A existência do nada e a memória de tudo

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Escrever é espreitar outras vidas. É contar mentiras e acreditar que isso é verdade.

Dulce Maria Cardoso, tudo são histórias de amor

                                                                       Vamberto Freitas

 No conto e escrita-outra desta singular colectânea, tudo são histórias de amor, de Dulce Maria Cardoso, a narradora (que noutros textos aqui por vezes assume uma voz masculina) diz “Que todos existimos sozinhos e que eu tinha de aprender a ser feliz sozinha e quanto mais cedo melhor”. Cada um de nós, sabemos, define o amor à sua maneira ou consoante os seus mais escondidos desejos e momentos de vida. Dizem-me que alguns críticos se queixaram de que, afinal, estas são narrativas que negam o seu próprio título. Também é sabido que a cultura literária portuguesa só muito raramente tem sido irónica, e Eça de Queirós não só foi e é o nosso romancista genial – afirma Harold Bloom num dos seus livros mais recentes entre nós – como vai longe no tempo e na sua própria condição de estrangeirado sem complexos. Fica-nos, mais perto de nós, José Saramago cuja obra enreda-se em volta de todas as suas dúvidas sobre a vida, reapresentando quase sempre aos seus leitores a mítica e a “evidência das coisas não-visíveis” em que ele pretendia não acreditar, mas que o inquietavam solenemente e levaram-no à mais consequente arte dos nossos dias, em que a forma e o pensamento se juntavam até à perfeição representativa da nossa sociedade, quer no longínquo passado quer no seu tempo – Deus, História, Dialécica, Nação. Vai aqui uma confissão pessoal – para mim têm sido os escritores ditos estrangeirados do século passado, os que fazem ou fizeram de outras fronteiras e vivências os seus referenciais humanos, e o próprio autor de O Memorial do Convento não aguentaria nos seus anos finais ficar limitado ao pequeno país português, que mais me comovem. Estas histórias de Dulce Maria Cardoso carregam em si essa condição, mesmo quando, como é frequentemente o caso aqui, o seu fundo são pequenas aldeias ou pequenos sítios escondidos algures no nosso interior nortenho, a memória ou a imaginação de cada personagem tornam-nos conscientes da sua condição isolada e solitária. A “impossibilidade” do amor será o que mais marca estas narrativas, duas delas baseadas em acontecimentos horrendos que tiveram lugar entre nós recentemente: “Desaparecida, ou a Justiça” e “não esquecerás”. É a nossa realidade, que por vezes nos parece mais ficção do que qualquer prosa, é o pior do país, os seus horrores de toda a natureza – crime, neglicência pública criminosa, solidão assassina; percebemos um povo, nestas páginas, reduzido  aos seus isolados, esquecidos e ignorados redutos serranos, vivendo na ignorância quase absoluta, na ausência de futuro ou de sonhos para além do ciclo da natureza, da luz e da escuridão.

Estas histórias surpreendem por muitas das suas qualidades formais e linguísticas, são transfigurações de vidas vividas ou espreitadas, nas quais nada foge ao conhecimento que cada leitor terá do seu próprio quotidiano. Toda a ficção contém sempre muito de autobiográfico, nesse sentido – ou experimentá-la em directo, ou então algo levou-nos a imaginar como seria a vida dos outros a partir de instantes na sua presença, numa frase dita ou lida, a catarse que será porventura toda a arte, originária tanto da necessidade pessoal do autor/a como de um chamamento moral que tem de ser emoldurado num quadro de fingimento artístico, mas tão concreto como se contivesse figuras, natureza ou abstrações num quadro pendurado. O seu dono ou apreciador vê, tem de ver, parte de si nessa representação. O “génio” de um escritor, também já escreveu alguém, é quando nos diz ou mostra aquilo que pensávamos ser só de nós, ou em nós. A ironia destes contos acontece a vários níveis: desde a observação minuciosa de narradores e narradoras, que nos parecem distantes e nos falam numa linguagem de certa dureza e a maior das vezes caracterizadas por um sentido humor muito próprio, cortante e penetrante, mas não podem ignorar a dor ou a decadência alheia, a morte anunciada de velhos fechados nos seus andares esperando o seu fim com a maior naturalidade imaginável. A mentira da ficção, aqui, contém as maiores e únicas verdades do nosso quotidiano, ou do quotidiano de outros que fazemos por ignorar. Representar a fealdade da vida foi sempre parte fulcral da história literária, e não só. Ninguém lê a partir de um vácuo ou na ausência do conhecimento de que é feito o nosso quotidiano, ou do que acontece na colectividade em seu redor. A literatura é ainda o meio principal de retomarmos ou repensarmos esse conhecimento, agora sem que a dor dessas representações nos paralise. Foi isso que Dulce Maria Cardoso já tinha feito no seu grande romance, O Retorno, no qual a raiva da História passou a ser como que humanizada, e no qual a redenção dos que haviam sido transportados caótica e cruelmente para fora da África de língua portuguesa dias após a nossa revolução de Abril foi transformada num dos mais humorísticos e ao mesmo tempo dramáticos textos  ficcionais da nossa literatura contemporânea. Tudo são histórias de amor transporta-nos para uma realidade que a escrita portuguesa desde há muito havia esquecido, e até denegria quando pensávamos que já éramos europeus só urbanos, sem passado nem vizinhos ou conterrâneos vivendo na mais calada miséria do continente. Nisso também, nessa disponibilidade para “recuperar” a vida nos nossos campos e serras, a autora é irónica, não ante a humanidade que nos retrata tão fulgurantemente, mas sim ao contrariar a pretensiosidade dos que fabricam páginas e páginas a imitar um existencialismo citadino nas várias aldeias que dão pelo nome de Lisboa. O “eu”, tão do gosto do escritor-intelectual citadino fechado na sua suposta torre-de-marfim e com saberes “privilegiados”, é aqui contradito, uma vez mais, em ironia fina e contundente.

“As minhas obsessões, – afirma uma das suas narradoras após ou durante uma sessão com um psicólogo de serviço – traumáticas, medos, manias não passavam de abismos que o psicólogo espreitava de lanterna em riste, tentando romper as sombras densas que aprisionavam o meu Eu… Uma pulsão destrutiva que me levaria a ficar fechada em mim, não fosse a enorme curiosidade que tenho pelo Outro, não fosse a enorme vontade de chegar ao Outro. Um Outro exterior. Não os Outros que também existiriam escondidos nos meus abismos interiores. O psicólogo garantia que esses outros Outros só me puxavam ainda mais para dentro de mim. Por vezes enredávamo-nos de tal maneira no meu Eu e nos Outros que era difícil percebermos do que falávamos”.

Se isto não é uma escrita cómica e de todo irónica, nenhuma outra palavra ou frase na nossa literatura o serão. Tudo são histórias de amor move-se, pois, entre “a cidade e as serras”, e a alusão aqui ao nosso outro grande mestre da ironia e da abrangência temática não é inocente da minha parte. O livro encerra com um texto deliciosamente intitulado “autobiografia ou a história de um crime premeditado”, em que a autora fala da saudade da sua infância e adolescência em África, e de como “matou” o seu outro “eu” para se tornar uma escritora, e não o que outros provavelmente esperavam que fosse a sua vida quieta e “tributável”, como diria o nosso primeiro génio da heteronímica modernista, e que também passou pelo mesmo continente, e lá recebeu a sua educação. Dulce Maria Cardoso diria numa entrevista há uns poucos anos que só muito recentemente começou a sentir um estado de “pertença” entre nós, décadas depois de regressar de Angola em 1975 como “retornada”. Uma advertência amigável por parte deste seu leitor – que nunca se sinta demasiado “pertencente” a uma “pátria” como a nossa. Como sabemos, até o seu governo actual sugere, sem ironia ou vergonha, que muitos de nós melhor faríamos se encontrássemos poiso no além-fronteiras, para que eles e os seus acólitos se sintam mais confortáveis, e menos culpados. O olhar  próximo e distante em arte — o Eu e o Outro – é o único que conta. Os restantes raramente enxergam clara e inteligentemente a sua própria rua, muito menos a alma dos que nela se cruzam.

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Dulce Maria Cardoso, tudo são histórias de amor, Lisboa, Tinta-Da-China, 2014.

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