Mítica e identidade num grande romance brasileiro

Capa Barba Ensopada de Sangue...Um mito carrega uma verdade de algum tipo, por mais obscura que seja, sobre os desafios e os significados da vida

Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue

 

                                               Vamberto Freitas

Uma originalidade da chamada lusofonia: alguns dos periódicos portugueses parecem publicar recensões (entrevistas são uma outra questão, por oportunismo algumas vezes, por justiça pura outras) só a livros que estejam à venda nos bairros imediatos de onde saem as ditas folhas. Ao leitor sério resta só um caminho: fazer de conta que nada disto acontece, e procurar por qualquer meio o que ler, quando e como. Seja como for, eu sabia da existência de Daniel Galera e do prestígio de que a sua obra passou a desfrutar desde o início, com a publicação de Dentes Guardados (2001), sabendo também que outro romance seu, Cordilheira, (2008) tinha recebido o Prémio Machado de Assis e sido finalista do Prémio Jabuti, o mais cobiçado do seu país. Barba Ensopada de Sangue, foi lançado recentemente – finalmente, pois quase toda a obra do autor está traduzida noutros países — pela editora Quetzal, que entre nós começa a incluir alguma literatura brasileira, a clássica e a das gerações mais recentes. Não perdemos nada pela demora, com este e outros autores da nova geração do outro lado do Atlântico.

Quando se tem a liberdade de lermos só o que gostamos, queremos ou escolhemos por qualquer outra razão intelectual, as prendas são como esta – Barba Ensopada de Sangue é uma narrativa de grande fôlego que simultaneamente regressa ao passado e enfrenta o seu presente, tendo como temática a busca ou redefinição da identidade pessoal (e colectiva) do seu protagonista sem nome num fundo societal da pequena vila balnear de Garopaba, do estado de Santa Catarina (sim, existe e está no mapa), com o resto do Brasil sub-entendido ao longe. Para um leitor açoriano, parece a grande parte destas páginas serem sobre nós: vila de pescadores e baleeiros, de surfistas e de outros sem rumo nem destino, tudo insinuando a um leitor destas ilhas que foi mais um dos nossos esconderijos salvíficos e regeneradores em séculos passados, a cara e os nomes dos e das descendentes de açorianas mencionadas num ou noutro passo. “A voz dela é macia e sibilante – diz o narrador a certa altura – como a de outras nativas com quem conversou, inclusive dona Cecina. Talvez seja característica das açorianas”. Daniel Galera é natural de Porto Alegre, e foi aluno de escrita criativa do grande escritor e professor Luiz António de Assis Brasil (o brasileiro que mais sabe de cultura e literatura açorianas) na Pontifícia Universidade Católica daquela cidade, a que ostenta o maior monumento aos povoadores saídos do nosso arquipélago e fundadores civilizacionais nas terras distantes a que os levou o Atlântico. Nada disso, no entanto, tem a mínima importância na narrativa aqui, mas faz-nos lembrar que existimos para além de nós próprios, que um dia nos reinventamos noutra gente, sem nunca termos caído no esquecimento absoluto desse facto histórico. A violência insinuada do título é também dupla, mas muito mais interior do que corporal, um regresso em busca de um tempo passado e de uma figura perdida na memória de uma contemporaneidade agora sem regras, representada ora por pescadores que atingiriam o seu prazo de validade profissional e modo de vida, ora de uma nova geração dissipada entre o estímulo químico de toda a natureza e o cultivo suado e acéfalo do corpo (parece) sem alma. Desculpe o grande autor se isto lhe ofende: a melhor literatura do Novo Mundo veio também sempre das margens geo-históricas das suas geografias e culturas, das batalhas reais e metafóricas dos que, pertencendo a um todo, têm sempre de reafirmar a sua existência. A sua arte é universal nesse e noutros sentidos – associo logo o sul do Brasil (até com as suas guerras violentas, dramáticas, marcantes das páginas principais da sua história) ao sul dos Estados Unidos. Dos nossos recantos escondidos e esquecidos (não é de modo nenhum o caso desta parte do Brasil), vemos muito além dos “bairros” feitos cidades centrais a que dizem pertencermos e que nos governam, avistamos por necessidade e curiosidade o resto mundo, falamos obsessivamente de nós e do que pensamos ser os outros, de todos os outros. Retirem a grande literatura destas supostas periferias, e imaginem como ficariam decepados os cânones ditos “nacionais”.

Barba Ensopada de Sangue retoma o que já estava esquecido na cultura literária das recentes décadas loucas – a grande narrativa que junta a família, agora sempre dispersa e, como sempre, desavinda, à trama que nunca deixa de ser provocada pela sociedade em volta. A literatura foi sempre isto, o indivíduo à procura do seu lugar, ou de lugar nenhum, mas sem nunca esquecer nem o passado nem o seu rumo presente, o seu interiorismo muito particular liberto ou aprisionado pela génese das suas origens. O protagonista sem nome vai desvendar a sorte tornada mito assustador do avô paterno, de nome Gaudério, que se havia refugiado em Gorapaba e levado uma vida de rebeldia anti-social, o protagonista procurando por todos os lados o rumor e a “verdade” da sua morte às mãos da comunidade durante um baile comunitário. Ninguém quer falar dele, todos rejeitam o neto ou quem quer que pronuncie o nome do velho tido como morto ou fantasma vingativo, mesmo sem saber quem é ou que pretende, quando ele faz qualquer pergunta sobre o assunto. Estamos nos anos da reconstrução estrutural e cívica do Brasil – só que persiste o país real, a alma de todo um povo. Em Garapoba coexistem a modernidade com o primitivismo quase genético da sua gente. Para além do que parecem mudanças e corridas em frente num mundo de telemóveis e todo o resto da suposta globalização, permanece e espreita viva e consequente da história. A poucos passos de uma qualquer auto-estrada moderna fica o outro lado, a humanidade literalmente numa caverna ou debaixo das árvores, com todas as consequências que isso implica. Esse outro reduto é revisitado e olhado pelo protagonista na sua obsessão de saber quem é numa linha descendente ou clarificadora da sua própria humanidade lesada. Poderá não o conseguir, mas o destino final, como diria o outro, é o caminho percorrido. Eis algo diferente neste romance: o amor entre homem e mulher aconteceu e acontece, movimenta mesmo a própria narrativa, as escolhas de vida, os momentos de felicidade e (des)ilusão de que são sempre feitos e vividos. Aliás, o encerramento de Barba Ensopada de Sangue tem tudo a ver com esse impulso do coração humano: no amor a redenção, na redenção a paz possível de cada um. É um romance de passagens soberbas, nos quais toda a tradição convive com a modernidade literária, a grande história colectiva insinuada tal como é relembrado todo um referencial cultural e existencial de quem nasceu já nos anos da grande e abrangente revolução cultural do Ocidente, na qual o Brasil se tornou um dos mosaicos artísticos distintos, especialmente na música e nas letras. Depois dessa “longa” viagem pelo seu mais íntimo ser e pelo território em que por acaso nasceu e o destino agora o segura, não poderá, ninguém poderá, voltar mais a casa, lembrando aqui outro grande escritor do modernismo sulista americano, Thomas Wolfe. Volta, isso sim, ao seu próprio ser, pelo menos na linguagem que lhe dá expressão.

“Não se sente – conclui o narrador nas últimas páginas do romance – voltando para casa. Jasmim [outra personagem na corda bamba que havia regressado às suas origens em Porto Alegre, com quem ele manteve um curto relacionamento amoroso] tinha se equivocado a esse respeito. Ele não pertence a esse lugar. Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é fácil saber em qual dos dois estamos”.

Barba Ensopada de Sangue é um desses grandes romances de impulso universalista muito pouco comuns no que há poucos anos, e talvez ainda hoje, passava ou ainda passa por pós-modernismo literário. A sua grande qualidade, no entanto, vem da sua habilidade em conjugar tudo o que a grande ficção foi criando ao longo dos tempos, e que Daniel Galera incorpora com a maior naturalidade e fluência. A sua linguagem é tão precisa e ao mesmo tempo tão polissémica que levará o leitor a pensar que absorveu tudo logo à primeira leitura mas depois será tentado a reler determinados passos, pela sua beleza e sobretudo para se dar plenamente conta da fina ironia das suas palavras, ou de uma imagem que passa a metáfora do todo do que aqui se pensa e se faz, ou não se faz. É um romance, apesar do seu movimento em direcção a uma resolução qualquer, da imobilidade dos seus personagens no meio da vertigem em que se tornaram os nossos dias e afazeres rumo ao nada e a nenhures.

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Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue, Lisboa, Quetzal Editores, 2014.

 

 

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