O divino desassossego

Capa o tempo e a rendaentendo hoje que as perdas são exílios e as chegadas o teu abraço modulado em carne e suspiros de leite.

Isabel Mendes Ferreira, o tempo é renda

Vamberto Freitas

Espero que o título deste meu texto não leve o leitor a assumir o que não é, ou do que se trata aqui. Nem as minhas palavras nem as da autora de o tempo é renda (as minúsculas são sempre dela, com raríssimas excepões), Isabel Mendes Ferreira, significam desordem ou qualquer comoção, a não ser a do seu mais íntimo interior, que ela nos vai desvendando em prosa e poesia pouquíssimo comuns entre escritores e poetas nossos. Citar Isabel será um dos maiores problemas de um recenseador, rara é a frase curta e lapidar dela que não nos apetece reproduzir de imediato. Em mais de duzentas páginas de texto, não encontrarão muitas palavras que não estejam “carregadas” (loaded words, na linguagem gramatical americana) de significados ora precisos ora polissémicos em muitos dos contextos ao longo da narrativa sequencial que se torna, sem o parecer, este livro-romance. Não encontrarão ruído meramente literário ou enfeite lexical numa obra de alta arte literária, como é esta em discussão aqui. Lembremos outro facto demasiado comum em muitas culturas para além da nossa, essas em que a literatura também ainda goza, mesmo que só entre círculos reduzidos de leitores sérios, de alguma ressonância, consequência, apreciação crítica e aparente disseminação ou valorização: existem escritores que quase toda a vida permanecem numa espécie de penumbra literária, mas que são também, alguns deles, escritores de culto (nem sempre estas palavras terão um mau sentido) entre os seus leitores, que sabem que a sua escrita é essencial à literatura, e sabem que são lidos por outros escritores, passando a um estatuto, para mim, invejável – escritor de escritores/writers’ writer. Desculpem os estrangeirismos aqui, que desculparei do mesmo modo a insolência provinciana que frequentemente toma conta de meia dúzia de iluminados sustentados por certos galões, ou pelas suas circunstâncias acidentais ou de amizades na nossa imprensa generalista, e mesmo especializada. No prefácio de todo esclarecedor a o tempo é renda, e contextualizante da restante obra da sua autora, Cecília Barreira, da Universidade Nova de Lisboa, alude a estes fenómenos literários entre nós, que permanecem à espera que o tempo os vá disseminando entre os que os merecem, e deles saberão tirar proveito, pelo menos prazer, no momento de descoberta e reconhecimento. Vale a pena recordar aqui que, desde os anos 90, Isabel Mendes Ferreira tem sido lida e comentada por outros escritores, como Casimiro de Brito, Manuel Fernandes Alves, Isabel Victor, Luiz Pires dos Reyes, António Alçada Batista e David Mourão Ferreira.

O tempo é renda não é o único livro de Isabel Mendes Ferreira que tenho nas minhas estantes, mas é o primeiro cuja força temática, estética e formalismo estrutural, que vai ou combina brilhantemente o eu dos românticos oitocentistas aos pós-modernistas dos nossos dias, esses que reinventaram outros modos de dizer, de rever-se e de rever o mundo em volta, me leva a uma certa tentativa de interpretação, certamente a aventurar publicamente o que nele me é precioso, e na literatura o que nos comove torna-se parte do nosso ser (eis a consequência maior da grande literatura), torna-se noutro espelho de alma que simultaneamente nos apresenta à sua autora nos seus momentos mais íntimos ou de comunicação serenamente devastadora enquanto nos faz rever os nosso mais secretos sentimentos e pensamentos em relação a nós próprios e perante os que nos são significantes, a sociedade encurralada que é a nossa e por isso muito mais do que uma mera abstração. Ler Isabel – já o escrevi noutra parte – é entrar, assim, em tudo o que somos, ou no que ela é ou gostava de ser, quando já não tem mais desejo para o resto, o resto de tudo. As suas palavras não são só poesia ou prosa, poderão ser, e são, as duas coisas juntas. São a essência do ser nos seus momentos mais humanos, durante os quais a nossa retirada para dentro nunca parece um acto de egoísmo, ou a teatralidade, tão ao gosto de certos escritores “citadinos” nossos, de um existencialismo inventado, mas sim o lamento musical do que nunca se é, o amor e a volúpia do encontro com o outro são os instantes nas nossas vidas que nos criam e fornecem, depois, a única memória perpétua daquilo que mais queríamos ou queremos, e que nos foge sempre. A escritora combina esse intimismo confessional, quase dirigido a outro ou a outra, ou então comunicando-nos num fluxo de consciência sereno mas sempre penetrante no que poderá ser a universalidade do sentir do coração humano, do que sentimos ante nós próprios e ante os outros. O que me leva aqui ao outro lado de o tempo é renda – longe de permanecer fechada numa redoma de pensamento ou sofrimento, a autora convoca quase incessantemente alguns dos mais memoráveis nomes da literatura mundial, e muito especialmente europeia, desde a antiguidade até à época da nossa modernidade. Em suma, por entre o que nos poderá parecer um intimismo radical em muito dos passos neste magnífico e sustentado mergulho na consciência da escritora, nunca se esquece a presença do outro, a comunhão, como quem diz, de afectos e aproximações-outras.

“sempre que muda a extensão do corpo submerso muda a morte do tempo. assim como se fosse uma idade fictícia e um sopro inominável ambivalente e navegação suicidante. coisas do destino da água que é encontro e despedida bandeira sangrante e instrumento de todos os monólogos. subterrânea linha do áspero e do misterioso. somos a memória proliferante que de Borges a Verlaine nos redesenha o grito. sempre que muda o verbo mudamos o renascimento. e daqui é que sou coincidente estrada e vadia. evado-me em arcos e em rupturas de veludo salgado doente adoecido de eufrates e de tréguas. vou à frente buscar o passado. ave a pique de asas cortadas”.

O tempo é renda está estruturado em entradas numeradas, de um ou mais parágrafos, sem data, como também se de diário íntimo e intelectual se tratasse, como se, uma vez mais, de um outro género de romance se tratasse. Os riscos e a ausência de maiúsculas – Isabel Mendes Ferreira evoca logo a outra senhora da nossa literatura mais ou menos diarística, mais ou menos fragmentada numa imitação da vida que é a nossa, Maria Gabriela Llansol – que a autora utiliza no início e entre frases tanto poderão significar silêncios gritantes como deixando para o leitor mais atento o preenchimento que aí devia figurar, evitando todo e qualquer ruído retórico e vazio. Se “o tempo é renda”, a filigrana labiríntica e cósmica da vida humana, esta escrita não é um rendilhado, tão ao gosto de certos escritores barrocos que aqui e ali ainda estão presentes entre nós, raramente atingindo a grandeza dos verdadeiros mestres, como José Saramago. Cada palavra, nesta prosa, nesta poesia, ou “significa” ou então nunca a encontramos, cada atropelo às regras da linguagem só enriquece o que já é uma nítida declaração ou observação, ou então são como que essenciais à rítmica de cada nota nesta prolongada sonata verbal.

Por fim, deixem-me citar, num gesto de leitor agradecido, uma recente intervenção meditativa no suplemento literário do The New York Times Book Review, dos escritores Adam Kirsch e Dana Stevens, intitulada “Should Literature Be Considered Useful/Deve a Literatura ser Considerada Útil?” Não será necessário aqui especular sobre a resposta, quando são dois praticantes a dissertar sobre o tema. Que a pergunta, numa cidade tão literária como Nova Iorque, é já preciso ser feita, isso sim, denota que algo na sociedade ocidental e seus “valores” em mutação, ou supressão, aconteceu e já não sabemos com clareza o lugar que aí vem para a literatura séria, outrora no centro das nossas culturas nacionais e transnacionais. Adam Kirsch, no entanto, sintetizou tudo em duas linhas claríssimas, relembrando uma “evolução” em curso rumo ao consumidor acéfalo de coisas na sociedade dos “mercados” e parceiros afins: “O saber que a literatura na realidade nos fornece para a vida – escreve – não será para aquela vida que [William] Woodsworth ridicularizou como sendo devota do “adquirir e gastar”, mas sim para uma segunda vida de regresso ao nosso ser e à nossa imaginação”.

O que “aprendemos” com a literatura – com as artes em geral – não aprendemos com mais nada nem mais ninguém. Eis aí a justificação única da literatura mais séria, na qual se inclui este novo livro de Isabel Mendes Ferreira.

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Isabel Mendes Ferreira, o tempo é renda, Lisboa, labirinto de letras editores, 2014.

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