Postscriptums, ou as consequências da ancestralidade dupla

Cal State, FullertonDe que tens mais saudades na Califórnia?

Millicent Borges Accardi, numa entrevista a ser publicada em inglês nos Estados Unidos sobre a nossa “experiência” americana

Vamberto Freitas

Poderia ter respondido – de tudo, tenho saudades de tudo, neste momento, muito especialmente da sua largueza de espaço, segurança, e sobretudo sentido de cidadania. Da seriedade das suas instituições públicas, do humanismo (não há qualquer ironia aqui) com que se regem as relações profissionais e institucionais. Só que a entrevista era quase exclusivamente sobre questões culturais e literárias nos dois lados do Atlântico, particularmente sobre a emergente literatura luso-descendente naquele país, e o que isso poderá significar para a nossa memória colectiva, caso as futuras gerações ainda reconheçam “textos”, e saibam o que fazer com eles. Acho que saberão, apesar da paranoia em volta das tecnologias e do seu papel já quotidiano nas nossas vidas. Disse-me alguém um dia naquelas paragens que, quando abandonamos um território-pátrio depressa esquecemos as grandes questões, e lembramos quase só os que nos pareciam então os mais insignificantes momentos das nossas vidas. Creio estar de acordo. Como adolescente e depois como adulto na América eram precisamente essas lembranças que mais me comoviam quando pensava nas ilhas. Hoje, acontece-me o mesmo, só que ao contrário. Regressemos aqui a um dos temas em foco – de que sinto mais saudades na Califórnia? De espaço, disse a Borges Accardi, poeta de descendência terceirense e italiana, como indica o seu nome, uma das dinamizadoras de um grupo de escritores e intelectuais que se auto-denominam Kale Soup for the Soul/Sopa de Couve Para a Alma, expressão que pretende homenagear tudo quanto está associado à sua ancestralidade, e não haverá melhor metáfora do que o cheiro da cozinha dos seus avós portugueses e das histórias que nesses momentos eles passavam aos que tinham este país, estas ilhas, só como lugar mítico, cuja grandeza de alma levada para lá poderia até diminuir o tamanho do continente americano. Disse-lhe mais. Tenho saudades de me meter no meu carro a partir de Los Angeles e conduzir na madrugada a alta velocidade serpenteando as montanhas e planícies da mítica autoestrada 99 até Tulare, no Vale de São Joaquim, onde vive a maior parte da minha família imediata. Tenho saudades das melhores livrarias de Orange County ou nas redondezas de Los Angeles, muito especialmente no Westwood onde me passeava em certos sábados à noite, indo a estreias dos filmes produzidos ali a dois passos, ou entrando nas suas livrarias com mesas gigantescas cheias de primeiras edições excedentes, quase sempre a melhor literatura americana e mundial por ser a que menos vendia, naturalmente. Tenho saudades de me passear no campus lindo da minha alma mater, California State University, em Fullerton, e sentar-me no seu jardim a ler uma revista ou simplesmente a olhar os outros passeando-se, livros debaixo do braço e sorrisos no coração nos dias da primavera e do verão californianos. A sociedade portuguesa vive actualmente num estado de depressão extrema, e quase não avistamos uma saída deste pântano económico e financeiro. O único pensamento ou raio de esperança que nos mantém a funcionar no dia-a-dia é saber, relembrar, que Portugal tem quase novecentos anos de existência, e que temos sobrevivido historicamente a um Estado governado por muitos políticos incompetentes e alguns banqueiros corruptos e gananciosos, todos sem vergonha. Pois. Tenho saudades do tal pequeno almoço cheio de colesterol que eu comia nos restaurantes de estrada à beira da 99, depois de descer as montanhas de Los Angeles, e logo antes de chegar a Bakersfield, outrora retratada na grande obra de John Steinbeck.

Os meus regressos a este passado quase se reduzem agora à literatura, que os meus colegas e amigos da Diáspora continuam a produzir na língua portuguesa, lado a lado com a já fulgurante escrita luso-descendente, de que tenho falado em muitos outros textos. A Millicent perguntou-me também se de facto já “existia” essa literatura, ou melhor, se existia já em quantidade que forme um corpus literário substancial. Acredito que sim, e não serei o único. Não se poderá – disse-lhe – falar em números de livros para se definir um “cânone”, mas desde os anos 90 até hoje a nossa produção literária nos Estados Unidos tem-se desenvolvido a ritmo apreciável, e de qualidade inquestionável. Por certo que isto será uma apreciação subjectiva, como são todas as apreciações por parte dos críticos. Sim, existe agora todo um corpo literário que se distingue por um fio temático contínuo – a experiência luso-descendente de se ser um filho ou filha, incluindo até as gerações mais afastadas das suas raízes em todo o nosso país, espalhadas pelo continente e pelas ilhas, de uma pátria-outra. Para além disso, quase todos esses escritores luso-descendentes, em prosa, poesia ou noutras formas, fazem chamamentos artísticos múltiplos às suas histórias e memórias ancestrais. Quanto à literatura luso-americana constituir um cânone à parte, sim e não. Como todos sabemos, toda a literatura americana, desde o seu início, está ricamente “enquadrada” num grande mosaico humano ou étnico: anglo-americano, irlandês-americano, afro-americano, hispano-americano, judeu-americano, literatura sulista, etc. Mesmo assim, eles, ou quase todos eles, integram-se no cânone dito nacional da literatura americana, tal como é demonstrado, por exemplo, na The Heath Anthology of American Literature, na qual está presente uma indiana-americana premiada, Bharati Mukherjee, uma grande amiga de Katherine Vaz, e notemos aqui as ligações que acabam por ser muito importantes na eventual “legitimação” de qualquer escrita. Não haverá outro país no mundo que possa gabar-se de tal diversidade e riqueza literária. A literatura luso-americana tem de se promover até chegar a um futuro de maior “abertura”, até que os futuros responsáveis por essas publicações, de certo modo decisivas, incluam os nossos escritores. Temos estado muito distantes destes objectivos culturais, mas acredito firmemente que lá chegaremos, apesar de certas atitudes históricas que teremos de vencer entre eles, e de que já falei noutra parte.

De resto, quando abordamos outros temas ainda ligados aos nossos mundos transatlânticos, menciono alguns dos nomes que para mim sempre foram e são referências obrigatórias, cada um no seu contexto e circunstâncias históricas e pessoais. Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Eugénio Lisboa, Onésimo T. Almeida, Urbano Bettencourt, João de Melo, Eduardo Lourenço, Almeida Faria, entre outros e outras. Reparem que quase todos têm algo em comum, e que afecta sumamente as suas abordagens temáticas, na ficção e poesia, no ensaísmo e no teatro – foram, são, ou imaginam-se estrangeirados, pertencem à minha nação peregrina e cosmopolita. Do Brasil, na actualidade, tenho de destacar Luiz António de Assis Brasil pela sua escrita que, na beleza constante das suas palavras, recria a história do seu país, lançando de quando em quando um olhar ao passado açoriano, aos fundadores de duas grandes cidades no hemisfério sul, Florianópolis e Porto Alegre. Não pretendo aqui uma listagem completa, longe disso, só nomes exemplificativos do muito que me move e comove como leitor dentro e foras das ilhas.

Um texto “significante”, e que explique, em parte, a razão dessa escolha? Para mim poderia ser “Em Creta Com o Minotauro”, de Jorge de Sena. Este é um dos melhores poemas da “imigração” alguma vez escrito na língua portuguesa. Contém nos seus versos todos os temas, todas as ansiedades sofridas por quem, voluntária ou involuntariamente, se tornou estranho em terra estranha, onde bandeiras e hinos pouco dizem ao seu coração. Trata-se de um poema ferozmente anti-nacionalista, e por isso mesmo patriótico, no melhor sentido da palavra: apego a uma língua e a tudo de bom que ela representa no mundo, assim como solidariedade com todos os que também se tornaram os outros em qualquer parte do mundo, e sobreviveram com coragem e dignidade. Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,/se usam e se deitam fora, com todo o respeito/necessário a roupa que se veste e que prestou serviço./Eu sou eu mesmo a minha pátria (…).

Jorge de Sena, ele que foi imigrante, ou “exilado”, como querem alguns, no Brasil e nos EUA, não só resumia toda a nossa história, como profeticamente previa o rumo que já então a meados do século passado se definia e era pressentido pelos mais conscientes conhecedores do Vazio para onde já nos empurravam os donos do mundo.

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Este texto reproduz em parte uma extensa conversa que mantive com a poeta Millicent Borges Accardi (autora de Injuring Eternity), a ser publicada, sob o título “Portuguese-American Literature and the Consequences of Dual Ancestry”, numa revista americana interuniversitária,

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One thought on “Postscriptums, ou as consequências da ancestralidade dupla

  1. Lélia Nunes Setembro 25, 2014 / 12:12 am

    Parabéns, excelente entrevista. Tanto a quem conduziu quanto às tuas respostas. Sempre uma postura firme, de constante alerta a tudo que ocorre ao redor deste teu mundo Ilhas alargando fronteiras pelos caminhos da emigração, por terras do passado povoadas por mãos açorianas, na argamassa ou no cerne do nosso povo.
    Honra-me estar aqui e deixar o meu abraço de parabéns.
    Lélia Nunes
    Academia Catarinense de Letras.

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