Brown University, ou uma alma mater da criatividade literária e artística americana

Capa The Brown Reader

Coordenar esta antologia deu-me a oportunidade de colaborar com um extraordinário grupo  de escritores e artistas criativos cujos ensaios convidam-nos a ver o mundo – e a Brown – pelos seus olhos durante as últimas décadas.

Judy Sternlight, The Brown Reader

 

                            Vamberto Freitas

 

Eis algumas das razões que me levam a escrever sobre este livro, que de início poderá parecer  irrelevante para o que me traz habitualmente a estas páginas. Primeiro, porque é um livro singular nas suas intenções e propósitos, e que eu gostaria de o ver imitado por estas bandas; segundo, porque saiu da universidade mais próxima de nós quanto ao seu pioneirismo em estudos luso-brasileiros e, acima de tudo, no que nos concerne directamente, açorianos; terceiro, porque a boa escrita nunca precisa de justificações para prender a nossa atenção, especialmente quando inclui alguns nomes na literatura norte-americana que abordaram e abordam sempre a experiência imigrante nos EUA, e mesmo que nós portugueses estejamos ausentes destas páginas, a não ser quando Rick Moody menciona o fado português no seu ensaio. Dito isto, vamos ao essencial: The Brown Reader: 50 Writers Remember College Hill, organizado por Judy Sternlight, é um volume substancial em tamanho e nomes que celebra os 250 anos da Universidade de Brown, uma das melhores do mundo. São ensaios, poemas, teatro e até banda desenhada que relembram o facto de todos estes ecritores terem passado pelas suas salas de aula, particularmente as de escrita criativa, aqui também ministrada ou acompanhada muito antes de outras instituições, muito antes de outras universidades se tornarem conhecidas naquele país pelos mesmos cursos. De resto, foi nesta universidade que o grande pós-modernista John Hawkes formou várias gerações de escritores, assim como Robert Coover (que já participou em encontros literários no nosso país), este um outro grande mestre do romance contemporâneo de língua inglesa, e que felizmente ainda lá continua a fazer valer a literatura num tempo em que o mundo só parece querer falar em números saídos do Wall Street. Tenho aqui em casa, por necessidade e admiração, alguns dos livros destes dois escritores, mas ler agora também estes antigos alunos sobre as suas aulas e oficinas de escrita de onde saíram para depois se projectarem a nível nacional foi como que uma inesperada viagem por corredores que eu nunca tinha conhecido (a não ser como visitante a amigos e colegas), e ouvir o eco das vozes  de Hawkes e de Coover, consagradas e magistrais, que eu nunca tinha ouvido neste singular contexto. Por certo que eu conheço, leio e admiro dois dos mais proeminentes professores e escritores da Universidade de Brown, nomeadamente George Monteiro e Onésimo Teotónio Almeida (existem outros, mas são estes dois que me deram o prazer da sua proximidade pessoal e  intelectual), e que continuam hiper-activos nas suas intervenções literárias em tudo que nos diz respeito, inclusive as literaturas imigrantes e de luso-descendentes — uma outra razão que me levou também à leitura entusiasmada do volume aqui em questão.

Não seria de esperar entradas negativas neste tipo de livro, suponho, e o tom de linguagens aqui é um de saudade, agradecimento e homenagem à Universidade de Brown e a muitos outros professores e docentes em várias áreas de estudo, a recordação dos anos mais quietos aos mais turbulentos quando a revolução veio para rua nos anos 60, sobressaindo então a abertura académica, literária e intelectual de uma instituição que nasceu ligada a uma das igrejas protestantes, sendo desde há muito privada, dependente acima de tudo do generoso mecenato dos seus antigos alunos mais bem sucedidos e conscientes da “dívida” ante a sua alma mater, que no caso desta universidade chega a 2,7 milhões de dólares em reservas (financial endowments). É quase herético falar de dinheiro, mas a intenção aqui é demasiado óbvia, deliberada – tal qual procedem em “agradecimentos” os nossos ricos “nacionais” perante as instituições que os educaram, ou então educaram os seus filhos e filhas. A “abertura” da Brown caracteriza-se por uma postura académico-intelectual única, sem nunca ter deixado de ser também, à semelhança das outras universidades da rede elitista e ultra-exigente da Ivy League, quem sempre acolheu os alunos originários das mais ricas e respeitadas famílias, como os Kennedy, entre muitas outras. O que mais persistentemente mencionam estes escritores nos seus ensaios é o chamado Novo Currículo/New Curriculum, que em 1969 a universidade implementaria antes de outros. Essencialmente, os alunos tinham/têm de fazer um tronco comum de cadeiras na sua área principal de estudos, mas depois estão livres para escolher a seu belo prazer, gosto e interesse superior qualquer outra disciplina optativa. Um físico-químico ou arquitecto, eis um exemplo, poderia muito bem inscrever-se numa cadeira de escrita criativa, história, literatura, algumas vezes só após a permissão do professor ou um exame de acesso para garantir o sucesso de qualquer aluno a pedir entrada, e ainda mais a opção de a nota ser simplesmente passa/chumba para que a sua média nas áreas obrigatórias não fosse afectada, facilitando e motivando ainda mais os seus alunos a abrir o leque de conhecimentos gerais. O afecto com que falam todos estes escritores é de quem sabe muito bem que sem o ensino superior as suas vidas pouco significariam, e diga-se também em tom de alerta que a menoridade intelectual não andava nem anda por aqui – a universidade e os seus cursos nas Humanidades não eram vistos como mera agência de emprego ou ascensão social, o que viria a acontecer ipso facto, de qualquer modo, mas sim como fonte de cidadania e formação aprofundada e sobretudo para enriquecimento e pura curiosidade intelectual destes alunos.

Entre todos estes nomes com obra publicada após os anos da Brown, estão dois que também têm  um lugar destacado aqui em casa – Edwidge Danticat, nascida no Haiti e imigrada na América desde os 12 anos de idade, hoje autora de vários romances e de outra escrita (The Farming of the Bones e Create Dangerously: The Immigrant Artist at Work), tendo recebido alguns dos mais prestigiados prémios literários nacionais, incluíndo o National Book Critics Circle Award; o já aqui mencionado Rick Moody (Garden State e Purple America), quem a Adelaide lia em êxtase na nossa sala, tem cinco romances publicados e outros volumes de contos e ensaios, agora professor na New York University e Yale, também ele largamente premiado ao longo dos anos. Apontei estes dois nomes neste espaço limitado para também relembrar que a Brown tem na sua população estudantil alunos de todo o mundo e do seu país, cada um deles recebendo a formação que procurou,  devolvendo agora um comovido obrigado à universidade que nunca os falhou nem faltou, e que eles devolvem ainda, com igual seriedade e gratidão, estes gestos de civilidade, este respeito pela academia que lhes preparou para a realização profissional, para a sua felicidade pessoal, esta que foi a sua via para os seus contributos humanísticos e artísticos numa sociedade tão exigente e meritocrática como a americana.

“A minha mãe – escreve Edwidge Danticat – ofereceu uma vez no Natal ao seu patrão, um gerente de fábrica, o meu primeiro romance, – Breath, Eyes, Memory – o romance que eu concluí na Brown, o romance que mais tarde seria seleccionado pelo Oprah’s Book Club… Tenho levado algum tempo a descodificar a mensagem que os meus pais me enviaram ao oferecer os meus livros – que de algum modo algumas das minhas promessas assim como as deles, as que dizem respeito ao rumo da minha vida, eram as mesmas”.

Por certo que uma universidade (nem mesmo as da Ivy League) não é nem poderia ser uma fábrica de sonhos. Que é uma instituição que no seu melhor determina a qualidade e o nível de uma sociedade moderna, está fora de questão. Esquecemos frequentemente que uma sociedade bem formada não dispensa nunca os seus professores, os seus escritores, os seus intelectuais pertencentes a todas as classes profissionais liberais, quer tenham voz pública ou não. A Universidade de Brown é um desses espaços privilegiados há dois séculos e meio. Não seria má ideia que alguns dos nossos próprios alunos também dessem o seu testemunho de como a instituição que frequentaram – e viveram – lhes ofereceu o que mais ninguém poderia oferecer, uma educação formal, a abertura de caminhos diversos para a sua realização ou, como no caso de Danticat, dos seus sonhos, sim.

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The Brown Reader: 50 Writers Remember College Hill (edited by Judy Sternlight), New York, NY, Simon & Schuster, 2014. A tradução do passo citado do ensaio de Edwidge Danticat, “My Honorary Degree and the Factory Foreman”, é da minha responsabilidade.

 

 

 

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