Geração perdida, ou a América agora

Capa A Rainha da NeveMesmo nesta paisagem citadina de má qualidade… existe uma beleza fantasmagórica propiciada pela luz que antecede a aurora; uma sensação de esperança comprometida, mas ainda viva.

Michael Cunningham, A Rainha da Neve

/Vamberto Freitas

A determinada altura neste seu romance, A Rainha da Neve, Michael Cunningham, autor também de As Horas, que recebeu os prémios Pulitzer e PEN/Faulkner Award, faz o seu narrador desopilar um pouco, como que a encolher os ombros e a dizer para os seus botões, nem em desespero nem em exclamação alguma, recordando ele um passo que se viria a tornar num dos mais antológicos na literatura americana modernista dos anos 20, precisamente a frase genial e contundente com que F. Scott Fitzgerald encerra a sua obra prima, O Grande Gatsby: “Os barcos contra a corrente são levados imparavelmente em direcção ao passado. Vai-te lixar, F. Scott Fitzgerald”. Note-se que os itálicos aqui são meus, o narrador cita o original sem qualquer cerimónia, como que a apropriar-se também do que poeticamente vai na alma de cada um e de todos, e já se tornou parte da memória de uma cultura literária e filosófica. A verdade é que esta narrativa de Cunningham, na sua aparente serenidade e intelectualidade (recorda algumas obras de outros escritores, ou simplesmente menciona os seus nomes), pois o seu protagonista de nome Barrett Meeks (até este apelido pode ser interpretado simbolicamente, significando, mesmo no plural fora da gramática, sofredor, tolerante), doutorado em ciências exactas mas no desemprego habitual dos nossos dias, caracteriza-se sobretudo por uma voz mansa que esconde ou dilata a sua ferocidade. A ironia sábia – eis aqui uma representação sem gritos da condição de vida a que chegou toda uma geração. O cenário aqui é significativamente localizado em Bushwick, um dos conhecidos bairros de Brooklyn para onde desde há alguns anos — as ruas que ainda há pouco eram da classe trabalhadora e multi-étnica — se mudam escritores e artistas que não chegam aos preços de Manhattan, ali à vista e num constante desafio a uma mentalidade em seu redor também muito própria. Nem sequer a rebeldia intelectual nessa ilha em frente e privilegiada dispensaria esses fantasiosos luxos e respectivas grandezas de festas celebratórias do sucesso e da sonhada fama de cada um deles, a infantilidade desse sonho tão bem expressa na famosa canção-hino de Nova Iorque. Este é um romance de aceitação amena do destino (algo em si de profundamente não-americano), mas com a memória insinuada do que “poderia” ou “deveria” ter sido para alguns dos seus personagens, um dos mais consistentes postulados pós-modernistas, a acomodação ao “insucesso”, um castigo que se tenta dissimular de todas as maneiras, na linguagem e na postura só aparentemente tranquila, numa América, que teologicamente, ideologicamente, requer o contrário. A dissipação destes seres inteligentes em A Rainha da Neve ameaça a todos os momentos nas suas vidas marginalizadas, o álcool, as drogas pesadas, muito sexo ao acaso, e o suicídio outras possibilidades de saída da mágoa e dos objectivos de vida por concretizar. A noite aqui poderá ser estrelada, mas não é terna. F. Scott Fitzgerald, repita-se, sabia-o, representou-a, e acabaria por pagar o preço de modo directo e pessoal.

O romance abre com a morte lenta de Beth, numa noite de nevão e da frieza interior que a todos ameaça, a companheira de Tyler, o outro personagem-protagonista, barman e músico falhado aos quarenta poucos anos de idade, sempre em busca do sucesso que lhe escapa. Vemo-lo obsessivamente a tentar escrever uma canção para celebrar a vida e morte da sua amada, vemo-lo consciente da sua própria mediocridade que aos poucos vai sendo aceite por ele próprio. O seu amor parece sincero, os cuidados que dispensa à companheira como que uma compensação para todos os seus vazios, inclusive a morte da mãe, revisitada com certo humor redentivo quando se lembram, ele o irmão, que ela seria atingida por raio enquanto jogava golfe com uma amiga, enquanto batia numa bola para despachar o seu voo. O vazio interior não é só deles, ameaça todos os outros nas suas vidas, cada um disfarçando-o à sua maneira, cada um vivendo a solidão imensamente povoada por uma grande e indiferente metrópole. As vidas nesta nesta nova América estão reduzidas à mera sobrevivência – o desejo de um apartamento um pouco menos velho e decadente do que o que ocupam no momento, uma noite de sexo, a sensação permitida pelo álcool ou pela cocaína, uma viagem humilde ao outro lado do continente, a Califórnia representando a fantasia de liberdade fátua, mar e sol. Tenha-se em conta o tempo ficcional da narrativa, que vai de 2004 a 2008, o referente real e psicológico de um país agora de alicerces estremecidos devido à sua política interna e sobretudo externa. Do pouco que estes seres reinventados saem de si próprios, é quase sempre, no caso de Barrett e Tyler, para comentar com brevidade a era de George W. Bush, a economia destroçada pelos interesses financeiros do costume, a intervenção militar no exterior considerada uma campanha militar raivosa, que resulta na morte de milhares de inocentes, liderada por um ignorante que não sabia, afirmam os dois, que África não é um país. Nenhum dos irmãos, ambos ultra-liberais à americana, acredita na eleição de Barack Obama, e de passagem temem vir a ser governados por duas figuras ainda mais repelentes para eles – o falcão John MacCain e a quase demente Sarah Palin, do Alaska congelado.

Desde há algum tempo que não lia uma ficção tão bem estruturada e marcada por uma linguagem simultaneamente despretensiosa, limpa, e tão significante, sem diatribes retóricas ou auto-satisfação em qualquer abuso metafórico e imagístico, mas olhando de frente a sorte dos que se amam, na cama ou na simples amizade ou sentido de solidariedade, colocando o seu autor ao lado de todo um grupo de escritores que a partir dos anos 70 até hoje renovaram e reinventaram o melhor da literatura contemporânea do seu país. A completar este círculo de gente à deriva numa sociedade gigantesca e que deixa a cada um a responsabilidade de encontrar o seu lugar e a sua felicidade (fazendo-me lembrar um Raymond Carver, se este tivesse sido mais expansivo na sua prosa), está Liz, amiga de todos, amante tanto de Tyler, mesmo enquanto a sua companheira definhava corroída por um cancro, como de um jovem ignorante e na mesma medida hedonista, oferecendo um único prazer a Liz com a sua virilidade. A alienação nunca leva a actos desesperados (a vontade de suicídio de Tyler após a morte da sua companheira fica apenas pela insinuação dessa real possibilidade), está disfarçada nestes afazeres e pequenos prazeres quotidianos, no humor por vezes cáustico entre os mais inteligentes, sem a mínima fé em qualquer futuro por parte de quase todos. A luz misteriosa que Barrett “vê” no início da narrativa enquanto se passeia no Central Park, e que guia toda a narrativa nas suas dúvidas, momentos sombrios ou como um sinal místico de certa esperança, não voltará, e nada mudou nestas vidas aqui representadas, que mais parecem andar num carrossel de risos e medos.

“O Céu – resume o narrador a vida de Barrett Meeks, a sua descrença, a sua esperança – piscou-te o olho, não foi? Talvez. Talvez o tenha feito. Ou talvez fosse apenas um avião ou uma nuvem. Mas, se o Céu pisca o olho a qualquer pessoa, é provavelmente aos menos evidentes, aos que procuram entre trapos e farrapos do lixo, àqueles que optam pela vereda em vez da avenida, o buraco na sebe em vez dos portões triunfais. Talvez por isso não existam provas verificáveis, não é? O universo só pisca o olho àqueles em que ninguém irá acreditar”.

A Rainha da Neve contém uma cena de todo simbólica, e que poderá sugerir a alguns leitores um dos principais temas subjacentes à narrativa. Beth recupera por uns meses com a remissão do seu cancro, vive mais um Natal na companhia de quem a ama, mas pressente que estará pouco tempo entre eles. A luz do Céu, se piscou, não trouxe qualquer mensagem de vida. Quando o seu amante Tyler, o seu grande amigo Barrett, também que poderia ter sido seu cunhado legítimo e seu amante noutra dimensão, e a sua amiga Liz fazem voar as cinzas de Beth perto da Estátua da Liberdade, elas desaparecem no ar, caem ao rio. Não é a senhora mítica com os seus barços abertos virada para o mundo que triunfa ou significa mais, no que foi a sua vida, e a vida agora dos sobreviventes. Cai nas águas, geladas ou não, vão misturar-se eventualmente na frieza do Nada, no branco da neve que volta sempre, e que só simboliza o vazio e a própria morte. O ciclo de vida fica completo, e pelo meio a dignidade de se permanecer consciente na luta rumo a qualquer destino, mesmo que seja este e só este.

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Michael Cunningham, A Rainha da Neve, Lisboa, Gradiva, 2014.

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