Porta Azul para o Nada nas ilhas de Lisboa

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Não é povo de revolução, este. Não tem as escaldadelas de alma dos sul-americanos. Estremecer em conforto não lhe deixa de ser confortável.

João Pedro Porto, Porta Azul Para Macau

Vamberto Freitas

Comecemos por lembrar que este Porta Azul Para Macau constitui o terceiro volume de uma trilogia romanesca ainda sem denominação própria, antecedido que por O Rochedo Que Chorou e O 2gundo Minuto. Eu creio ser uma trilogia, mesmo sem nunca ter falado a João Pedro Porto, o seu autor, sobre este seu feito literário. Vamos pois a um resumo temático do que poderia chamar-se aqui “o ilhéu agoniado em terra e mar”, os homens e mulheres das ilhas, das açorianas ou de outras, atravessando o século passado, que terminou há dias, digamo-lo assim, reduzindo o tempo à mínima fração de um milésimo das nossas vidas, tentando salvar-se em águas muito alterosas ou num chão ainda mais incerto e tremido. A visão artística do autor em toda a sua obra até ao presente é uma, quase sempre, de distopia, quando não mesmo apocalíptica, antevendo na nossa própria história a noção de que a entrada neste século seria uma de inusitada violência interior em cada um de nós, e de quedas vertiginosas de todos os mundos à nossa volta. Não vejo qualquer optimismo nas suas páginas, a “reafirmação de vida” de que tanto falavam os americanos em relação a alguma da sua literatura, mas é uma prosa também de humor incessante, uma leitura de risos constantes. Estamos ante protagonistas e demais personagens despedaçados em tudo, olhando persistentemente, obsessivamente, para o seu passado numa tentativa de compreender o estado de vida a que chegaram e que enfrentam, não por acções redentoras, mas sim através de uma viragem para a sua própria alma, o outro ou outra ao seu lado um mistério trágico ainda maior. Recordemos aqui ainda que João Pedro Porto recorre sistematicamente nos seus três romances a alusões às melhores e mais referenciadas obras literárias das nossas diversas tradições ocidentais, assim como convoca com a mesma frequência a música e o cinema como símbolos ou chaves do que vem meio escondido nas suas narrativas recortadas no tempo e por vezes nas próprias linguagens de cada capítulo. Poderemos chegar ao fim dessas páginas incertos sobre as possíveis significações de cada cena ou incidente, mas o seu poder imaginativo é indiscutível – regressamos a determinados passos de prosa ou a alguns versos nos intervalos nem que seja só para voltar a ouvir a musicalidade das palavras, o ritmo da andança no tempo ou no pensamento de qualquer um dos seus seres inventados. Uma leitura de Porta Azul Para Macau pode assemelhar-se ao que foi para a minha geração ler e tentar absorver os sinais de vida num Finnegans Wake, de James Joyce. Penetrar na mente e nas palavras reinventadas de um tal narrador é, como diria Edmund Wilson no seu magistral Axel’s Castle a propósito da obra do autor de Ulisses, como que tentar ouvir o que nos diz desconjuntadamente um moribundo durante o seu próprio velório: não será fácil entende-lo, mas quererá ele transmitir algo de importante para os que ficam.

Porta Azul Para Macau é um romance singular a todos os níveis formalistas, escondendo em si um tema claríssimo: a antiga e muito demorada queda de um povo, o nosso, sobrevivendo em busca de pão e dignidade enquanto conta estórias a si próprio sobre o que julga ter acontecido no seu passado e que, uma vez mais, o trouxe até aos seus dias mais do que existencialmente angustiantes. Lisboa foi submersa, não se sabe bem quando e como, por uma grande enchente do Tejo, e agora não passa de um arquipélago com as suas colinas tornadas ilhas, à vista só as águas furtadas e alguns monumentos ou prédios mais significativos e significantes da sua velha história, Olisipo de regresso à sua génese marítima e reduzida à sua miserável condição dos nossos dias. A narrativa vai e vem entre os anos 1909 e 1970, quase um século de perdição colectiva. Os personagens descrevem o seu quotidiano como se de uma peça de teatro se tratasse, e essa é precisamente a estrutura do romance, metaficção, representações dentro de representações, alusões a tempos e acontecimentos que nos parecem desconexos, mas interpreto-os aqui à minha maneira. 1909: Portugal está caído novamente e em vésperas de convulsões decisivas que o levará à instauração da República; 1963: Portugal sempre caído e agora enfrentando a tragédia de África; 1970: Portugal caído e tornado palco da mais kafkiana das revoluções europeias (a imagem não é minha, mas de um historiador americano), que nos traria ao tempo presente, eternamente submerso e em nova saída para o Nada em que está mergulhado e moribundo há séculos. É uma narrativa de solilóquios, repita-se, desconexos e surrealistas numa estrutura formal absolutamente desestruturada, tal como a vida dos seus personagens, a sugestão de uma sociedade e das suas instituições úteis só para uma peça de teatro.

Tudo isto faz-me lembrar o que disse Edmund Wilson sobre a caminhada da literatura, desde o início modernista do século XX, rumo à conjunção de um realismo mimético e psicológico e de um simbolismo pessoal ou referenciado em textos canónicos, resultando numa prosa tão poética como narrativa. Poderá ser que Wilson tenha exagerado, pois a narrativa tradicional e linear está de volta, pelo menos no mundo anglo-saxónico, mas na verdade alguma da melhor literatura nunca abandonou o projecto de se reinventar profundamente recriando novas linguagens e postulando novas visões do mundo e do quotidiano. João Pedro Porto tem optado pela construção dessas narrativas mistas e extremamente exigentes do leitor mais atento, levando velhos temas da literatura açoriana para outras dimensões e geografias – mas reconhecemos de imediato a tradição em que ele próprio se revê e quer ocupar. Este fazer de Lisboa um arquipélago com muito passado mas sem futuro deverá transmitir-nos intimamente o que é viver e sobreviver por cima de águas ora revoltas ou ora quietas, e navegando às escuras. Por outras palavras, não somos nem mais nem menos do que os outros com quem partilhamos a nossa história e destino, nem são ou alguma vez foram mais ou menos do que nós os outros, a humanidade a saque talvez o único universalismo que nos resta.

Entre os vários personagens-actores deste romance está proeminentemente um bando (a palavra é do narrador, não minha) de intelectuais liderados por um Érico, director de um jornal chamado Ínsula. A velha Lisboa haveria de engolir e sofrer o seu próprio veneno. Juntam-se e deambulam pelas ilhas lisboetas, e auto-denominam-se os “metarrealistas”, fazendo sair um manifesto à velha maneira portuguesa – não fazem nada, não conseguem mudar a hiper-realidade à sua volta, mas a palavra entre eles nunca morre. O dito manifesto é publicado em forma de um poema, com uma linguagem tão metafórica como a sua existência surrealista nas ilhas de Lisboa. Claro que nunca sabemos do impacto, se algum, desse manifesto. Faz parte – alguma vez as palavras entre nós mudaram seja o que for? Sobrevoando o novo arquipélago estão os Corvos abutres em busca de tudo o que possam morder ou levar, preferindo eles o que resta dos edifícios do Estado, que aqui ninguém vê, ou sabe sequer se existe. Macau é um velho bar onde se reúne o bando de pensadores ou intelectuais. Também aqui ninguém sabe muito bem o que fazem lá dentro, mas é o seu poiso preferido, e eventualmente outra terra de exílio. Como numa sinfonia, um som atrás do outro significando nada, parafraseando o grande bardo inglês. As poucas cenas de amor entre um homem e uma mulher parecem transmitir a ideia persistente destas páginas de que nada significa nada, a má sorte de homens e mulheres não tem saída à vista, só nos resta o prazer indestrutível de dois corpos juntos.

Dito tudo isto, permitam-me concluir o que penso de, ou como interpretei parcialmente Porta Azul Para Macau mesmo logo a partir de uma das epígrafes escolhidas pelo autor, e uma epígrafe é sempre, ou deve ser, um piscar de olho ao leitor: “E assim seguimos, os barcos contra a corrente, incessantemente puxados de volta ao passado”. Haverá melhor síntese da nossa sorte como esta escrita por F. Scott Fitzgerald, e que encerra seu O Grande Gatsby? Se existe uma qualquer “universalidade” na literatura, este passo será um dos seus melhores exemplos. O que nos deverá reconfortar – não estamos sós, nunca estivemos, até um autor americano já sabia e descrevia o nosso estado de alma e circularidade de vida e história na sua América dos anos 20.

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João Pedro Porto, Porta Azul Para Macau, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2014. Este texto é o prefácio ao romance.

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