O mundo, tal como sempre foi

Capa A Máquina do MundoSem Emily, eu voltava a girar em torno da morte, da tortura, do êxtase da violência mais íntima; o sofrimento de alguém diante da nossa impiedade.

Paulo José Miranda, A Máquina Do Mundo

Vamberto Freitas

Não é uma história de amor, mas também poderia ser. Não é um romance político ou ideológico, mas também poderia ser. Não é um romance sobre terrorismo na definição clássica da palavra ou conceito, mas também poderia ser. Não é um romance sobre a criminalidade internacional actual, mas também poderia ser. Não sendo inteiramente nem uma coisa nem outra, é tudo isso, e algo mais. Poeta e romancista que ainda há poucos anos publicou Filhas, um romance que chamei num outro texto de “açor-brasileiro” pelo seu fundo catarinense e pela temática e história de uma família das ilhas que para aí emigra e depois regressa às origens, n’A Máquina do Mundo Paulo José Miranda continua numa outra inusitada aventura ficcional, especialmente para um autor de língua portuguesa – um homem e uma mulher levam a cabo qualquer acção mortífera ante um indivíduo, grupo ou mesmo país a pago seja de quem for, a causa ou os motivos das suas acções de nenhuma importância para nenhum deles, a não ser a vingança de actos passados, que podem ou não excluir vingança pessoal. Esta é ficção pura, mas espelhando a “realidade”, a maior das vezes inexplicável, nas primeiras páginas dos jornais ou nos telejornais. Ler este romance nos dias de verão de 2014 que acabam de passar, com meio mundo a arder em guerra ou a cair de doença, é como que entrar numa sala de horrores disfarçada de um carnaval de mau gosto, ou de uma daquelas casas funestas e misteriosas de invenção fílmica hollywodesca. Uma imaginação sem limites virada para um mundo contemporâneo quiçá muitíssimo pior do que qualquer ficção do género (como foi o caso das Torres Gémeas, em 2001) levanta em todos os seus passos uma outra questão que nunca deixou de estar ligada à arte literária: a ética do artista vendo e absorvendo um mundo que lhe parece, em absoluto, anti-ético, as acções humanas tão indiferentes a noções do Bem e do Mal como a tempestade anunciada que faz voar casas e enterrar vidas. Paulo José Miranda foi o autor a vencer a primeira edição do Prémio José Saramago, com um outro romance sob o título de – Natureza Morta.

Por certo que um romance como este aqui em foco nunca poderia ter sido escrito por um autor sem experiência directa e profunda de mais mundo para além do nosso pequeno e (felizmente) quieto país, por mais imaginativo que seja. A Máquina do Mundo não nos oprime com informação de qualquer de tipo, mas a inferência de um narrador viajado e vivido noutros países e noutras culturas enforma todo e qualquer cenário destas páginas. Um romance irrequieto e de grande movimento geográfico (Chipre, Turquia, Hong Kong, Macau, Singapura e Brasil) requer um autor igualmente irrequieto. Nascido em meados dos anos 60, o escritor cedo viveu na Turquia (uma escolha pouco habitual, mesmo entre um povo peregrino como o nosso, que sempre optou por destinos bem diferentes), regressou por algum tempo a Portugal, e já em 2005 abalava para o Brasil, onde hoje vive, creio que por entre as viagens de travessias atlânticas entre estes seus dois países de língua e afectos. Trata-se aqui de um romance quase parodiante de um certo pós-modernismo literário no seu último fôlego, ao mesmo tempo que se torna uma metáfora séria e muito bem construída do “real” em que vivemos. O seu brilhantismo narrativo vem de outro feito adentro do género: funciona ainda como uma paródia feroz a quase todos esses temas, desde o “revisionismo” histórico da nossa época a questões de identidade ou identidades nacionais e “étnicas”, assim como a certos valores pretensamente “revolucionários”. Se esse postulado formal de muita literatura nas últimas décadas levou-nos quase sempre a reimaginar o passado colectivo das comunidades que servem como referentes a ficções diversas, a fragmentação sócio-política total acontece lado a lado com a suposta busca e afirmação, uma vez mais, de identidades de grupos nacionais, tendo, assim, como corolário, a queda ou o descrédito absoluto das instituições que outrora regulavam, governavam, as nossas vidas tanto em democracia como nas piores opressões políticas ditatoriais. A Máquina do Mundo não faz juízos de valor, não toma partido por sistema algum, rejeita ou ignora opções ideológicas de qualquer natureza, e vai um pouco mais além – a violência como arma inevitável e ubíqua na vida de todos os países, quer seja praticada a nível de pura criminalidade de rua, como no Brasil que o narrador chama para as suas páginas quando fala da cidade de São Paulo e das suas quadrilhas ordinárias, ou a violência levada a cabo nas conspirações entre as máfias profissionais que traficam em tudo, desde a venda de armamentos a órgãos humanos, como na China desta ficção, a visão aqui é absolutamente apocalíptica. Os únicos dois personagens-protagnistas deste romance (quase todos os outros não têm face nem história, só a morte como consequência dos seus afazeres subterrâneos) são agentes terroristas livres ao serviço de quem pagar mais, o turco de Istambul, Turker, e a irlandesa Emily, conhecida por Ulisses, como se a sua vida fosse uma espécie de regresso após determinadas descobertas, levando ao Nada, por certo levando a uma morte anunciada, inevitável. O seu amor maior é a prática da violência, que nos parece vir ora das suas vidas passadas e circunstâncias pessoais, ora do ressentimento de abusos de toda a espécie, ou então estamos perante uma geração nascida e formada por entre a contínua violência sempre presente em disputas seculares, como na caso de Chipre e a sua divisão de alma e território, ou a Irlanda a ferro e fogo no norte da ilha. A cama torna-se, do mesmo modo, esses espaço de prazer puro e de batalha lúdica, não de amor mas de sexo sem amarras, o momento que poderá nunca mais ser repetido e que nunca deixa de ser representativo da mesma euforia de torturar e matar, ou da dor doce dos amantes desencontrados em tudo o resto, do amor e da harmonia impossíveis no inferno em que escolheram ou foram forçados a entrar, esse que é o seu mundo todo, interior e exterior, e em que eles agora actuam por força e gosto “profissionais”.

“A Roménia – relata Turker, sempre na primeira pessoa, neste passo demasiado ilustrativo da ‘matança’ perpétua que nos rodeia – está devastada economicamente. Os valores são os da sobrevivência e pouco mais. Faz-se tudo e de tudo para se obter algum dinheiro. Raparigas e jovens mulheres são colocadas num campo de concentração nos arredores de Timisoara, a caminho da cidade sérvia de Zrenjanin, que fica a poucos quilómetros desse centro de terror, onde elas são espancadas, violadas, sodomizadas até se compenetrarem de que têm de fazer tudo o que lhes pedirem… Do mesmo modo que esses homens vivem de aumentar a degradação do ser humano, nós vivemos de matá-lo com a qualidade e a exigência que nos for pedida e o montante que nos for pago… O campo de concentração de carne de salto alto foi completamente destruído por Ulisses. Mas isso não chega sequer a ser digno de menção, embora o método o seja, sem sombra de dúvida”.

Este é um romance absolutamente irónico e anti-violência, que no seu realismo gráfico e exagerado de tortura e morte, na sua narração em discurso directo e abrangente nas suas inferências quanto ao estado do nosso mundo e às origens atávicas do modo como a humanidade sobrevive e se impõe através da “autoridade” que lhe trazem a faca e a espingarda nos seus estádios mais primitivos ou modernos (o perigo nuclear está também relembrado nesta ficção), levará o leitor mais atento a digerir cada instante da narrativa como que olhando um quadro de cores escuras e transfigurador dos piores momentos e atrocidades de guerra ou atentados à dignidade de qualquer ser humano, a representação que nos repugna mas nos agarra na sua eloquência e – por que não? – beleza. Que faz a arte, em qualquer uma das suas muitas formas, se não tentar captar toda a dimensão da vida humana, na sua bondade e maldade?

A Máquina do Mundo vem numa edição “artística” com estas mesmas características, traz uma capa e outras ilustrações a preto e branco no seu interior, é um belo livro-objecto. Naturalmente, são também representações de tudo o que atrás ficou dito neste texto. Desde o nosso primitivismo animalesco mais recuado até à nossa avançada modernidade, fica um espaço a meio, ora branco ora cinzento e nublado, como em cada uma destas pinturas. É precisamente aí onde cai ou se decidem a comédia e o drama que é estarmos vivos, ou de tentarmos permanecer vivos – contra a vontade de uns e pelo amor de outros.

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Paulo José Miranda, A Máquina do Mundo (capa e ilustrações de André Carrilho), Abysmo, Lisboa, 2014.

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One thought on “O mundo, tal como sempre foi

  1. Isabel Mendes Ferreira Setembro 16, 2014 / 1:20 pm

    Uma bela recensão a um belo livro do João Paulo. Que li e de seguida voltei a ler.

    Bravo!

    Beijo Prof.
    Um orgulho ser sua leitora.

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