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Ligando o destino do seu país de adoção ao seu próprio destino, pensa: “Fomos desfeitos pelas nossas próprias mentiras”.

Richard Zimler, A Sentinela

                                                                            Vamberto Freitas

Que Richard Zimler é um grande escritor dos nossos tempos, muitos outros já o escreveram a nível internacional, particularmente no mundo letrado anglo-saxónico, de onde o americano-português (é a expressão que me ocorre aqui para o diferenciar de luso-americano, que nos leva a outra etnia na sua América do Norte) é originário, tendo nascido em Nova Iorque e vivido no norte Califórnia boa parte da sua vida, onde também se formou em jornalismo antes de vir para Portugal em 1990, passando a leccionar na área da sua especialidade e traduzindo muitos dos nossos escritores, enquanto cria uma das mais brilhantes obras ficcionais contemporâneas. Judeu de nascença, boa parte da sua escrita ocupa-se precisamente da temática infindável que tem sido o destino histórico do grande povo diaspórico. Um dia, os seus antepassados foram expulsos do nosso país, e com eles, dizem alguns historiadores, foi-se a nossa grandeza. Em boa hora, para nós, o autor “regressou” a este território, que passou a ser uma outra geografia dos seus afectos e destino. Dois dos seus romances mais recentes, depois do que creio ser, até ao momento, o seu magnum opus, O Último Cabalista de Lisboa (1996, na tradução portuguesa), têm versado temas da nossa actualidade: Ilha Teresa (2011), que tem como protagonista uma jovem portuguesa a tentar reinventar-se em Nova Iorque nos dias que correm, e agora A Sentinela (The Night Watchman), publicado há uns meses entre nós. Trata-se de um “policial”, mas é muito mais do que isso, tal como sempre foram os romances de Raymond Chandler ou, na nossa língua, os de Rubem Fonseca. Creio ser esta a sua primeira incursão no género, e não perdemos pela demora – eis Portugal aqui em todo o seu esplendor da crise que atravessa e do governo que tem à sua frente, eis aqui Portugal em 2012, apenas um ano depois do colapso quase total, em que ainda estará mergulhado por muito tempo. Por detrás de um crime, a “revelação” imaginada de que a sociedade é governada e sugada pelos seus políticos e pelas suas elites empresariais, em que nem se salvam de suspeitas a própria polícia judiciária pela cobertura que dão aos mais poderosos, a quem o autor agradece numa nota prévia por lhe terem dado informações sobre a natureza do seu trabalho, que de outro modo poucos de nós conheceríamos.

O protagonista-narrador de A Sentinela é também uma outra originalidade na nossa literatura (digo nossa porque é mesmo, a trans-nacionalidade literária já sendo um facto crescente entre alguns dos melhores escritores mundiais), de nome Henry/Henrique Monroe, investigador da Polícia Judiciária em Lisboa, falando um português ainda com forte interferência da sua língua natal, nascido num rancho em Colorado, de pai americano e mãe portuguesa, Ana Maria Machado, que tinha ido para os EUA como estudante universitária, e por lá ficou depois de se apaixonar e casar. Para além de toda a temática já enunciada nestas linhas, o romance aborda directamente as questões da identidade pessoal e nacional não só de Henrique (a mulher com quem casa e tem dois filhos em Portugal é cá nascida, filha de emigrantes judeus argentinos, refugiados da ditadura que reinou naquele país durante anos 70-80), mas também do seu irmão mais novo, Ernie, que vive no Alentejo sozinho perto de Évora numa pequena quinta sua, assim como dos filhos que cá nasceram enfrentando em casa um misto de culturas e línguas, as suas referências locais e imediatas salpicadas pelas memórias do pai e do seu atribulado passado. As crises aqui são tão exteriores como interiores, cada um tentando definir o seu lugar e rumo debaixo de sombras psicológicas que estão sempre presentes e determinam a sua felicidade, e ainda mais a sua infelicidade, dúvidas, amores e raivas. Vindos — Henrique e Ernie — de um passado familiar obscuro mas que sabemos de abusos e violências extremas, nunca directamente relatadas ao leitor, de um pai cronicamente alcoólico, que reduziu a sua esposa portuguesa ao nada e eventualmente ao suicídio, a morte nunca deixa de rondar aqui ante aqueles que dão tudo por tudo para conseguirem a paz possível, dando assim à geração seguinte uma vida e um mundo um pouco mais decente e tranquilo. A grande ficção tem quase sempre este referencial – o indivíduo e a família como palco principal do rumo em direcção ao futuro ou ao nada, a sociedade, toda ela, indiferente ou então em espasmos colectivos decisivos, como é o caso do tempo ficcional destas páginas. A Sentinela é um romance de crime sem castigo – a mortífera violência física e psicológica nada mais é do que um quotidiano de corrupção generalizada e da ausência de referências “morais” ou humanistas no bravo novo mundo que criámos, ou deixámos que criassem para nós todos. Digo nós todos – sabemos que a melhor arte é aquela em cada um se vê e revê nas suas representações miméticas, imaginadas pelo artista ou pelo escritor. Como agente policial ao mais alto nível no nosso país, Henrique tanto medita sobre a natureza das suas funções e vocação, como sobre o seu lugar no grande esquema das coisas. Nada, aqui, é o que parece, nem perante o espectáculo dos outros, nem perante nós próprios. O narrador sofre – ou desfruta – de um duplo dentro de si, a quem dá o nome de Gabriel, o outro lado da sua personalidade especialmente em transe durante as piores crises pessoais e profissionais, é a voz contraditória à sua pessoa “real”. Cada personagem maior poderá ser como que um heterónimo do narrador. Se ele persegue a violência, a criminalidade e os roubos dos outros, nunca tem a certeza de que o seu sentimento de “justiça” seja justificado inteiramente. A memória viva do pai americano e a sua ambiguidade ante o que poderia ter sido um ajuste de contas com ele pelo que fez à mãe, a si, e especialmente ao seu irmão, que agora também vive isolado entre as árvores, hortas e pintura em busca de um tempo futuro e na luta contra os seus muitos demónios.

“Num momento de maior tranquilidade, talvez possa até admitir – diz o narrador durante a sua recuperação de dois tiros vingativos que levou numa rua lisboeta numa tentativa de o calar ou matar durante a investigação de um caso de homicídio, corrupção política e empresarial e pedófila nos mais altos escalões da sociedade, pensando na esposa durante um fluxo de consciência – que estou longe de ter acabado a minha busca de justiça, ainda que tenha dito o contrário a toda a gente, mas que ela tomará outra forma se quiser continuar a ser a pessoa que quero ser; poderei mesmo arriscar-me a parecer idiota e dizer-lhe que estamos sempre a flutuar sobre as cidades e os campos dentro de nós, aproveitando os ventos interiores mais imperceptíveis por cima dos telhados e escadarias e parques e canyons, em Portugal e na América e na Argentina e em qualquer outra parte, mesmo quando estamos certos de não termos forças para nos levantarmos de uma cama de hospital”.

Chegado aqui, verifico que não dei ao leitor qualquer pormenor sobre os crimes em investigação, e menos darei o seu desfecho, pouco habitual num romance deste género, no qual a justiça é feita e não-feita, numa contradição perfeitamente condizente com a humanidade de Henrique Monroe, com as suas dúvidas e preocupações éticas. A riqueza desta prosa de Richard Zimler, para mim, está muito para além da sua trama labiríntica, que avança num espiral de mentiras e violência, sofrimento e maldade diabólica. Mesmo assim, nada que não tenhamos lido nas primeiras páginas dos jornais durante este últimos anos de raiva existencial e sentido de derrota ante as monstruosidades que nos cercam e minam as nossas forças quotidianas. O que mais me comove neste romance é a presença de mundos geográfica e culturalmente distantes, mas interligados não pelas grandes questões do nosso tempo – que são mais ou menos semelhantes na maioria das sociedades – mas, sim, pela existência única de cada personagem, pontes simbólicas que são todos eles entre um extremo e outro de dois continentes, as serras verdes e o frio de Colorado (mencionado aqui vezes sem fim) simultaneamente em contraponto e em consonância com o calor e o mar azul de Portugal. Não existe outro escritor entre nós que possa tecer genialmente uma tal representação artística, de todo universalizada enquanto nos desenrola um novelo demasiado doméstico e coloridamente muito português. O olhar que lança aos pormenores mais escondidos das nossas vidas e ambiente circundante requer este outro, distante e próximo, partindo de referenciais mútuos e ao mesmo tempo antagónicos que cada cultura, a americana e a portuguesa, contém em si.

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Richard Zimler, A Sentinela (tradução de José Lima), Porto, Porto Editora, 2013.

 

 

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