Memórias do que nunca vivemos

Capa Passagem Para LisboaTão abundantes eram as notícias sobre Lisboa em 1940 e 1941, que inevitavelmente se catapultaram das histórias dos jornais e dos artigos das revistas para o cinema e a literatura.

Ronald Weber, Passagem Para Lisboa

                                                              Vamberto Freitas

Não foi um verão normal, este de 2014. Por entre todas as incertezas da vida num protectorado pertencente a uma Europa determinada em não se consertar, a humidade das ilhas ia-nos afogando em águas vivas e quentes, e nas angústias de cada cidadão que não consegue perceber o que dele ou dela é esperado, para além de sofrer os humores dos “mercados” vários que o escravizam no dia-a-dia, ou na incerteza de um horizonte cada vez mais afastado e nebuloso. A morte andou à solta, já não poupa ninguém, as guerras agora são sempre totais, os civis, incluindo crianças, velhos e doentes, não têm outro estatuto que não o de fazerem parte do “inimigo”. Não foi só em Gaza ou no “Califado” mortífero bem ao lado. A Europa e a Euroásia mostram os dentes novamente numa continuidade histórica que torna o continente, nas palavras de certos historiadores, “selvagem”, nessa luta perpétua por território vital e em nome de identidades imaginárias, a doença também deflagrada em África trazendo-nos todos os dias às nossas salas os suplícios de quem nos pede ajuda e esperança. Enquanto esperamos pelo Nada anunciado por todos os poderes à nossa volta, um olhar ao passado, longínquo ou recente, não nos traz qualquer ponto de luz, só nos avisa que sempre foi assim, ou pior. Eis aqui um optimista, repetindo o dito popular – poderia ser pior ainda, como já o foi em épocas que permanecem na memória de alguns que estão vivos, e sofreram directamente esses tempos de fogo e inferno.

Não faço, nunca fiz, leituras ditas de verão. Olho aqui ao amontoado de livros na minha secretária e só vejo os que me esperam desde há meses, organizados por temas ou questões teóricas. Um deles li e sublinhei: Passagem Para Lisboa: A vida boémia e clandestina dos refugiados da Europa nazi, do escritor americano Ronald Weber, que já leccionou em universidades portuguesas sob programas especiais de intercâmbio, especializado em certa literatura do seu país (Hemingway’s Art of Non-Fiction e The Midwestern Ascendency in American Writing), publicando ainda nalgumas das mais selectivas revistas literárias universitárias norte-americanas. Como se sabe, Lisboa virou moda ascendente entre milhões de turistas letrados e menos letrados, fazendo parecer que a publicidade negativa dos últimos anos, quanto a questões económicas e financeiras, despertou a curiosidade dos vizinhos europeus e de outros vindos de bem mais longe. Lisboa, devemos lembrar, foi sempre muito mais do que uma antiga capital de entrada e saída para o resto do continente. especialmente durante os repetidos tempos de grandes guerras, das tentativas sem fim de subjugar todos os seus povos a um só poder. Lisboa fascina os estrangeiros pela sua habilidade de se colocar tanto no centro das atenções de todos como na periferia dos acontecimentos que abalam o resto do mundo. A II Guerra Mundial continua a ser analisada e interpretada por um grande número de historiadores e escritores em geral, palco privilegiado que foi da guerra silenciosa das palavras e conspirações. Cidade-refúgio por excelência, estranhamente os beligerantes continentais quase que assinam um protocolo declarando e garantindo Lisboa como centro de sobrevivência e ameno espectáculo humano. Por entre uma população a viver miseravelmente sob a ditadura salazarista mas livre do holocausto no outro lado da sua porta, por entre os milhares de judeus em fuga rumo a uma América então relutantemente empenhada na salvação dos perseguidos, por entre os tipos de gabardina e óculos escuros que viraram arquétipos no cinema e na literatura e se encarregavam de tentar descodificar as intenções dos inimigos das suas pátrias, Lisboa tornava-se, como escreveria nas suas memórias o jornalista e historiador americano William Shirer (The Rise and Fall of the Third Reich), o último lugar onde as luzes ainda brilhavam, o último lugar no infeliz continente europeu onde a humanidade ainda conservava todos os seus velhos hábitos de bem-estar e convivência. Não é pouco, isto que fascina alguns dos melhores escritores ocidentais: escrevem, vindos do norte, sobre a alegria de voltar a ver uma cidade iluminada ou a tristeza, na sua partida, ao saber que era o último reduto de esperança fugido do blitzkrieg em curso no resto da Europa. Ando a ler estas narrativas “lisboetas” há algum tempo como quem quer saber como sobreviveram, aqui ao longe ou de perto, os seus pais e outros conterrâneos a estas conflagrações sem limites. Lisboa começava a ser representada nas artes em geral – cinema e literatura, especialmente – desde o início da guerra, o tal ponto luz, de intriga e sobrevivência no outro lado do inferno despoletado por todos os demónios da História. A lista, num volume como este Passagem Para Lisboa, é longa de mais, creio que o autor não deixa de fora um único artigo ou ensaio de jornal e revista do seu país, um único conto ou romance na cidade inspirados e localizados, um único filme ou canção, muito para além do mais famoso espião saído do Estoril, o 007 ao serviço d Sua Majestade, imaginado por Ian Fleming, que andava, ele próprio, à volta das mesas de jogo do Hotel Royal a ouvir sorreitaramente as conversas dos seus pares. Esta é uma narrativa fluente e construída em volta dos mais significantes acontecimentos e figuras que passaram por Lisboa naqueles anos, ou que influíram decididamente no rumo final da guerra.

“De Hollywood, – escreve Ronald Weber no mesmo passo de que tirei a epígrafe deste texto, e num capítulo significantemente intitulado ‘O Centro do Universo Ocidental’, ou seja, Lisboa – no verão de 1941, surgiu Uma Noite em Lisboa, uma comédia romântica ligeira, em que os apaixonados em tempo de guerra, interpretados por Fred MacMurray e Madeleine Carroll, escapavam à Londres bombardeada para um breve interlúdio de paz e abundância em Lisboa, para acabarem por se encontrar no meio de uma rede de espionagem nazi. Em Casablanca, que surgiu mais tarde no mesmo ano, Paul Henreid e Ingred Bergman limitavam-se a descolar em direção a Lisboa no final, mas mesmo isso só por si – e a grave voz do narrador no início – poderá ter dado um maior destaque internacional à rota de Lisboa que todos os anteriores relatos impressos. Um uso mais substancial, embora igualmente oblíquo, do tempo de guerra em Lisboa surgiu em ‘The Little Door’, um conto do escritor e crítico Mark Schorer, na The New Yorker, em Setembro de 1941. Aqui, tudo acontece na paz e segurança da América, com o frenético gargalo de refugiados de Liaboa como uma presença distante, mas, contudo, profundamente obsessiva”.

Ninguém lê ou pensa o passado num vácuo intelectual e geográfico – interessa-me sobremaneira nestas narrativas a palavra “Açores”, a sorte dos meus nesses “tempos escuros”, parafraseando Hannah Arendt. Acontece que li de seguida a grande biografia Salazar, de Filipe Ribeiro de Meneses, e reconfirmo tudo o que encontrei nestas e noutras páginas escritas por autores estrangeiros sobre Lisboa durante e depois da II Guerra Mundial – as ilhas açorianas estiveram sempre no centro de todas as movimentações secretas ou em aberto quanto ao papel de Portugal na resolução dos grandes conflitos europeus e mundiais. Não é um arquipélago tratado como interesse meramente colateral em tempo de guerra, e mesmo paz – é o centro de toda a diplomacia e valorização do nosso país na resolução dos grandes problemas conflituosos deste e dos outros continentes atlânticos a norte e a sul. Weber volta relembrar-nos que teriam sido os Açores a razão que levaria ou não Portugal a ser invadido, esmagado e ocupado pelo Eixo, particularmente nos últimos dois anos da guerra. Caso sofressem essa sorte, os aliados, como todos sabem, não confiavam na sua própria capacidade para defender o nosso país, e já treinavam forças secretas na sabotagem e na resistência, mudando todo o governo da república para os Açores, caso estas ilhas não sofressem uma invasão hitleriana antes da sua chegada.

Dado toda esta história pouco conhecida entre nós, fora dos habituais e reduzidos círculos académicos e de pouquíssima influência política no nosso país, a leitura desta e de outras narrativas por quem nos governa na actualidade ajudaria a perceber melhor o valor que uma pequena terra teve e poderá ter sempre num futuro ainda imprevisível. Pelo menos respeitariam um pouco mais as reivindicações mínimas que o povo açoriano tem feito na sua história mais recente.

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 Ronald Weber, Passagem Para Lisboa: A vida boémia e clandestina dos refugiados da Europa nazi, Clube do Autor, Lisboa, 2012.

 

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