tal a originalidade da sua proposta, ou da sua audácia artística. Aliás, creio que muita da grande arte da modernidade e pós-modernidade está quase sempre ligada ou parte de acontecimentos históricos, desde a Guerrnica de Picasso aos romances de José Saramago já nossos dias. Reimaginar ou reinventar o curso da história é um dos mais antigos temas de toda a literatura, e este romance de Álamo Oliveira é outro exemplo, enquadrando-se perfeitamente em toda a sua obra ficcional. A sua trama, uma vez mais, é tão simples como destemida: um grupo de florentinos nos anos 60 recebe como mentor um outro florentino rebelde e anti-regime “exilado” em Lisboa, de nome Pedro, que acaba por convencer um Emanuel Salvador, lavrador de ofício como quase todos naquela ilha isolada,  a espalhar a palavra redentora entre os seus vizinhos ou conterrâneos. Estamos numa década de absoluta decadência numa sociedade já em guerra colonial, e não foi difícil formar um grupo, pois claro, de 12 seguidores (com três mulheres, Marta, sua irmã Maria, e Maria Madalena, esta recém-chegada dos subterrâneos sexuais na ilha do Faial), cada um com um nome de apóstolo de Cristo, decididos a embarcar para Lisboa (no “Lima”, esse outro  navio mítico para os açorianos) e aí de novo espalhar a mensagem até à libertação final. O autor diria num encontro recente que achava que o seu romance era também sobre a impossibilidade de os açorianos chegarem um dia a agir sobre o resto país. Deixo aqui uma nota discordante. O seu romance é sobre a coragem de um pequeno povo assumir o papel de libertador, seguindo os passos do que na nossa história já tinha acontecido adentro da nação, como tentei fazer crer num dos parágrafos acima. O grupo desembarca no Faial, onde é preso imediatamente, e “julgado” num daqueles tribunais  especiais e instantâneos a que as ditaduras recorrem sempre para difamar e esmagar os seus inimigos. O Poder absoluto, parafraseando George Orwell, é absolutamente corrupto. As peripécias que levam à prisão de alguns e à desagregação de todos prende o leitor num sorriso amargo de página a página, numa linguagem que só um autor com a formação seminarista (ou conhecedor da teologia então reinante) e um domínio total da sua arte literária poderia atingir ou permitir. Terminada a nossa surpresa ante personagens e incidentes sem par na nossa literatura, em que o Novo Testamento tanto é repetido como subvertido (as bodas de casamento no fim da narrativa fará qualquer leitor rir em voz alta), vem a meditação sobre a vida nas nossas ilhas naquele tempo: a solidão asfixiante, a ausência de esperança, a pobreza sem ressentimentos, os olhos posto no horizonte quedando-se na miragem de um barco à distância, rumo aos mundos a oeste, os dos nossos sonhos e real salvação, como no poema de Pedro Silveira, que aparece na narrativa como o poeta ele próprio, e suspeito que o Pedro apóstolo e mentor é também modelado, por assim dizer, na figura real que moveu e comoveu a nossa geração, quase sempre com toda a razão.

“Os tempos vividos – escreve o narrador após o regresso às Flores do grupo derrotado e já morrendo da idade e das suas circunstâncias – sob os ditames da missão de Pedro e de Emanuel foram-se apagando dentro de Marta, como velas a arder em cima do altar. Após a morte de Maria Nazaré, pouco mais aconteceu a favor da manutenção, na memória, de quanto o grupo tinha feito e dito. É verdade que todos tinham mudado o seu entendimento do mundo, mas, com o decorrer do tempo, essa mudança foi tida como natural… Depois, foi uma decepção a forma como as restantes ilhas ignoraram quanto os florentinos tinham feito em prol da paz e da liberdade”.

Estamos condenados a ter de conhecer com clareza e profundidade todo o nosso país desde as suas origens até ao presente, as “margens” não podem sobreviver de outro modo, enquanto os do continente, os do “centro”, nem sabem onde ficamos nem sequer quem somos. A nossa é uma história “unidireccional”, a de “colónia” sempre com os olhos assustados virados para a “metrópole”. Não somos os únicos filhos do império que sempre tiveram de viver assim, mas no caso lusitano somos os últimos. Em Marta de Jesus é também mais do que evidente que de leste, como outros já escreveram, vêm os editais seguidos de sentenças e logo depois o esquecimento. Álamo Oliveira bem conhece a nossa história – a América é uma presença viva nestas suas páginas, está para lá do horizonte, mas sempre sempre insinuada ou lembrada quando todo o resto nos falha na nossa tentativa de liberdade, dignidade cívica e económica. A memória do poema de Pedro da Silveira, os cinco versos de “Califórnias perdidas de abundância” rondam por aqui, e nos dias presentes que vivemos continuam cheios de relevância temática. A nossa literatura tem sido sempre reconfirmada pela história, numa actualidade que parece sem fim nesta sociedade, cuja vida circular nunca chega a lado nenhum

De resto, Marta de Jesus: A Verdadeira também convoca outras duas vozes maiores do nosso destino: Emanuel Félix e Roberto de Mesquita, este o poeta de toda a nossa solidão. Eis um outro papel da arte: retratar um povo, dialogar com as suas vozes criativas.

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Álamo Oliveira, Marta de Jesus: A Verdadeira, Ponta Delgada, Letras lavadas, 2014.

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