O divino desassossego

Capa o tempo e a rendaentendo hoje que as perdas são exílios e as chegadas o teu abraço modulado em carne e suspiros de leite.

Isabel Mendes Ferreira, o tempo é renda

Vamberto Freitas

Espero que o título deste meu texto não leve o leitor a assumir o que não é, ou do que se trata aqui. Nem as minhas palavras nem as da autora de o tempo é renda (as minúsculas são sempre dela, com raríssimas excepões), Isabel Mendes Ferreira, significam desordem ou qualquer comoção, a não ser a do seu mais íntimo interior, que ela nos vai desvendando em prosa e poesia pouquíssimo comuns entre escritores e poetas nossos. Citar Isabel será um dos maiores problemas de um recenseador, rara é a frase curta e lapidar dela que não nos apetece reproduzir de imediato. Em mais de duzentas páginas de texto, não encontrarão muitas palavras que não estejam “carregadas” (loaded words, na linguagem gramatical americana) de significados ora precisos ora polissémicos em muitos dos contextos ao longo da narrativa sequencial que se torna, sem o parecer, este livro-romance. Não encontrarão ruído meramente literário ou enfeite lexical numa obra de alta arte literária, como é esta em discussão aqui. Lembremos outro facto demasiado comum em muitas culturas para além da nossa, essas em que a literatura também ainda goza, mesmo que só entre círculos reduzidos de leitores sérios, de alguma ressonância, consequência, apreciação crítica e aparente disseminação ou valorização: existem escritores que quase toda a vida permanecem numa espécie de penumbra literária, mas que são também, alguns deles, escritores de culto (nem sempre estas palavras terão um mau sentido) entre os seus leitores, que sabem que a sua escrita é essencial à literatura, e sabem que são lidos por outros escritores, passando a um estatuto, para mim, invejável – escritor de escritores/writers’ writer. Desculpem os estrangeirismos aqui, que desculparei do mesmo modo a insolência provinciana que frequentemente toma conta de meia dúzia de iluminados sustentados por certos galões, ou pelas suas circunstâncias acidentais ou de amizades na nossa imprensa generalista, e mesmo especializada. No prefácio de todo esclarecedor a o tempo é renda, e contextualizante da restante obra da sua autora, Cecília Barreira, da Universidade Nova de Lisboa, alude a estes fenómenos literários entre nós, que permanecem à espera que o tempo os vá disseminando entre os que os merecem, e deles saberão tirar proveito, pelo menos prazer, no momento de descoberta e reconhecimento. Vale a pena recordar aqui que, desde os anos 90, Isabel Mendes Ferreira tem sido lida e comentada por outros escritores, como Casimiro de Brito, Manuel Fernandes Alves, Isabel Victor, Luiz Pires dos Reyes, António Alçada Batista e David Mourão Ferreira.

O tempo é renda não é o único livro de Isabel Mendes Ferreira que tenho nas minhas estantes, mas é o primeiro cuja força temática, estética e formalismo estrutural, que vai ou combina brilhantemente o eu dos românticos oitocentistas aos pós-modernistas dos nossos dias, esses que reinventaram outros modos de dizer, de rever-se e de rever o mundo em volta, me leva a uma certa tentativa de interpretação, certamente a aventurar publicamente o que nele me é precioso, e na literatura o que nos comove torna-se parte do nosso ser (eis a consequência maior da grande literatura), torna-se noutro espelho de alma que simultaneamente nos apresenta à sua autora nos seus momentos mais íntimos ou de comunicação serenamente devastadora enquanto nos faz rever os nosso mais secretos sentimentos e pensamentos em relação a nós próprios e perante os que nos são significantes, a sociedade encurralada que é a nossa e por isso muito mais do que uma mera abstração. Ler Isabel – já o escrevi noutra parte – é entrar, assim, em tudo o que somos, ou no que ela é ou gostava de ser, quando já não tem mais desejo para o resto, o resto de tudo. As suas palavras não são só poesia ou prosa, poderão ser, e são, as duas coisas juntas. São a essência do ser nos seus momentos mais humanos, durante os quais a nossa retirada para dentro nunca parece um acto de egoísmo, ou a teatralidade, tão ao gosto de certos escritores “citadinos” nossos, de um existencialismo inventado, mas sim o lamento musical do que nunca se é, o amor e a volúpia do encontro com o outro são os instantes nas nossas vidas que nos criam e fornecem, depois, a única memória perpétua daquilo que mais queríamos ou queremos, e que nos foge sempre. A escritora combina esse intimismo confessional, quase dirigido a outro ou a outra, ou então comunicando-nos num fluxo de consciência sereno mas sempre penetrante no que poderá ser a universalidade do sentir do coração humano, do que sentimos ante nós próprios e ante os outros. O que me leva aqui ao outro lado de o tempo é renda – longe de permanecer fechada numa redoma de pensamento ou sofrimento, a autora convoca quase incessantemente alguns dos mais memoráveis nomes da literatura mundial, e muito especialmente europeia, desde a antiguidade até à época da nossa modernidade. Em suma, por entre o que nos poderá parecer um intimismo radical em muito dos passos neste magnífico e sustentado mergulho na consciência da escritora, nunca se esquece a presença do outro, a comunhão, como quem diz, de afectos e aproximações-outras.

“sempre que muda a extensão do corpo submerso muda a morte do tempo. assim como se fosse uma idade fictícia e um sopro inominável ambivalente e navegação suicidante. coisas do destino da água que é encontro e despedida bandeira sangrante e instrumento de todos os monólogos. subterrânea linha do áspero e do misterioso. somos a memória proliferante que de Borges a Verlaine nos redesenha o grito. sempre que muda o verbo mudamos o renascimento. e daqui é que sou coincidente estrada e vadia. evado-me em arcos e em rupturas de veludo salgado doente adoecido de eufrates e de tréguas. vou à frente buscar o passado. ave a pique de asas cortadas”.

O tempo é renda está estruturado em entradas numeradas, de um ou mais parágrafos, sem data, como também se de diário íntimo e intelectual se tratasse, como se, uma vez mais, de um outro género de romance se tratasse. Os riscos e a ausência de maiúsculas – Isabel Mendes Ferreira evoca logo a outra senhora da nossa literatura mais ou menos diarística, mais ou menos fragmentada numa imitação da vida que é a nossa, Maria Gabriela Llansol – que a autora utiliza no início e entre frases tanto poderão significar silêncios gritantes como deixando para o leitor mais atento o preenchimento que aí devia figurar, evitando todo e qualquer ruído retórico e vazio. Se “o tempo é renda”, a filigrana labiríntica e cósmica da vida humana, esta escrita não é um rendilhado, tão ao gosto de certos escritores barrocos que aqui e ali ainda estão presentes entre nós, raramente atingindo a grandeza dos verdadeiros mestres, como José Saramago. Cada palavra, nesta prosa, nesta poesia, ou “significa” ou então nunca a encontramos, cada atropelo às regras da linguagem só enriquece o que já é uma nítida declaração ou observação, ou então são como que essenciais à rítmica de cada nota nesta prolongada sonata verbal.

Por fim, deixem-me citar, num gesto de leitor agradecido, uma recente intervenção meditativa no suplemento literário do The New York Times Book Review, dos escritores Adam Kirsch e Dana Stevens, intitulada “Should Literature Be Considered Useful/Deve a Literatura ser Considerada Útil?” Não será necessário aqui especular sobre a resposta, quando são dois praticantes a dissertar sobre o tema. Que a pergunta, numa cidade tão literária como Nova Iorque, é já preciso ser feita, isso sim, denota que algo na sociedade ocidental e seus “valores” em mutação, ou supressão, aconteceu e já não sabemos com clareza o lugar que aí vem para a literatura séria, outrora no centro das nossas culturas nacionais e transnacionais. Adam Kirsch, no entanto, sintetizou tudo em duas linhas claríssimas, relembrando uma “evolução” em curso rumo ao consumidor acéfalo de coisas na sociedade dos “mercados” e parceiros afins: “O saber que a literatura na realidade nos fornece para a vida – escreve – não será para aquela vida que [William] Woodsworth ridicularizou como sendo devota do “adquirir e gastar”, mas sim para uma segunda vida de regresso ao nosso ser e à nossa imaginação”.

O que “aprendemos” com a literatura – com as artes em geral – não aprendemos com mais nada nem mais ninguém. Eis aí a justificação única da literatura mais séria, na qual se inclui este novo livro de Isabel Mendes Ferreira.

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Isabel Mendes Ferreira, o tempo é renda, Lisboa, labirinto de letras editores, 2014.

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Postscriptums, ou as consequências da ancestralidade dupla

Cal State, FullertonDe que tens mais saudades na Califórnia?

Millicent Borges Accardi, numa entrevista a ser publicada em inglês nos Estados Unidos sobre a nossa “experiência” americana

Vamberto Freitas

Poderia ter respondido – de tudo, tenho saudades de tudo, neste momento, muito especialmente da sua largueza de espaço, segurança, e sobretudo sentido de cidadania. Da seriedade das suas instituições públicas, do humanismo (não há qualquer ironia aqui) com que se regem as relações profissionais e institucionais. Só que a entrevista era quase exclusivamente sobre questões culturais e literárias nos dois lados do Atlântico, particularmente sobre a emergente literatura luso-descendente naquele país, e o que isso poderá significar para a nossa memória colectiva, caso as futuras gerações ainda reconheçam “textos”, e saibam o que fazer com eles. Acho que saberão, apesar da paranoia em volta das tecnologias e do seu papel já quotidiano nas nossas vidas. Disse-me alguém um dia naquelas paragens que, quando abandonamos um território-pátrio depressa esquecemos as grandes questões, e lembramos quase só os que nos pareciam então os mais insignificantes momentos das nossas vidas. Creio estar de acordo. Como adolescente e depois como adulto na América eram precisamente essas lembranças que mais me comoviam quando pensava nas ilhas. Hoje, acontece-me o mesmo, só que ao contrário. Regressemos aqui a um dos temas em foco – de que sinto mais saudades na Califórnia? De espaço, disse a Borges Accardi, poeta de descendência terceirense e italiana, como indica o seu nome, uma das dinamizadoras de um grupo de escritores e intelectuais que se auto-denominam Kale Soup for the Soul/Sopa de Couve Para a Alma, expressão que pretende homenagear tudo quanto está associado à sua ancestralidade, e não haverá melhor metáfora do que o cheiro da cozinha dos seus avós portugueses e das histórias que nesses momentos eles passavam aos que tinham este país, estas ilhas, só como lugar mítico, cuja grandeza de alma levada para lá poderia até diminuir o tamanho do continente americano. Disse-lhe mais. Tenho saudades de me meter no meu carro a partir de Los Angeles e conduzir na madrugada a alta velocidade serpenteando as montanhas e planícies da mítica autoestrada 99 até Tulare, no Vale de São Joaquim, onde vive a maior parte da minha família imediata. Tenho saudades das melhores livrarias de Orange County ou nas redondezas de Los Angeles, muito especialmente no Westwood onde me passeava em certos sábados à noite, indo a estreias dos filmes produzidos ali a dois passos, ou entrando nas suas livrarias com mesas gigantescas cheias de primeiras edições excedentes, quase sempre a melhor literatura americana e mundial por ser a que menos vendia, naturalmente. Tenho saudades de me passear no campus lindo da minha alma mater, California State University, em Fullerton, e sentar-me no seu jardim a ler uma revista ou simplesmente a olhar os outros passeando-se, livros debaixo do braço e sorrisos no coração nos dias da primavera e do verão californianos. A sociedade portuguesa vive actualmente num estado de depressão extrema, e quase não avistamos uma saída deste pântano económico e financeiro. O único pensamento ou raio de esperança que nos mantém a funcionar no dia-a-dia é saber, relembrar, que Portugal tem quase novecentos anos de existência, e que temos sobrevivido historicamente a um Estado governado por muitos políticos incompetentes e alguns banqueiros corruptos e gananciosos, todos sem vergonha. Pois. Tenho saudades do tal pequeno almoço cheio de colesterol que eu comia nos restaurantes de estrada à beira da 99, depois de descer as montanhas de Los Angeles, e logo antes de chegar a Bakersfield, outrora retratada na grande obra de John Steinbeck.

Os meus regressos a este passado quase se reduzem agora à literatura, que os meus colegas e amigos da Diáspora continuam a produzir na língua portuguesa, lado a lado com a já fulgurante escrita luso-descendente, de que tenho falado em muitos outros textos. A Millicent perguntou-me também se de facto já “existia” essa literatura, ou melhor, se existia já em quantidade que forme um corpus literário substancial. Acredito que sim, e não serei o único. Não se poderá – disse-lhe – falar em números de livros para se definir um “cânone”, mas desde os anos 90 até hoje a nossa produção literária nos Estados Unidos tem-se desenvolvido a ritmo apreciável, e de qualidade inquestionável. Por certo que isto será uma apreciação subjectiva, como são todas as apreciações por parte dos críticos. Sim, existe agora todo um corpo literário que se distingue por um fio temático contínuo – a experiência luso-descendente de se ser um filho ou filha, incluindo até as gerações mais afastadas das suas raízes em todo o nosso país, espalhadas pelo continente e pelas ilhas, de uma pátria-outra. Para além disso, quase todos esses escritores luso-descendentes, em prosa, poesia ou noutras formas, fazem chamamentos artísticos múltiplos às suas histórias e memórias ancestrais. Quanto à literatura luso-americana constituir um cânone à parte, sim e não. Como todos sabemos, toda a literatura americana, desde o seu início, está ricamente “enquadrada” num grande mosaico humano ou étnico: anglo-americano, irlandês-americano, afro-americano, hispano-americano, judeu-americano, literatura sulista, etc. Mesmo assim, eles, ou quase todos eles, integram-se no cânone dito nacional da literatura americana, tal como é demonstrado, por exemplo, na The Heath Anthology of American Literature, na qual está presente uma indiana-americana premiada, Bharati Mukherjee, uma grande amiga de Katherine Vaz, e notemos aqui as ligações que acabam por ser muito importantes na eventual “legitimação” de qualquer escrita. Não haverá outro país no mundo que possa gabar-se de tal diversidade e riqueza literária. A literatura luso-americana tem de se promover até chegar a um futuro de maior “abertura”, até que os futuros responsáveis por essas publicações, de certo modo decisivas, incluam os nossos escritores. Temos estado muito distantes destes objectivos culturais, mas acredito firmemente que lá chegaremos, apesar de certas atitudes históricas que teremos de vencer entre eles, e de que já falei noutra parte.

De resto, quando abordamos outros temas ainda ligados aos nossos mundos transatlânticos, menciono alguns dos nomes que para mim sempre foram e são referências obrigatórias, cada um no seu contexto e circunstâncias históricas e pessoais. Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Eugénio Lisboa, Onésimo T. Almeida, Urbano Bettencourt, João de Melo, Eduardo Lourenço, Almeida Faria, entre outros e outras. Reparem que quase todos têm algo em comum, e que afecta sumamente as suas abordagens temáticas, na ficção e poesia, no ensaísmo e no teatro – foram, são, ou imaginam-se estrangeirados, pertencem à minha nação peregrina e cosmopolita. Do Brasil, na actualidade, tenho de destacar Luiz António de Assis Brasil pela sua escrita que, na beleza constante das suas palavras, recria a história do seu país, lançando de quando em quando um olhar ao passado açoriano, aos fundadores de duas grandes cidades no hemisfério sul, Florianópolis e Porto Alegre. Não pretendo aqui uma listagem completa, longe disso, só nomes exemplificativos do muito que me move e comove como leitor dentro e foras das ilhas.

Um texto “significante”, e que explique, em parte, a razão dessa escolha? Para mim poderia ser “Em Creta Com o Minotauro”, de Jorge de Sena. Este é um dos melhores poemas da “imigração” alguma vez escrito na língua portuguesa. Contém nos seus versos todos os temas, todas as ansiedades sofridas por quem, voluntária ou involuntariamente, se tornou estranho em terra estranha, onde bandeiras e hinos pouco dizem ao seu coração. Trata-se de um poema ferozmente anti-nacionalista, e por isso mesmo patriótico, no melhor sentido da palavra: apego a uma língua e a tudo de bom que ela representa no mundo, assim como solidariedade com todos os que também se tornaram os outros em qualquer parte do mundo, e sobreviveram com coragem e dignidade. Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,/se usam e se deitam fora, com todo o respeito/necessário a roupa que se veste e que prestou serviço./Eu sou eu mesmo a minha pátria (…).

Jorge de Sena, ele que foi imigrante, ou “exilado”, como querem alguns, no Brasil e nos EUA, não só resumia toda a nossa história, como profeticamente previa o rumo que já então a meados do século passado se definia e era pressentido pelos mais conscientes conhecedores do Vazio para onde já nos empurravam os donos do mundo.

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Este texto reproduz em parte uma extensa conversa que mantive com a poeta Millicent Borges Accardi (autora de Injuring Eternity), a ser publicada, sob o título “Portuguese-American Literature and the Consequences of Dual Ancestry”, numa revista americana interuniversitária,

O mundo, tal como sempre foi

Capa A Máquina do MundoSem Emily, eu voltava a girar em torno da morte, da tortura, do êxtase da violência mais íntima; o sofrimento de alguém diante da nossa impiedade.

Paulo José Miranda, A Máquina Do Mundo

Vamberto Freitas

Não é uma história de amor, mas também poderia ser. Não é um romance político ou ideológico, mas também poderia ser. Não é um romance sobre terrorismo na definição clássica da palavra ou conceito, mas também poderia ser. Não é um romance sobre a criminalidade internacional actual, mas também poderia ser. Não sendo inteiramente nem uma coisa nem outra, é tudo isso, e algo mais. Poeta e romancista que ainda há poucos anos publicou Filhas, um romance que chamei num outro texto de “açor-brasileiro” pelo seu fundo catarinense e pela temática e história de uma família das ilhas que para aí emigra e depois regressa às origens, n’A Máquina do Mundo Paulo José Miranda continua numa outra inusitada aventura ficcional, especialmente para um autor de língua portuguesa – um homem e uma mulher levam a cabo qualquer acção mortífera ante um indivíduo, grupo ou mesmo país a pago seja de quem for, a causa ou os motivos das suas acções de nenhuma importância para nenhum deles, a não ser a vingança de actos passados, que podem ou não excluir vingança pessoal. Esta é ficção pura, mas espelhando a “realidade”, a maior das vezes inexplicável, nas primeiras páginas dos jornais ou nos telejornais. Ler este romance nos dias de verão de 2014 que acabam de passar, com meio mundo a arder em guerra ou a cair de doença, é como que entrar numa sala de horrores disfarçada de um carnaval de mau gosto, ou de uma daquelas casas funestas e misteriosas de invenção fílmica hollywodesca. Uma imaginação sem limites virada para um mundo contemporâneo quiçá muitíssimo pior do que qualquer ficção do género (como foi o caso das Torres Gémeas, em 2001) levanta em todos os seus passos uma outra questão que nunca deixou de estar ligada à arte literária: a ética do artista vendo e absorvendo um mundo que lhe parece, em absoluto, anti-ético, as acções humanas tão indiferentes a noções do Bem e do Mal como a tempestade anunciada que faz voar casas e enterrar vidas. Paulo José Miranda foi o autor a vencer a primeira edição do Prémio José Saramago, com um outro romance sob o título de – Natureza Morta.

Por certo que um romance como este aqui em foco nunca poderia ter sido escrito por um autor sem experiência directa e profunda de mais mundo para além do nosso pequeno e (felizmente) quieto país, por mais imaginativo que seja. A Máquina do Mundo não nos oprime com informação de qualquer de tipo, mas a inferência de um narrador viajado e vivido noutros países e noutras culturas enforma todo e qualquer cenário destas páginas. Um romance irrequieto e de grande movimento geográfico (Chipre, Turquia, Hong Kong, Macau, Singapura e Brasil) requer um autor igualmente irrequieto. Nascido em meados dos anos 60, o escritor cedo viveu na Turquia (uma escolha pouco habitual, mesmo entre um povo peregrino como o nosso, que sempre optou por destinos bem diferentes), regressou por algum tempo a Portugal, e já em 2005 abalava para o Brasil, onde hoje vive, creio que por entre as viagens de travessias atlânticas entre estes seus dois países de língua e afectos. Trata-se aqui de um romance quase parodiante de um certo pós-modernismo literário no seu último fôlego, ao mesmo tempo que se torna uma metáfora séria e muito bem construída do “real” em que vivemos. O seu brilhantismo narrativo vem de outro feito adentro do género: funciona ainda como uma paródia feroz a quase todos esses temas, desde o “revisionismo” histórico da nossa época a questões de identidade ou identidades nacionais e “étnicas”, assim como a certos valores pretensamente “revolucionários”. Se esse postulado formal de muita literatura nas últimas décadas levou-nos quase sempre a reimaginar o passado colectivo das comunidades que servem como referentes a ficções diversas, a fragmentação sócio-política total acontece lado a lado com a suposta busca e afirmação, uma vez mais, de identidades de grupos nacionais, tendo, assim, como corolário, a queda ou o descrédito absoluto das instituições que outrora regulavam, governavam, as nossas vidas tanto em democracia como nas piores opressões políticas ditatoriais. A Máquina do Mundo não faz juízos de valor, não toma partido por sistema algum, rejeita ou ignora opções ideológicas de qualquer natureza, e vai um pouco mais além – a violência como arma inevitável e ubíqua na vida de todos os países, quer seja praticada a nível de pura criminalidade de rua, como no Brasil que o narrador chama para as suas páginas quando fala da cidade de São Paulo e das suas quadrilhas ordinárias, ou a violência levada a cabo nas conspirações entre as máfias profissionais que traficam em tudo, desde a venda de armamentos a órgãos humanos, como na China desta ficção, a visão aqui é absolutamente apocalíptica. Os únicos dois personagens-protagnistas deste romance (quase todos os outros não têm face nem história, só a morte como consequência dos seus afazeres subterrâneos) são agentes terroristas livres ao serviço de quem pagar mais, o turco de Istambul, Turker, e a irlandesa Emily, conhecida por Ulisses, como se a sua vida fosse uma espécie de regresso após determinadas descobertas, levando ao Nada, por certo levando a uma morte anunciada, inevitável. O seu amor maior é a prática da violência, que nos parece vir ora das suas vidas passadas e circunstâncias pessoais, ora do ressentimento de abusos de toda a espécie, ou então estamos perante uma geração nascida e formada por entre a contínua violência sempre presente em disputas seculares, como na caso de Chipre e a sua divisão de alma e território, ou a Irlanda a ferro e fogo no norte da ilha. A cama torna-se, do mesmo modo, esses espaço de prazer puro e de batalha lúdica, não de amor mas de sexo sem amarras, o momento que poderá nunca mais ser repetido e que nunca deixa de ser representativo da mesma euforia de torturar e matar, ou da dor doce dos amantes desencontrados em tudo o resto, do amor e da harmonia impossíveis no inferno em que escolheram ou foram forçados a entrar, esse que é o seu mundo todo, interior e exterior, e em que eles agora actuam por força e gosto “profissionais”.

“A Roménia – relata Turker, sempre na primeira pessoa, neste passo demasiado ilustrativo da ‘matança’ perpétua que nos rodeia – está devastada economicamente. Os valores são os da sobrevivência e pouco mais. Faz-se tudo e de tudo para se obter algum dinheiro. Raparigas e jovens mulheres são colocadas num campo de concentração nos arredores de Timisoara, a caminho da cidade sérvia de Zrenjanin, que fica a poucos quilómetros desse centro de terror, onde elas são espancadas, violadas, sodomizadas até se compenetrarem de que têm de fazer tudo o que lhes pedirem… Do mesmo modo que esses homens vivem de aumentar a degradação do ser humano, nós vivemos de matá-lo com a qualidade e a exigência que nos for pedida e o montante que nos for pago… O campo de concentração de carne de salto alto foi completamente destruído por Ulisses. Mas isso não chega sequer a ser digno de menção, embora o método o seja, sem sombra de dúvida”.

Este é um romance absolutamente irónico e anti-violência, que no seu realismo gráfico e exagerado de tortura e morte, na sua narração em discurso directo e abrangente nas suas inferências quanto ao estado do nosso mundo e às origens atávicas do modo como a humanidade sobrevive e se impõe através da “autoridade” que lhe trazem a faca e a espingarda nos seus estádios mais primitivos ou modernos (o perigo nuclear está também relembrado nesta ficção), levará o leitor mais atento a digerir cada instante da narrativa como que olhando um quadro de cores escuras e transfigurador dos piores momentos e atrocidades de guerra ou atentados à dignidade de qualquer ser humano, a representação que nos repugna mas nos agarra na sua eloquência e – por que não? – beleza. Que faz a arte, em qualquer uma das suas muitas formas, se não tentar captar toda a dimensão da vida humana, na sua bondade e maldade?

A Máquina do Mundo vem numa edição “artística” com estas mesmas características, traz uma capa e outras ilustrações a preto e branco no seu interior, é um belo livro-objecto. Naturalmente, são também representações de tudo o que atrás ficou dito neste texto. Desde o nosso primitivismo animalesco mais recuado até à nossa avançada modernidade, fica um espaço a meio, ora branco ora cinzento e nublado, como em cada uma destas pinturas. É precisamente aí onde cai ou se decidem a comédia e o drama que é estarmos vivos, ou de tentarmos permanecer vivos – contra a vontade de uns e pelo amor de outros.

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Paulo José Miranda, A Máquina do Mundo (capa e ilustrações de André Carrilho), Abysmo, Lisboa, 2014.

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Memórias do que nunca vivemos

Capa Passagem Para LisboaTão abundantes eram as notícias sobre Lisboa em 1940 e 1941, que inevitavelmente se catapultaram das histórias dos jornais e dos artigos das revistas para o cinema e a literatura.

Ronald Weber, Passagem Para Lisboa

                                                              Vamberto Freitas

Não foi um verão normal, este de 2014. Por entre todas as incertezas da vida num protectorado pertencente a uma Europa determinada em não se consertar, a humidade das ilhas ia-nos afogando em águas vivas e quentes, e nas angústias de cada cidadão que não consegue perceber o que dele ou dela é esperado, para além de sofrer os humores dos “mercados” vários que o escravizam no dia-a-dia, ou na incerteza de um horizonte cada vez mais afastado e nebuloso. A morte andou à solta, já não poupa ninguém, as guerras agora são sempre totais, os civis, incluindo crianças, velhos e doentes, não têm outro estatuto que não o de fazerem parte do “inimigo”. Não foi só em Gaza ou no “Califado” mortífero bem ao lado. A Europa e a Euroásia mostram os dentes novamente numa continuidade histórica que torna o continente, nas palavras de certos historiadores, “selvagem”, nessa luta perpétua por território vital e em nome de identidades imaginárias, a doença também deflagrada em África trazendo-nos todos os dias às nossas salas os suplícios de quem nos pede ajuda e esperança. Enquanto esperamos pelo Nada anunciado por todos os poderes à nossa volta, um olhar ao passado, longínquo ou recente, não nos traz qualquer ponto de luz, só nos avisa que sempre foi assim, ou pior. Eis aqui um optimista, repetindo o dito popular – poderia ser pior ainda, como já o foi em épocas que permanecem na memória de alguns que estão vivos, e sofreram directamente esses tempos de fogo e inferno.

Não faço, nunca fiz, leituras ditas de verão. Olho aqui ao amontoado de livros na minha secretária e só vejo os que me esperam desde há meses, organizados por temas ou questões teóricas. Um deles li e sublinhei: Passagem Para Lisboa: A vida boémia e clandestina dos refugiados da Europa nazi, do escritor americano Ronald Weber, que já leccionou em universidades portuguesas sob programas especiais de intercâmbio, especializado em certa literatura do seu país (Hemingway’s Art of Non-Fiction e The Midwestern Ascendency in American Writing), publicando ainda nalgumas das mais selectivas revistas literárias universitárias norte-americanas. Como se sabe, Lisboa virou moda ascendente entre milhões de turistas letrados e menos letrados, fazendo parecer que a publicidade negativa dos últimos anos, quanto a questões económicas e financeiras, despertou a curiosidade dos vizinhos europeus e de outros vindos de bem mais longe. Lisboa, devemos lembrar, foi sempre muito mais do que uma antiga capital de entrada e saída para o resto do continente. especialmente durante os repetidos tempos de grandes guerras, das tentativas sem fim de subjugar todos os seus povos a um só poder. Lisboa fascina os estrangeiros pela sua habilidade de se colocar tanto no centro das atenções de todos como na periferia dos acontecimentos que abalam o resto do mundo. A II Guerra Mundial continua a ser analisada e interpretada por um grande número de historiadores e escritores em geral, palco privilegiado que foi da guerra silenciosa das palavras e conspirações. Cidade-refúgio por excelência, estranhamente os beligerantes continentais quase que assinam um protocolo declarando e garantindo Lisboa como centro de sobrevivência e ameno espectáculo humano. Por entre uma população a viver miseravelmente sob a ditadura salazarista mas livre do holocausto no outro lado da sua porta, por entre os milhares de judeus em fuga rumo a uma América então relutantemente empenhada na salvação dos perseguidos, por entre os tipos de gabardina e óculos escuros que viraram arquétipos no cinema e na literatura e se encarregavam de tentar descodificar as intenções dos inimigos das suas pátrias, Lisboa tornava-se, como escreveria nas suas memórias o jornalista e historiador americano William Shirer (The Rise and Fall of the Third Reich), o último lugar onde as luzes ainda brilhavam, o último lugar no infeliz continente europeu onde a humanidade ainda conservava todos os seus velhos hábitos de bem-estar e convivência. Não é pouco, isto que fascina alguns dos melhores escritores ocidentais: escrevem, vindos do norte, sobre a alegria de voltar a ver uma cidade iluminada ou a tristeza, na sua partida, ao saber que era o último reduto de esperança fugido do blitzkrieg em curso no resto da Europa. Ando a ler estas narrativas “lisboetas” há algum tempo como quem quer saber como sobreviveram, aqui ao longe ou de perto, os seus pais e outros conterrâneos a estas conflagrações sem limites. Lisboa começava a ser representada nas artes em geral – cinema e literatura, especialmente – desde o início da guerra, o tal ponto luz, de intriga e sobrevivência no outro lado do inferno despoletado por todos os demónios da História. A lista, num volume como este Passagem Para Lisboa, é longa de mais, creio que o autor não deixa de fora um único artigo ou ensaio de jornal e revista do seu país, um único conto ou romance na cidade inspirados e localizados, um único filme ou canção, muito para além do mais famoso espião saído do Estoril, o 007 ao serviço d Sua Majestade, imaginado por Ian Fleming, que andava, ele próprio, à volta das mesas de jogo do Hotel Royal a ouvir sorreitaramente as conversas dos seus pares. Esta é uma narrativa fluente e construída em volta dos mais significantes acontecimentos e figuras que passaram por Lisboa naqueles anos, ou que influíram decididamente no rumo final da guerra.

“De Hollywood, – escreve Ronald Weber no mesmo passo de que tirei a epígrafe deste texto, e num capítulo significantemente intitulado ‘O Centro do Universo Ocidental’, ou seja, Lisboa – no verão de 1941, surgiu Uma Noite em Lisboa, uma comédia romântica ligeira, em que os apaixonados em tempo de guerra, interpretados por Fred MacMurray e Madeleine Carroll, escapavam à Londres bombardeada para um breve interlúdio de paz e abundância em Lisboa, para acabarem por se encontrar no meio de uma rede de espionagem nazi. Em Casablanca, que surgiu mais tarde no mesmo ano, Paul Henreid e Ingred Bergman limitavam-se a descolar em direção a Lisboa no final, mas mesmo isso só por si – e a grave voz do narrador no início – poderá ter dado um maior destaque internacional à rota de Lisboa que todos os anteriores relatos impressos. Um uso mais substancial, embora igualmente oblíquo, do tempo de guerra em Lisboa surgiu em ‘The Little Door’, um conto do escritor e crítico Mark Schorer, na The New Yorker, em Setembro de 1941. Aqui, tudo acontece na paz e segurança da América, com o frenético gargalo de refugiados de Liaboa como uma presença distante, mas, contudo, profundamente obsessiva”.

Ninguém lê ou pensa o passado num vácuo intelectual e geográfico – interessa-me sobremaneira nestas narrativas a palavra “Açores”, a sorte dos meus nesses “tempos escuros”, parafraseando Hannah Arendt. Acontece que li de seguida a grande biografia Salazar, de Filipe Ribeiro de Meneses, e reconfirmo tudo o que encontrei nestas e noutras páginas escritas por autores estrangeiros sobre Lisboa durante e depois da II Guerra Mundial – as ilhas açorianas estiveram sempre no centro de todas as movimentações secretas ou em aberto quanto ao papel de Portugal na resolução dos grandes conflitos europeus e mundiais. Não é um arquipélago tratado como interesse meramente colateral em tempo de guerra, e mesmo paz – é o centro de toda a diplomacia e valorização do nosso país na resolução dos grandes problemas conflituosos deste e dos outros continentes atlânticos a norte e a sul. Weber volta relembrar-nos que teriam sido os Açores a razão que levaria ou não Portugal a ser invadido, esmagado e ocupado pelo Eixo, particularmente nos últimos dois anos da guerra. Caso sofressem essa sorte, os aliados, como todos sabem, não confiavam na sua própria capacidade para defender o nosso país, e já treinavam forças secretas na sabotagem e na resistência, mudando todo o governo da república para os Açores, caso estas ilhas não sofressem uma invasão hitleriana antes da sua chegada.

Dado toda esta história pouco conhecida entre nós, fora dos habituais e reduzidos círculos académicos e de pouquíssima influência política no nosso país, a leitura desta e de outras narrativas por quem nos governa na actualidade ajudaria a perceber melhor o valor que uma pequena terra teve e poderá ter sempre num futuro ainda imprevisível. Pelo menos respeitariam um pouco mais as reivindicações mínimas que o povo açoriano tem feito na sua história mais recente.

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 Ronald Weber, Passagem Para Lisboa: A vida boémia e clandestina dos refugiados da Europa nazi, Clube do Autor, Lisboa, 2012.