Imaginário de uma América fascista

10567589_344712985677295_2143828567_nEle entendia, também, que a luta na América estava encoberta pelo facto de serem os piores fascistas a rejeitarem a palavra ‘fascismo’ e pregavam a servidão ao Capitalismo sob o novo estilo Constitucional e Liberdade Tradicional Americana.

Sinclair Lewis, It Can’t Happen Here

                                                                Vamberto Freitas

Em 1935, a América sob a mais violenta depressão económica e social da sua história, prepara-se para reeleger Franklin D. Roosevelt, o que não acontece nesta ficçãode It Can´t Happen Here, de Sinclair Lewis, o primeiro Prémio Nobel (1930) da literatura daquele país. Romance, este aqui em foco, esquecido do autor de Main Street e Babbitt? Nem tanto. De quando em quando, reproduzem-se publicamente aqui e ali um ou outro dito ou passo das suas páginas, numa tentativa de aviso, ou simplesmente para não se deixar esquecer a “outra” história, a que está fora dos compêndios escolares e universitários, escritos por académicos bem-pensantes ou aprisionados pela mítica da história nacional. É ainda atribuído ao mesmo autor, sem provas de que foi dele que saiu, um dito largamente citado, quando a análise política americana vai além das banalidades do costume: “Quando o fascismo chegar à América, virá envolto pela bandeira e erguendo uma cruz”. Seja como for, a ideia deve ficar bem vincada aqui: até mesmo numa das mais bem-sucedidas e antigas democracias a preocupação com o impulso totalitário nunca está ausente, a conquista da liberdade deverá ser uma luta permanente. Os escritores, como “cronistas” das suas sociedades, têm recorrido desde sempre à ficção, à “mentira”, por assim dizer, para chegar às mais prováveis e profundas verdades. 

É neste contexto que deveremos ler ou reler It Can’t Happen Here, e  sobretudo no contexto da nossa actualidade que o deveremos também ler como reflexão que vá além do ruído constante dos telejornais ou conversas afins nas televisões, que dominam o debate público e toda a propaganda dos que giram em volta do chamado arco do Poder. Está-se numa América – como se estava na Europa, que hoje parece de novo querer ceder à seu histórica tentação totalitária – em que os génios da economia e dos mercados mergulharam a sua sociedade na escuridão quase absoluta, levando milhões à miséria e ao desespero. Foi por essa altura, que John Steinbeck também publicaria o hoje canónico As Vinhas da Ira (1939), no qual juntava as destrutivas forças da natureza no oeste ao impulso demasiado humano com vista à exploração e repressão dos que haviam caído sem rede em prol do enriquecimento de uns poucos. Denunciado como “comunista”, os ignorantes morreriam sem deixar rastos, mas a obra do autor californiano permanece no lugar a que tem pleno direito, permanece na memória, mesmo que igualmente minoritária, dos que não deixam nem nunca deixarão passar os que tentam desde os tempos imemoriais utilizar a humanidade como peça meramente útil aos seus desígnios por demais conhecidos. Sinclair Lewis olhava  em sua volta e escutava a retórica tanto dos opressores como dos oprimidos, estes últimos esfomeados num chão sem pão. It Can´t Happen Here tem como protagonista Doremus Jessup, o proprietário e director de um pequeno jornal, Daily Informer, da também pequena vila Fort Beulah, no estado de Vermont. Neste lado do Atlântico já se vive e morre sob Hitler e Mussolini, e certas forças norte-americanas não desdenham da aparente “estabilidade”, do crescente “emprego”, da repressão ante os grupos historicamente suspeitos, aqui os judeus de então assim como todas as outras minorias étnicas e sociais, lá os negros e outros de cor. Por detrás do novo “estado corporativo” americano, estão os banqueiros e industriais, que as forças extremistas, principalmente no próprio partido democrático de Roosevelt, dizem querer controlar e até castigar, mas as suas palavras encobrem o outro lado da mentira – serão eles os beneficiários da nova ordem, pois são eles que controlam o dinheiro nos “mercados”, e serão eles a distribui-lo entre os que vão, nas urnas, apoderar-se do Estado. Hitler havia sido eleito, e chegado ao poder com a cumplicidade da burguesia alemã. Na América,  um Berzelius Windrip consegue ser eleito, e depressa põe em prática o que havia escondido nas palavras do seu livro intitulado Zero Hour, em que o seu “patriotismo” vinha do mesmo modo adornado pelas platitudes beatas e patrióticas tanto da elite tradicional como das massas. O palco está montado para que, através de um congresso submisso e de todo controlado, a ditadura corporativista seja fundada, por entre os vivas generalizados de uma população massacrada e de um poder financeiro-industrial sedento do seu lugar sem leis nem regras, tudo em nome da “prosperidade” e “liberdade”. Emprego em subida, crime limpado das ruas pelas milícias denominadas Minute Men, uma polícia tipo Gestapo, aqui de nome Corpos numa abreviação de Estado Corporativista, encarrega-se da repressão e assassínio político e dos campos de concentração e de trabalhos forçados. O prefaciador de uma edição recente de It Can’t Happen Here, Michael Meyer, afirma que o romance teve impacto imediato. Não é de crer que tenha sido entre a maioria dos leitores mais eruditos ou bem informados, mas sim tão-só entre os que percebiam que a retórica da intolerância de lado a lado tornava a situação no seu país explosiva e politicamente perigosa. Depois de um certo alheamento ideológico dos escritores modernistas dos fulgurantes anos 20 (o seu cansaço vinha também de muitos deles terem participado e sobrevivido magoados à Primeira Grande Guerra), apareciam agora alguns que já não podiam ignorar o que um sistema sem regulação ou qualquer moralidade provocava e criava.

 A luta contra de Doremus Jessup e da resistência denunciam com igual fervor os comunistas e os fascistas, situam-se na tradição do liberalismo de esquerda americano, acreditando firmemente num individualismo e cidadania cívico-humanista, uma sociedade em que todos seriam iguais perante a lei, e não terá sido por mero capricho literário que Sinclair Lewis dá voz no seu romance a algumas mulheres que contrariavam então a beatice de donas de casa, crentes e praticantes de uma religiosidade puritana, como dá voz a outros militantes e cidadãos então sob ataque e historicamente excluídos da vida pública. O romance termina sem resolução à vista, mas a liderança da resistência parte para o Canadá, numa alusão deliberada à história de refúgio que aquele país tem oferecido aos seus vizinhos a sul, desde a Revolução de Setecentos aos escravos libertados antes e durante a Guerra da Secessão e para lá mandados em comboios clandestinos dos patrocinados pelos Abolicionistas. Algumas décadas depois, o mesmo país receberia os resistentes exilados da guerra do Vietname.

 “A genialidade com que Buzz – o apelido do ditador Berzelius Windrip – tinha proposto serenamente o enriquecimento de todos que nele votassem, foi a mesma com que denunciou também todos os ‘Fascismos’ e ‘Nazismos’. Para que a maioria dos Republicanos que temiam o ‘Fascismo dos Democratas’, e os Democratas que temiam o ‘Fascismo dos Republicanos’, estivessem prontos a optar por ele”.

 De resto, e como apontam alguns críticos, este poderá não ser o melhor romance de Sinclair Lewis, em termos estritamente literários ou formais, mas é por certo um dos mais relevantes para os nossos dias. Em certas páginas, quase esquecemos que estamos a ler uma ficção norte-americana, e pensamos de imediato na Europa dos nossos dias, na retórica que, uma vez mais, inunda boa parte da política, e não só a “extremista” ou “populista”. 

 It Can’t Happen Here relembra-nos que, sim, poderá acontecer outra vez, até porque, enquanto na América só na ficção, aconteceu na realidade entre nós, num passado ainda fresco na nossa memória e nos nossos medos. Não foi também sem mais nem menos que o filósofo holandês Rob Riemen publicou há cerca de três anos um livro assustadoramente intitulado O Eterno Retorno do Fascismo. Falava da Europa em que vivemos actualmente, e antes das vitórias da extrema direita nas recentes eleições europeias.

 A literatura é acima de tudo memória. É fonte de prazer, mas também deverá ser fonte de informação e pensamento. Ninguém lê ou olha para um quadro sem pensar no contexto em que se integra, ou até na sociedade que o inspirou. Nesse sentido, a literatura deveria ter as suas consequências – não necessariamente como previsão do futuro, mas sim como aviso contra a repetição do passado.

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Sinclair Lewis, It Can’t Happen Here, New York, Signet Classics, 2005.

 

 

 

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Brown University, ou uma alma mater da criatividade literária e artística americana

Capa The Brown Reader

Coordenar esta antologia deu-me a oportunidade de colaborar com um extraordinário grupo  de escritores e artistas criativos cujos ensaios convidam-nos a ver o mundo – e a Brown – pelos seus olhos durante as últimas décadas.

Judy Sternlight, The Brown Reader

 

                            Vamberto Freitas

 

Eis algumas das razões que me levam a escrever sobre este livro, que de início poderá parecer  irrelevante para o que me traz habitualmente a estas páginas. Primeiro, porque é um livro singular nas suas intenções e propósitos, e que eu gostaria de o ver imitado por estas bandas; segundo, porque saiu da universidade mais próxima de nós quanto ao seu pioneirismo em estudos luso-brasileiros e, acima de tudo, no que nos concerne directamente, açorianos; terceiro, porque a boa escrita nunca precisa de justificações para prender a nossa atenção, especialmente quando inclui alguns nomes na literatura norte-americana que abordaram e abordam sempre a experiência imigrante nos EUA, e mesmo que nós portugueses estejamos ausentes destas páginas, a não ser quando Rick Moody menciona o fado português no seu ensaio. Dito isto, vamos ao essencial: The Brown Reader: 50 Writers Remember College Hill, organizado por Judy Sternlight, é um volume substancial em tamanho e nomes que celebra os 250 anos da Universidade de Brown, uma das melhores do mundo. São ensaios, poemas, teatro e até banda desenhada que relembram o facto de todos estes ecritores terem passado pelas suas salas de aula, particularmente as de escrita criativa, aqui também ministrada ou acompanhada muito antes de outras instituições, muito antes de outras universidades se tornarem conhecidas naquele país pelos mesmos cursos. De resto, foi nesta universidade que o grande pós-modernista John Hawkes formou várias gerações de escritores, assim como Robert Coover (que já participou em encontros literários no nosso país), este um outro grande mestre do romance contemporâneo de língua inglesa, e que felizmente ainda lá continua a fazer valer a literatura num tempo em que o mundo só parece querer falar em números saídos do Wall Street. Tenho aqui em casa, por necessidade e admiração, alguns dos livros destes dois escritores, mas ler agora também estes antigos alunos sobre as suas aulas e oficinas de escrita de onde saíram para depois se projectarem a nível nacional foi como que uma inesperada viagem por corredores que eu nunca tinha conhecido (a não ser como visitante a amigos e colegas), e ouvir o eco das vozes  de Hawkes e de Coover, consagradas e magistrais, que eu nunca tinha ouvido neste singular contexto. Por certo que eu conheço, leio e admiro dois dos mais proeminentes professores e escritores da Universidade de Brown, nomeadamente George Monteiro e Onésimo Teotónio Almeida (existem outros, mas são estes dois que me deram o prazer da sua proximidade pessoal e  intelectual), e que continuam hiper-activos nas suas intervenções literárias em tudo que nos diz respeito, inclusive as literaturas imigrantes e de luso-descendentes — uma outra razão que me levou também à leitura entusiasmada do volume aqui em questão.

Não seria de esperar entradas negativas neste tipo de livro, suponho, e o tom de linguagens aqui é um de saudade, agradecimento e homenagem à Universidade de Brown e a muitos outros professores e docentes em várias áreas de estudo, a recordação dos anos mais quietos aos mais turbulentos quando a revolução veio para rua nos anos 60, sobressaindo então a abertura académica, literária e intelectual de uma instituição que nasceu ligada a uma das igrejas protestantes, sendo desde há muito privada, dependente acima de tudo do generoso mecenato dos seus antigos alunos mais bem sucedidos e conscientes da “dívida” ante a sua alma mater, que no caso desta universidade chega a 2,7 milhões de dólares em reservas (financial endowments). É quase herético falar de dinheiro, mas a intenção aqui é demasiado óbvia, deliberada – tal qual procedem em “agradecimentos” os nossos ricos “nacionais” perante as instituições que os educaram, ou então educaram os seus filhos e filhas. A “abertura” da Brown caracteriza-se por uma postura académico-intelectual única, sem nunca ter deixado de ser também, à semelhança das outras universidades da rede elitista e ultra-exigente da Ivy League, quem sempre acolheu os alunos originários das mais ricas e respeitadas famílias, como os Kennedy, entre muitas outras. O que mais persistentemente mencionam estes escritores nos seus ensaios é o chamado Novo Currículo/New Curriculum, que em 1969 a universidade implementaria antes de outros. Essencialmente, os alunos tinham/têm de fazer um tronco comum de cadeiras na sua área principal de estudos, mas depois estão livres para escolher a seu belo prazer, gosto e interesse superior qualquer outra disciplina optativa. Um físico-químico ou arquitecto, eis um exemplo, poderia muito bem inscrever-se numa cadeira de escrita criativa, história, literatura, algumas vezes só após a permissão do professor ou um exame de acesso para garantir o sucesso de qualquer aluno a pedir entrada, e ainda mais a opção de a nota ser simplesmente passa/chumba para que a sua média nas áreas obrigatórias não fosse afectada, facilitando e motivando ainda mais os seus alunos a abrir o leque de conhecimentos gerais. O afecto com que falam todos estes escritores é de quem sabe muito bem que sem o ensino superior as suas vidas pouco significariam, e diga-se também em tom de alerta que a menoridade intelectual não andava nem anda por aqui – a universidade e os seus cursos nas Humanidades não eram vistos como mera agência de emprego ou ascensão social, o que viria a acontecer ipso facto, de qualquer modo, mas sim como fonte de cidadania e formação aprofundada e sobretudo para enriquecimento e pura curiosidade intelectual destes alunos.

Entre todos estes nomes com obra publicada após os anos da Brown, estão dois que também têm  um lugar destacado aqui em casa – Edwidge Danticat, nascida no Haiti e imigrada na América desde os 12 anos de idade, hoje autora de vários romances e de outra escrita (The Farming of the Bones e Create Dangerously: The Immigrant Artist at Work), tendo recebido alguns dos mais prestigiados prémios literários nacionais, incluíndo o National Book Critics Circle Award; o já aqui mencionado Rick Moody (Garden State e Purple America), quem a Adelaide lia em êxtase na nossa sala, tem cinco romances publicados e outros volumes de contos e ensaios, agora professor na New York University e Yale, também ele largamente premiado ao longo dos anos. Apontei estes dois nomes neste espaço limitado para também relembrar que a Brown tem na sua população estudantil alunos de todo o mundo e do seu país, cada um deles recebendo a formação que procurou,  devolvendo agora um comovido obrigado à universidade que nunca os falhou nem faltou, e que eles devolvem ainda, com igual seriedade e gratidão, estes gestos de civilidade, este respeito pela academia que lhes preparou para a realização profissional, para a sua felicidade pessoal, esta que foi a sua via para os seus contributos humanísticos e artísticos numa sociedade tão exigente e meritocrática como a americana.

“A minha mãe – escreve Edwidge Danticat – ofereceu uma vez no Natal ao seu patrão, um gerente de fábrica, o meu primeiro romance, – Breath, Eyes, Memory – o romance que eu concluí na Brown, o romance que mais tarde seria seleccionado pelo Oprah’s Book Club… Tenho levado algum tempo a descodificar a mensagem que os meus pais me enviaram ao oferecer os meus livros – que de algum modo algumas das minhas promessas assim como as deles, as que dizem respeito ao rumo da minha vida, eram as mesmas”.

Por certo que uma universidade (nem mesmo as da Ivy League) não é nem poderia ser uma fábrica de sonhos. Que é uma instituição que no seu melhor determina a qualidade e o nível de uma sociedade moderna, está fora de questão. Esquecemos frequentemente que uma sociedade bem formada não dispensa nunca os seus professores, os seus escritores, os seus intelectuais pertencentes a todas as classes profissionais liberais, quer tenham voz pública ou não. A Universidade de Brown é um desses espaços privilegiados há dois séculos e meio. Não seria má ideia que alguns dos nossos próprios alunos também dessem o seu testemunho de como a instituição que frequentaram – e viveram – lhes ofereceu o que mais ninguém poderia oferecer, uma educação formal, a abertura de caminhos diversos para a sua realização ou, como no caso de Danticat, dos seus sonhos, sim.

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The Brown Reader: 50 Writers Remember College Hill (edited by Judy Sternlight), New York, NY, Simon & Schuster, 2014. A tradução do passo citado do ensaio de Edwidge Danticat, “My Honorary Degree and the Factory Foreman”, é da minha responsabilidade.

 

 

 

Mítica e identidade num grande romance brasileiro

Capa Barba Ensopada de Sangue...Um mito carrega uma verdade de algum tipo, por mais obscura que seja, sobre os desafios e os significados da vida

Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue

 

                                               Vamberto Freitas

Uma originalidade da chamada lusofonia: alguns dos periódicos portugueses parecem publicar recensões (entrevistas são uma outra questão, por oportunismo algumas vezes, por justiça pura outras) só a livros que estejam à venda nos bairros imediatos de onde saem as ditas folhas. Ao leitor sério resta só um caminho: fazer de conta que nada disto acontece, e procurar por qualquer meio o que ler, quando e como. Seja como for, eu sabia da existência de Daniel Galera e do prestígio de que a sua obra passou a desfrutar desde o início, com a publicação de Dentes Guardados (2001), sabendo também que outro romance seu, Cordilheira, (2008) tinha recebido o Prémio Machado de Assis e sido finalista do Prémio Jabuti, o mais cobiçado do seu país. Barba Ensopada de Sangue, foi lançado recentemente – finalmente, pois quase toda a obra do autor está traduzida noutros países — pela editora Quetzal, que entre nós começa a incluir alguma literatura brasileira, a clássica e a das gerações mais recentes. Não perdemos nada pela demora, com este e outros autores da nova geração do outro lado do Atlântico.

Quando se tem a liberdade de lermos só o que gostamos, queremos ou escolhemos por qualquer outra razão intelectual, as prendas são como esta – Barba Ensopada de Sangue é uma narrativa de grande fôlego que simultaneamente regressa ao passado e enfrenta o seu presente, tendo como temática a busca ou redefinição da identidade pessoal (e colectiva) do seu protagonista sem nome num fundo societal da pequena vila balnear de Garopaba, do estado de Santa Catarina (sim, existe e está no mapa), com o resto do Brasil sub-entendido ao longe. Para um leitor açoriano, parece a grande parte destas páginas serem sobre nós: vila de pescadores e baleeiros, de surfistas e de outros sem rumo nem destino, tudo insinuando a um leitor destas ilhas que foi mais um dos nossos esconderijos salvíficos e regeneradores em séculos passados, a cara e os nomes dos e das descendentes de açorianas mencionadas num ou noutro passo. “A voz dela é macia e sibilante – diz o narrador a certa altura – como a de outras nativas com quem conversou, inclusive dona Cecina. Talvez seja característica das açorianas”. Daniel Galera é natural de Porto Alegre, e foi aluno de escrita criativa do grande escritor e professor Luiz António de Assis Brasil (o brasileiro que mais sabe de cultura e literatura açorianas) na Pontifícia Universidade Católica daquela cidade, a que ostenta o maior monumento aos povoadores saídos do nosso arquipélago e fundadores civilizacionais nas terras distantes a que os levou o Atlântico. Nada disso, no entanto, tem a mínima importância na narrativa aqui, mas faz-nos lembrar que existimos para além de nós próprios, que um dia nos reinventamos noutra gente, sem nunca termos caído no esquecimento absoluto desse facto histórico. A violência insinuada do título é também dupla, mas muito mais interior do que corporal, um regresso em busca de um tempo passado e de uma figura perdida na memória de uma contemporaneidade agora sem regras, representada ora por pescadores que atingiriam o seu prazo de validade profissional e modo de vida, ora de uma nova geração dissipada entre o estímulo químico de toda a natureza e o cultivo suado e acéfalo do corpo (parece) sem alma. Desculpe o grande autor se isto lhe ofende: a melhor literatura do Novo Mundo veio também sempre das margens geo-históricas das suas geografias e culturas, das batalhas reais e metafóricas dos que, pertencendo a um todo, têm sempre de reafirmar a sua existência. A sua arte é universal nesse e noutros sentidos – associo logo o sul do Brasil (até com as suas guerras violentas, dramáticas, marcantes das páginas principais da sua história) ao sul dos Estados Unidos. Dos nossos recantos escondidos e esquecidos (não é de modo nenhum o caso desta parte do Brasil), vemos muito além dos “bairros” feitos cidades centrais a que dizem pertencermos e que nos governam, avistamos por necessidade e curiosidade o resto mundo, falamos obsessivamente de nós e do que pensamos ser os outros, de todos os outros. Retirem a grande literatura destas supostas periferias, e imaginem como ficariam decepados os cânones ditos “nacionais”.

Barba Ensopada de Sangue retoma o que já estava esquecido na cultura literária das recentes décadas loucas – a grande narrativa que junta a família, agora sempre dispersa e, como sempre, desavinda, à trama que nunca deixa de ser provocada pela sociedade em volta. A literatura foi sempre isto, o indivíduo à procura do seu lugar, ou de lugar nenhum, mas sem nunca esquecer nem o passado nem o seu rumo presente, o seu interiorismo muito particular liberto ou aprisionado pela génese das suas origens. O protagonista sem nome vai desvendar a sorte tornada mito assustador do avô paterno, de nome Gaudério, que se havia refugiado em Gorapaba e levado uma vida de rebeldia anti-social, o protagonista procurando por todos os lados o rumor e a “verdade” da sua morte às mãos da comunidade durante um baile comunitário. Ninguém quer falar dele, todos rejeitam o neto ou quem quer que pronuncie o nome do velho tido como morto ou fantasma vingativo, mesmo sem saber quem é ou que pretende, quando ele faz qualquer pergunta sobre o assunto. Estamos nos anos da reconstrução estrutural e cívica do Brasil – só que persiste o país real, a alma de todo um povo. Em Garapoba coexistem a modernidade com o primitivismo quase genético da sua gente. Para além do que parecem mudanças e corridas em frente num mundo de telemóveis e todo o resto da suposta globalização, permanece e espreita viva e consequente da história. A poucos passos de uma qualquer auto-estrada moderna fica o outro lado, a humanidade literalmente numa caverna ou debaixo das árvores, com todas as consequências que isso implica. Esse outro reduto é revisitado e olhado pelo protagonista na sua obsessão de saber quem é numa linha descendente ou clarificadora da sua própria humanidade lesada. Poderá não o conseguir, mas o destino final, como diria o outro, é o caminho percorrido. Eis algo diferente neste romance: o amor entre homem e mulher aconteceu e acontece, movimenta mesmo a própria narrativa, as escolhas de vida, os momentos de felicidade e (des)ilusão de que são sempre feitos e vividos. Aliás, o encerramento de Barba Ensopada de Sangue tem tudo a ver com esse impulso do coração humano: no amor a redenção, na redenção a paz possível de cada um. É um romance de passagens soberbas, nos quais toda a tradição convive com a modernidade literária, a grande história colectiva insinuada tal como é relembrado todo um referencial cultural e existencial de quem nasceu já nos anos da grande e abrangente revolução cultural do Ocidente, na qual o Brasil se tornou um dos mosaicos artísticos distintos, especialmente na música e nas letras. Depois dessa “longa” viagem pelo seu mais íntimo ser e pelo território em que por acaso nasceu e o destino agora o segura, não poderá, ninguém poderá, voltar mais a casa, lembrando aqui outro grande escritor do modernismo sulista americano, Thomas Wolfe. Volta, isso sim, ao seu próprio ser, pelo menos na linguagem que lhe dá expressão.

“Não se sente – conclui o narrador nas últimas páginas do romance – voltando para casa. Jasmim [outra personagem na corda bamba que havia regressado às suas origens em Porto Alegre, com quem ele manteve um curto relacionamento amoroso] tinha se equivocado a esse respeito. Ele não pertence a esse lugar. Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é fácil saber em qual dos dois estamos”.

Barba Ensopada de Sangue é um desses grandes romances de impulso universalista muito pouco comuns no que há poucos anos, e talvez ainda hoje, passava ou ainda passa por pós-modernismo literário. A sua grande qualidade, no entanto, vem da sua habilidade em conjugar tudo o que a grande ficção foi criando ao longo dos tempos, e que Daniel Galera incorpora com a maior naturalidade e fluência. A sua linguagem é tão precisa e ao mesmo tempo tão polissémica que levará o leitor a pensar que absorveu tudo logo à primeira leitura mas depois será tentado a reler determinados passos, pela sua beleza e sobretudo para se dar plenamente conta da fina ironia das suas palavras, ou de uma imagem que passa a metáfora do todo do que aqui se pensa e se faz, ou não se faz. É um romance, apesar do seu movimento em direcção a uma resolução qualquer, da imobilidade dos seus personagens no meio da vertigem em que se tornaram os nossos dias e afazeres rumo ao nada e a nenhures.

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Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue, Lisboa, Quetzal Editores, 2014.