Nós e os bifes, os outros

bifesO pior destas afectações é a presunção de superioridade, o alvará para explorar os outros que o bife se passa a si próprio.

João Magueijo, Bifes Mal Passados

/Vamberto Freitas

Como diria o grande escritor polaco-americano Bashevis Singer: para se amar um povo é preciso primeiro saber odiá-lo. Talvez não seja muito claro para alguns de nós o que queria dizer este Prémio Nobel da Literatura 1978, mas suponho que antes da empatia total, do aconchego a qualquer comunidade, real ou imaginária, é essencial conhecer e aceitar aquilo de que não gostamos, do que “odiamos”. Não tenham dúvidas sobre este truculento e cómico Bifes Mal Passados, do cientista cosmólogo português João Magueijo, formado em Cambridge e hoje professor catedrático no prestigiado Imperial College de Londres, reconhecido internacionalmente pelos seus contributos na sua área de especialização e como autor de outros livros, Mais Rápido Que a Luz e O Grande Inquisidor. Sabia do seu nome através de algumas publicações americanas, mas nunca tinha lido nada dele até que este verão tropecei numa entrevista do Expresso sobre o livro aqui em questão, e ainda mais sobre a sua vivência na Grã-Bretanha. Desde há muito que não ria tanto a cada passo numa peça literária, autobiográfica neste caso, e suponho que algures entre a ficção e a realidade, a experiência vivida, profundamente conhecida, adornada com um sentido de humor esclarecedor como poucos escritores entre nós seriam capazes de conseguir. Alie-se o proverbial sarcasmo, veneno, lusitano à fleuma inglesa e temos uma prosa como esta. Não se trata de literatura de viagens, mas sim de um imigrante com estatuto muito especial, semelhante ao de outros que escreveram sobre um país onde viveram por algum tempo. Basta referir aqui que o autor menciona a sua primeira “inspiração” ou referência literária neste género, bem nossa: as Cartas da Inglaterra de Eça de Queirós, que, como tudo o que o autor de Os Maias escreveu, estão actualizadíssimas, pelo menos em sentimentos e sobre modos de ser do outro, o “testemunho” de quem tem a capacidade de estar no centro e nas margens de qualquer sociedade. A garra observadora de Magueijo é devastadora. Como qualquer bom escritor, a essência de tudo está nos pormenores, nas pequenas coisas para outros inesperadas, na destruição dos mitos que certos povos e culturas mantêm e despertam entre os que permanecem ao longe, mas não as ignoram. Depois de bater interminavelmente nos “bifes” (expressão depreciativa, entre outras, aplicada aos ingleses devido à sua mania pelo “rosbife”), partindo das mais variadas situações, desde um fim de semana a escalar montanhas ou a pretender a felicidade numa qualquer praia lamacenta do norte quando a maré baixa, às saídas num sábado à noite ou a vida social da academia que ele tão bem conhece (“a velhacaria do bife não tem limites”), Magueijo afirma não querer regressar a Portugal, muito obrigado, à terra dos “senhores doutores” sempre donos da verdade, e de costumes nada menos esquisitos e hipócritas do que estes revistos nas suas páginas.

“E talvez esteja aqui a razão por que acabei um rafeiro cultural, desvinculado de qualquer país, bem em todo o lado, mal em todo o lado, um cidadão do mundo apátrida culturalmente, no fundo entre duas culturas que não podiam ser mais diametralmente opostas. Acabei por assimilar este aspecto da cultura britânica, esta capacidade para se ser auto-depreciativo e tornar isso num gracejo, e pode ser por isso que me afeiçoei verdadeiramente a este país”.

Bem-vindo ao clube, meu caro autor, esse que inclui e sempre incluiu muita outra gente durante a nossa história, como atestam as inúmeras obras literárias dos estrangeirados, algumas delas das mais vivas da literatura na nossa língua. Bifes Mal Passados é muito mais do que uma diatribe de um outro a tentar sobreviver com dignidade numa sociedade que se pensa e sempre se pensou superior às outras, a nossa particularmente olhada por alguns deles como sendo nada mais do um protectorado que, de quando em quando no decorrer da História, os incomoda, mesmo que a paga posterior seja com juros muito acrescidos. Uma das técnicas mais bem convocadas para esta narrativa envolve a constante referência que o autor faz aos seus avós alentejanos, a sua geografia natal. O toque asperamente cómico com que olha e nos conta as suas andanças entre os ingleses – Magueijo separa aqui as outras nações do Reino Unido, que também conhece e visita, como dever profissional ou para prazer com uma ou outra namorada – é quase sempre comparado com os dizeres desses seus dois familiares, tanto pelas suas próprias excentricidades, ou as da sua cultura, como pelas suas “verdades” meio proverbiais. A avó de Magueijo está aqui constantemente presente como o contraponto à experiência directa e conhecimento in loco dos seus novos concidadãos – súbditos – ilhéus, a senhora que tinha absorvido os estereótipos habituais sobre aquela gente, o gentleman inglês que ela contrapõe aos nossos rudes usos e costumes. O efeito para o leitor é deveras genial, como que Magueijo a dizer, Avó tenho más notícias para ti, não são nada do que me dizias ou ensinavas em pequeno, não são nada disso, são muito piores, piores do que nós. Ver o autor a ir a uma “praia” nortenha, fria, quando a maré se retrai e deixa o lamaçal que passa para eles por ser “areia” leva o autor de imediato a ter saudades de, e a intitular esse capítulo “Louvor à Costa da Caparica”, reafirmando-a como lugar de luxo, que ele nos relembra ser sempre mal falada pelos lisboetas, mesmo pelos mais tesos. De resto, ele leva-nos a visitar um pouco de tudo – hábitos e costumes diversos dos bifes, desde a sua anti-higiene aos seus sábados à noite em que as cidades se tornam “vomitórios” como consequência da cerveja bebida aos litros nos famosos pubs, ao desporto e seus rituais de machistas e loucuras de toda espécie, aos seus preconceitos internos, que tratam tão bem os seus conterrâneos de outras regiões no seu país como nos tratam a nós, à vida académica nas mais prestigiadas universidades do mundo aonde pululam professores mal-cheirosos mas abertos e tolerantes, e especialmente à sociedade de classes mais rígida ainda, diz Magueijo, do que as “castas” indianas, em que o sotaque e linguarejar em geral não só identifica o estatuto de qualquer inglês como o coloca de imediato numa prateleira sócio-económica e cultural. “Que o bife – diz o autor sobre a suposta competência e seriedade do que dá pelo nome de The City, no coração de Londres – seja preguiçoso é um defeito de carácter, mas que a magia negra financeira continue a receber a bênção dos políticos é corrupção legalizada”. Não só é o absoluto contrário do que pensamos deles, como é de crer que ao escrever isto, e algo mais sobre o mesmo tema, João Magueijo estaria a pensar no que de nós disseram eles neste últimos anos de crise, no que ele provavelmente teve de ouvir quando o carrasco se arma em anjo.

Não dou aqui uma ideia sequer aproximada de como este livro constitui o que em inglês se chama comic relief/alívio cómico, página a página. Optei por realçar o que, para além do anedótico, a meu ver, é a sub-corrente séria de Bifes Mal Passados, o que também nunca deixa de ser revelador, tanto do que pensa o autor dos ingleses, como deixando-nos igualmente com um retrato seu (um retrato nosso?), no que na nossa mentalidade teremos de comum porque partilhamos o mesmo espaço e a mesma tradição, frente agora a um outro jogo de espelhos. Torna-se, assim, mais um livro sobre questões de identidade, a muito antiga obsessão lusa – saber o que pensam os outros de nós, e como nos vemos ante esses outros foi-nos desde quase sempre um subtema de muita literatura. Aliás, a nossa escrita do século XX, particularmente a da segunda metade, tem uma componente, como já referi anteriormente, construida por alguns dos mais reconhecidos nomes entre nós – desde Jorge de Sena e Onésimo Teotónio Almeida a Eduardo Lourenço e Eugénio Lisboa, com muitos outros poetas, ficcionistas e ensaístas pelo meio. Isto para já não falar de uma “literatura imigrante” em língua portuguesa e inglesa, que nos tem chegado da América do Norte nestes últimos anos.

Espero que os ingleses demonstrem, caso Bifes Mal Passados venha a ser traduzido, o seu conhecido humor e tolerância, e até vir a gostar e a rir com o livro, o seu humor auto-depreciativo em dia. Eles próprios já disseram pior de nós, e engolimos tudo com um sorriso autêntico, auto-reconhecedor, na cara. Foi exactamente o que aconteceu há uns bons anos quando J. Rentes de Carvalho publicou o seu Com os Holandeses, que João Magueijo também menciona neste seu livro. Dele os holandeses fizeram um campeão em vendas, e ainda hoje o autor reside feliz nessa outra sua pátria adoptiva.

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João Magueijo, Bifes Mal Passados (3ª edição), Lisboa, Gradiva, 2014.

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