Um homem de vários mundos

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  Vamberto Freitas é um acadêmico, mas antes de tudo, um pensador, um homem de seu tempo, o qual é múltiplo, pleno de convergências, divergências e transversalidades éticas e estéticas. Enquanto muitos se refugiam sob a cinzenta teoria, aliás, já condenada  por nada menos que Tzvetan Todorov em La Littérature en péril, as melhores mentes críticas – e aí está Vamberto Freitas – preferem enfrentar as ousadias da originalidade e do chão virgem, construindo um corpus respeitabilíssimo, em que a tônica é a lucidez para entender na plenitude cultural as obras sobre as quais lança seu olhar.

Seu tema preferencial é a análise crítica de obras da lusitanidade, na medida em que se imbricam com a açorianidade literária e os assuntos de emigração. Tem bons antecedentes neste ramo, e é responsável por mais de uma dezena de livros, a maioria editada pela saudosa Salamandra, e que se tornaram indicações obrigatórias ao estudante, ao professor, ao ensaísta e ao público.  

 Quero-me referir aos dois últimos lançamentos de Vamberto Freitas, ambos com o mesmo título: BorderCrossings: Leituras Transatlânticas [1] e 2, saídos em 2012 e 2014, respectivamente. O título [e seu exato subtítulo, sobre o qual já falaremos] é desde logo um programa: trata-se de um conjunto de estudos literários que anulam as  fronteiras políticas, linguísticas, culturais. Compõem-no dezenas de textos anteriormente saídos em veículos periódicos em que o autor lida com as realidades complexas e cruzadas daquilo que podemos chamar de literatura da lusofonia açoriana numa perspectiva transgeográfica, transcultural e rigorosamente hodierna. É propósito ambicioso? Por certo, mas não faltou talento e sabedoria  a Vamberto Freitas para levar a bom porto a tarefa.

Gostava de sublinhar o subtítulo, que não está ali por nada. “leituras transatlânticas” firma duas instâncias: a primeira, a do leitor – trata-se de uma obra que lê outras obras, implícito aí o termo judicativo, em se tratando de notório ensaísta; a segunda instância é a do alvo: são obras que varam o Atlântico, isto é, que estabelecem uma relação dialógica entre povos e continentes que partilham nosso idioma, em especial, vivem o jogo de influências recíprocas que se passam no bojo do literário.

Vou-me abster de qualquer pretensão de um estudo que desse conta integral da obra; contudo é inevitável descrevê-la em suas diferentes partes, para que o leitor saiba o que irá ler. Depois de uma análise do que escrevem os  luso-descendentes nos Estados Unidos, fato que levou a cabo na obra Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado do espelho [2010], Vamberto Freitas, agora, tem um projeto que, embora trabalhe com alguns temas comuns àquela obra, é dividido, pelo mesmo autor – aqui numa visão de ambos os volumes – em algumas partes, a saber: “Em casa nos Açores” [textos em que as ilhas estão presentes como lugar vivido e imaginado, pelo autor e por outros]; “Memórias do Brasil” [diversos tópicos sobre o País e sua literatura]; “A diáspora em mim” [como o título diz, são diversos temas relacionados à diáspora açoriana, a partir do exame de obras essenciais e na medida em que têm significado para o autor, daí o pronome]; “Literatura e açorianidade” [em que a atenção do autor volta-se para o tema que, se foi mais forte há algumas décadas, ainda permanece como algo a ser lembrado]; “Diáspora e Literatura” [aqui, de novo a diáspora, mas numa perspectiva a mostrar o dialogismo dessa literatura com as outras, inclusive as continentais]; “Imaginários americanos” [Obviamente, trata da literatura norte-americana, mas sempre dentro de uma perspectiva pessoal] e, por fim, “Brasil próximo e distante” [discorre sobre as aproximações e afastamentos de ambas literaturas, predominando a primeira vertente].

É possível, no correr das páginas, descobrir alguns eixos que dominam BorderCrossings. Claro que essa tarefa de Sherlock sempre será redutora, pois uma obra com tal refinamento intelectual não tem esses eixos em estado puro: sempre estarão a mesclar-se com outros; contudo, penso ter identificado algumas das preocupações ali presentes, algumas já anunciadas.

 O leitor descobre um foco singular de leitura do mundo, e que, a alguns cérebros, poderá ser perturbador, pela novidade que instaura no rol dos conhecimentos culturais estruturados. É um foco “ex-cêntrico” [para tomar emprestado o termo de Linda Hutcheon], como se o leitor descobrisse que Copérnico errou, e que a Terra pode gravitar em torno de outros sois, diferentes do nosso astro quotidiano. E este Sol, para seguirmos na imagem, são os Açores. O locus de onde fala Vamberto Freitas; este é, sempre e declaradamente, os Açores: Do meu lugar aqui nos Açores... [Vol. I, p. 107]. Esta identificação do espaço enunciativo constitui, talvez, uma das fortes e originais afirmações de natureza identitária e, por que não, cultural e estética. Por que os Açores? Não vamos pelo óbvio, que seria lembrar a “nacionalidade” de Vamberto Freitas; essa afirmação autoral é muito mais: constitui um bem-vindo atrevimento numa época em que as regionalidades parecem desaparecer em meio à voragem universalista [ou mundialista, mais acuradamente]. Quero dizer: o autor não se incomoda nem um pouco em assumir essa “regionalidade” nem perde seu tempo em justificá-la, e isso porque seu ângulo de visada dirige-se ao passado, ao presente e projeta alguns futuros; ao mesmo tempo, foca as ilhas, mas todas as fronteiras que essas mesmas ilhas ultrapassam, variando sua rosa dos ventos para todos os espaços em que a lusitanidade [e não só] persiste como fenômeno cultural e linguístico. Dissemos antes que sua atenção volta-se vida de regra, para os Açores, mas ao pensar sobre os Açores, pensa sobre o mundo, pois se os Açores são sua base originária, ele sabe dar-lhes o matiz da metáfora, e, com isso, confere-lhes uma abrangência universal.

O que alguns [poucos, felizmente] míopes confundiriam com provincianismo é, entretanto, o esplendor de uma ensaística plena, que conhece os movimentos centrípetos, que chamam à terra e suas circunstâncias, mas sabe também dos movimentos centrífugos, vale dizer, do que a cultura açoriana projeta de qualidade e vitalidade a todo o lado em que é projetada – bem como seus epígonos, suas influências e seu legado, mormente na voz dos luso-açor-descendentes. Essa perspectiva açoriana encontramos exemplificado quando Vamberto Freitas detém-se em textos de autores básicos dos Açores da modernidade, como Fernando Aires, Natália Correia, Rui Victor Dores, Eduíno de Jesus, Daniel de Sá, Urbano Bettencourt, Onésimo Almeida, Álamo Oliveira, inter alia, nomes perfeitamente conhecidos e consagrados. Com isso, Vamberto Freitas põe uma pá de cal sobre as especulações, às vezes maliciosas, quase sempre equivocadas, que possam existir em torno de uma literatura que, de há muito, adquiriu o status constitutivo de um corpo com densidade estética e identidade visível.

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*Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Brasil. Este execerto faz parte de um longo ensaio sobre o mesmo livro aqui em foco.

Vamberto Freitas, borderCrossings: leituras transatlânticas II, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2014.