BorderCrossings – Leituras transatlânticas -2

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Santos Narciso

Ainda não passaram dois anos e Vamberto Freitas está aí com o segundo volume do BorderCrossings – Leituras transatlânticas, depois de há poucos meses nos ter brindado com a 2ª Edição de O Imaginário dos Escritores Açorianos. Aqui nestas Leituras do Atlântico, que se ficam à beira da praia do conhecimento, ao lado do Mar Cavado de tantas recensões que nos traz o escritor que veio das Fontinhas, este não é apenas mais um livro com a chancela da Letras Lavadas, da Publiçor. Estas Leituras Transatlânticas são o retrato de que há sempre fronteiras para atravessar e o único passaporte é o desejo de deixar conhecimento onde muitos conhecimentos não podem chegar.

Vamberto Freitas diz, algures, neste BorderCrossings, que só escreve sobre um livro quando gosta dele. Por este princípio me vou governando também, com a certeza que só escrevo quando leio o livro e consigo captar a mensagem e a beleza das palavras. E, continuando com Vamberto Freitas, se há livros que valem só por uma frase, outros há, como este, que valem uma estante de biblioteca que não conseguimos ter, nem ler.

É assim que eu vejo Vamberto Freitas. Um “apóstolo da literatura” que me tem proporcionado conhecimentos sobre obras, autores e tendências literárias que eu nunca teria possibilidade de conhecer a não ser pelas crónicas, recensões e ensaios que ele me vai proporcionando.

Há pouco tempo, numa rede social, Carlos Melo Bento, Homem da Cultura e da História insular, numa rede social escreveu que Vamberto Freitas é o “cronista dos cronistas” dos Açores da actualidade. Atrevo-me a ir mais longe e digo que o jornalismo literário que se faz nos Açores não seria o mesmo sem Vamberto Freitas. E basta olhar para os cinco anos do SAC – Suplemento Açoriano de Cultura – que ele coordenou no “Correio dos Açores” e que para mim, como jornalista foi uma experiência inesquecível. Depois há mais três anos de SAAL – Suplemento Atlântico de Artes e Letras, da Revista Açores, e até agora a AL – Artes e Letras – com Álamo Oliveira no Semanário Terra Nostra. E não quebro qualquer segredo se disser que dentro de dias, outro projecto nascerá, em outro órgão de comunicação social de São Miguel. Isto para além da presença que mantém na imprensa regional, nacional e da diáspora.

Álamo de Oliveira escreve que Vamberto Freitas “é um crítico generoso, exercendo o seu direito de opinião sob uma perspectiva pedagógica optimizada. Não fosse a sua generosidade e o seu gosto pela leitura e muito pouco se saberia, a nível regional e nacional, sobre a actividade editorial açoriana”.

Efectivamente ele é o Homem da Ilha em Frente que consegue dar-nos visões rasgadas, corajosas e quase sempre carinhosas, sobre autores açorianos. Nestas oitenta crónicas deste BorderCrossings perpassam escritores açorianos e outros, que marcam a actualidade e o passado mais recente da literatura açoriana. Com risco de deixar de fora algum, de que desde já me penitencio, por ali passa Joel Neto, João Pedro Porto, Urbano Bettencourt, Emanuel Jorge Botelho, Dimas Simas Lopes, Fernando Aires, Adelaide Freitas, Virgílio Vieira, Eduardo Bettencourt Pinto, Nelson Moniz, Vasco Pereira da Costa, Machado Pires, Juan Carlos de Sancho, Natália Correia, Fernando Dacosta, Álamo de Oliveira, Onésimo Almeida, para só falar naqueles que Vamberto inclui na I parte do livro sobre Literatura e Açorianidade. Na parte II ocupa-se Vamberto Freitas de Diáspora e Literatura, em mais de trinta saborosas crónicas e recensões, havendo ainda lugar para dezena e meia de escritos sobre Imaginários Americanos e na IV e última parte, um salto mais a Sul para  Brasil Próximo e Distante.

Para transmitir o que penso sobre Vamberto Freitas, nada melhor do que a boleia de um escritor como é Álamo Oliveira: “Vamberto Freitas é a voz autorizada dos livros de autores portugueses, com predominância para os dos Açores e também dos livros de autores que escrevem na língua dos seus países de adopção e que têm procurado conquistar visibilidade nas designadas literaturas étnicas dos espaços da emigração portuguesa.

São já muitos os livros que Vamberto Freitas tem publicados, nos quais vem a reunir um trabalho persistente no âmbito da recensão crítica. São bem disto quantos têm acompanhado o que faz publicar em jornais, revistas e, sobretudo, em suplementos literários, muitos dos quais coordenados por ele. Todos têm a noção de que se está perante um contributo inestimável para a revelação e apreço do que tem sido a nossa escrita criativa”.

E como estamos em vésperas dos 40 anos da Revolução de Abril, refiro que me comoveu a narração que Vamberto Freitas faz (páginas 98-99) da forma como, sentado num banco de autocarro, na Califórnia, lendo o Los Angeles Times, soube do 25 de Abril, no dia seguinte, e a mudança que tal notícia provoca na sua vida quando já olhava para o se BI português como coisa distante, num “Portugal miserável em tudo menos no seu passado”. E pensei que a liberdade muitas vezes é mais sentida quando os caminhos da vida nos levaram a fazer exílio dentro da mágoa disfarçada de distância.

Por este BroderCrossings 2 Vamberto leva-me a emoções sentidas de quem procura sempre aprender. Não se é Professor só dentro das paredes de uma universidade e é muitas vezes este elitismo literário que distancia autores e leitores. Em Vamberto Freitas parece que tudo é proximidade, mesmo quando não concordamos. É como um bom copo de vinho que remata uma discussão que, dividindo ideias, cimenta a amizade.

Como diz a escritora de Santa Catarina do Brasil, Lélia Nunes que vive ali na Esquina das Ilhas, sempre com os Açores presentes, “a escrita de Vamberto Freitas será sempre de intervenção e resposta à condição humana, seja ao retratar uma sociedade na América, nos Açores e/ou no Brasil SUL onde os açorianos nos deixaram uma herança e todo um imaginário enraizado e expandido numa equipa oceânica abaixo do Equador”. É esta vertente de intervenção humanista que me seduz em Vamberto Freitas, porque sinto que ele, mais do que escrever sobre o que trata um livro faz transparecer quem está naquelas páginas. Este jogo do que e do quem torna-se contagiante porque mantém vivos e presentes os escritores, mesmo que já tenham partido para a outra dimensão da vida ou para outras dimensões do estar aqui.

Por isso é que BorderCrossings é mais do que cruzar fronteiras: é uma cruzada sem fronteiras.

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