Passagens, ou poética da vida e da morte

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E então morrem. Por amor de nós, como se achassem que viveram demais e ocuparam demasiado tempo e espaço nas nossas vidas.

 

Teolinda Gersão, Passagens

 

Vamberto Freitas

 

Permitam-me começar aqui com uma confissão, sem entrar em questões pessoais. Passagens, o novo romance de Teolinda Gersão, foi-me uma leitura dolorosa. Suspeito que lhe foi ainda mais doloroso escrevê-lo. Toda a ficção, e não só, é autobiográfica, como outros já o afirmaram ao longo dos tempos, se não nos “factos” pelo menos nos “sentimentos”, tal como como toda a ficção, atrevo-me a dizer, é feita de inúmeros heterónimos, cada personagem, protagonista ou não, representando ou a pessoa do próprio autor-narrador, ou então alguém que se atravessou no seu percurso ou na sua imaginação. Walt Whitman tinha multidões dentro de si, mesmo que não as descrevesse uma a uma? Fernando Pessoa, como nos relembra o seu melhor crítico de língua inglesa, Harold Bloom, lutaria com a sua ansiedade da influência ante o bardo americano. Existimos sempre, cada um de nós, escritor ou leitor, no plural. A descoberta de Pessoa foi original só pela audácia do poeta ao colocar em diálogo o que ele chamava um “drama em gente”, nomeando-os, dando-lhes uma “biografia” completa, e fazendo dialogar uns com os outros todos os seus seres imaginados. Este romance de Teolinda Gersão pertence a essa esfera da Grande Arte dos nossos dias – o teatro da vida e a vida em teatro, aqui numa estrutura que nos coloca em frente a um palco onde se desenrola um drama humano dos nossos dias, onde cada palavra dos seus personagens nos é dirigida directamente, como se cada um deles nos conhecesse na intimidade. Foi-me doloroso, disse, ler Passagens? Foi. Cada uma destas páginas como que contém uma metáfora ou um símbolo da dor de estarmos vivos enquanto os que amamos estão a morrer, ou morrem. Jorge de Sena diria num poema, escrito durante o seu calvário rumo ao seu destino final: primeiro acontece a “morte social” do doente, em que todos fogem ou fingem não saber, seguida da morte real, o fim do seu sofrimento e o começo da nossa dor ainda mais profunda pela perda irremediável, passando agora à escuridão absoluta. Ler este romance é ler-nos. A sua beleza está no feito artístico, reservado só a um punhado de escritores, de prender o nosso “olhar” à luz que tanto nos aponta o infinito como nos engrandece na vida. Os que ficam têm o dever de celebrar todas as “passagens” dos que nos deixam, recordar a sua bondade e esquecer todo o resto.

 

Toda a grande literatura é feita disto, a sua temática raramente variou: da vida em família e em comunidade, do amor e desamor, da felicidade e infelicidade, da coragem e da cobardia, da vida e da morte, em suma. A nossa existência é um jogo de espelhos distorcidos em que a mentira se confunde com a verdade, restando à arte literária “retratar” ora esse caos pessoal e vivencial, ora a ordem das coisas ante, quase sempre e talvez universalmente, a desordem, as contradições inerentes ao nosso sentir e ao nosso esquecimento. Passagens, necessariamente também no plural, é isso mesmo – a memória reativada para que os mortos, na sua viagem absolutamente desconhecida para o Além ou para o Nada, nunca deixem de existir em nós, de rememorar em nós todo um  passado no seu quotidiano, ou na companhia, próxima ou distante, das gerações a que deram vida ou que testemunharam o seu percurso entre todos eles. O romance é “sobre” a morte de Ana, a sua história agora recordada pela filha Marta, por netas e outras pessoas conhecidas, ou que a conheceram em circunstâncias várias. A fala de Ana chega-nos já do seu caixão, em que os que a rodeiam no velório vão pensando por ela e adivinhando o que ela diria de si e dos seus, das suas circunstâncias desde a juventude até ao lar onde acaba a sua vida, como ela viveu e como encarou o seu próprio fim. A morta vê e comenta os vivos, assim como fala para si própria. Este não é um ajuste de contas familiar, é o enaltecimento e o perdão de todas as fraquezas, dúvidas e alegrias dos que o acaso juntou pelo cordão umbilical, pelo amor, ou pelo destino que se impõe e determinou as suas vidas, as nossas vidas. O grande esquema das coisas e do universo, afinal, pouco nos interessa ou influi na nossa caminhada – é a soma dos dias indistintos, do beijo ou do rancor momentâneo, da palavra dita ou não dita enquanto estamos juntos, do gesto feito ou não que nos define e nos dá a razão de estar e ser na condição existencialista que pensamos criar e dominar por nós próprios. Nestas páginas, ninguém faz nada acontecer, reage, e só, ao que lhe vai acontecendo. A memória perpetuada de Ana não tem já qualquer significado transcendente, é apenas a memória que relembra aos vivos, aos que ficam, que também caminham para o seu fim anunciado, venha quando vier e como vier. A força cósmica terá só uma mensagem – ama os que te amaram, a procura da felicidade possível não é uma escolha, é uma obrigação sagrada. Uma vez mais, contra o esquecimento das sucessivas gerações, a vida vivida de cada personagem, de cada um de nós. Não há literatura “abstracta”, toda ela conta verdades e mentiras, vivências “reais” ou imaginárias – ou nos vemos nela, ou não valerá a pena ler uma única página

 

“Sim, a peça – diz Ana, auto-desdobrada em duas pessoas, heterónimo de si própria,  no fim da sua narrativa e a partir dessa sua outra dimensão, dando lugar, uma vez mais, a outras vozes – está quase a terminar. Já não iremos dizer mais nada, são agora os outros que vão entrar em palco: dirão as suas falas pegando nas deixas uns dos outros, farão os gestos e os movimentos certos, cumprirão todas as marcações.

 

“Nós temos a partir de agora um papel passivo. Na última cena colocar-nos-ão sobre um tapete rolante, mecânico, e deslizaremos ambas alguns metros até desaparecermos, atrás de uma cortina”.

 

Ao contrário do que se poderá pensar, e apesar das minhas palavras iniciais (que têm a ver só com circunstâncias da vida minha pessoal), Passagens não é um romance deprimente, longe disso. É mais uma celebração da vida do que da morte, o plural do título, uma vez mais, igualmente de múltiplas significações, a vida, todas as nossas vidas, sendo uma sucessão de etapas e estágios, a própria morte um destino incerto, desconhecido de todos, e logo, paradoxalmente em aberto. A própria Ana (“Não estás sozinha. Mesmo no escuro, tens a tua própria companhia)”), estendida no seu caixão coberto de flores e pouco antes de se tornar cinzas, que irão entrar num novo ciclo da terra e na vida por ela gerada perpetuamente, fala num tom neutro, ou com o humor e a discrição de quem já se livrou do sofrimento. Nos últimos dias da sua existência sem sentido num “lar” pago a preço de ouro e supostamente “profissional”, tratada por estranhos sem paciência ou sequer empatia pelos que estão a seu cuidado, odiando a fealdade da velhice e da doença com que têm de lidar diariamente e a altas horas, finge ter Alzheimer para “libertar” os seus, fazê-los crer que já não vale a pena o seu esforço e a sua presença ante uma mãe, avó ou amiga que já não os conhece no seu olhar baço e dirigido a ninguém e a nenhures.

 

A arte imita a vida, sabemos. Quando a vida imita arte, é que o nosso olhar e sentir se tornam mais complicados. Imagino que para a autora (para se escrever assim, só com conhecimento directo e examinado da temática em foco), se junta de outro modo a muitos dos seus leitores – ninguém está só, a memória dos nossos é a reconstituição da sua vida, os nossos “heterónimos” não são mera invenção, são eles em nós, não são metáforas nem símbolos, são carne e osso, sangue do nosso sangue. A literatura é pensamento e emoção, não um mero jogo de palavras e artífices de frases e expressões conjugadas numa suposta  sucessão de esperteza artística.  Sublinhamos ou comentamos um livro nas suas margens porquê? Só para voltarmos a reler, o que raramente acontece? Não, cada um o absorve à sua maneira, mas a interacção literalmente física com um livro como este, significa algo mais. Ninguém nos fala diretamente à razão e ao coração sem levar uma resposta, que poderá tomar a forma de uma concordância sem reticências. Foi exactamente assim que li este singular romance, Passagens, ficções dentro da ficção, a própria essência da arte literária. A obra deTeolinda Gersão, tome a forma que tomar, é já a construção  incomparável de um grande mosaico literário, cada peça condizente com as outras, cada cor em perfeita harmonia com o todo. O que alguns críticos nacionais e estrangeiros vêm dizendo dela desde há muito, confirma tudo isto.

 

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Teolinda Gersão, Passagens, Porto, Sextante/Porto Editora, 2014.

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3 thoughts on “Passagens, ou poética da vida e da morte

  1. Maria Lima Maio 15, 2014 / 7:08 pm

    Maravilhoso comentário sobre “Passagens” de Teolinda Gersão. Vou ler.

  2. anabela gaspar frança pais Fevereiro 25, 2016 / 8:17 pm

    Ora aqui está uma análise sobre o último livro da nossa escritora! Parabéns pelo ensaio. Anabela França Pais

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