Literatura, identidade e política, agora

Capa habitante IrrealOlhou aquele céu, o pampa que ganhara um horizonte ameaçador. Hora de reencontrar Porto Alegre.

Paulo Scott, Habitante irreal.

Vamberto Freitas

Quando Habitante irreal, o romance do escritor Paulo Scott, natural de Porto Alegre, foi publicado no Brasil em 2011, a crítica recebeu-o com os maiores elogios, destacando quase sempre um regresso da narrativa de fôlego, em que as grandes questões do nosso tempo são encaradas por uma nova geração que atingia a sua idade adulta a meados dos anos 80. Dos seus aspectos formais ou estruturais, falarei mais adiante, mas ressalve-se a justeza dos primeiros apreciadores deste romance no seu próprio país. Alguns dos postulados temáticos do pós-modernismo literário no seu melhor estão aqui presentes, assim como certo realismo sujo/dirty realism, que um dia foi utilizado para caracterizar a escrita de Raymond Carver e Richard Ford, entre outros menos conhecidos, nos Estados Unidos, essa prosa de herança mista ou transatlântica de alguns ficcionistas contemporâneos. O revisionismo da história recente brasileira, e por inferência, directa ou indirecta, da história de mais mundo que nos levou à situação actual sem muita diferenciação em qualquer parte, a tentativa do protagonista de nome Paulo (um piscar de olho, talvez, lembrando-nos a presença do autor ele próprio como interveniente na trama) se colocar como ser activo nessa realidade do seu tempo e da sua geografia, nesse espaço natal que lhe é referência íntima, o jogo de tempos ficcionais e de espelhos identitários, dele e de todos outros personagens maiores, as referências culturais de todo o género que situam e envolvem as memórias dos leitores — faz deste romance tanto um regresso ao passado, às questões primordiais da literatura ocidental, como se torna um relato ambíguo dos que tentam sair do labirinto opressor imposto pelos deuses-homens num desafio sem fim à nossa humanidade.

Habitante irreal tanto retrata mundividências quase sempre trágicas, nas novas circunstâncias de fim de século e início de um novo milénio (em que a tragédia tantas vezes se confunde com a comédia, e vice-versa) como é um mergulho na desumanidade que ora ignora uma família índia vivendo miseravelmente à beira de uma auto-estrada rio-grandense, ora chora e ri com uma geração perdida nas catacumbas sociais de uma Porto Alegre ou de uma Londres (por onde este romance também se movimenta), aqui quase só vista à noite quando os adamastores terrestres e mesquinhos da nossa era saem à rua em roupa de marca. Primeira ironia: Paulo afasta-se da política aos 21 anos de idade em 1989 como militante do PT (Partido dos Trabalhadores), ainda antes de ele chegar ao poder em Brasília, mas já conquistando influência a nível municipal aqui e ali. Isso acontece numa das reuniões do partido quando Paulo se dá conta que não tem estômago para tanta falsidade, calculismo, corrupção e o trepar a qualquer custo com um eventual cargo político como prémio. Partido dos Trabalhadores, ou apenas metonímica da ascensão por qualquer meio de uma nova geração, que, como disse o autor numa entrevista posterior, é uma representação de si próprio e de toda uma geração falhada, que outra coisa não faz senão dar continuidade ao passado? O narrador constrói uma história de desilusão, sua e irremediavelmente geracional, do seu afastamento da acção de rua ou de bastidor, e ao contar essa mesma história, precisamente, faz do romance uma peça artística que nunca deixa de fora o essencial, o coração humano em busca de felicidade e descanso, a razão como ponto de partida para a revolta e denúncia de tudo o que bloqueia esses anseios ou desejos de cada um dos seus seres inventados, de nós. Parece um romance escrito sob a influência de técnicas cinematográficas ou de teatro, cada figurante de inesquecível presença, cada descrição e aparência deles uma abertura ao seu interiorismo ante os seus espectadores/leitores. Aliás, a dada altura na narrativa uma série de cenas na baixa de Porto Alegre vira exactamente o “teatro” aqui sugerido. O protagonista, filho de um casal da classe média alta que não para de andar em viagens-outras, acaba de onde começa na sua cidade, agora ferido ainda mais pelo que a vida lhe trouxe e ensinou, o tempo cíclico de alma que no seu percurso acumula as mais significante perdas, esse ciclo de uma vida conscientemente, interminavelmente auto-examinada.

Numa viagem por uma auto-estrada, Paulo encontra uma menina índia de nome Maína, de catorze anos de idade, perto do seu acampamento à beira da estrada a recolher folhas soltas de jornais e revistas, para e conversa com ela, quer saber onde e como vive, levando à abertura de uma amizade, e depressa a uma relação íntima, que resulta no nascimento de Donato. Todos os que se relacionam com o protagonista questionam a sua prudência dado as diferenças entre eles, as suas idades, e insinuam o distanciamento, digamos, do lugar que cada um ocupa na sociedade. Cedo Maína se suicida depois de nascer filho, e Paulo ausenta-se em Londres onde vive o negrume de “imigrante” clandestino numa cidade europeia da nossa época, onde à beleza do seu passado e aparente prosperidade se junta a criminalidade nas suas margens mais ou menos disfarçadas. Esqueçamos os infindáveis momentos de drama e comédia amarga uma vez despoletado o destino destes e de outras personagens. Pelo meio temos a representação de tudo o que Paulo considera ser a história do seu país, a violência real e psíquica exercida sobre sobre os povos indígenas, história esta que apenas simboliza todos os males maiores de uma sociedade como o Brasil, a desilusão política tornada também metáfora abrangente de tudo o que constitui a realidade passada e actual, sem saída à vista. O narrador olha o labirinto em que está presa a humanidade à sua volta, uns acomodados e felizes nos corredores das suas vidas, outros desesperadamente em busca de uma saída. Donato, criado e educado por outro casal, outrora activista e estudioso das questões do índio, acabam eles também por seguir as suas carreiras, a noção de sucesso, na academia ou mundo empresarial, a sua obsessão maior. A retórica política dos outros não passa disso, de palavreado politicamente correcto e oco. Entretanto, o que sobressai com a mesma força na prosa de Paulo Scott é um vasto e colorido mosaico da sociedade no seu todo. O recurso a um referencial cultural, popular e erudito, que marcou a nossa época transfronteiriça em anos recentes faz parte da imagística e mítica já tornada universal. Habitante irreal faz o leitor sair de uma questão localizada, regional ou nacional, e permanece, isso sim, numa poética de todo universalizada, numa poética de linguagens simultaneamente identificadas com os temas e subtemas da realidade brasileira e do que move e comove o coração humano em qualquer outra geografia.

“Sente-se – diz o narrador de um momento de Paulo no seu breve exílio da Inglaterra – estranho, não é apenas a tontura do vinho, são os sonhos e a espera que não consegue suportar. Tanta pressa, a sua pressa. Tanta que o faz estagnar. Não tem feito questão de pensar. É a primeira vez que para e dá atenção a algo relevante desde que chegou a Londres. Não sabe qual luta vale a pena. Afinal onde está o mil novecentos e oitenta e nove actual senão em Londres, Nova Iorque, Tóquio? A vida está passando. Aos vinte e pouco e se achando um velho, embora não velho o suficiente (se achar um velho não costumava ser o mesmo que agora nada importa, mas tem sido) . E o vinho pegando, não há droga que desmonte igual. Pensa. Ela o mandou embora. A fragilidade de Maína nunca foi fraqueza. Inapto para sentir paixão de verdade, como alguns parecem sentir sem fazer força… Faça o quanto faça não consegue mais se envolver”.

Para além do mais, e como já foi sugerido, o jogo de tempos ficcionais de Habitante Irreal transporta-nos para os anos do Brasil pós-ditadura, questionando tudo o que permite a continuidade de uma rica historicidade de promessa e falhanço. Para além da complexa questão étnica de um país-continente das Américas, não leio este romance só pelo que me pode esclarecer sobre a arte literária brasileira de uma nova geração, mas leio-o pelo que representa na continuidade artística em língua portuguesa, ou seja, porque faz parte da nossa tradição, e se mudarmos o nome do país o nosso “choque de reconhecimento” será mais ou menos o mesmo. Há, de facto, qualidades ou vontades que aparentam ser imutáveis em nós – a essencialidade de nos recriarmos, de nos reinventarmos, na beleza da arte, a catarse civilizada suas diversas manifestações. Nada indica que a grande literatura, em qualquer forma ou género, está de partida.

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Paulo Scott, Habitante irreal, Lisboa, Tinta-da-China, 2014.

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Por dentro do vazio, ou a busca do nada

Capa O baloiço VazioEstamos aqui abraçados no sofá a ver televisão porque chove.

Carla Lima, O Baloiço Vazio

                                                                    Vamberto Freitas

Um baloiço sem ninguém nele a baloiçar e a ser empurrado indiferentemente pelo vento numa tarde de Outono é uma das imagens mais deprimentes para mim, como é a uma folha de jornal a rolar no chão (uma antiga imagem televisiva que retive) sem que ninguém lhe pegue, parecendo tudo uma metáfora de um mundo à espera de quem nunca mais chega, ou não quer chegar, muito menos viver e brincar na e com a vida. “Novembro no coração”, como diria um famoso personagem da literatura americana. Uma das razões que me faz escrever sobre O Baloiço Vazio, da açoriana Carla Lima, tem por certo a ver com o texto em primeiro lugar – já explico a razão desta designação da presente escrita – mas também com algo mais. Diz a nota biográfica do livro que a autora tem 35 anos de idade, portanto não será indelicado da minha parte repeti-lo aqui, e tem a ver com o que quero dizer mais adiante. Que estudou Psicologia em Lisboa numa faculdade durante algum tempo, e depois mudou de rumo dedicando-se a estudos de “Cinema, Televisão e Publicidade”. Por entre outros estágios e experiências literárias, cursou escrita criativa com Rita Ferro – e daqui saiu este seu primeiro livro o ano passado. Eis um percurso técnico e intelectual que a minha geração nunca – ou raramente – conheceu, tanto no nosso país como estrangeiro. A propósito, o que constitui uma “geração” literária? A resposta requeria um denso tomo, mas despachemos o assunto em duas linhas, que poderão levar outros a pensar e a desenvolver as suas próprias ideia ou teses. Têm mais ou menos a mesma idade, provêm de uma geografia comum, real ou imaginária, reagem a uma historicidade quase sempre dramática da sua sociedade e, mesmo que não se leiam uns aos outros, o que é pouco provável, convergem em temáticas predominantes nas suas obras em todos os géneros porque têm como referente um imaginário partilhado. Não, não se diluem num tronco comum de pensamento único ou em visões totalizantes do seu tempo e do seu espaço vivencial, do seu destino, ou da “sorte” que procuram na vida para a realização dos seus sonhos. O mapa, parafraseando outros, não é necessariamente o território. A minha foi a mais cosmopolita geração literária açoriana, tanto na experiência de vida como na sua transfiguração ficcional e poética. A experiência que foi a nossa, tantas vezes involuntária, de desterritorialização resultou num outro conhecimento, que tudo influenciaria no acto testemunhal. “Não se pode voltar a casa”, como escreveu o modernista americano Thomas Wolfe; nunca mais seremos os mesmos após andanças prolongadas, mas é preciso saber que ela, a nossa casa, existe. Pertencer é um dos mais profundos desejos humanos, sentir a pertença comunitária vinda de gerações imemoriais, indo para um futuro sem fim. Look Homeward, Angel é precisamente o título que Wolfe deu ao seu grande romance, enquanto vivia a fantasia metropolitana em Nova Iorque, com viagens alargadas nalgumas cidades europeias dos anos 20-30.

É aqui que queria agora interligar esta notável ficção de Carla Lima com o seu tempo, e à faixa etária de escritores açorianos a que pertence. O Baloiço Vazio é uma espécie de experimentalismo literário, mas sem a pretensão de o ser, o que o “salva” logo à partida. Não será na sua temática que reside uma certa beleza, mas sim na sua linguagem depurada, nas imagens convocadas para metaforizar a sua condição interior, num texto que ora é um conto, uma novela, uma sequência de monólogos a dois em cenas cinematográficas, praticamente sem interrupções de outra espécie, que consegue construir uma narrativa na qual o meio circundante está ausente, a “sociedade” fica quase fora de vista para além de uma ou outra personagem menor a falar muito brevemente de si e do seu destino. Esses monólogos e trocas de palavras – nunca chegam a qualquer “diálogo” – pouco amigáveis ou reconfortantes entre a Ana e o Bruno, os dois amantes desavindos, vão-nos insinuando o estado da vida interior, vão-nos criando “personalidades” únicas mas de imediato reconhecíveis, “individualidades” representativas da vida actual de uma desorientada e desamparada geração, que parece ainda não se considerar como tal. Esperamos, por enquanto, pela criação de um novo e íntegro corpo literário que a defina e represente, tal como a geração de 70-80 fez na literatura açoriana. Não há “regressos a casa” porque nunca houve partidas, a experiência do mundo destes novos escritores fica-se pela viagem virtual, pelo conhecimento instantâneo e pela fantasia de que “pertencem” a um mundo sem fronteiras. Estranho, este fosso entre a realidade e a ficção, o fosso que é criado pela ideia de um certo cosmopolitismo sem nunca se ter vivido ou sofrido como o “outro” – em desavença consigo e com a História, de onde nasceram as melhores obras da literatura portuguesa moderna. Talvez seja este o triunfo dos que lutaram por uma sociedade que permite este estado de espírito entre os mais novos. A sua viagem, agora, ou é para dentro, ou não existe, e não existindo têm de dar continuidade a velhos temas em linguagens muito dificilmente originais. A geração que os antecedeu não tinha tempo ou temperamento para crises existenciais – guerra nos pântanos africanos, luta política interna ou oposição às classes dominantes, emigração para outras geografias onde se teria de reaprender a viver entre outros e com outros, inventando novas linguagens e, necessariamente, reinventado-se a si próprios.

Baloiço Vazio tem algo a dizer, e di-lo com habilidade nessas palavras contidas e imagens da solidão. A protagonista está sempre fechada em casa ou no emprego, saindo um pouco com amigas e visitando aquela que ela gostaria de vir a ser sua sogra, referindo-se ao que parece ser uma imaginada sessão de psiquiatria, num transe de sonhos e de amor impossível, que tende confundir fantasia pura com a realidade, num transe doentio de uma paixão pelo homem que nem chega a ser namorado ou sequer amante, uns seres para quem o sexo é mais falado do que desfrutado, as confissões obsessivas de desejos de amor nunca correspondido de Ana um patético lastro de (des)ilusões doentias. Ainda bem que a narradora não leva nunca a sério o xamanismo que foi a psiquiatria freudiana do século passado. Alude à sua infância e ao modo como os pais reagiam às suas traquinices, nunca os culpando pelo seu estado presente. Carla Lima consegue algo que nem sempre funciona com outros – por entre a tristeza real ou fingida da sua protagonista, sobressai constantemente o seu sentido de ironia e humor, nas suas palavras ou nas suas acções. Um desses momentos é quando Ana aparece ao homem dos seus desejos em lingerie, registando a sua reacção, que nunca falha na fria indiferença ou falta de vontade de a ter na cama. A palavra “culpa” é recorrente nos seus monólogos ou “conversas” com ninguém – como se estivesse a contrariar um padre ou um psiquiatra durante uma confissão de outros tempos e moralidades. Nem sequer ela sofre qualquer raiva na sua frustração de mal-amada, a “culpa” aqui pertence à natureza deste outro novo bravo mundo, não pode ser atribuída a ninguém em particular. Não há culpados aqui – só frieza, mentiras e sexo, que nunca acontece numa fantasiosa comédia de enganos, jogos de espelho para rir dos que acham explicações para tudo e para todos.

“Passaram-se – diz Ana, despedindo-se e aceitando, como sempre, as coisas tal como elas são – mil anos. Eu já não sou eu. Tenho outra vida. Uma vida sem ti. Sem o Silas [o sonhando filho que ele havia insinuado teriam juntos logo no momento que a conheceu]. Sem sofrimento. Uma vida vazia mas cheia. Cheia de nada. Uma vida desprovida de vida. Uma vida que segue. Segue em frente. Sem ti”.

Cada um dos doze capítulos de O Baloiço Vazio tem uma epígrafe tirada de escritores e poetas do mundo sobre o coração humano e o amor. Só uma delas cai fora por completo, e creio que faz parte do humor escondido nesta narrativa “falada”, já aqui referido. Vem daquela grande intelectual portuguesa dos nossos reles dias, e que dá pelo nome significante – sim, significante de um outro lado da mente, saberes e pretensões numa cultura como a nossa – de Lili Caneças, quando diz que “estar vivo é o contrário de estar morto”. É? Não há outras palavras minhas neste caso: I got the joke.

Num palco ou num ecrã veríamos de imediato onde estão estes personagens, mas isso pouco interessa, tanto faz ser Lisboa ou Ponta Delgada. O tempo é hoje, o tempo muito próprio dos que nada têm a dizer do seu mundo, só de si, o que na verdade é bem pouco interessante ou novo. Carla Lima, creio, levanta aqui um véu que nada esconde por baixo – para além da infantilidade nunca resolvida dos que, também parece, nunca chegarão a adultos. Vidas, diria ela, cheias de nada.

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Carla Lima, O Baloiço Vazio, Lisboa, Pastelaria Studios, 2013.

Geração perdida, ou a América agora

Capa A Rainha da NeveMesmo nesta paisagem citadina de má qualidade… existe uma beleza fantasmagórica propiciada pela luz que antecede a aurora; uma sensação de esperança comprometida, mas ainda viva.

Michael Cunningham, A Rainha da Neve

/Vamberto Freitas

A determinada altura neste seu romance, A Rainha da Neve, Michael Cunningham, autor também de As Horas, que recebeu os prémios Pulitzer e PEN/Faulkner Award, faz o seu narrador desopilar um pouco, como que a encolher os ombros e a dizer para os seus botões, nem em desespero nem em exclamação alguma, recordando ele um passo que se viria a tornar num dos mais antológicos na literatura americana modernista dos anos 20, precisamente a frase genial e contundente com que F. Scott Fitzgerald encerra a sua obra prima, O Grande Gatsby: “Os barcos contra a corrente são levados imparavelmente em direcção ao passado. Vai-te lixar, F. Scott Fitzgerald”. Note-se que os itálicos aqui são meus, o narrador cita o original sem qualquer cerimónia, como que a apropriar-se também do que poeticamente vai na alma de cada um e de todos, e já se tornou parte da memória de uma cultura literária e filosófica. A verdade é que esta narrativa de Cunningham, na sua aparente serenidade e intelectualidade (recorda algumas obras de outros escritores, ou simplesmente menciona os seus nomes), pois o seu protagonista de nome Barrett Meeks (até este apelido pode ser interpretado simbolicamente, significando, mesmo no plural fora da gramática, sofredor, tolerante), doutorado em ciências exactas mas no desemprego habitual dos nossos dias, caracteriza-se sobretudo por uma voz mansa que esconde ou dilata a sua ferocidade. A ironia sábia – eis aqui uma representação sem gritos da condição de vida a que chegou toda uma geração. O cenário aqui é significativamente localizado em Bushwick, um dos conhecidos bairros de Brooklyn para onde desde há alguns anos — as ruas que ainda há pouco eram da classe trabalhadora e multi-étnica — se mudam escritores e artistas que não chegam aos preços de Manhattan, ali à vista e num constante desafio a uma mentalidade em seu redor também muito própria. Nem sequer a rebeldia intelectual nessa ilha em frente e privilegiada dispensaria esses fantasiosos luxos e respectivas grandezas de festas celebratórias do sucesso e da sonhada fama de cada um deles, a infantilidade desse sonho tão bem expressa na famosa canção-hino de Nova Iorque. Este é um romance de aceitação amena do destino (algo em si de profundamente não-americano), mas com a memória insinuada do que “poderia” ou “deveria” ter sido para alguns dos seus personagens, um dos mais consistentes postulados pós-modernistas, a acomodação ao “insucesso”, um castigo que se tenta dissimular de todas as maneiras, na linguagem e na postura só aparentemente tranquila, numa América, que teologicamente, ideologicamente, requer o contrário. A dissipação destes seres inteligentes em A Rainha da Neve ameaça a todos os momentos nas suas vidas marginalizadas, o álcool, as drogas pesadas, muito sexo ao acaso, e o suicídio outras possibilidades de saída da mágoa e dos objectivos de vida por concretizar. A noite aqui poderá ser estrelada, mas não é terna. F. Scott Fitzgerald, repita-se, sabia-o, representou-a, e acabaria por pagar o preço de modo directo e pessoal.

O romance abre com a morte lenta de Beth, numa noite de nevão e da frieza interior que a todos ameaça, a companheira de Tyler, o outro personagem-protagonista, barman e músico falhado aos quarenta poucos anos de idade, sempre em busca do sucesso que lhe escapa. Vemo-lo obsessivamente a tentar escrever uma canção para celebrar a vida e morte da sua amada, vemo-lo consciente da sua própria mediocridade que aos poucos vai sendo aceite por ele próprio. O seu amor parece sincero, os cuidados que dispensa à companheira como que uma compensação para todos os seus vazios, inclusive a morte da mãe, revisitada com certo humor redentivo quando se lembram, ele o irmão, que ela seria atingida por raio enquanto jogava golfe com uma amiga, enquanto batia numa bola para despachar o seu voo. O vazio interior não é só deles, ameaça todos os outros nas suas vidas, cada um disfarçando-o à sua maneira, cada um vivendo a solidão imensamente povoada por uma grande e indiferente metrópole. As vidas nesta nesta nova América estão reduzidas à mera sobrevivência – o desejo de um apartamento um pouco menos velho e decadente do que o que ocupam no momento, uma noite de sexo, a sensação permitida pelo álcool ou pela cocaína, uma viagem humilde ao outro lado do continente, a Califórnia representando a fantasia de liberdade fátua, mar e sol. Tenha-se em conta o tempo ficcional da narrativa, que vai de 2004 a 2008, o referente real e psicológico de um país agora de alicerces estremecidos devido à sua política interna e sobretudo externa. Do pouco que estes seres reinventados saem de si próprios, é quase sempre, no caso de Barrett e Tyler, para comentar com brevidade a era de George W. Bush, a economia destroçada pelos interesses financeiros do costume, a intervenção militar no exterior considerada uma campanha militar raivosa, que resulta na morte de milhares de inocentes, liderada por um ignorante que não sabia, afirmam os dois, que África não é um país. Nenhum dos irmãos, ambos ultra-liberais à americana, acredita na eleição de Barack Obama, e de passagem temem vir a ser governados por duas figuras ainda mais repelentes para eles – o falcão John MacCain e a quase demente Sarah Palin, do Alaska congelado.

Desde há algum tempo que não lia uma ficção tão bem estruturada e marcada por uma linguagem simultaneamente despretensiosa, limpa, e tão significante, sem diatribes retóricas ou auto-satisfação em qualquer abuso metafórico e imagístico, mas olhando de frente a sorte dos que se amam, na cama ou na simples amizade ou sentido de solidariedade, colocando o seu autor ao lado de todo um grupo de escritores que a partir dos anos 70 até hoje renovaram e reinventaram o melhor da literatura contemporânea do seu país. A completar este círculo de gente à deriva numa sociedade gigantesca e que deixa a cada um a responsabilidade de encontrar o seu lugar e a sua felicidade (fazendo-me lembrar um Raymond Carver, se este tivesse sido mais expansivo na sua prosa), está Liz, amiga de todos, amante tanto de Tyler, mesmo enquanto a sua companheira definhava corroída por um cancro, como de um jovem ignorante e na mesma medida hedonista, oferecendo um único prazer a Liz com a sua virilidade. A alienação nunca leva a actos desesperados (a vontade de suicídio de Tyler após a morte da sua companheira fica apenas pela insinuação dessa real possibilidade), está disfarçada nestes afazeres e pequenos prazeres quotidianos, no humor por vezes cáustico entre os mais inteligentes, sem a mínima fé em qualquer futuro por parte de quase todos. A luz misteriosa que Barrett “vê” no início da narrativa enquanto se passeia no Central Park, e que guia toda a narrativa nas suas dúvidas, momentos sombrios ou como um sinal místico de certa esperança, não voltará, e nada mudou nestas vidas aqui representadas, que mais parecem andar num carrossel de risos e medos.

“O Céu – resume o narrador a vida de Barrett Meeks, a sua descrença, a sua esperança – piscou-te o olho, não foi? Talvez. Talvez o tenha feito. Ou talvez fosse apenas um avião ou uma nuvem. Mas, se o Céu pisca o olho a qualquer pessoa, é provavelmente aos menos evidentes, aos que procuram entre trapos e farrapos do lixo, àqueles que optam pela vereda em vez da avenida, o buraco na sebe em vez dos portões triunfais. Talvez por isso não existam provas verificáveis, não é? O universo só pisca o olho àqueles em que ninguém irá acreditar”.

A Rainha da Neve contém uma cena de todo simbólica, e que poderá sugerir a alguns leitores um dos principais temas subjacentes à narrativa. Beth recupera por uns meses com a remissão do seu cancro, vive mais um Natal na companhia de quem a ama, mas pressente que estará pouco tempo entre eles. A luz do Céu, se piscou, não trouxe qualquer mensagem de vida. Quando o seu amante Tyler, o seu grande amigo Barrett, também que poderia ter sido seu cunhado legítimo e seu amante noutra dimensão, e a sua amiga Liz fazem voar as cinzas de Beth perto da Estátua da Liberdade, elas desaparecem no ar, caem ao rio. Não é a senhora mítica com os seus barços abertos virada para o mundo que triunfa ou significa mais, no que foi a sua vida, e a vida agora dos sobreviventes. Cai nas águas, geladas ou não, vão misturar-se eventualmente na frieza do Nada, no branco da neve que volta sempre, e que só simboliza o vazio e a própria morte. O ciclo de vida fica completo, e pelo meio a dignidade de se permanecer consciente na luta rumo a qualquer destino, mesmo que seja este e só este.

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Michael Cunningham, A Rainha da Neve, Lisboa, Gradiva, 2014.

Nós e os bifes, os outros

bifesO pior destas afectações é a presunção de superioridade, o alvará para explorar os outros que o bife se passa a si próprio.

João Magueijo, Bifes Mal Passados

/Vamberto Freitas

Como diria o grande escritor polaco-americano Bashevis Singer: para se amar um povo é preciso primeiro saber odiá-lo. Talvez não seja muito claro para alguns de nós o que queria dizer este Prémio Nobel da Literatura 1978, mas suponho que antes da empatia total, do aconchego a qualquer comunidade, real ou imaginária, é essencial conhecer e aceitar aquilo de que não gostamos, do que “odiamos”. Não tenham dúvidas sobre este truculento e cómico Bifes Mal Passados, do cientista cosmólogo português João Magueijo, formado em Cambridge e hoje professor catedrático no prestigiado Imperial College de Londres, reconhecido internacionalmente pelos seus contributos na sua área de especialização e como autor de outros livros, Mais Rápido Que a Luz e O Grande Inquisidor. Sabia do seu nome através de algumas publicações americanas, mas nunca tinha lido nada dele até que este verão tropecei numa entrevista do Expresso sobre o livro aqui em questão, e ainda mais sobre a sua vivência na Grã-Bretanha. Desde há muito que não ria tanto a cada passo numa peça literária, autobiográfica neste caso, e suponho que algures entre a ficção e a realidade, a experiência vivida, profundamente conhecida, adornada com um sentido de humor esclarecedor como poucos escritores entre nós seriam capazes de conseguir. Alie-se o proverbial sarcasmo, veneno, lusitano à fleuma inglesa e temos uma prosa como esta. Não se trata de literatura de viagens, mas sim de um imigrante com estatuto muito especial, semelhante ao de outros que escreveram sobre um país onde viveram por algum tempo. Basta referir aqui que o autor menciona a sua primeira “inspiração” ou referência literária neste género, bem nossa: as Cartas da Inglaterra de Eça de Queirós, que, como tudo o que o autor de Os Maias escreveu, estão actualizadíssimas, pelo menos em sentimentos e sobre modos de ser do outro, o “testemunho” de quem tem a capacidade de estar no centro e nas margens de qualquer sociedade. A garra observadora de Magueijo é devastadora. Como qualquer bom escritor, a essência de tudo está nos pormenores, nas pequenas coisas para outros inesperadas, na destruição dos mitos que certos povos e culturas mantêm e despertam entre os que permanecem ao longe, mas não as ignoram. Depois de bater interminavelmente nos “bifes” (expressão depreciativa, entre outras, aplicada aos ingleses devido à sua mania pelo “rosbife”), partindo das mais variadas situações, desde um fim de semana a escalar montanhas ou a pretender a felicidade numa qualquer praia lamacenta do norte quando a maré baixa, às saídas num sábado à noite ou a vida social da academia que ele tão bem conhece (“a velhacaria do bife não tem limites”), Magueijo afirma não querer regressar a Portugal, muito obrigado, à terra dos “senhores doutores” sempre donos da verdade, e de costumes nada menos esquisitos e hipócritas do que estes revistos nas suas páginas.

“E talvez esteja aqui a razão por que acabei um rafeiro cultural, desvinculado de qualquer país, bem em todo o lado, mal em todo o lado, um cidadão do mundo apátrida culturalmente, no fundo entre duas culturas que não podiam ser mais diametralmente opostas. Acabei por assimilar este aspecto da cultura britânica, esta capacidade para se ser auto-depreciativo e tornar isso num gracejo, e pode ser por isso que me afeiçoei verdadeiramente a este país”.

Bem-vindo ao clube, meu caro autor, esse que inclui e sempre incluiu muita outra gente durante a nossa história, como atestam as inúmeras obras literárias dos estrangeirados, algumas delas das mais vivas da literatura na nossa língua. Bifes Mal Passados é muito mais do que uma diatribe de um outro a tentar sobreviver com dignidade numa sociedade que se pensa e sempre se pensou superior às outras, a nossa particularmente olhada por alguns deles como sendo nada mais do um protectorado que, de quando em quando no decorrer da História, os incomoda, mesmo que a paga posterior seja com juros muito acrescidos. Uma das técnicas mais bem convocadas para esta narrativa envolve a constante referência que o autor faz aos seus avós alentejanos, a sua geografia natal. O toque asperamente cómico com que olha e nos conta as suas andanças entre os ingleses – Magueijo separa aqui as outras nações do Reino Unido, que também conhece e visita, como dever profissional ou para prazer com uma ou outra namorada – é quase sempre comparado com os dizeres desses seus dois familiares, tanto pelas suas próprias excentricidades, ou as da sua cultura, como pelas suas “verdades” meio proverbiais. A avó de Magueijo está aqui constantemente presente como o contraponto à experiência directa e conhecimento in loco dos seus novos concidadãos – súbditos – ilhéus, a senhora que tinha absorvido os estereótipos habituais sobre aquela gente, o gentleman inglês que ela contrapõe aos nossos rudes usos e costumes. O efeito para o leitor é deveras genial, como que Magueijo a dizer, Avó tenho más notícias para ti, não são nada do que me dizias ou ensinavas em pequeno, não são nada disso, são muito piores, piores do que nós. Ver o autor a ir a uma “praia” nortenha, fria, quando a maré se retrai e deixa o lamaçal que passa para eles por ser “areia” leva o autor de imediato a ter saudades de, e a intitular esse capítulo “Louvor à Costa da Caparica”, reafirmando-a como lugar de luxo, que ele nos relembra ser sempre mal falada pelos lisboetas, mesmo pelos mais tesos. De resto, ele leva-nos a visitar um pouco de tudo – hábitos e costumes diversos dos bifes, desde a sua anti-higiene aos seus sábados à noite em que as cidades se tornam “vomitórios” como consequência da cerveja bebida aos litros nos famosos pubs, ao desporto e seus rituais de machistas e loucuras de toda espécie, aos seus preconceitos internos, que tratam tão bem os seus conterrâneos de outras regiões no seu país como nos tratam a nós, à vida académica nas mais prestigiadas universidades do mundo aonde pululam professores mal-cheirosos mas abertos e tolerantes, e especialmente à sociedade de classes mais rígida ainda, diz Magueijo, do que as “castas” indianas, em que o sotaque e linguarejar em geral não só identifica o estatuto de qualquer inglês como o coloca de imediato numa prateleira sócio-económica e cultural. “Que o bife – diz o autor sobre a suposta competência e seriedade do que dá pelo nome de The City, no coração de Londres – seja preguiçoso é um defeito de carácter, mas que a magia negra financeira continue a receber a bênção dos políticos é corrupção legalizada”. Não só é o absoluto contrário do que pensamos deles, como é de crer que ao escrever isto, e algo mais sobre o mesmo tema, João Magueijo estaria a pensar no que de nós disseram eles neste últimos anos de crise, no que ele provavelmente teve de ouvir quando o carrasco se arma em anjo.

Não dou aqui uma ideia sequer aproximada de como este livro constitui o que em inglês se chama comic relief/alívio cómico, página a página. Optei por realçar o que, para além do anedótico, a meu ver, é a sub-corrente séria de Bifes Mal Passados, o que também nunca deixa de ser revelador, tanto do que pensa o autor dos ingleses, como deixando-nos igualmente com um retrato seu (um retrato nosso?), no que na nossa mentalidade teremos de comum porque partilhamos o mesmo espaço e a mesma tradição, frente agora a um outro jogo de espelhos. Torna-se, assim, mais um livro sobre questões de identidade, a muito antiga obsessão lusa – saber o que pensam os outros de nós, e como nos vemos ante esses outros foi-nos desde quase sempre um subtema de muita literatura. Aliás, a nossa escrita do século XX, particularmente a da segunda metade, tem uma componente, como já referi anteriormente, construida por alguns dos mais reconhecidos nomes entre nós – desde Jorge de Sena e Onésimo Teotónio Almeida a Eduardo Lourenço e Eugénio Lisboa, com muitos outros poetas, ficcionistas e ensaístas pelo meio. Isto para já não falar de uma “literatura imigrante” em língua portuguesa e inglesa, que nos tem chegado da América do Norte nestes últimos anos.

Espero que os ingleses demonstrem, caso Bifes Mal Passados venha a ser traduzido, o seu conhecido humor e tolerância, e até vir a gostar e a rir com o livro, o seu humor auto-depreciativo em dia. Eles próprios já disseram pior de nós, e engolimos tudo com um sorriso autêntico, auto-reconhecedor, na cara. Foi exactamente o que aconteceu há uns bons anos quando J. Rentes de Carvalho publicou o seu Com os Holandeses, que João Magueijo também menciona neste seu livro. Dele os holandeses fizeram um campeão em vendas, e ainda hoje o autor reside feliz nessa outra sua pátria adoptiva.

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João Magueijo, Bifes Mal Passados (3ª edição), Lisboa, Gradiva, 2014.